Já aqui escrevi no blogue "um pouco impossível" algumas palavras sobre a pandemia que, desde há mais de um ano, nos afecta.
Mas nenhuma delas a propósito do "Decameron" de Giovanni Boccaccio.
Ora, aquela que é, na minha opinião, uma das obras-primas da literatura feita na Europa no período medieval é uma espécie de colecção de contos sobre a fuga de habitantes de Florença em direcção ao ‘campo’ durante a chamada "Peste Negra" (que, recordo, terá dizimado mais de quarenta por cento da população que vivia na Europa em meados do século XIV).
Eis um excerto:
"Passava já o ano 1348 […] e a cidade de Florença, nobre entre as de maior fama na Itália, foi presa de uma mortal epidemia. […] a verdade é que a peste se declarara anos antes no Oriente, onde vitimara incontáveis vidas. Prosseguindo imparável a sua marcha, propagou-se, para mal nosso, ao Ocidente. Nenhuma medida sanitária resultou. […] A calamidade incutira tanto terror entre os homens e as mulheres, que irmão abandonava o irmão, tio desprezava o sobrinho, irmã esquecia o irmão e bastas vezes o mesmo acontecia até em relação a mulher e marido. E – o que é pior e quase inaceitável – pais e mães evitavam visitar e dar auxílio aos filhos, tal como se eles lhes não pertencessem já".



