27/02/2019

Dois homens do mundo

 Ibn Battuta nasceu em Marrocos em Fevereiro de 1304.


António Vieira, ao invés, nasceu noutro local – em Portugal – e noutra data – em Fevereiro de 1608.


Assim, ambos nasceram com um 'intervalo' de pouco mais de três séculos.


O primeiro abandonou o lar natal ainda jovem para iniciar uma jornada que, durante cerca de trinta anos, o levou a visitar muitas terras (sobretudo de fé muçulmana) e, depois, a falar sobre essas vivências.


O outro teve um percurso de vida diferente: como se refere numa estátua erigida, em Lisboa, em sua memória, foi "jesuíta, pregador, sacerdote, político, diplomata, defensor dos índios e dos direitos humanos, lutador contra a Inquisição".

De facto, assinalaram-se já os quatrocentos e onze anos do nascimento do padre António Vieira.

Como refere um dos "Cadernos de Literatura":


"Em 1614, parte com os pais para o Brasil, fixando-se na Baía. Ingressa na Companhia de Jesus, em 1623. Em 1641, integra a embaixada de regozijo pela aclamação de D. João IV; granjeia grande prestígio como orador, em Lisboa. Nomeado para várias missões diplomáticas, convence as comunidades dos judeus residentes no estrangeiro a investirem capitais na criação da Companhia para o Comércio para o Brasil, a troco da isenção do confisco inquisitorial. Em 1652, regressa às missões do Maranhão. Prega o Sermão de Santo António, em 1654. Volta a Lisboa, onde prega o Sermão da Sexagésima, em 1655. Regressa ao Brasil, munido da lei que beneficiava a influência dos Jesuítas sobre os índios, mas uma revolta dos "moradores" do Maranhão contra os Jesuítas obriga-o a partir de novo para Lisboa em 1661. Alvo de várias perseguições durante o governo de Castelo-Melhor, é desterrado no Porto e, em 1667, é condenado pelo Tribunal do Santo Ofício ao internamento numa casa jesuíta, "privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar". No ano seguinte, na sequência da deposição de D. Afonso VI e da expulsão de Castelo-Melhor, é amnistiado e, em 1669, parte para Roma, onde obtém grande sucesso como orador. Aí combate o Tribunal do Santo Ofício, defende os cristãos-novos e luta a favor das missões no Brasil. Em 1674, a Cúria romana determina a suspensão dos autos-de-fé em Portugal, que dura até 1681. Por ordem de D. Pedro, o príncipe-regente, volta a Lisboa, em 1675. Sai o 1.º volume dos Sermões, em 1679. Tendo perdido parte das questões por que lutara em Roma, regressa definitivamente ao Brasil, em 1681. Na Baía, reescreve e organiza a edição completa dos seus sermões, servindo-se de confusos apontamentos que tinha. Morre com 89 anos, depois de rever o 13.º volume dos Sermões. Obras principais: Sermões, 15 vols. (1679-1748); História do Futuro (1718); Cartas, 3 vols. (1735 e 1746)".

Ora, seguramente que António Vieira conseguiu, com este ‘percurso’, honrar o lema dos católicos Jesuítas – "Ad Majorem Dei gloriam" ("Para Maior glória de Deus", em português).


No entanto, também o muçulmano terá conseguido glorificar o seu Deus.

Ora, creio que o mundo, tantos anos depois da presença terrestre destes dois homens, muito beneficiaria se muitos dos seus líderes (na política, na finança ou na diplomacia, por exemplo) tivessem uma fracção do seu espírito livre e humanista.

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