15/02/2019

O Panóptico


Apesar de ter tido em Portugal um enorme sucesso com as vendas do seu "Traités de législation civile et pénale" (publicado no início do século XIX), o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham foi responsável pela publicação de uma vasta obra.

"A Fragment on Government", por exemplo.

Ora, esboçou neste título o "lema do Bom Cidadão": "To obey punctually, to censure freely" (ou, em português, "Obedecer primeiro, criticar depois").

Anos antes, tinha já 'aparecido' o Panóptico. Palavra "inspirada" no vocábulo grego "panoptes" (que significa "tudo ver") e, claro, na personagem mitológica Argos Panoptes, gigante com o corpo coberto de olhos.

Citando um documento elaborado pela professora Olga Pombo (da Universidade de Lisboa):




"O Panóptico era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel dividia-se em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia, segundo o objectivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco tentando corrigir a sua loucura, etc. Na torre havia um vigilante. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nenhum ponto de sombra e, por conseguinte, tudo o que o indivíduo fazia estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de persianas, de postigos semi-cerrados de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo.
O panoptismo corresponde à observação total, é a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo. Ele é vigiado durante todo o tempo, sem que veja o seu observador, nem que saiba em que momento está a ser vigiado. Aí está a finalidade do Panóptico".




Mas, se os mecanismos de controlo social levados 'ao extremo' já se encontravam no Panóptico, formulado antes sequer do ano 1800, será que a narrativa de "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" (escrito em 1949 pelo também inglês George Orwell/Eric Arthur Blair) foi assim tão inovadora?

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