10/04/2019

Fernão de Magalhães e reescrever a História

Ao saber, há poucos dias, que as autoridades portuguesas e as espanholas haviam apresentado o programa para celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação ao planeta Terra (de que fazia parte uma viagem idêntica feita pelos navios-escola Sagres, português, e Elcano, espanhol) quase que se poderia não lembrar a polémica desencadeada em torno da viagem de Fernão de Magalhães.

Polémica porque as autoridades espanholas decidiram ignorar o contributo do navegador português na realização de tal empreendimento e, pelo contrário, enaltecer e “aumentar” a participação de um navegador espanhol: creio, de facto, que foi uma espécie de nacionalismo (xenófobo, claro) que levou a que as autoridades espanholas tenham decidido subvalorizar o papel de Magalhães na idealização, na preparação e na realização – em parte – da primeira circum-navegação feita ao globo terrestre – que, recordo, decorreu de 1519 a 1522 – preferindo “destacar” o papel do navegador espanhol Juan Sebastián Elcano…

Porque, na verdade, as palavras que melhor descrevem, em minha opinião, o contexto político, económico e cultural que envolveu a preparação desta viagem foram escritas pelo historiador português José Manuel Garcia: “A economia e a política espanholas proporcionaram a viagem mas com ciência portuguesa”.

Ou seja, Magalhães, desgostoso com o monarca português da época, D. Manuel I, propôs à Coroa espanhola de Carlos I efectuar tal viagem. Este aceitou e deu ao navegador português todo o apoio logístico e económico necessário. A morte do português, ocorrida durante a viagem, permitiu ao navegador espanhol Elcano completá-la.

Mas se repudio, de facto, as atitudes espanholas, também não subscrevo algumas posições defendidas por portugueses: por exemplo, o professor Joaquim Veríssimo Serrão escreveu, na sua “História de Portugal” (volume III…) que “Mas a viagem de Magalhães acabou por oferecer à Espanha um triunfo histórico que só a Portugal devia em justiça ter cabido.”.

Concluo declarando que fico, enfim, satisfeito por uma parte da História do mundo não ter sido, como alguns (muitos?) desejavam, revista nem alterada e só espero, sinceramente, que tais tentativas de o fazer não venham a ‘beliscar’ a candidatura à UNESCO da Rota de Magalhães.

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