04/07/2019

Os Estados Unidos da América

Os Estados Unidos da América celebram, hoje, o 243.º aniversário da sua formação como país soberano e independente.

Soberania e independência que têm sido definidas – e ‘alimentadas’ –, sobretudo, pelo poder da geopolítica.

Por exemplo, uma investigadora do Observatório Político declarou, numa entrevista televisiva, que "a Rússia é a única potência mundial que tem, verdadeiramente, algum interesse geoestratégico e político na Síria. Os Estados Unidos não têm".

Ora, apesar de eu não ser um especialista nestas matérias, discordei imediatamente do que tinha acabado de ouvir: sendo os Estados Unidos da América a única actual grande potência política e militar à escala planetária não é simplesmente possível que não tenha uma "orientação" estratégica numa zona do globo que, historicamente, tem sido palco de conflitos e disputas também pelo controlo dos recursos energéticos. E, ainda mais, porque é, precisamente, nessa região que se situa, por assim dizer, um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América e um dos que recebe, anualmente, mais fundos e material militar, sobretudo (e que até tem disputas territoriais com a Síria): Israel.


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O artigo "Will we have a 2nd Civil War? You tell me." que a revista norte-americana Foreign Policy publicou, "online", em Março de 2017 foi escrito tendo por base a questão "Quais serão as probabilidades de uma guerra civil eclodir neste país [Estados Unidos da América] nos próximos 10 a 15 anos?" e algumas das suas hipóteses de resposta.

O seu autor perguntou, assim, a um grupo constituído por pensadores da segurança nacional quais seriam as suas.

O consenso, sublinhou, ‘andaria’ por volta dos 35%.

E solicitou, ainda, a colaboração dos leitores.

Ora, perguntando-me, desde logo, se uma das pessoas que ajudou a fundar a Foreign Policy – Samuel P. Huntington (autor, por exemplo, de "O choque das civilizações") –, subscreveria as acusações, entretanto surgidas, do carácter pouco científico de tal inquérito, quero dizer que faz, para mim, todo o sentido que se coloque a hipótese de, em pleno século XXI, os Estados Unidos da América serem ‘palco’ de uma guerra civil.

Quando disse "faz todo o sentido" estava, também, a lembrar-me do que se passou nesse mesmo ano em Charlottesville (estado da Virgínia): a violência que surgiu quando grupos apoiantes do racismo, da intolerância e do ódio (neonazis, "skinheads" e membros do grupo Ku Klux Klan) se manifestaram... 

Mas não só. 

O também norte-americano Public Religion Research Institute publicou, depois do artigo que citei, um estudo – "America’s Changing Religious Identity" – que concluiu o seguinte: "Actualmente, apenas 43% dos norte-americanos afirmam ser brancos e cristãos e, desses, apenas 30% dizem ser protestantes. Em 1976, cerca de 8 em cada 10 norte-americanos (81%) assumiam ser brancos e cristãos sendo que, desses, mais de metade (55%) era protestante".
Não é, certamente, por acaso que o segundo idioma mais utilizado em quase todos os estados da América do Norte é o espanhol (castelhano…)*.
Ou seja, os ‘famosos’ WASP’s ("White Anglo-Saxon Protestant") – os cidadãos brancos, de origem anglo-saxónica e praticantes da religião protestante – estão em declínio.
Ora, talvez este declínio ajude a explicar a animosidade ‘racial’ que hoje se vive nos Estados Unidos da América e a hipótese de o país vir a sofrer uma segunda guerra civil...

*Assim, no estado North Dakota a segunda língua mais falada é a alemã, no Louisiana é a francesa, no Maine, no New Hampshire e no Vermont é, também, a francesa, no Hawai são o Ilocano, o Tagalog e o japonês e no Alaska é o Yup’ik.
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Talvez influenciados por estarem a brindar com vinho da Madeira, o lema adoptado pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América foi "E Pluribus Unum" (ou, em português, "Entre Muitos, Um") – à semelhança do escolhido, em Portugal, pelo clube Sport Lisboa e Benfica mais de uma centena de anos mais tarde – para aludir à ‘herança’ cultural e étnica do país e a uma tolerância que, de resto, em muito poucas ocasiões se verificaria.

Ora, em meados da década de 1950, os Estados Unidos – então em confronto ideológico (e não só) com a Comunista União Soviética – decidiram, num gesto desafiador, inscrever o lema "In God We Trust" ("Confiamos Em Deus", em português) nalgumas notas e moedas em circulação corrente: perante um país com um regime político comunista (e claro, anticapitalista) e ateu, o que poderia ser melhor do que exaltar uma entidade divina no sistema monetário, fulcro do Capitalismo?

Mas, embora a União Soviética possa ter já desaparecido, tal lema tem-se mantido e irá continuar a existir: o Supremo Tribunal norte-americano anunciou já, em Junho de 2019, que considerava improcedente uma queixa apresentada que pretendia a retirada pura e simples do referido "In God We Trust" por, argumentou-se, chocar contra os direitos religiosos de quem se identificava como ateu.


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O lema que o estado norte-americano New Hampshire decidiu adoptar em 1945 (e que ainda hoje mantém) foi "Live Free or Die" (ou, em língua portuguesa, "Vive Livre ou Morre").

Ora, terá também sido de forma livre que uma reunião camarária realizada em 1824 numa determinada localidade daquele que é um dos cinquenta estados dos Estados Unidos da América decidiu atribuir a si própria o nome Lisbon em homenagem à cidade que é a capital de Portugal.

Tal como tinha sido, certamente, em liberdade que New Hampshire havia declarado a sua independência face à Inglaterra. Tanta liberdade que havia mesmo sido a primeira colónia inglesa na América do Norte a fazê-lo.

Foram, no entanto, alguns anos antes de tal adopção e alguns anos depois de tal declaração de independência e da mudança de nome que o presidente do país Thomas Woodrow Wilson (eleito pelo Partido Democrata) havia escrito as seguintes palavras no seu livro "The New Freedom" (publicado em 1913, já depois de se ter tornado no 28.º presidente dos Estados Unidos da América):


"Tornámo-nos num dos governos pior governados e completamente dominados e controlados do mundo civilizado. Não mais um governo baseado na livre opinião, em convicções e no voto da maioria dos cidadãos mas, na verdade, um governo formado pelas opiniões de pequenos grupos de homens e por eles condicionado".


Wilson tinha nascido no estado da Virginia (em 1856) e o lema deste é actualmente "Sic Semper Tyrannis" ("Assim Sempre aos Tiranos", em português).



Post scriptum: Os Estados Unidos da América declararam, efectivamente, a independência no dia 2 de Julho de 1776. Mas o texto da Declaração apenas acabaria por ser aprovado dois dias depois – isto é, no dia 4 de Julho. No entanto, a sua ratificação (e, portanto, o reconhecimento oficial) somente foi autenticada no dia 2 de Agosto.





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