24/02/2020

"A Minha Honra é a Lealdade"

Nunca Portugal teve, ao longo dos seus quase nove séculos de História, um só povo e um só líder embora tivesse conseguido formar – e manter – um império.

Ao contrário da Alemanha nacional-socialista: durante os seus doze anos de ‘vigência’ (de 1933 a 1945), o seu lema foi "Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer" ("Um Povo, Um Império, Um Líder", em português).

Ora, em determinado momento da sua governação, a taxa de aprovação/satisfação pelos eleitores alemães chegou a ser extremamente elevada.

É claro que a melhoria da capacidade económica e da ‘desenvoltura’ social da generalidade da sociedade alemã influenciou grandemente uma vastíssima percentagem do povo germânico a aprovar o seu líder mas talvez tão (ou mesmo mais) importante do que a dita elevação económica e social da Alemanha tenha sido o facto de Adolf Hitler – e seus algozes – terem ‘dito’ a cada um desses alemães que pertencia a uma suposta raça superior.

Efectivamente, Hitler e o nacional-socialismo mais não fizeram do que dizer (porque talvez não existam grandes dúvidas de que o ‘sentimento’ de suposta superioridade étnica e racial já existia) aquilo que a maior parte dos alemães queria ouvir: que eram "grandes" e "importantes".

O que depois se veio a passar já todos (feliz e infelizmente) conhecemos.

De facto, foi esse mesmo discurso que foi cativando a força militar que começou por constituir a guarda pessoal de Adolf Hitler mas que se tornou num dos principais ‘braços’ do regime nacional-socialista e da sua brutalidade: a Schutzstaffeln (ou SS).

Que tinha como lema "Meine Ehre heißt Treue" ("A Minha Honra é a Lealdade", em português).

O seu dirigente máximo desde o início de 1929, o Reichsführer – SS Heinrich Himmler, empenhou-se em radicalizar a organização pelo que esta cometeu as maiores atrocidades a coberto da guerra (a II Guerra Mundial).

Na verdade, tal envolvimento poderá ser facilmente compreendido se se lerem as palavras de um discurso que Himmler pronunciou no dia 4 de Outubro de 1943 em Poznan, na Polónia, perante algumas centenas de oficiais da dita SS.

Através desse discurso procurou lembrar à sua audiência a lealdade que esperava no extermínio dos Judeus (o Holocausto) que estava a ser levado a efeito pelo regime alemão.

Assim, afirmou, por exemplo, o seguinte: "A maioria de vós sabe o que é estar junto a 100, a 500 ou mesmo a 1000 corpos. Ora, sabê-lo e ter conseguido permanecer decentes tornou-nos duros".

Precisamente, também o filósofo Claude Polin, no seu "O totalitarismo", reflectiu sobre esta questão da punição pela guerra: "Em todas as guerras existe um inimigo, mas que só o é condicionalmente, e a prova disso é que apenas se pretende que ele desista da luta. Se pretendermos tornar a luta em algo de absoluto, é preciso que o inimigo também o seja".

Ou seja, o Outro e quem será o Outro, já agora? – é, não raras vezes, "um inimigo que não sabe que o é, mas que continua a ser um inimigo sem o saber e sem querer, faça o que fizer".

Himmler, no entanto, é que parece não ter sido honrado, nem leal, quando, pressentindo o fim da guerra (e a derrota alemã), se apressou a tentar encetar negociações com os Aliados ‘ocidentais’ sem o conhecimento de Hitler.

Ao contrário do que se passou com o português Aristides de Sousa Mendes: o cônsul de Portugal em Bordéus optou por ser leal a si próprio pelo que, depois de ter salvo do Holocausto nazi milhares de pessoas, regressou a Portugal pagando com a aposentação compulsiva a sua insubordinação à neutralidade do Estado.

E ao contrário do cidadão português que foi morto a tiro na cidade de Paris em 1944 às mãos de soldados alemães…

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