19/02/2019

Quem não é racista?

Uma publicação de Angola acusou, há dias, o poeta português Fernando Pessoa de ter tido um pensamento racista impossibilitando, por isso mesmo, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (a CPLP) de organizar um determinado projecto.

Ora, lembro-me de ter lido, não há muito tempo, que uma estátua de Mahatma Gandhi havia sido retirada do local onde se situava - junto a uma Universidade no Gana - precisamente porque, enquanto advogado a exercer (e a viver) na África do Sul, utilizou uma linguagem insultuosa para com os negros - kaffir (tendo, até, referido que os indianos eram infinitamente 'superiores' aos ditos "kaffir"...).

Dada a 'transversalidade', étnica e cultural, do racismo, opto por reproduzir integralmente um pequeno texto que, sobre tal 'fenómeno', escrevi há não muitos anos:

 
"A sala Luís Miguel Cintra do São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, estreou ontem, 5 de Outubro, a peça “Os Negros” (do dramaturgo francês Jean Genet).
Lembrei-me, a propósito desta exibição teatral, da emissão do programa televisivo Prós e Contras que o canal 1 da estação RTP transmitiu em meados de Julho passado já que nele se pretendeu dar uma resposta à pergunta «Portugal é um país racista?».
Relembro, por isso, as palavras iniciais da apresentadora do programa: «O conceito de racismo tem um largo trajecto histórico desde o primeiro contacto das raças até aos nossos dias. Se, no início, a própria ciência contribuiu para a base e elaboração, hoje, o conceito de racismo sustenta-se, cada vez mais, na ideia de diferença e incompatibilidade de culturas. Por outro lado, os níveis de racismo podem ser vários, dependendo de diversos factores (entre eles, os quadros legislativos de cada nação). Mais frequente é a discriminação racial ou de outra índole. (…). Será o Portugal de hoje, no século XXI, multicultural e – na frase do maior patologista do mundo, Manuel Sobrinho Simões, «descendente de uma notável mistura de genes» numa alusão clara aos caminhos que a nossa história percorreu, será que Portugal é, hoje, um país racista?».
Compreendo que se diga que «hoje, o conceito de racismo sustenta-se, cada vez mais, na ideia de diferença e incompatibilidade de culturas».
Compreendo mas não concordo.
Penso que o que motiva o racismo é a aparência física do ‘Outro’.
Ou, como dizem os antropólogos, o fenótipo.
A cor da pele.
Digo assim: o sentimento ‘clássico’ racismo baseia-se, sobretudo, na aparência física (na cor da pele) do outro indivíduo (seja ele quem for) e só depois na tal diferença cultural.
E, como não concordo com a bondade das generalizações, tenho muitíssimas dificuldades em aceitar a validade científica da pergunta «Portugal é um país racista?»: Portugal é, sim, um país onde vivem pessoas que acreditam nas virtudes do racismo.
Como, de resto, muitas pessoas originárias de países da América, de África [em que Angola se inclui], da Europa, da Ásia e da Oceânia...".

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