24/01/2020

Clenardo, a Flandres e Portugal

Nascido na Flandres em 1493, Nicolas Cleynaerts (ou Nicolau Clenardo, na sua versão latina) tornar-se-ia num humanista e num pedagogo.



Em suma, um homem do Renascimento.


Ora, foi precisamente nesta condição que foi escolhido para perceptor do Cardeal D. Henrique (tio-avô do rei D. Sebastião).


Mas foi também nesta condição que escreveu algumas missivas.


De facto, uma delas foi a "Carta a Látomo".




"Em Lisboa, a Rua Nova dos Mercadores constitui um quadro vivo da Lisboa manuelina, com os comerciantes de ouro de Sofala, (…) de sedas de Cochim, (…) do gengibre e da pimenta de Malaca, da canela de Ceilão, do marfim da Guiné, (…) das madeiras do Brasil (…). Especulavam nela os oportunistas do negócio de Castela, os mercadores genoveses, biscainhos, sevilhanos, ingleses, flamengos, árabes, que inundavam de produtos europeus o mercado lisboeta e procuravam nele as especiarias raras para derramar por esse mundo de Cristo. A Rua Nova dava a impressão não só de Lisboa, mas da opulência do País inteiro. Não há terra onde as coisas sejam tão caras. Se algures a agricultura foi tida em desprezo é em Portugal. Se há algum povo dado à preguiça sem ser o português, então não sei onde ele exista. Se uma grande quantidade de estrangeiros não exercessem cá as artes mecânicas, creio bem que mal teríamos sapateiros ou barbeiros".




Embora afastado da terra onde havia nascido, talvez Cleynaerts nunca se tenha conseguido também afastar das palavras (e do espírito) do lema que, anos depois, seria assumido pela Flandres: "Wat we zelf doen, doen we beter" ("Fazemos melhor aquilo que nós próprios fazemos", em português).

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