Nascido na Flandres em 1493, Nicolas Cleynaerts (ou Nicolau Clenardo, na sua versão latina) tornar-se-ia num humanista e num pedagogo.
Em
suma, um homem do Renascimento.
Ora,
foi precisamente nesta condição que foi escolhido para perceptor do
Cardeal D. Henrique (tio-avô do rei D. Sebastião).
Mas
foi também nesta condição que escreveu algumas missivas.
De
facto, uma delas foi a "Carta a Látomo".
"Em
Lisboa, a Rua Nova dos Mercadores constitui um quadro vivo da Lisboa
manuelina, com os comerciantes
de ouro de Sofala, (…) de sedas de Cochim, (…) do gengibre e da
pimenta de Malaca, da canela de Ceilão, do marfim da Guiné, (…)
das madeiras do Brasil (…).
Especulavam nela os oportunistas do negócio de Castela, os
mercadores genoveses, biscainhos, sevilhanos, ingleses, flamengos,
árabes, que inundavam de produtos europeus o mercado lisboeta e
procuravam nele
as especiarias raras para
derramar por esse mundo de Cristo. A Rua Nova dava a impressão não
só de Lisboa, mas da opulência do País inteiro. Não
há terra onde as coisas sejam tão caras.
Se algures a agricultura foi
tida em desprezo é em Portugal. Se há algum povo dado à preguiça
sem ser o português, então não sei onde ele exista. Se
uma grande quantidade de estrangeiros não exercessem cá as artes
mecânicas, creio bem que mal teríamos sapateiros ou barbeiros".
Embora
afastado da terra onde havia nascido, talvez Cleynaerts
nunca se tenha conseguido
também afastar das palavras (e do espírito) do lema que, anos
depois, seria assumido pela Flandres: "Wat
we zelf doen, doen we beter"
("Fazemos
melhor aquilo que nós próprios fazemos",
em português).
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