30/03/2019

"Muita cobiça e pouca justiça"

"conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria, dá claramente a entender que deve haver entre eles muita cobiça e pouca justiça".


Fonte: "Peregrinação", capítulo 122.



A Peregrinação, notável trabalho de Fernão Mendes Pinto, foi primeiramente publicada em 1614.



29/03/2019

O "Brexit" e a falta de visão

Declarou, há dias, no seu programa televisivo "GPS" (transmitido pela 'cadeia' CNN), o escritor e jornalista norte-americano (de ascendência indiana) Fareed Zakaria, o seguinte:


"O Brexit [a saída, por assim dizer, do Reino Unido da União Europeia] ditará o fim do país como uma grande potência. E pergunto a mim mesmo também se o seu fim não significará igualmente o princípio do fim do próprio 'Ocidente' como entidade política e estratégica.".


Ora, creio que a esmagadora maioria dos 'actores' políticos actuais - no Reino Unido e não só - não conseguiria responder assertivamente a estas inquietações já que não me parece de todo que se tenham apercebido de que o que poderá estar em causa com o "Brexit" é a própria 'manutenção' de um certo tipo de ordenamento geopolítico que governou o mundo nos últimos séculos.

E é esta 'falta de visão' o único motivo para a minha apreensão.

28/03/2019

O Museu da Literatura Portuguesa

Uma proposta oriunda de um partido político há dias apresentada numa reunião da autarquia portuense recomendou ao executivo da cidade a compra da casa onde há 220 anos nasceu o escritor e político João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett com o intuito de a transformar num pólo museológico.

Relembro que tal casa se localiza actualmente na rua Dr. Barbosa de Castro.

De facto, não creio que também a casa onde, em Setúbal, nasceu Manuel Maria Barbosa du Bocage - outra incontornável figura do 'universo' literário português - seja um pólo museológico (ou que tivesse sequer sido alguma vez apresentada a proposta de o ser): existe um "Museu Bocage", sim, mas nada mais é do que uma secção (de zoologia e de antropologia, por sinal) do Museu Nacional de História Natural em homenagem a um zoólogo (José Vicente Barbosa du Bocage)...

Ora, penso que seria igualmente um excelente modo para homenagear Almeida Garrett e Bocage - para além de muitas outras personalidades (e o seu trabalho, claro) - a construção de um Museu da Literatura Portuguesa.

27/03/2019

Recuar no tempo

Zaya S. Younan, empresário norte-americano (de ascendência iraniana) dono de uma 'cadeia' hoteleira, afirmou, há alguns anos, que "todos merecem, pelo menos uma vez, ficar alojados num castelo, recuar no tempo e viver como a realeza".

Autopromoção, portanto.

Seja como for - e não tendo eu a mínima pretensão de falar por todos -, limito-me a dizer, escrevendo, que estou constantemente a, apenas e só, "recuar no tempo"...

26/03/2019

Jack, o Estripador

A partir de fragmentos de ADN (ácido desoxirribonucleico) e de estudos genéticos, cientistas britânicos pensam ter conseguido desvendar um mistério com mais de cem anos: quem era Jack, o Estripador.

Ora, o famoso assassino 'em série' do bairro londrino de Whitechapel seria, assim, Aaron Kosminski, emigrante polaco (barbeiro de profissão) com pouco mais de 20 anos de idade à data dos factos.

No entanto, estes resultados - recentemente publicados no "Journal of Forensic Sciences" - nada mais são do que prováveis pois algumas pistas obtidas através da Genética já não permitem ensaiar conclusões definitivas, passe a redundância.

Mas, de facto, mais de um século passado sobre os crimes em causa, que "força" terá a descoberta da verdadeira identidade de um indivíduo para alterar uma determinada interpretação da História e, até, para condicionar aquela que o será?


25/03/2019

Difícil e lenta

Pela segunda vez no espaço temporal de cinco anos a redução dos preços do petróleo nos mercados financeiros internacionais 'sugeriu' aos produtores membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (a OPEP) a conclusão de que seria necessário baixar a quantidade disponível de "ouro negro" nesses mesmos mercados mundiais para garantir uma espécie de estabilização dos preços em questão.

Resultado: menos 1,2 milhões de barris de petróleo para o mundo, por assim dizer, consumir todos os dias.

Para além daqueles que também foram, entretanto, 'cortados' por países não-membros da OPEP (como a Rússia, por exemplo).

De qualquer modo, segundo dados disponibilizados pela agência norte-americana de Administração de Informação de Energia, a China tornou-se, em 2017, o maior importador mundial de petróleo com 8,4 milhões de barris diários 'ultrapassando' os Estados Unidos da América que, nesse ano, consumiram, todos os dias, 7,9 milhões de barris de petróleo.

Ou seja, apenas dois países importaram (ou melhor, consumiram), num ano, mais de 16 milhões de barris de petróleo diariamente.

Ora, se se pensar que a capacidade de um barril é de cerca de cento e cinquenta litros, 16 milhões de barris correspondem a 2400 milhões de litros de petróleo gastos a cada dia por estes dois países.

Mas há mais países...

Tais dados permitirão, assim, creio, ensaiar duas conclusões imediatas: a primeira é a de que quaisquer mudanças de hábitos de consumo e, enfim, de vida dos seres humanos, serão sempre extremamente difíceis de introduzir e a segunda é a de que esta introdução será sempre muito lenta.

Infelizmente.



***



Há precisamente vinte anos – em 24 de Março de 1999 –, aviões pertencentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (a OTAN, em língua portuguesa, e a NATO, em língua inglesa) começaram a bombardear a capital da Sérvia, Belgrado, argumentando com a situação então vivida pelo Kosovo. Em consequência, terão morrido duas mil e quinhentas pessoas.
 

23/03/2019

O Iluminismo

Não foi há muito tempo que aqui evoquei um 'episódio' a propósito da Enciclopédia (primeiramente publicada em 1751).

Ora, o filósofo francês Denis Diderot escreveu, precisamente na Enciclopédia, o seguinte:


" Nenhum homem recebeu da Natureza o direito de dirigir os outros. A liberdade é um presente do céu e cada indivíduo tem o direito de a utilizar como quiser tal como utiliza a razão. (...) A autoridade provém, geralmente, de duas fontes: da força e da violência dos que dela se apoderaram ou do consentimento daqueles que a ela se submeteram. (...) O poder que se baseia na violência não é mais do que uma usurpação e só durará enquanto durar a força do usurpador e a submissão dos dominados. Quando estes sacodem o jugo do tirano e o expulsam fazem uso de um direito legítimo (...). O poder que deriva do consentimento do povo pressupõe a existência de regras que o tornam legítimo (...). O príncipe recebe dos seus súbditos a autoridade que exerce sobre eles e esta autoridade é limitada pelas leis da Natureza e do Estado.".



O rei Frederico II de pé e o filósofo Voltaire sentado... ("Frederico e Voltaire numa Sessão de Estudo em Sanssouci"; gravura de N. A. Monsiau e P. C. Baquoy).

22/03/2019

O Motim das Maçarocas

Porto, 1628.

Foi exactamente nesta cidade e nesta data que se verificou uma revolta contra um imposto criado pelo governo que então mandava em Portugal - o do espanhol Filipe III.

Uma revolta contra o imposto sobre a fiação do linho.

De facto, as mulheres que, no Porto, se 'dedicavam' a este ofício rebelaram-se não apenas contra este imposto mas, também, contra a pessoa que detinha a força legal para o cobrar - um tal de Francisco de Lucena: "sofreu um desaire quando foi encarregado de ir ao Porto para pôr em execução um novo imposto, pois este provocou tumultuosa arruaça das regateiras que, tendo-o encontrado, o obrigaram a fugir." (Fonte: "Dicionário de História de Portugal" com a direcção de Joel Serrão).




Post scriptum: Francisco de Lucena foi, mais tarde, julgado e condenado à morte acabando por ser degolado em Abril de 1643.

21/03/2019

O Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

Assinala-se no dia de hoje, 21 de Março, o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.

De facto, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas decidiu, deste modo, em 1966, marcar a data dos trágicos acontecimentos na cidade de Sharpville, na África do Sul, quando perante a reunião pacífica de alguns milhares de pessoas que se manifestavam contra o regime do apartheid, as forças policiais abriram fogo causando dezenas de vítimas mortais.

Ora, se se 'incluir' na referida Discriminação Racial a existência, também, de barreiras à plena afirmação social e económica do Outro, creio não ser totalmente despropositado lembrar que, de acordo com números oficiais desse país africano, cerca de 70 % de toda a terra agrícola aí existente é actualmente controlada por agricultores "brancos"...

20/03/2019

A face muçulmana da antiga e da nova Rota da Seda

Ainda há poucos dias aqui escrevi sobre a sinicização (na China, pois) de todo o 'movimento' religioso presente no país.

E também me pronunciei sobre a tolerância religiosa exercida, por assim dizer, pela religião muçulmana.

Insisto no 'tema' da religião na China propondo-me dedicar uma atenção especial - ainda que brevíssima - à presença do culto muçulmano no Império do Meio.

Assim, a 'ligação' entre a China e a religião muçulmana é muito antiga.

Remonta à antiga Rota da Seda e a elementos culturais e religiosos (já que atravessava vários territórios e civilizações, se se quiser dizer assim) que a China incorporou também.

De facto, uma das várias etnias que compõem o 'mosaico' social, cultural e religioso da China nos dias de hoje - a Hui -, praticante da fé muçulmana, tem vindo a assistir ao longo das últimas décadas (e, particularmente, nos últimos anos) a intromissões de carácter político e burocrático, sobretudo, por parte das autoridades da China.

Ora, muitos dos membros desta etnia Hui pretendiam vir a tornar-se como que embaixadores e mediadores nos 'campos' político e cultural junto de vários países maioritariamente muçulmanos, por assim dizer (na Ásia Central e em África, por exemplo), 'atravessados' pelo extremamente ambicioso plano chinês "One Belt, One Road Initiative" (ou Projecto Uma Faixa, Um Caminho) - a nova Rota da Seda.

Mas, de facto, não sei se, entretanto, irá essa etnia conseguir cumprir esse tão ambicionado papel de "representante" da China dada a sua séria limitação de direitos.

E também não sei qual será a reacção desses referidos países muçulmanos ao projecto "Uma Faixa, Um Caminho" perante o que tem estado a ser feito aos seus "irmãos muçulmanos" chineses.

Isto para além da já tão propalada armadilha da dívida que tem levado vários países a "torcer o nariz" a tal projecto massivo de infra-estruturas e de comércio (e/ou político?) como aconteceu já com a Malásia, por exemplo...




19/03/2019

Leonor de Portugal

Nasceu em Torres Vedras em 1434 aquela que, depois de casar com o imperador alemão Frederico III, se tornaria imperatriz do reino germânico: Leonor.


Filha do rei D. Duarte (décimo primeiro rei de Portugal e filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre) e de sua mulher, D. Leonor (filha, por sua vez, dos reis de Aragão, Espanha), casou no dia 15 de Março de 1452 com Frederico – cerimónia nupcial a que presidiu o papa Nicolau V – vindo a ser coroada imperatriz do território alemão no dia 19 seguinte.


Imperatriz com apenas dezasseis anos de idade, morreria com pouco mais de trinta, longe da terra onde havia nascido mas certamente com a consciência convencida de que havia contribuído para cumprir o lema do seu marido, "Austriae est imperare orbi universo" ("A Áustria está destinada a governar o mundo", em português).


Mas esquecida.


Tal como quinhentos e cinquenta anos depois.

18/03/2019

Catacumbas e tolerância

Um projecto de engenharia civil foi, há dias, apresentado como sendo o salvador das catacumbas da cidade egípcia de Alexandria pois permitirá manter as galerias funerárias ao abrigo da subida do nível das águas subterrâneas.


De facto, a instalação de um conjunto de bombas de drenagem mais não foi do que uma espécie de união entre a Engenharia Civil e a Arqueologia que permitirá eliminar definitivamente um problema que vinha ameaçando esse ‘testemunho vivo’ de uma parte da História do Egipto desde há mais de um século (data da sua ‘descoberta’ recente…).


Excelente colaboração!



                                                                           ***






Aproveito a oportunidade de estar a escrever sobre a cidade de Alexandria para recordar a conferência “Islam Today and Intercultural Dialogue” que decorreu nas instalações da Universidade Lusófona no passado mês de Outubro.

Ora, uma das palavras que mais ouvi pronunciar foi tolerância.

Ouvi-a das bocas de vários intervenientes (da do Dr. Mostafa el Feki, director da Nova Bibliotheca Alexandrina, no Egipto e da do Sheikh David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, por exemplo).

Tolerância em relação àqueles que praticam a fé muçulmana, claro.

Ou seja, onde quer que os fiéis muçulmanos estejam em minoria, por assim dizer.

Mas o que se passa quando, ao invés, estão em “maioria”?

Não sei: se existem vários exemplos de convivência pacífica que poderia citar – como a testemunhada em várias regiões de Portugal há bastantes séculos e por inúmeras comunidades de judeus, de cristãos coptas e de drusos no ‘mundo’ islâmico –, posso também citar vários exemplos de sectarismo religioso nesse mesmo ‘mundo’ islâmico – como as acções do Estado Islâmico.

Opto, ainda assim, por uma ‘dimensão’ específica.

De acordo com o Committee to Protect Journalists – ou, em português, o Comité de Protecção aos Jornalistas – seis dos dez países que, em 2017, mais profissionais do jornalismo tinham presos eram muçulmanos (se se quiser simplificar assim): Turquia, Egipto, Azerbaijão, Síria (ou, melhor, o que restava do país…), Arábia Saudita e Bahrain.

Ou seja, tais dados sugerem que esta “abertura de espírito” – a tolerância – nem sempre é respeitada e ‘exercitada’ se em vez de apelarmos a outros para serem condescendentes, tivermos nós que ser os “sujeitos activos” sobre quem recaiem as responsabilidades de cumprir – e de fazer cumprir – a existência , neste caso em particular, da liberdade de expressão e de informação...

16/03/2019

Ainda a morte de Júlio César

Ainda ontem aqui escrevi sobre a morte do imperador romano Júlio César.


Foi, efectivamente, assassinado no dia 15 de Março do ano 44 antes da data tradicionalmente designada como indicando o nascimento de Jesus Cristo.


O ‘cenário’ foi o fórum de Roma – que era o espaço exterior em que, nas cidades romanas, se realizavam as reuniões públicas e as feiras e mercados.

15/03/2019

Sinicização e abertura

Muito poucas vezes (se alguma) o Catolicismo foi consensual entre as autoridades políticas (e religiosas) na China.

Se a verdade manda que se lembre que a religião cristã não teve neste país o mesmo 'acolhimento' que chegou a ter no Japão (onde, por exemplo, foram executados adeptos dessa confissão religiosa em 1597), também ordena que se não deixe esquecer que, recentemente, o próprio Partido Comunista Chinês tenha apelado a uma sinicização de toda a actividade religiosa no país - ou seja, o controlo das autoridades chinesas dos vários cultos religiosos aí existentes -, com o argumento de que estes mais não são do que meros veículos para a disseminação da "influência ocidental".

Que é, evidentemente, considerada como perigosa e nefasta.

Ora, numa época em que, como nunca antes, a China se procura 'abrir' ao exterior - e pretende que, ao mesmo tempo, este exterior se 'abra' à China -, não me parece que esse argumento - "influência ocidental" nefasta e perigosa - seja o mais sensato.




Post scriptum:  o imperador de Roma Caius Julius Caesar (ou simplesmente Júlio César) foi assassinado há exactamente dois mil e sessenta e três anos (em 15 de Março do ano 44 antes do nascimento de Jesus Cristo). Cito, ainda assim, um outro vulto romano, poeta - Virgílio -  a partir daquela que se tornaria, segundo as palavras do historiador francês Pierre Grimal, na "Bíblia da nova Roma" - a Eneida: "Outros modelarão, bem o creio, bronzes com vida e sem dureza; extrairão do mármore seres animados; defenderão melhor as causas; medirão com o compasso o curso dos céus e anunciarão o nascer dos astros. - Tu, Romano, sê atento a governar os povos com o teu poder - estas são as tuas artes -, a impor hábitos de paz, a poupar os vencidos e derrubar os orgulhosos.".

14/03/2019

A "Conspiração das Marnotas"

"Tentativa de sublevação absolutista, cuja designação provém de se terem concentrado em Marnotas, próximo de Loures, na noite de 13 para 14 de Maio de 1837, cerca de trezentos indivíduos nela implicados. Dali partiram com destino a Salvaterra; no dia 15 entraram em Samora Correia, onde aclamaram D. Miguel. A isto se reduziu a intentona, pois as forças liberais a sufocaram com rapidez. Presos e julgados os intervenientes no motim, foram eles amnistiados em Maio de 1840, não obstante dezasseis haverem sido condenados à morte no julgamento ocorrido em Março de 1839.".


Fonte: "Dicionário de História de Portugal" (direcção de Joel Serrão).

13/03/2019

"O Naufrágio das Civilizações"

Tem, no dia de hoje, a sua data de lançamento o novo livro do escritor franco-libanês Amin Maalouf "Le Naufrage des Civilizations" (ou, em português, "O Colapso das Civilizações").

Nele, o autor - membro da Academia Francesa desde 2011 (criada, por sinal, em 1635 pelo primeiro-ministro do rei Luis XIII, o Cardeal Richelieu, para preservar a língua francesa) - que consagrou toda a sua obra à tentativa de aproximação das civilizações do mundo, analisa as consequências do "choque das civilizações" proposto, há anos, pelo cientista político norte-americano Samuel Huntington.

Espero que este livro contribua para reflectirmos séria e profundamente sobre o actual estado da existência humana e ajude a 'salvar-nos' daquilo que a socióloga norte-americana de ascendência norueguesa designou em tempos de "exaustão temporal" ("se se está mentalmente exausto o tempo todo no presente, não há energia disponível para imaginar o futuro", explicou).



Post scriptum: tal como espero que a exposição que o Museu Judaico de Londres inaugurará no próximo dia 19 - "Judeus, Dinheiro, Mito" (tradução portuguesa) - ajude os visitantes a adquirir um maior e melhor conhecimento do que significou, ao longo do tempo, ser-se Judeu. Em Inglaterra, pelo menos, pois, por exemplo, no Portugal dos séculos XII, XIII, XIV e XV, sobretudo, eram judeus quem 'compunha' a esmagadora maioria (dos poucos) que sabiam ler e escrever...

12/03/2019

"In varietate concordia"?

Apesar de conter em si mesmo uma das características fundamentais da Democracia – o compreender-se e aceitar-se a chamada diversidade (étnica, de opinião, por exemplo) –, terá imensas dúvidas quem quer que se interrogue, em Portugal, como em quase trinta países, sobre o facto do lema da União Europeia – "In varietate concordia" ("Unidos na diversidade", em português) – poder ter sido inicialmente concebido a pensar na retórica (e na violência física que, não raras vezes, a tem acompanhado) do anti-semitismo, da chamada extrema-direita e do "populismo".

Ora, esse "quem quer que se interrogue" poderia mesmo convocar o pessoal político que governa actualmente a Europa para a/o ajudar a compreender melhor essa questão.


Isto no sentido figurado, claro.


Mas não é no sentido figurado que podem ser entendidas as conclusões de um dos mais recentes estudos do Eurobarómetro - o número 90, "Public opinion in the European Union": não são muitos os cidadãos europeus satisfeitos com a governação da União Europeia.


Embora a 'leitura' adoptada no boletim refira, compreensivelmente, que "mais de quatro em cada dez cidadãos europeus confiam na União Europeia" – e que mais de um terço destes confia no 'seu' governo e no 'seu' Parlamento nacionais –, pode fazer-se uma outra 'leitura'.


Que é esta: 48% dos mais de 500 milhões de cidadãos que vivem no seio da União Europeia não confiam, pura e simplesmente, nas instituições governativas da União (desde logo, a Comissão) e 65% não se revêem nem na equipa governativa do seu país, nem nos deputados (e no trabalho que fazem) nacionais.


De facto, uma maioria importantíssima de cidadãos europeus está completamente 'afastada' da política – nacional e europeia – e vive, se bem que preocupada (com a Imigração, com o Terrorismo e com a Economia, por exemplo), apesar da política e dos agentes políticos.


Perante tão avassaladores números – ou melhor, perante tão avassaladoras realidades 'ilustradas' por números –, "In varietate concordia"?

11/03/2019

O Terrorismo na Europa

Assinala-se hoje, 11 de Março, o Dia Europeu pelas Vítimas do Terrorismo.

Instituído pelo Conselho Europeu em 2004 na sequência dos trágicos atentados em estações ferroviárias na capital espanhola, este pretende lembrar todos aqueles que, na Europa, perderam a vida na sequência de ataques de índole terrorista e, ao mesmo tempo, alertar a consciência da chamada opinião pública para a necessidade de combater o Terrorismo e para a importância de promover a defesa dos direitos humanos.

Creio ser, por isso mesmo, o momento adequado para lembrar um facto.

Que é este: o lema da República francesa é "Liberté, Égalité, Fraternité" ("Liberdade, Igualdade, Fraternidade", em português) e surgiu como símbolo dos ideais da Revolução de 1789.

No entanto, esse símbolo político parece não ter durado muito.

Ainda que as palavras "Liberté" e "Égalité" figurassem na redacção do artigo primeiro da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão elaborada nesse mesmo ano de 1789, apenas a Constituição de 1848 o veio consagrar – e à II República – e, depois, as Constituições de 1946 e de 1958 sendo actualmente património do Estado francês e lema dos valores e princípios da República.

Mas o movimento revolucionário que eliminou o regime de monarquia absoluta de França não trouxe somente declarações ‘pomposas’ e princípios eticamente inabaláveis. Ele deu origem a um outro movimento que seria, ao longo do tempo, usado para fazer reivindicações por via mais ou menos violenta – e a que Portugal, exceptuando um determinado período da sua História (o pós-25 de Abril, nomeadamente), tem vindo a conseguir escapar: o Terrorismo.

De facto, diz o epitáfio de inscrito na campa que 'acolhe' os restos mortais de Maximilien de Robespierre o seguinte: "Passante, não chores a minha morte porque se eu vivesse tu morrerias" (em língua francesa, no original).

Na verdade, Robespierre, à cabeça de um governo revolucionário a partir de Outubro de 1793, foi o responsável máximo pela perseguição a dezenas de milhares de suspeitos de organizarem e/ou participarem em actividades consideradas ‘contra-revolucionárias’ – e a sua condenação e posterior execução – tendo o período que, então, se iniciou ficado conhecido como Terror.

De resto, como escreveu o articulista António Guerreiro na coluna que assina, semanalmente, no suplemento Ípsilon (do jornal Público) publicado em meados de Junho de 2016 - "Estação Meteorológica" - "Os estudiosos da história do terrorismo situam o início na época do Terror da Revolução Francesa [que tinha como lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade]. É aí, como terrorismo de Estado, que nasce o terror moderno e o termo "terrorismo".".

Assim, é o Estado (francês e, claro, europeu) o "pai" do Terrorismo…

Acrescento, apenas, que me entristece e me preocupa bastante o facto de que os líderes políticos europeus (e não só, evidentemente), não percebam (ou será que não querem perceber?) algo que até nem acho que seja assim tão difícil perceber: que qualquer ideário xenófobo e extremista (como o defendido – e executado – pelo Estado Islâmico, por exemplo) tem procurado e procurará sempre tornar-se "um refúgio para jovens frustrados com a ausência de perspectivas de futuro" preenchendo, assim, uma espécie de vazio originado pelo fracasso dos modelos de socialização propostos (impostos…) pelos sistemas de organização social, económica e cultural tradicionais.

09/03/2019

Conversar o resto dos meus dias

Diz a ‘montra’ da loja interativa de turismo de Penafiel, citando o escritor José Saramago, o seguinte:



"E simplesmente descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quantos me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles".



Eu, mero leitor do escritor (o qual me chegou a autografar um livro – "Ensaio sobre a Lucidez" – e me deu um aperto de mão…), escolho, naturalmente, uma outra abordagem: a de que seria um imenso privilégio poder passar o tempo que me resta de vida a conversar com José Saramago e com outras personalidades cuja vida terrena, pelo contrário, cessou já.



Nomeio somente duas: o rei português D. Duarte, o Rei-Filósofo (autor, por exemplo, do livro "Leal Conselheiro") que viveu entre os séculos XIV e XV, e o escritor também português Eça de Queirós (autor, entre muitos outros escritos, de "Os Maias") cuja vivência remonta, ‘apenas’, ao século XIX.



A maior virtude daquilo que deixaram escrito é, em minha opinião, a sua actualidade - no tempo em que viveram e no futuro (o tempo presente).



Feliz e infelizmente.

08/03/2019

O Cabo Espichel

Muito antes de Portugal ter definidas politicamente as suas fronteiras continentais (e, claro, também muito antes de estar situado numa unidade territorial e administrativa – o concelho – com o nome Sesimbra), já os perigos e as virtudes do que se viria a designar de Cabo Espichel eram por muitos conhecidos.


De facto, o "Cabo Espichel foi um ponto de perigo das rotas marítimas da antiguidade, sendo assinalado em roteiros do século VI a.C e IV d.C como "Akra Barbarion" e "lugum Cempsicum". No século XVIII é construído um farol que facilitava a navegação junto ao cabo, e que ainda está em serviço. A localização estratégica do promontório do Espichel levou à construção do forte de Nossa Senhora do Cabo, terminado em 1672, mas que em meados do século XIX é abandonado, entrando em ruína".


Ora, à excepção da igreja de Nossa Senhora do Cabo (construída entre 1701 e 1707) e da Ermida da Memória (cuja data de construção remonta ao século XV), em ruínas (ou quase) encontram-se hoje as restantes edificações no Cabo Espichel: a Casa da Ópera (construída em 1770) e a Casa da Água (também erigida em 1770) bem como o Aqueduto.


Que imensa tristeza sinto.

07/03/2019

A mudança da hora

Foi o próprio Benjamin Franklin – um dos ‘pais’ fundadores dos Estados Unidos da América – quem, na segunda metade do século XVIII, propôs a mudança da hora.

Isto é, mexer-se nos ponteiros dos relógios duas vezes em cada ano: antes do Inverno e antes do Verão.

O objectivo era economizar energia (trazida, à época, por velas).

Se, no entanto, tal poupança era, em si mesma, completamente legitima, não foi senão muito recentemente que esta mudança horária conseguiu ser consensual pois, por exemplo, foi apenas nos últimos anos do século XX que tal medida passou a ser unânime na Europa.

Mas não por muito tempo já que o país do mundo com maior dimensão territorial, a Rússia, abandonou, em 2011, a mudança horária argumentando que a mesma, através da ausência de luz solar em determinados períodos do dia, havia, entretanto, sido a causadora de milhares de mortes anualmente (através de acidentes rodoviários, problemas de saúde e suicídios, sobretudo).

Quais as cenas dos próximos capítulos?

06/03/2019

"Se ele entrar, eu saio"

O futebol adquire, muitas vezes, a capacidade de alcançar outras dimensões que em muito transcendem a desportiva.

De facto, Mohamed Salah, jogador egípcio de uma das mais importantes equipas do principal escalão do campeonato inglês de futebol - a do Liverpool -, terá ameaçado abandonar o clube caso este viesse a assinar contrato com um jogador de nacionalidade israelita.

Efectivamente, creio ser claríssima a oposição política e ideológica (e étnica?) de um jogador árabe a um colega judeu.

Receio que o exemplo de intolerância mostrado por este 'caso' específico possa, também ele, "saltar" a fronteira desportiva e acicatar, ainda mais, um conflito que já dura há décadas (ou há centenas de anos?) e sem fim à vista.

05/03/2019

Combates medievais

O principado do Mónaco recebeu, em meados do passado mês de Fevereiro, o primeiro torneio europeu de luta medieval.

Trata-se, efectivamente, de um "desporto de combate" inspirado nas batalhas que tiveram lugar nos séculos XII e XIII em solo europeu.

Nascido na Rússia, este tipo de luta rapidamente ganhou adeptos e praticantes um pouco por todo o mundo - atraídos, também, certamente, pelo trabalho de equipa que exige: na Ucrânia, na Polónia, em França, na República Checa, na Alemanha, na Bélgica, no Reino Unido, em Espanha e em Portugal e até mesmo no Japão.

Não sendo um combate até à morte, quase tudo é permitido. Desde machados e armaduras passando por espadas e escudos (instrumentos 'vistoriados' por árbitros cuja missão é assegurar que as 'regras' são cumpridas).

Ora, confesso que não tenho qualquer vontade em participar nestes combates nem tão-pouco percebo quais as razões que estiveram na base para recrear a violência e a brutalidade das batalhas do tempo medieval e os fins a atingir.

Se, especulo apenas, um dos objectivos em mente tivesse sido como que avivar (ou despertar) o interesse por uma parte do passado da Europa, penso que, enfim, teria sido muitíssimo mais interessante 'explorar ' outras dimensões da vida medieval, por assim dizer, promovendo, por exemplo, concursos tendo por base a Literatura, a Música ou o Teatro.

Enfim, como que 'invocar' costumes da vivência quotidiana dos povos na Idade Média que, recordo, iam muito para além, por assim dizer, da mera violência dos combates e torneios...

04/03/2019

Morte e descida da temperatura

O jornal Quaternary Science Reviews publicou na passada sexta-feira (no dia 1 de Março,  portanto) um estudo - "Earth system impacts of the European arrival and Great Dying in the Americas after 1492" - afirmando que os 'conquistadores' europeus mataram tantos autóctones na América durante o século XVI que 'isso' pode ter acabado por arrefecer o planeta Terra durante a Pequena Idade do Gelo (de 1300 a 1870, sensivelmente).

Como?

Cerca de 60 milhões de pessoas habitavam o continente americano (no Norte, no Centro e no Sul) antes da chegada dos europeus, em 1492 - comparando, por exemplo, com as 70 a 80 milhões de almas que viviam na Europa nessa época (numa área que, na verdade, totalizava menos de metade da terra americana). Ora, no início do século XVII, desses 60 milhões já só restavam cerca de 6 milhões visto que noventa por cento desses habitantes iniciais havia perecido em consequência do extermínio (1), da escravatura e das doenças... Tendo em conta que uma parte substancial dessas pessoas se dedicava à agricultura e tendo também em consideração que com a morte dessas pessoas as tarefas agrícolas até então feitas morreram igualmente, a vegetação tornou a crescer livremente e a não permitir, claro, a concentração de gases capazes de gerar efeito de estufa (como o Co2,  por exemplo).

Não sugerindo este estudo que matar deliberadamente pessoas seja o método mais eficaz para arrefecer e, portanto, não deixar aumentar a temperatura do ar do planeta - e não o sugerindo eu tão-pouco... -, e numa época da vida da Terra marcada por acontecimentos de origem vulcânica, as conclusões deste estudo não deixam, em minha opinião, de fazer algum 'sentido'.




(1) - O religioso espanhol Bartolomeu de las Casas escreveu, de facto, (em "História das Índias") o seguinte: "Em quarenta anos morreram, por causa da tirania espanhola, mais de doze milhões de seres vivos, homens, mulheres e crianças. Há sobretudo duas formas que essas gentes que se dizem cristãs usaram para apagar da Terra essas infelizes nações: a primeira foram as guerras cruéis (...), a segunda foi uma opressão, uma servidão tão dura e tão horrível como nunca os próprios animais tinham suportado. A razão pela qual os Cristãos destruíram um tão grande número de seres humanos foi unicamente o desejo insaciável de ouro".

02/03/2019

"Ninguém se preocupa com o que é medíocre"

Contou o 'grande' filósofo e escritor francês Voltaire numa das suas obras o seguinte diálogo a propósito da proibição, por Luís XV, da Enciclopédia:


" - Ignoramos quase todas as coisas deste mundo. Não sei de que é feito o pó que tenho na face, nem como são fabricadas as meias de seda que tenho calçadas, disse Madame de Pompadour.

- É pena que Sua Majestade tenha proibido o nosso Dicionário Enciclopédico. Ele traz a resposta para tudo, respondeu o duque de la Vallière.

Então, o rei mandou trazer um exemplar da Enciclopédia.

- Ah! Que belo livro! Então vós proibistes esta obra com tantas informações úteis, para serdes o único sábio de todo o vosso reino, perguntou Madame de Pompadour.

- Mas a verdade é que eu nem sei por que razão me disseram tanto mal deste livro, respondeu Luís XV.

- Não vedes, Senhor, que é porque ele é bom. Ninguém se preocupa com o que é medíocre, disse o duque de Nivernais".


01/03/2019

Eu não!

Uma igreja na capital irlandesa, Dublin, foi 'palco', há poucos dias, de um triste acontecimento: a profanação de vários túmulos.

Se não foi, infelizmente, caso único na "civilizada" Europa, quem quer que tenha perpetrado tal crime não se limitou a invadir o espaço físico de repouso eterno de quem viveu há muitos séculos (como um combatente do tempo das Cruzadas ou uma freira, por exemplo) já que desmembrou alguns dos restos mortais aí acondicionados.

Talvez os "visados" possam, de algum modo, perdoar estas atitudes selvagens porque eu não.