31/10/2019

Poupança e abundância

Assinalando-se hoje o Dia Mundial da Poupança parece-me perfeitamente oportuno transcrever uma pequena parte de um texto publicado pelo economista canadiano John Kenneth Galbraith – em língua portuguesa, "A sociedade da abundância" (foi 1984 o ano da edição portuguesa).

"A experiência que as nações têm do bem-estar é demasiado curta. Quase todas, através da História, foram muito pobres. A excepção, quase insignificante em relação ao total da existência humana, foram as gerações recentes neste relativamente pequeno canto do mundo habitado pelos Europeus. Aí e principalmente nos Estados Unidos, tem havido uma grande abundância, praticamente sem precedentes. (…). Não seria de esperar que as preocupações com a pobreza fossem importantes num país em que o individuo comum tem acesso a coisas agradáveis – comidas, divertimentos, transporte pessoal, canalização nas casas – que há um século nem os ricos podiam ter. A mudança foi tão grande que muitos dos desejos do indivíduo nem sequer são evidentes para ele próprio. Só se tornam evidentes quando elaborados e alimentados pela propaganda e pela técnica de vendas".

30/10/2019

As ordens religiosas militares

As ordens religiosas militares eram essencialmente constituídas por monges cavaleiros 'ligados' às Cruzadas e simultaneamente crentes nas virtudes da arte equestre.

Distinguiram-se, em Portugal, as de Calatrava, a de Santiago, a do Hospital e a dos Templários. 

29/10/2019

A Peste Negra

Foi em meados do século XIV que a chamada Peste Negra (epidemia de peste bubónica) se 'espalhou' por toda a Europa.

Com origem, talvez, na Crimeia, no Sul da Rússia, a Peste Negra 'aproveitou-se', efectivamente, dos circuitos comerciais existentes no continente para aqui contaminar milhões de pessoas: doença infectocontagiosa provocada pelo vírus depois 'baptizado' Yersinia pestis, deixava manchas negras em todo o corpo e terá dizimado cerca de 50-60% da população residente na Europa (ou seja, mais do que o 'valor' geralmente referido, "um terço").

Portugal, esse, foi 'atingido' em 1348 e terá também perdido cerca de metade da sua população.

Refiro, ainda, dois aspectos que, em minha opinião, são importantes: o primeiro incide no facto de que a população da Europa e do Mundo nesse tempo estaria (talvez de forma surpreendente, segundo alguns), (muito) melhor preparada para 'lidar' com este tipo de epidemias/pandemias uma vez que, em muitas dimensões dimensões da vida, era autónoma e independente não estando 'sujeita' aos "ditames" da chamada globalização (em termos do consumo de bens alimentares, por exemplo); o segundo - e último - nada mais é do que uma espécie de lembrete de que a Peste Negra (e o vírus Yersinia pestis, claro) está ainda entre nós sendo que os relativamente recentes surtos no continente americano provaram isso mesmo...








A Peste Negra 'ceifou' milhões de vidas em todo o mundo.




28/10/2019

O Zodíaco Lusitano

Assinalam-se em 2019 os duzentos e setenta anos da publicação daquele que foi o primeiro periódico impresso no Porto: o "Zodíaco Lusitano".

26/10/2019

Benavente e o Arco de Trajano

Uma das palavras de que habitualmente me 'sirvo' sempre que me refiro a Benavente (sede de concelho pertencente ao distrito de Santarém) é antiga: de facto, segundo a própria edilidade ribatejana, "Em 1199, a fixação de colonos estrangeiros na margem sul do Tejo, conduziu ao surgimento da povoação de Benavente".

Assim, embora antiga, esta vila não é tão antiga como a sua homónima italiana que acolhe o Arco de triunfo de Trajano...

25/10/2019

Roma e os "Bárbaros"

Escreveu o eclesiástico grego Sinésio na sua obra "Da Realeza" (do século IV da chamada Era Cristã) o seguinte:


"O imperador Teodósio [...] tratou os Bárbaros com demasiada indulgência e deu-lhes o título de aliados; concedeu-lhes direitos políticos e ofereceu-lhes boas terras. Mas eles [...] viram neste procedimento uma fraqueza da nossa parte, passando a comportar-se de forma arrogante".


Na verdade, na sequência de invasões destes povos, foi, em 476, deposto o último imperador romano acabando assim o Império Romano do Ocidente.

24/10/2019

O 'maior' embaixador de Portugal

Não foi há muito tempo que pude 'percorrer' uma espécie de lista enumerando as dez personalidades portuguesas que mais se tinham destacado, ao longo da História de Portugal, no "engrandecimento" do nome do país enquanto emigrantes.

Essa lista – como, de resto, qualquer lista – é subjectiva.

Isto é, são elaboradas por um indivíduo (ou por vários) condicionado(s), claro, pelas suas ideias e, enfim, pelos seus próprios valores.

Que são necessariamente diferentes das ideias e dos valores de outro qualquer indivíduo.

Como eu.

Não tenho, todavia, capacidades académicas para elaborar uma lista citando muitas personalidades da história portuguesa.

Mas tenho, sim, capacidade para dizer qual me parece ser, neste momento – e desde há alguns anos seguramente – o melhor "embaixador" de Portugal.

Não é um presidente, nem um primeiro-ministro, um diplomata ou um dirigente empresarial.

É, na verdade, um desportista.

Mais concretamente, um futebolista.

O seu nome?

Cristiano Ronaldo.

Porque, sendo emigrante, tem conseguido fazer com que o nome Portugal seja tão conhecido em França como no Uganda ou na Mongólia, por exemplo.

Talvez depois de Eusébio – outro desportista... – tenha, até aos dias de hoje, sido o português mais conhecido lá fora, se se quiser dizer assim.

Beneficiando, naturalmente, de todo um conjunto de 'instrumentos' mediáticos, desportivos e tecnológicos, a sua qualidade como desportista e como futebolista tornou-se, com o passar do tempo, indissociável do país em que nasceu.

Reconheço-lhe, pois, este mérito independentemente de todas as críticas que possa fazer – e faço – ao 'mundo' do futebol (em que Ronaldo se 'movimenta', de facto) internacional actual com os seus contratos, os salários, os benefícios associados, as cláusulas ou a violência. 

Ora, quem dera a um qualquer país ter verdadeiros 'representantes positivos' de alcance planetário.

23/10/2019

Sunitas e Xiitas

Num tempo em que é extraordinariamente fácil e cómodo para os poderes instalados associar a palavra - e o conceito,  claro - Fundamentalismo à palavra Islâmico, parece-me ser oportuno recordar a diferença, por assim dizer, entre Sunitas e Xiitas.

Ora, os Sunitas defenderam (e defendem) que apenas pode ser califa aquele que for o melhor dos crentes do Profeta.

Já os Xiitas consideravam (e consideram), por seu lado, que só poderia ser um califa quem descendesse directamente de Maomé (e também da sua filha Fátima e do seu genro Ali - a quem, por sinal, o Profeta terá revelado o sentido "oculto" do Corão).

22/10/2019

"Marketing" e a História Humana

"Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inauguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa
ou vice-versa".



Fonte: Fernando Namora, "Marketing"

21/10/2019

Imigrantes e refugiados

Não tendo a absoluta certeza da diferença existente entre um imigrante (ou emigrante sendo que ambas as figuras jurídicas, imigrantes e emigrantes são migrantes) e um refugiado, limitei-me a procurar saber junto de quem, certamente, saberia. 

De facto, o sítio na "Internet" da sede brasileira da Agência da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) foi-me muito útil: "Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados ou perseguições. Com frequência, sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos, e então se tornarem um 'refugiado' reconhecido internacionalmente, com o acesso à assistência dos Estados, do ACNUR e de outras organizações. São reconhecidos como tal, precisamente porque é muito perigoso para eles voltar ao seu país e necessitam de um asilo em algum outro lugar. Para estas pessoas, a negação de um asilo pode ter consequências vitais" enquanto que "Os migrantes escolhem se deslocar não por causa de uma ameaça direta de perseguição ou morte, mas principalmente para melhorar sua vida em busca de trabalho ou educação, por reunião familiar ou por outras razões. À diferença dos refugiados, que não podem voltar ao seu país, os migrantes continuam recebendo a proteção do seu governo".

19/10/2019

Refugiados professores

Aqui descrevi há dias a situação por que passa o Brasil como sendo de "instabilidade política e social".

Creio que o "diagnóstico" apresentado não foi demasiadamente arriscado, nem pessimista, já que não são poucas as vozes a alertarem que o momento actual da vida brasileira é, na verdade, um perigo para o próprio regime democrático do país.

Ora, apesar dos mais de sete mil quilómetros que me separam – enquanto cidadão a viver em Portugal – do Brasil, creio que o país ainda é – apesar de todas as dificuldades que lembrei já – uma espécie de abrigo e de refúgio para cidadãos de países vizinhos também pouco 'afortunados' (para não dizer mais…): vi, não há muito tempo, imagens televisivas documentando a 'invasão' de pessoas oriundas da Venezuela.

Pois bem, li, há também não muito tempo, o seguinte:


"Que tal aprender um novo idioma com um refugiado? Estão abertas as inscrições para os cursos regulares de inglês, francês e espanhol do 2º semestre no ***** *****. As aulas começam no dia 11 de agosto. Aqui, refugiados no Brasil são capacitados para darem aulas de idiomas em que são fluentes. (...) Muito mais do que o ensino de línguas, o objetivo dos cursos é permitir a imersão dos alunos na cultura dos professores e viabilizar a integração social e a geração de renda [rendimento] para os refugiados que encontram abrigo no Brasil".


Refugiados a ensinar?

É uma excelente ideia!

Creio, até, que para além desse 'mero' acto de ensinar ser dirigido (segundo percebi) para cidadãos 'normais' e 'comuns' poderia ser um exemplo para pessoal político de todo o mundo: como cheguei a ler nas páginas de um jornal português, o então (e actual) presidente norte-americano Donald Trump, no seu encontro com a então primeira-ministra britânica Theresa May, referiu que a imigração é "má" e "triste" para a Europa pelo facto de "alterar a sua cultura" (e por contribuir, disse, para o 'crescimento' da ameaça terrorista).

18/10/2019

A personalidade de um país


Ouvi há alguns meses o primeiro-ministro, num debate sobre "o estado da nação", dizer, numa sua intervenção, que os números não enganavam.

Achei, e acho, ser um pensamento acertadissimo.

O que engana – ou melhor, pode enganar – é a utilização (manipulação) dos números pelos seres humanos…

Tal é, julgo eu, facilmente constatado quando vemos as fichas técnicas (ou metodológicas) de alguns 'estudos' de opinião.

Ora, o que eu humildemente critico é o facto de se fazerem generalizações a partir de algumas – às vezes poucas – características essencialmente individuais.

Ou seja, "vê-se o todo a partir de uma parte".

Parte que às vezes, insisto, não é propriamente grande…

Refiro-me, pois, em particular, a 'estudos' sobre os tipos de personalidade de um país: um dos mais 'completos' foi publicado em 2005 por Robert McCrae (que se apoiou, por assim dizer, no trabalho de setenta e nove colaboradores de todo o mundo e em dados obtidos a partir de respostas de mais de doze mil estudantes universitários em cinquenta e uma "culturas").

O seu título?

"Personality profiles of cultures: aggregate personality traits".

Assim, a "pontuação" mais elevada para a Extroversão foi a registada pelos estudantes brasileiros, pelos suíços (de língua francesa) e pelos malteses enquanto a "pontuação" mais baixa para aquele 'critério' foi obtida pelos estudantes nigerianos, pelos marroquinos e pelos indonésios.

Já a "pontuação" obtida para a Abertura à experiência foi mais elevada junto dos estudantes suíços (de língua alemã), pelos dinamarqueses e pelos alemães.

A "pontuação" mais reduzida foi, por seu lado, obtida pelos estudantes chineses (de Hong Kong), pelos norte-irlandeses e pelos do Kuwait.

Recorde-se que este 'estudo' incidiu igualmente na Neurose, na Consciência e na Agradabilidade.

Na verdade, as supostas conclusões ensaiadas por estes chamados estudos psicológicos têm pouco (ou nada…) de científico.

Lembro, de facto, um texto que me parece ser precisamente um 'testemunho' exacto da credibilidade científica desses 'estudos'.

Escreveu o jornal Público há já alguns anos o seguinte: "Elena Ferrante, pseudónimo de uma das mais influentes escritoras da actualidade, que mantém a sua identidade desconhecida, vai escrever todas as semanas uma coluna para a edição do fim-de-semana do jornal britânico The Guardian".

Ora, é precisamente sobre um texto assinado por Elena Ferrante – "'Yes, I’m Italian – but I’m not loud, I don’t gesticulate and I’m not good with pizza'" – digitalmente publicado no início do ano 2018 no sítio do jornal The Guardian que quero agora 'debruçar-me'.

De facto, referiu Elena que "Amo o meu país mas não tenho qualquer espírito patriota nem orgulho nacional. E mais: praticamente não como pizza e como muito pouco spaghetti, não falo alto e não gesticulo, detesto todas as organizações mafiosas e não digo "Mamma mia!". Os 'traços' nacionais são meras simplificações que deveriam ser contestadas. Ser italiana, para mim, começa e acaba no facto de que me exprimo (na escrita e na fala) na língua italiana".

Concordo em absoluto com aquilo que Elena Ferrante escreveu embora tenha muitas dúvidas acerca do facto de que alguém se considere 'filho' de um determinado país apenas por se expressar na  língua oficial desse mesmo país.

A personalidade de cada pessoa nada tem a ver com o país onde nasce e os estereótipos nacionais tão em voga nalguns 'estudos' não passam disso mesmo, estereótipos.

Ora, a história demonstrou já imensas vezes o quão estereótipos e generalizações podem ser usados para esconder a realidade.

17/10/2019

O Brasil de Jorge Amado

Lembro-me de a economia do Brasil ter ‘ultrapassado’, há alguns anos, a do Reino Unido tornando-se, assim, a quinta (se não me engano…) maior do mundo.

Não sei se, entretanto, a economia do colosso sul-americano voltou a "perder terreno".

É bem possível que isso se tenha vindo a verificar dada a instabilidade política e social vivida no Brasil.

Mas, como tudo na vida, é importante relativizar.

Cito, por isso mesmo, uma frase outrora dita por aquele que considero ter sido um dos maiores ‘vultos’ da Língua Portuguesa: Jorge Amado.

"Eu sou muito otimista, muito. O Brasil é um país com uma força enorme. Nós somos um continente, meu amor. Nós não somos um paísinho, nós somos um continente, com um povo extraordinário".

16/10/2019

Outra vez Camões

Assume-se, frequentemente, que o poeta Luís Vaz de Camões escreveu parte das oito mil, oitocentas e dezasseis estrofes da ‘enorme’ epopeia "Os Lusíadas" em Macau – o que é, de resto, assinalado anualmente por membros da comunidade portuguesa que aí reside com uma romagem ao jardim e à "gruta de Camões".

Não sei se isso corresponde à verdade ou se é, apenas, um mito.

O que, de facto, sei é que existe em Constância (a antiga Punhete) uma estátua daquele que acho ter sido um dos mais importantes poetas portugueses que, até hoje, viveu (e um dos ‘símbolos’ da portugalidade, claro...) acompanhada de alguns dos seus escritos.


"Oh! Pomar venturoso!
De teu fermoso peso
Se mostra o monte ledo
E o caudaloso Zêzere te
estranha
Porque olhas com desprezo
Seu cristal puro e quedo

(Da canção XII)


Corre suave e brando
Com tuas claras águas
Saídas de meus olhos doce
Tejo

(Écloga II)


Ouvi soar nos vales algum
dia
E respondia o eco o nome
em vão
Num coração – Belisa!

(Écloga III)"


Frontispício da primeira edição de "Os Lusíadas" (de 1572).
  

15/10/2019

A Organização dos Estados Americanos

A Organização dos Estados Americanos é o mais antigo organismo regional de todo o mundo (recordo que foi fundado em 1948) agregando os trinta e cinco Estados independentes do continente americano (lembro: Antígua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Equador, Estados Unidos da América, Grenada, Guatemala, Guiana Francesa, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and Grenadines, Suriname, Trinidad and Tobago, Uruguai e Venezuela) e afirma-se como um dos principais – senão o principal – fórum governamental político, jurídico e social do Hemisfério Americano, por assim dizer.

Sempre que o caminho escolhido por alguns países não seja o do mais ‘simples’ e ‘directo’ unilateralismo, evidentemente...
Para além do mais, esta Organização concedeu já o estatuto de observador permanente a sessenta e nove Estados e à própria União Europeia.

14/10/2019

Estudar a escravatura

Uma das ideias-chave da entrevista que a historiadora marroquina Fatima Harrak concedeu ao jornal Público num dos derradeiros dias do passado mês de Setembro foi a de que deveria estudar-se mais a escravatura.

Ora, concordo, efectivamente, com a importância de se estudar e melhor tentar compreender o movimento esclavagista mundial até porque tais palavras foram 'produzidas' tendo como pano de fundo, por assim dizer, o núcleo museológico que, ao que tudo indica, será construído em Lisboa sobre os Descobrimentos que os portugueses – ou melhor, parte deles – fizeram em determinado período da História de Portugal.

De facto, o nome que irá ser atribuído a tal museu tem suscitado discussões mais ou menos 'acaloradas' – e, também, mais ou menos democráticas… – consoante 'onde' os interlocutores se situem: de um lado têm estado os que consideram que Portugal 'utilizou' os Descobrimentos não apenas para chegar a muitas terras e a povos até então desconhecidos para muitos mas também para 'descobrir' formas de explorar, física e espiritualmente, muitos dos seres humanos 'descobertos' – a escravatura –, e do outro lado têm estado aqueles para quem os 'esquemas' da escravatura postos em prática por esses portugueses 'descobridores' foi não mais do que um mero detalhe comum a muitos outros "povos descobridores" dessa época como o espanhol, o inglês, o holandês ou o francês.

Posto isto, enquanto que reconheço que Portugal foi, no contexto dos chamados descobrimentos, responsável por 'ampliar' – e não por criar – o comércio escravo como o transporte de milhões de pessoas de África para a América ou a vinda de milhares de africanos para serem explorados pelos seus senhores em Portugal, defendo que esse museu poderia ser designado por "Museu dos Descobrimentos portugueses".

Mas 'isto' não é mais do que história e um nome de um museu.

Tenho, assim, que relativizar…

O que, efectivamente, me preocupa muito mais é que em pleno século XXI se continuem a verificar situações que configuram escravatura: de acordo com um documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do "Global Slavery Index", de 2018, existirem então mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo...

12/10/2019

A flecha, a palavra e a oportunidade do Homem

Invoco agora um provérbio chinês que, creio, é capaz de explicar muito do percurso da existência humana (em que o meu se inclui, evidentemente):

"Há três coisas
que nunca voltam atrás:
a flecha lançada,
a palavra pronunciada
e a oportunidade perdida".

11/10/2019

Esquecimento com dolo?

Foi em meados de Abril de 2018 que o jornal blico deu a conhecer, em formato digital, um texto com o título em forma de pergunta "Os EUA começaram a esquecer o Holocausto?".

Nele se observou, de resto, que "Pelo menos 22% dos norte-americanos menores de 34 anos nunca ouviram falar do extermínio de seis milhões de judeus às mãos do regime nazi".

Supondo que tais números fossem exactos creio que a responsabilidade imediata por tal ignorância histórica era do sistema educativo local.

Mas, muito mais grave do que se apurar de quem é (ou são) a(s) responsabilidade(s) dessa falta da educação formal é, quanto a mim, impedir-se – dolosamente? – que milhões de pessoas possam, através de dados históricos, questionar a existência de um conjunto de actos políticos, geopolíticos e ideológicos que poderiam passar, por exemplo, por, no momento presente, práticas internas intolerantes por parte das autoridades policiais e de investigação e, sem dúvida, pelas alianças que o pessoal político do seu país – os Estados Unidos da América (EUA) – estabeleceram e estabelecem com países como Israel: "por que razão é o nosso país [EUA] aliado incondicional de outro [Israel] no qual muitos dos seus habitantes – descendentes, directos e indirectos, daqueles que sofreram o Holocausto na Europa –, têm vindo a fazer passar a outros, desde há décadas, no Próximo Oriente, precisamente alguns tipos de privações e violência física e psicológica que sofreram às mãos dos nazis e de outros?".

10/10/2019

Os limites do Estado Novo

Já escrevi aqui no blogue sobre o Forte da Graça, em Elvas.

Pretendo, ainda assim, reproduzir duas frases que aí foram inscritas em 1959 (durante a vigência do chamado Estado Novo).

Ora, creio que, depois de as ler, se poderá, talvez, concluir que, também nesses tempos, não havia limites para a hipocrisia.



O TRABALHO É UM INESGOTÁVEL TESOURO.
A INACÇÃO É A FERRUGEM DA CORAGEM.

1959


O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM, MAS MAIS O DIGNIFICARÁ SE FOR UM TRABALHO HONESTO E CONSCIENCIOSO.

1959

09/10/2019

A privacidade pública

Cerca de 640 milhões de fotografias são, todos os dias, registadas na Europa com recurso a "smartphones".

É, talvez, verdade que muitos desses gestos são feitos com o simples objectivo de acrescentar quantidade a álbuns pessoais.

Mas não só.

De facto, aproximadamente 100 milhões de fotografias (e vídeos) são, todos os dias, colocados na rede "Instagram" e 300 milhões de fotografias (e vídeos, claro) são, a cada dia que passa, ‘postados’ no "Facebook".

Ou seja, de pouco serve batalhar contra estas empresas em defesa da privacidade, por exemplo, quando se está perante tais números.

08/10/2019

A 'face' rural da cidade de Lisboa

Um dos oradores no simpósio a que aludi no texto que aqui publiquei há pouco menos de um mês ("Lisboa e o baralho de cartas") comentou – ao mesmo tempo que também ele mostrava um "slide" – que ainda se poderiam observar na Lisboa urbana do século XXI alguns ‘traços’ da ruralidade: um individuo ‘orientando’ um pequeno rebanho junto à biblioteca municipal de Marvila, por exemplo.

Penso que essa espécie de vestígios da ruralidade são, desde logo, muito 'úteis' para relembrar os lisboetas mais distraídos que Lisboa (à semelhança de tantas cidades por esse mundo fora) é um local essencialmente ‘moderno' e urbano há relativamente pouco tempo se se perspectivarem todos os séculos de história da mesma…

Será que também ao nível dos chamados padrões mentais, dos costumes e dos comportamentos os habitantes de Lisboa já percorreram o ‘caminho’ entre a comunidade e a sociedade?

07/10/2019

Monarquia e República em Portugal

Assinalou-se no passado sábado mais um aniversário da implantação do sistema republicano em Portugal. 

São já cento e nove anos de República (‘contra’ setecentos e sessenta e sete de Monarquia).

Ora, considero-me republicano pelo simples facto de ter sempre vivido sob a égide da República Portuguesa e ser este, pois, o único regime que "realmente" conheço.

Mas também não me identifico com muitos dos valores monárquicos que sustentam a defesa deste regime e o consequente ‘regresso’.

Ou seja, reconheço à Monarquia e à República em Portugal (por tudo quanto tenho lido e visto, respectivamente) méritos e defeitos. 

A verdade, todavia, é que não consigo deixar de associar a esta transição, política e não só, claro, o facto de ser sempre necessário que algo mude para que (quase) tudo fique na mesma…

04/10/2019

Defender e respeitar

Depois de, há pouquíssimos dias, me ter deparado, novamente, com o quadro pintado pelo norte-americano Grant Wood "American Gothic" não mais consegui deixar de me lembrar do livro "Direito a ofender" - escrito pelo jornalista e escritor britânico Mick Hume - nem de uma frase escrita pelo filósofo austríaco Karl Popper no seu livro "A Sociedade Aberta e os seus inimigos".

Ora, as ideias fundamentais de "Direito a ofender" são a de liberdade para se poder dizer o que se quer e a de tolerância para se aceitar essa mesma liberdade.

Trata-se, no fundo, de se ‘exercer’ aquilo que já no século XVIII havia sido dito pelo filósofo francês do Iluminismo – Voltaire: "discordo do que dizes mas defenderei até à morte o direito de o dizeres".

A frase de Karl Popper: "Temos pois de proclamar, em nome da tolerância, o direito de não sermos tolerantes com os intolerantes".

Parece-me, enfim, que a muitas 'autoridades' - morais e legais - de todo o mundo falta (ainda?) muito ‘caminho’ para poderem estar verdadeiramente 'aptas’ a defenderem e a respeitarem a liberdade e a tolerância.

03/10/2019

Heidegger e o Homem

Nascido a 26 de Setembro de 1889 na Alemanha, Martin Heidegger tornar-se-ia um dos ‘maiores’ expoentes da ‘corrente’ filosófica existencialista.


Assim, afirmou, por exemplo, que "Todo o Homem nasce como muitos mas morre como um ser único".


02/10/2019

Essencial e superficial

Continuo com uma 'mão' a Oriente...

Lembro-me de, há já alguns anos, ter lido no então jornal OJE um texto assinado pela jornalista Rebecca Abecassis com o título "Os países do norte não são todos iguais" em que, fazendo uma espécie de viagem por alguns países e povos do Norte da Europa, distinguiu, no meio da heterogeneidade, duas áreas aí commumente encaradas como fundamentais para se atingir um bom nível de desenvolvimento económico, social e cultural: a arquitectura e a gastronomia (ou culinária).

Mas também me lembro de ter lido, no jornal SOL, um texto preparado pela/o jornalista L. A. de Sá a propósito dos dez anos da transferência oficial de soberania de Macau de Portugal para a China com o título "Dez anos é muito tempo".

Neste se deu conta de que, no ‘balanço’ de uma década de Administração chinesa em Macau, o canal público de televisão da China, a CCTV, havia sublinhado que a matriz portuguesa ‘dominava’ em formas culturais qualificadas como superficiais como a arquitectura e a gastronomia (ou culinária).

Ou seja: enquanto que diversas ‘expressões’ culturais eram (e são?) consideradas, por alguns, como formas pouco dignas e, em certa medida, insignificantes nos contextos económico, social e cultural de uma dada sociedade (e respectivas comunidades), essas mesmas ‘expressões’ culturais eram (e são?) objecto de muita atenção, por outros, como meios para tentar atingir uma maior – e melhor – qualidade de vida.

Em várias dimensões.   

Ora, concordo absolutamente com a visão nórdica...

01/10/2019

"Made in China"

A República Popular da China (RPC) assinala hoje sete décadas de existência.

Ora, não creio ser uma novidade para quem quer que viva em Portugal (e não só, claro) dizer-se que uma percentagem muito significativa dos produtos à venda nas lojas são fabricados na RPC.

Mas nem sempre assim foi.

Parece-me, pois, ser oportuno lembrar um excerto de um trabalho escrito pelo jornalista e autor galês Ernest Edwin Williams no final do século XIX intitulado "Made in Germany":
 "Olha à tua volta, amigo leitor: verás que o tecido de algumas peças do teu vestuário foi com certeza tecido na Alemanha. E, mais provavelmente ainda, que algumas roupas da tua mulher são de importação alemã (…). Em cada recanto da tua casa encontrarás a marca fatídica, desde o piano do escritório até às chávenas da cozinha (…). Apanha do chão o papel de embalagem de um pacote de livros: também ele foi feito na Alemanha. Lança-o ao fogo e repara que o atiçador que tens na mão foi forjado na Alemanha. Ao levantares-te, derrubas um vaso que se encontrava junto à chaminé e, ao apanhar os cacos, lês no pedaço que constituía o fundo: Made in Germany".