30/04/2019

O 'peso' da História e o dos 'heróis'

Um artigo de opinião com o título "Hong Kong, like India, needs to remember the truth about british colonialism" que a edição "online" do jornal South China Morning Post publicou há alguns anos afirmou, por exemplo, existirem "em Moscovo, dois memoriais, construídos pelo Estado, em honra dos milhões de vítimas de Stalin, incluindo um "museu do Gulag". No entanto, em Washington como em Londres, não existem quaisquer monumentos dedicados aos horrores da escravatura e às crueldades do colonialismo.". 

Ora, penso que lembrar o conteúdo deste artigo de opinião é duplamente oportuno.

Por isto:


a) o domínio político da Índia pelo Reino Unido durou de 1757 até 1947. Ora, em 13 de Abril de 1919 – e numa altura em que Winston Churchill ocupava o cargo de secretário de Estado da guerra –, um chefe militar britânico ordenou aos militares que comandava que disparassem sobre uma multidão que se encontrava reunida pacificamente assassinando, desse modo, centenas de pessoas. No entanto, tal chefe militar acabou mesmo por receber, anos depois, honras de Estado no seu funeral ‘apagando-se’ assim as suas responsabilidades - e as da própria potência colonizadora e seus agentes políticos - naquele que é ainda hoje lembrado como o "massacre de Amritsar";


b) E já em 1943, em plena II Guerra Mundial, o estado de Bengala viu morrer cerca de três milhões de pessoas. Assassinadas pois, já que morreram de fome quando, segundo um estudo publicado no jornal Geophysical Research Letters em Fevereiro passado, a comida disponível na Índia foi 'exportada' para a metrópole colonizadora para auxiliar nos esforços de combate à tirania do Eixo... Ora, que ´titulo’ se atribui a alguém que mata pessoas? Assassino e, eventualmente, genocida, certo? (lembro também que Winston Churchill foi o primeiro-ministro do Reino Unido entre 1940 e 1945).


Recordo, apenas, que nunca as autoridades britânicas pediram formalmente desculpa pelo sucedido em 1919 (e suponho que também nunca o tenham feito em relação ao genocídio de 1943).





Post scriptum: afirmo também, uma vez mais, a necessidade de que em Portugal, para honrar uma dimensão negativa da sua História - e honrar igualmente a memória dos muitos milhões de seres humanos que colonizou e escravizou -, embora de forma muito tardia, claro, se edifiquem núcleos museológicos e educativos e que, sobretudo, tal se 'fale' seriamente na Escola.

29/04/2019

Macau e o desprezo de Portugal

Ainda não há muito tempo me referi ao facto de um determinado manual escolar actualmente "em vigor" em Portugal não ser cientificamente rigoroso no que à Inquisição se referia.

Não querendo, efectivamente, generalizar essa ‘insuficiência’ aos manuais escolares ‘dedicados’ à História ou sequer aos manuais escolares de apoio a outras disciplinas, pretendo invocar o que parece ter sido um perfeito exemplo dessa ‘insuficiência’ que ‘recebi’, enquanto estudante do então ensino preparatório (no 6.º ano de escolaridade, se não estou em erro), em relação a Macau.

Ora, o manual escolar que me serviu de apoio no início da década de 1990 na disciplina de História ‘forneceu’ um mapa em que se indicavam os principais locais de fixação e de comércio dos portu-


Veja-se, por exemplo, a localização geográfica de Macau...

-gueses na costa oriental africana e no Oriente (na Ásia, pois) à data da morte do rei D. Manuel I, em 1521. Penso, até, que a falta de rigor com que assinalou a localização geográfica de Macau poderá ter contribuído para a crítica que, em 2004, o então subdirector dos Serviços de Turismo daquele território chinês teceu: Portugal nunca teve a exacta noção do que era Macau.

Creio, de resto, que só este desconhecimento podia – e pode – explicar o facto de em Portugal alguns invocarem palavras como compreensão e entendimento para descreverem a relação secular entre portugueses e chineses em Macau: a verdade é que, em quase cinco séculos de presença portuguesa em Macau, portugueses – e chineses, claro – raramente se ‘cruzaram’ com os modos de ser e estar do Outro uma vez que, salvo raríssimas excepções, nem sequer tinham aprendido a cumprimentar-se nas suas línguas ‘maternas’.

27/04/2019

O latim

Livros vendidos em Portugal: se em 2009 foram cerca de quinze milhões, em 2018 foram menos de doze milhões.

Ora, não é nem o exacto momento nem o ‘fórum’ mais adequado para se poderem ensaiar possíveis teorias explicativas dessa redução.

Receio, no entanto, que também a recém-chegada às livrarias "Nova Gramática do Latim" – de Frederico Lourenço – venha a sofrer esta conjuntura negativa.

Será, neste caso, uma desolação visto que o referido trabalho (levado a cabo por um autor que, recordo, foi o responsável por uma "nova tradução da Bíblia, na sua forma mais completa - a partir da Bíblia Grega, ou seja, contendo o Novo Testamento e todos os livros do Antigo Testamento". Ou seja, "a Bíblia mais completa que jamais existiu em português") é a primeira gramática de latim publicada em Portugal desde 1974 e visto ser o latim o ‘progenitor’ do português que é, nem mais nem menos, a terceira língua europeia mais falada no mundo (com mais de duzentos milhões de falantes).

Um livro que não hesito, desde já, em qualificar como fascinante e que, espero, não deixarei de folhear...

26/04/2019

Antes e depois de Abril

Porque se passaram, ontem, 45 anos do dia 25 de Abril de 1974, opto por recordar um texto que escrevi o ano passado por esta mesma altura: "Assinalaram-se ontem 44 anos do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Embora democrata e resolutamente antifascista, não consigo partilhar do ‘entusiasmo’ daqueles que chamam ao acontecimento "Revolução dos Cravos" pelo simples facto de acreditar que um movimento verdadeiramente revolucionário não pode ser feito com ‘flores’. Veja-se, por exemplo, o estado de coisas em que vive a Tunísia alguns anos após a "Revolução do Jasmim"… Cito, por isso, duas pessoas temporalmente separadas por mais de trinta anos: o grande músico/cantor e resistente José Afonso ("Zeca Afonso") e o fiscalista e sócio da "Espanha e Associados" João Espanha. "O 25 de Abril não foi feito para aquilo que estamos agora a viver. Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril imaginaram uma sociedade muito diferente da actual que está a ser oferecida aos jovens. Os jovens deparam-se hoje com problemas tão graves – ou talvez mais graves que aqueles que nós tivemos que enfrentar – o desemprego, por exemplo, e por vezes não têm recursos. O sistema ultrapassa-os. O sistema oprime-os criando-lhes uma aparência de liberdade. Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos – nós, refiro-me à minha geração: de recusa frontal, de recusa inteligente (se possível até pela insubordinação; se possível até pela subversão) ao modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido com belos discursos, com o fundamento da legalidade democrática, com o fundamento do respeito pelos direitos dos cidadãos. É, de facto, uma sociedade teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro que é imposta aos jovens de hoje". "Zeca Afonso" em 1984, nas comemorações dos dez anos do "25 de Abril" "Só uma pequena minoria endinheirada pode recorrer a um advogado mesmo que seja vítima de injustiça [do Fisco]". João Espanha no "Jornal de Negócios" em 12 de Abril de 2018 Acrescento, todavia, uma frase escrita pelo filósofo italiano Nicolau Maquiavel que me parece exemplar para descrever o que, em minha opinião, se tem vindo a passar na História (de Portugal e não só): "Os povos que perdem a liberdade pela força, pela força haverão de reconquistá-la. Mas os que perdem a liberdade por descuido, estes demorarão muito a voltar a ser livres".

24/04/2019

"O Estado sou eu"

O até há poucos meses embaixador francês nos Estados Unidos da América comparou a actual administração governativa daquele país da América do Norte à do rei Luís XIV, o Rei-Sol.


"Um velho rei, um pouco sonhador, imprevisível, mal informado, mas que quer ser o único a tomar as decisões", observou então.


Luís XIV – que terá afirmado ser ele o Estado (neste caso o francês) – tinha como lema "Nec Pluribus Impar" ("Não Desigual A Muitos Sóis", em português).


Ora, este lema era bem menos solidário e colectivo do que o lema dos "Três Mosqueteiros" (romance de Alexandre Dumas) – "Unus pro omnibus, omnes pro uno" ("Um por todos, todos por um", em português).


Já Isabel de Bragança, filha única do rei D. Pedro II de Portugal e de D. Maria Francisca de Sabóia, foi uma das pretendentes do filho do Rei-Sol, Luís, Grande Delfim de França.


Recorde-se que Luís XIV reinou durante 72 anos.

23/04/2019

O fim da O.T.A.N.?

Não é para mim segredo que as mais 'altas' instâncias políticas da França e da Alemanha  - para muitos, o "eixo" que verdadeiramente dirige o destino da União Europeia - estão a discutir a formação de um exército europeu com o objectivo de prescindir da, de facto, força militar de ocupação que é a Organização do Tratado do Atlântico Norte ( a OTAN ou, em língua inglesa, NATO).

Ora, a questão que, quanto a mim, deveria começar por merecer uma tentativa de resposta por quem analisa a actual realidade geopolítica do mundo é esta: irá o país que mais tem vindo a financiar os orçamentos da organização criada em 1949 para conter a União Soviética (e o ideário comunista, pois) - os Estados Unidos da América - permitir que a Europa tenha o seu próprio Exército?

22/04/2019

A beleza desaparecida

O arquitecto italiano Leon Battista Alberti explicou no livro "Da Re Aedificatoria" (no século XV) a sua própria definição de Belo: "Todo e qualquer objecto ao qual nada possa ser acrescentado ou subtraído sem que a harmonia do todo se altere.".

Ora, de acordo com esta definição, alguns dos elementos arquitectónicos que existem (ou que desapareceram já...) no mundo elencados pela UNESCO perderam necessariamente a sua beleza.

Lembro, assim, alguns deles, o número de anos em que foram belos e as "causas directas" da sua destruição (parcial ou total):

a) o Museu Nacional do Brasil (na cidade do Rio de Janeiro), de 1817 até (Setembro) de 2018 (201 anos), incêndio;

b) a "Ponte Velha" - Stari Most - (na Bósnia-Herzegovina), de 1567 até 1993 (426 anos), conflito armado ('guerra');

c) os Mausoléus de Tombuctu (ou Timbuktu, no Mali) de 'algures' no século XIV até 2012 (cerca de sete séculos), conflito armado ('terrorismo');

d) a Mesquita de Al-Nuri (em Mossul, no Iraque), de 1172 até 2017 (845 anos), conflito armado ('terrorismo');

e) a Catedral de Notre-Dame (na cidade de Paris, em França), construída em 1163 até (Abril de) 2019 (856 anos), incêndio;

f) as Estátuas de Bamiyan (no Afeganistão), de (cerca de) 500 anos após a convencionada data do nascimento de Jesus Cristo até 2001 (cerca de 1500 anos), conflito armado ('terrorismo');

e

g) a cidade de Palmira (na Síria), de (cerca de) 200 da chamada era cristã até 2016 (cerca de 1800 anos), conflito armado ('terrorismo').


20/04/2019

O elemento Rádio

Pierre e Marie Curie - a única pessoa a ser galardoada com dois Prémios Nobel (Química e Física) - 'isolaram' o elemento Rádio em 20 de Abril de 1902.
Ora, num momento em que se celebram os cento e cinquenta anos da tabela periódica, parece-me ser perfeitamente justo assinalar um facto acerca de um elemento fundamental na luta contra o cancro.




A tabela periódica (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tabela_peri%C3%B3dica#/media/File:Periodic_table_pt.svg. Ao rádio foi atribuído o número atómico 88).



18/04/2019

Portugal de outrora. E de agora também?

"Em qualquer aldeiazinha

achareis tal corrupção

qu'a mulher do escrivão

cuida que é uma rainha.

E também os lavradores

com suas más novidades

querem ter as vaidades

dos senhores.".




Fonte: Duarte da Gama no "Cancioneiro" de Garcia de Resende.

17/04/2019

O "crescimento civilizacional" e a poluição

Segundo várias análises (algumas 'oriundas' da Academia), há já alguns anos que o dinamismo do crescimento económico e populacional do mundo deixou, após vários séculos, de estar centrado no Hemisfério Norte (na Europa e na América do Norte, bem entendido) tendo passado, por sua vez, a concentrar-se no Hemisfério Sul (na América, na Ásia e em África).

Mas a 'amplitude' desta mudança não se pode 'medir' apenas em tempo: pode - e deve - ser perspectivada à luz de várias dimensões sendo uma delas a da qualidade do meio ambiente disponibilizado às 'suas' populações.

Nessa qualidade - ou não, claro - 'incluo' a poluição.

Se, de facto, a poluição 'acompanhou' o "crescimento civilizacional" da Europa e da América do Norte, ela não pôde também deixar de 'acompanhar' o "crescimento civilizacional" do restante mundo, por assim dizer.

Aqui lembro, pois, as cidades do mundo que, em 2018, e tendo em consideração os níveis das mais pequenas partículas (e, por isso mesmo, mais perigosas para a saúde humana) que se misturam com o oxigénio que todos respiramos - conhecidas por PM-2.5 -, foram consideradas as mais poluídas:

1 - Nova Deli, na Índia;

2 - Daca, no Bangladesh;

3 - Cabul, no Afeganistão;

4 - Manama, no Bahrein;

5 - Ulaanbaatar, na Mongólia;

6 - Cidade do Kuwait, no Kuwait;

7 - Katmandu, no Nepal;

8 - Pequim, na China;

9 - Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos;

e

10 - Jacarta, na Indonésia.

16/04/2019

A identidade étnica

O filósofo norte-americano William James afirmou, há muitos anos, que "quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é".


Ora, creio que estando ainda em fase de ponderação pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) a inclusão, no próximo recenseamento populacional, de uma questão sobre a pertença étnica dos respondentes, penso que também a 'validade' científica das respostas obtidas deveria ser bastante ponderada e, enfim, relativizada, em virtude do facto de que elas dependerão sempre das características sociais, económicas e, sobretudo, psicológicas e culturais de quem as der.


Ou seja, de um ser humano. 


Não sendo eu um especialista, resta-me colocar questões: se eu,  português autóctone, me 'classificar' como branco - comparando-me com alguém com um fenótipo (a cor da pele) mais escuro do que o meu, por assim dizer -, continuará esta auto-classificação a ser cientificamente rigorosa se me comparar com alguém cujo 'tom' de pele é mais 'claro' do que o meu?


Ou existirão hipóteses de respostas do tipo "cor branca, grau 1", "cor branca, grau 2" ou "cor branca, grau 3", por exemplo? 


E "cor negra, grau 1", "cor negra, grau 2" ou "cor negra, grau 3", também por exemplo? 


E como responderia também alguém nascido na Ásia: "cor amarela, grau 1", "cor amarela, grau 2" ou "cor amarela, grau 3", ainda como exemplo?


Ou seja, não me parece que as limitações científicas fossem poucas...

15/04/2019

Napoleão: carinho e sofrimento

O lema do imperador de França Napoleão Bonaparte – coroado em 1804 – foi "La France avant tout" (ou, em português, "A França antes de tudo").

No entanto, talvez não tenha sido apenas a França a merecer o seu apreço.

De facto, três cartas de amor ‘dirigidas’, entre 1796 e 1804, por Napoleão à sua mulher Josefina, foram recentemente leiloadas e vendidas.

Ou seja, ao mesmo tempo que se mostrava, em privado, um ser afectuoso e carinhoso, exibia, para todo o mundo, um espírito belicoso e egocêntrico.

Não creio, de todo, que algumas das gravuras feitas no século XIX – por exemplo, uma delas mostrando Napoleão na companhia da Morte – tenham sido simplesmente sátiras a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão – cujo lema era "Valeur et Discipline" (ou, em português, "Valor e Disciplina") – , apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

Quanto a Portugal: se é certo que este se livrou de integrar o reino da Lusitânia que Napoleão queria criar, também não o é menos que, como país aliado da Inglaterra – ‘alvo’ do Bloqueio Continental por parte de França –, Portugal sofreu três invasões pelo "Grande Armée" de Napoleão (que, recorde-se, nascera na Córsega em Agosto de 1769): a primeira, entre 1807 e 1808; a segunda em 1809; e a terceira, entre 1810 e 1811.

Em consequência, a família real optou por abandonar o país e refugiar-se no Brasil.

Ora, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho, conhecido como "Principal Sousa", foi, para além de diácono da Igreja Patriarcal de Lisboa, membro da regência do reino de Portugal até Agosto de 1820.

E, para além disso, era também o dono da Quinta de São Pedro, em Almada.

E, ‘voltando’ a Napoleão: mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821…




Não creio, de todo, que uma gravura feita no século XIX mostrando Napoleão na companhia da Morte tenha sido simplesmente uma sátira a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão, apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

 
Mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821...


O exército francês, comandado pelo antigo militar nascido na Córsega Napoleão Bonaparte, causou a morte, directa e indirectamente, a milhares de pessoas.


***


Sabia que tinham sido erguidas linhas para defesa de Lisboa (e do próprio Reino) – as Linhas de Torres (que o governo português decidiu, e bem, apesar dos dois séculos passados, classificar como Monumento Nacional) .




Mas o que não sabia era que tinham também sido edificadas na margem Sul do rio Tejo duas linhas de defesa da capital do país de um ataque vindo pelo mar: uma linha, com cerca de sete quilómetros de extensão, situava-se entre Almada e a Costa de Caparica e a outra localizava-se junto a Setúbal.

13/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte II

O historiador Jorge Martins referiu também, na entrevista radiofónica que citei, que "No caso da Inquisição, de facto, foi um erro histórico. Nós pagámos caro esse erro a vários níveis: a nível económico, financeiro, cultural, científico, mental e religioso".

No entanto, segundo os autores da "História da Inquisição Portuguesa (1536-1821)", de José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci, "A sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar".

Ora, se ainda hoje, quase dois séculos passados do fim da Inquisição, Portugal sofre consequências da repressão do Tribunal do Santo Ofício, quem quer que tivesse passado os olhos pela ‘entrada’ dedicada ao Renascimento em Portugal feita pelo "Dicionário de História de Portugal" (‘dirigido’ por Joel Serrão no início da década de 1990), poderia, ao invés, ter ficado com a ideia de que o movimento inquisitorial mais não havia sido do que um mero episódio da História portuguesa: "Durante largo tempo, o País tornar-se-á a plataforma entre a Europa e a África, o Oriente e o Brasil. Adquirem-se novos hábitos de vida, o luxo campeia. Período agitado por sua vez, o Renascimento, desde algumas dificuldades de política interna, a presença armada nas fortalezas do Norte de África e do Oriente, as diligências diplomáticas para a delimitação de territórios ultramarinos, o estabelecimento da Inquisição (…). O que caracteriza iniludivelmente o Renascimento em Portugal é o seu cosmopolitismo, com as consequências que daí advêm; cosmopolitismo em dupla direcção: em direcção à Europa, por um lado, em direcção ao ultramar, por outro lado".

Não foi essa, no entanto, a opinião que cresceu na minha mente.

De facto, como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de portugueses "lidavam", quotidianamente, com o exotismo proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição mundial de Lisboa, a Expo’98, "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o mundo" –, tivesse ‘nascido’ um mecanismo comandado pela Coroa Portuguesa e pela Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie humana: a intolerância?

Não tenho, por isso, dúvidas de que a Inquisição – cujo lema era "Misericórdia e Justiça" – impediu sempre a ‘instalação’ em Portugal de um verdadeiro "humanismo global" (nas palavras de Vitorino Magalhães Godinho).

12/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte I

Assinalou-se no passado 31 de Março, não no Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição, em Alenquer, mas em Lisboa, o Dia da Memória das Vítimas da Inquisição.

Em resultado de uma iniciativa da Assembleia da República – levada a efeito na sequência de uma petição –, tal Dia pretendeu, de facto, destacar a importância desse instrumento de repressão no curso da História de Portugal.

Ora, o historiador que esteve à frente do movimento que culminou na determinação do Dia da Memória das Vítimas da Inquisição, Jorge Martins, lembrou, aos microfones de uma estação de rádio (a TSF, ser ainda preciso alterar os manuais escolares no sentido de dar mais atenção a este período: "Foram 284 anos, dez meses e oito dias de Inquisição. Nos manuais escolares quanto tempo é que se dá ao estudo da Inquisição? A minha filha deu a Inquisição em cinco minutos no oitavo ano. Eu também sou professor de História e a Inquisição nunca mereceu a importância, porque tem uma questão negativa. Como é que se consciencializam as pessoas do nosso passado negativo se não se trata o assunto como deve ser?".

Tomo, no entanto, a liberdade de acrescentar: mais e, sobretudo (muito) melhor atenção.

Por isto: um livro de apoio escolar em relação à disciplina História A actualmente disponível no ‘mercado’ português refere, a páginas tantas, a "nacionalização da Inquisição" em 1769.

Ora, apesar de eu não ser alguém diplomado em História, estranhei esta informação e optei por perguntar acerca da sua pertinência científica a alguém ‘especialista’ na História da Inquisição em Portugal.

Que, muito simpaticamente, me esclareceu: "Não tem pés nem cabeça dizer-se que a Inquisição foi "nacionalizada" em nenhum momento. Os manuais de História tem imensos erros e passagens sem sentido histórico".


 
Dizer-se que a Inquisição (ou Santo Ofício) foi nacionalizada não faz qualquer 'sentido'.




Ou seja, como se não bastasse já o facto de um livro escolar – potencialmente capaz de ser consultado por milhares de alunos – conter um erro – grave, em minha opinião –, creio ser pertinente referir que este livro teve também revisão científica de um historiador (doutorado) e colaborador em "várias universidades e centros de investigação europeus e americanos"...



***



Um outro manual escolar recentemente impresso que terá também tido uma "revisão científica" por parte de um especialista em História, salienta, por seu lado, que em 1769 foi a "Inquisição convertida em tribunal régio"…

Sinceramente espero, no entanto, que as palavras que adiante reproduzirei – escritas pelo professor Francisco Bethencourt em "Les Inquisitions Modernes" (publicado em 1992) – permitam ‘eliminar’ essa barbaridade histórica:

"A Inquisição, instituída em 1536 pelo papa [Paulo III] sob pressão de D. João III, afirmou-se com o duplo estatuto de tribunal eclesiástico e de tribunal da coroa. Tribunal eclesiástico, pois funcionou com poderes delegados pelo papa, teve como objectivo a perseguição das diversas formas de heresia e os seus juízes eram clérigos. O alargamento sucessivo da respectiva área de actuação do judaísmo, islamismo e luteranismo à bruxaria, à sodomia, à bigamia, ao comércio ilegal com o Norte de África e às proposições heréticas e blasfémias encontrou ‘respaldo’ no direito canónico. Tribunal da coroa pois a figura do inquisidor-geral era nomeada pelo papa sob proposta do rei e os membros do Conselho Geral eram por aquele nomeados após o rei ser consultado. Aliás, a coroa era regularmente informada sobre a actividade do Santo Ofício interferindo nas suas decisões e atribuiu explicitamente ao dito Conselho Geral o estatuto de conselho régio".


A Inquisição convertida em tribunal régio em 1769: mais uma barbaridade histórica...


11/04/2019

Ainda a falta de visão

Aqui escrevi há dias que me preocupava imenso com a "falta de visão" da esmagadora maioria dos líderes políticos, nacionais e estrangeiros, que nos regem.

Ou seja, não vejo que estes estejam a tomar medidas suficientemente ‘robustas’ para responder aos enormes desafios que o planeta Terra está a enfrentar e irá inexoravelmente continuar a enfrentar.

Invoco, por isso, apenas dois exemplos que me parecem ser bastante ‘claros’ (infelizmente) dessa incapacidade:

– O jornal inglês The Economist publicou, no fim de Março, um artigo na sua edição "online" - "Slower growth in ageing economies is not inevitable" em que ‘disse’ o seguinte: "Na Terra vivem actualmente, pela primeira vez na História, mais indivíduos com 65 ou mais anos de idade do que crianças com menos de 5 anos";

– Estima-se que a população mundial ascenda, em 2050, a cerca de 9,8 mil milhões (ou biliões) e que 70% destes (6,8 mil milhões, portanto) viverá em áreas urbanas.

De facto, por um lado, envelhecimento e, por outro, crescimento e (acelerada) urbanização da população da Terra.

Isto para nada dizer sobre o ‘combate’ às chamadas alterações climáticas...


10/04/2019

Fernão de Magalhães e reescrever a História

Ao saber, há poucos dias, que as autoridades portuguesas e as espanholas haviam apresentado o programa para celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação ao planeta Terra (de que fazia parte uma viagem idêntica feita pelos navios-escola Sagres, português, e Elcano, espanhol) quase que se poderia não lembrar a polémica desencadeada em torno da viagem de Fernão de Magalhães.

Polémica porque as autoridades espanholas decidiram ignorar o contributo do navegador português na realização de tal empreendimento e, pelo contrário, enaltecer e “aumentar” a participação de um navegador espanhol: creio, de facto, que foi uma espécie de nacionalismo (xenófobo, claro) que levou a que as autoridades espanholas tenham decidido subvalorizar o papel de Magalhães na idealização, na preparação e na realização – em parte – da primeira circum-navegação feita ao globo terrestre – que, recordo, decorreu de 1519 a 1522 – preferindo “destacar” o papel do navegador espanhol Juan Sebastián Elcano…

Porque, na verdade, as palavras que melhor descrevem, em minha opinião, o contexto político, económico e cultural que envolveu a preparação desta viagem foram escritas pelo historiador português José Manuel Garcia: “A economia e a política espanholas proporcionaram a viagem mas com ciência portuguesa”.

Ou seja, Magalhães, desgostoso com o monarca português da época, D. Manuel I, propôs à Coroa espanhola de Carlos I efectuar tal viagem. Este aceitou e deu ao navegador português todo o apoio logístico e económico necessário. A morte do português, ocorrida durante a viagem, permitiu ao navegador espanhol Elcano completá-la.

Mas se repudio, de facto, as atitudes espanholas, também não subscrevo algumas posições defendidas por portugueses: por exemplo, o professor Joaquim Veríssimo Serrão escreveu, na sua “História de Portugal” (volume III…) que “Mas a viagem de Magalhães acabou por oferecer à Espanha um triunfo histórico que só a Portugal devia em justiça ter cabido.”.

Concluo declarando que fico, enfim, satisfeito por uma parte da História do mundo não ter sido, como alguns (muitos?) desejavam, revista nem alterada e só espero, sinceramente, que tais tentativas de o fazer não venham a ‘beliscar’ a candidatura à UNESCO da Rota de Magalhães.

09/04/2019

A batalha de La Lys


"A madrugada de 9 de Abril de 1918 despertou violenta na Flandres, onde as tropas portuguesas foram esmagadas por uma força alemã muito superior. A batalha de La Lys ficou marcada pela perda de milhares de homens entre mortos, feridos e prisioneiros.



Os alemães chamaram-lhe operação Georgete e o objetivo era romper as linhas aliadas, separar as forças britânicas das francesas e forçar uma mudança estratégica na frente ocidental. Na madrugada de 9 de Abril de 1918, oito divisões alemãs, com cerca de 100 mil homens e mais de mil peças de artilharia, avançaram sobre os 11 quilómetros onde estavam as forças portuguesas, constituídas por duas divisões e cerca de 20 mil homens. As forças portuguesas foram trucidadas, mas resistiram tempo suficiente para permitir aos aliados reforçar a e suster a ofensiva. Os portugueses perderam praticamente metade das suas forças, e ficaram reduzidas a pouco mais de uma divisão tendo registado cerca de 1300 mortos, 4600 feridos, 2000 desaparecidos e mais de sete mil prisioneiros.".









***



"Corpo Expedicionário Português


Em 9 de Março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal. Cerca de dois meses depois, em 24 de Maio, foi ordenado o recrutamento de todos os cidadãos, sem exceção, com idade[s] entre 20 e 45 anos. O primeiro contingente do Corpo Expedicionário Português partiu para a frente europeia em 26 de Janeiro de 1917 e chegou a Brest em 7 de Fevereiro. Na época as tropas portuguesas já estavam a lutar nos territórios africanos de Angola e Moçambique. Desde a entrada de Portugal na guerra até à assinatura do Armistício, a 11 de Novembro de 1918, o país mobilizou cerca de 105.000 soldados e oficiais. Mais de 75.000 homens foram para a Flandres. E mais de 7.700 homens morreram nas várias frentes de batalha. Quase 50% destas mortes ocorreram em Moçambique e cerca de 35% em França.".



Fontes: http://ensina.rtp.pt/artigo/batalha-de-la-lys-documentario/ e exposição bibliográfica "Grande Guerra 1914-1918: um século depois", átrio da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, Novembro de 2018.

08/04/2019

Aproximação cultural

Não sei se o "campus" que a empresa chinesa de tecnologia Huawei está a construir em Dongguan (na China) tem alguma réplica de exemplares arquitectónicos existentes em Portugal.

É, efectivamente, verdadeiro o facto de a gigante chinesa ter já 127 hectares preenchidos com reproduções de elementos originalmente presentes em várias cidades europeias.

Ora, tendo em conta a crescente 'abertura' ao Ocidente europeu e norte-americano por parte da China e tendo também em conta a história de milhares de anos da civilização do Império do Meio, penso que tais cópias nada mais são do que parte de uma espécie de aproximação cultural ao 'Ocidente' branco...

06/04/2019

O mesmo "statu quo" 75 anos depois

Numa altura em que a Organização do Atlântico Norte (a OTAN ou, na sigla inglesa, a NATO) está a 'celebrar' sete décadas do seu 'nascimento', creio ser importante, desde logo, recordar que um dos mais mortíferos conflitos que o mundo jamais conheceu acabou há quase 75 anos.

Mas também recordar que, se a II Guerra Mundial cessou em 1945, ainda hoje se fazem sentir alguns dos seus ‘efeitos’: por exemplo, o Exército dos Estados Unidos da América tem actualmente cerca de 880 bases militares em 183 países (o número de efectivos militares norte-americanos é de mais de 55 mil no Japão, de 35 mil na Alemanha, de 28,5 mil na Coreia do Sul, de 12 mil em Itália e de 9 mil no Reino Unido).

Ora, a crescente animosidade entre as populações de algumas regiões (a de Okinawa, no Japão, por exemplo) perante a presença do exército norte-americano não tem sido suficiente, ainda assim, para que este as ‘abandone’ pois estas garantem que a máquina militar americana esteja a apenas algumas horas de distância de qualquer conflito armado no mundo.

05/04/2019

"Marxismo cultural", ciberdemocracia e cibersegurança

Uma antiga ministra britânica pronunciou num discurso que há dias fez a expressão “marxismo cultural”.

A utilização desta expressão valeu-lhe já a acusação de ter feito alusão a uma teoria da conspiração e de, assim, se ter posto “ao lado” de propagandistas da extrema-direita e do anti-semitismo (um mal que assola a Europa há séculos).

Ora, eu, enquanto estudante, lembro-me bem de uma obra classificada ‘oficialmente’ como sendo de leitura fundamental no curso por mim frequentado – “Introdução à Antropologia Cultural”, do ucraniano Mischa Titiev – ser ‘menorizada’ (por colegas e, até, por professores…) precisamente por supostamente ser ideologicamente influenciada pelo filósofo judeu Karl Marx.


***



Aproveitando o facto de estar a escrever sobre extrema-direita e anti-semitismo, quero acrescentar o conteúdo de um “e-mail” que, há alguns meses, enviei para a comissão que organizou o VI Seminário Internacional: Ciberdemocracia e Cibersegurança (que se realizou no fim do passado mês de Janeiro na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa):



“Assisti ontem ao VI Seminário Internacional relativo às 'temáticas' da Ciberdemocracia e da Cibersegurança.


Pude, pois, testemunhar "in loco" o quão ricas e absolutamente preciosas foram quase todas as intervenções no que se refere às informações transmitidas.


Ora, disse "quase todas as intervenções" porque não gostei do 'discurso' de ***** ****.


Tratou-se, em minha opinião, de um 'discurso' rigorosamente parcial que teve como principal objectivo denegrir ainda mais a percepção que já é negativa relativamente a um grupo religioso (e étnico e político, no fundo) - o muçulmano - e a um outro grupo essencialmente político - o chamado extremista de direita.


Ou seja, instilar mais ódio e não ir ao fundo das questões, por assim dizer.


Sendo autor de um 'discurso' relativo à "************* ** *******" - e embora eu não estivesse à espera de outra coisa que não um judeu a atacar muçulmanos e membros da já referida extrema-direita...-, teria sido sinceramente imparcial se, isso sim, ***** **** tivesse 'olhado com olhos de ver' para actos fundamentalistas e extremistas cometidos por judeus em Israel e nos territórios por eles ocupados preocupando-se em tentar mostrar à sua audiência por que razão George Soros e muitíssimos outros etnicamente judeus são atacados esclarecendo, de resto, o porquê de existirem "teorias da conspiração" contra os judeus da Terra.


Eu não sou anti-semita mas tento ser sempre intelectualmente sério.


Não me parece, de todo, que ***** **** o tenha também tentado ser.


É, por isso, que a sua intervenção foi, para mim, o único ponto negativo, se quiser, deste Seminário Internacional.”.

04/04/2019

A O.T.A.N.

A partir do fim da II Guerra Mundial, Estados Unidos da América (E.U.A.) e União Soviética ‘olhavam-se’ com cada vez mais desconfiança.




O primeiro dizia-se "defensor do mundo livre" enquanto a segunda se considerava "cercada pelo imperialismo".




Ora, perante este ‘cenário’ ninguém estranharia que os E.U.A. formalizassem (e liderassem) uma aliança militar.




Esta, de facto, acabaria por consubstanciar-se no dia 4 de Abril de 1949 na Organização do Tratado do Atlântico Norte – O.T.A.N. (ou N.A.T.O., na língua inglesa).




Constituída’, inicialmente, por doze países europeus, pelo Canadá e, claro está, pelos E.U.A..




A União Soviética ‘responderia’, por seu lado’ com o Pacto de Varsóvia – aliança, igualmente militar, com os países do chamado bloco comunista.




No entanto, a União Soviética, o Pacto de Varsóvia e o bloco comunista já ‘acabaram’.




A O.T.A.N. (ou N.A.T.O.) não**.








** Integram actualmente a O.T.A.N. (ou N.A.T.O.) vinte e oito países. O dobro daqueles que, há sete décadas, a fundaram.


03/04/2019

Quem somos?

Se é certo que, desde há milénios, ao pedaço de terra a que se viria a chamar depois Península Ibérica, têm acorrido povos oriundos de várias latitudes tornando-a, pois, um ‘palco’ privilegiado, na Europa, na confluência de muitas culturas e civilizações, poderia um comum visitante da exposição que a Cordoaria Nacional, em Lisboa, exibiu até há algumas semanas – “Gigantes da Idade do Gelo e a Evolução Humana” – pensar que pouco (ou nada) teria a ver consigo directamente, por assim dizer.

No entanto, num trabalho publicado pela revista Current Biology em meados do passado mês de Março, investigadores revelaram que a ‘composição’ genética de agricultores e de caçadores-recolectores que habitaram o território da referida Península Ibérica havia sido, na verdade, muito mais diversa do que anteriormente se pensara: os descendentes de grupos de agricultores e de caçadores-recolectores que procuraram encontrar na Península Ibérica o refúgio climático que os rigores da Idade do Gelo impunham à Europa há mais de 15 mil anos eram o resultado resultado genético dessa união.

Também um trabalho que a revista Science publicou (“online”) igualmente em meados do passado mês de Março – “The genomic history of the Iberian Peninsula over the past 8000 years” – e que foi levado a efeito por mais de uma centena de geneticistas, antropólogos e arqueólogos revelou que uma migração ocorrida há cerca de 4500 anos (no início da Idade do Bronze) proveniente das estepes junto aos mares Negro e Cáspio (localizados no território em que actualmente se situa a Rússia) veio, por sua vez, alterar significativamente o ‘conteúdo’ genético que então ‘compunha’ o território ibérico.

Mas, de facto, o que estes estudos vieram, uma vez mais, confirmar é que o material genético de cada um de nós nada mais é do que o resultado de sucessivas vagas de migrações e de ‘misturas’.

02/04/2019

"O que é a Verdade?"

O Evangelho de João diz que Jesus Cristo e Pôncio Pilatos (então o governador de Roma na Judeia) encetaram uma espécie de duelo filosófico durante o julgamento de Jesus.

– "Dizes que eu sou um rei. Efectivamente, a razão por que nasci e vim ao mundo é testemunhar a Verdade. Todos quantos estejam do lado da Verdade me ouvem", afirmou Jesus.

– "O que é a Verdade?", perguntou Pilatos.

01/04/2019

Sísifo e o Forte da Graça

O antigo ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, invocou, recentemente, a figura de Sísifo - personagem da mitologia grega condenada para todo o sempre a subir uma montanha empurrando uma enorme pedra sem nunca conseguir, no entanto, alcançar o seu topo.

Ora, um dos destinos de alguns condenados na instituição militar de outrora era exactamente subir a grande elevação em que se situava - e situa - o Forte da Graça, em Elvas, com um barril cheio de água mas vê-lo despejado uma vez chegados ao cimo.

Semelhanças?