30/04/2019

O 'peso' da História e o dos 'heróis'

Um artigo de opinião com o título "Hong Kong, like India, needs to remember the truth about british colonialism" que a edição "online" do jornal South China Morning Post publicou há alguns anos afirmou, por exemplo, existirem "em Moscovo, dois memoriais, construídos pelo Estado, em honra dos milhões de vítimas de Stalin, incluindo um "museu do Gulag". No entanto, em Washington como em Londres, não existem quaisquer monumentos dedicados aos horrores da escravatura e às crueldades do colonialismo.". 

Ora, penso que lembrar o conteúdo deste artigo de opinião é duplamente oportuno.

Por isto:


a) o domínio político da Índia pelo Reino Unido durou de 1757 até 1947. Ora, em 13 de Abril de 1919 – e numa altura em que Winston Churchill ocupava o cargo de secretário de Estado da guerra –, um chefe militar britânico ordenou aos militares que comandava que disparassem sobre uma multidão que se encontrava reunida pacificamente assassinando, desse modo, centenas de pessoas. No entanto, tal chefe militar acabou mesmo por receber, anos depois, honras de Estado no seu funeral ‘apagando-se’ assim as suas responsabilidades - e as da própria potência colonizadora e seus agentes políticos - naquele que é ainda hoje lembrado como o "massacre de Amritsar";


b) E já em 1943, em plena II Guerra Mundial, o estado de Bengala viu morrer cerca de três milhões de pessoas. Assassinadas pois, já que morreram de fome quando, segundo um estudo publicado no jornal Geophysical Research Letters em Fevereiro passado, a comida disponível na Índia foi 'exportada' para a metrópole colonizadora para auxiliar nos esforços de combate à tirania do Eixo... Ora, que ´titulo’ se atribui a alguém que mata pessoas? Assassino e, eventualmente, genocida, certo? (lembro também que Winston Churchill foi o primeiro-ministro do Reino Unido entre 1940 e 1945).


Recordo, apenas, que nunca as autoridades britânicas pediram formalmente desculpa pelo sucedido em 1919 (e suponho que também nunca o tenham feito em relação ao genocídio de 1943).





Post scriptum: afirmo também, uma vez mais, a necessidade de que em Portugal, para honrar uma dimensão negativa da sua História - e honrar igualmente a memória dos muitos milhões de seres humanos que colonizou e escravizou -, embora de forma muito tardia, claro, se edifiquem núcleos museológicos e educativos e que, sobretudo, tal se 'fale' seriamente na Escola.

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