O
historiador Jorge Martins referiu também, na entrevista radiofónica
que citei, que "No caso da Inquisição, de facto, foi um erro
histórico. Nós pagámos caro esse erro a vários níveis: a nível
económico, financeiro, cultural, científico, mental e religioso".
No
entanto, segundo os autores da "História da Inquisição
Portuguesa (1536-1821)", de José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci, "A sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas
dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e
pensar".
Ora,
se ainda hoje, quase dois séculos passados do fim da
Inquisição, Portugal sofre consequências da repressão do Tribunal
do Santo Ofício, quem quer que tivesse passado os olhos pela
‘entrada’ dedicada ao Renascimento em Portugal feita pelo "Dicionário de História de Portugal" (‘dirigido’ por Joel Serrão
no início da década de 1990), poderia, ao invés, ter ficado com a
ideia de que o movimento inquisitorial mais não havia sido do que um
mero episódio da História portuguesa: "Durante largo tempo, o
País tornar-se-á a plataforma entre a Europa e a África, o Oriente
e o Brasil. Adquirem-se novos hábitos de vida, o luxo campeia.
Período agitado por sua vez, o Renascimento, desde algumas
dificuldades de política interna, a presença armada nas fortalezas
do Norte de África e do Oriente, as diligências diplomáticas para
a delimitação de territórios ultramarinos, o estabelecimento da
Inquisição (…). O que caracteriza iniludivelmente o Renascimento
em Portugal é o seu cosmopolitismo, com as consequências que daí
advêm; cosmopolitismo em dupla direcção: em direcção à Europa,
por um lado, em direcção ao ultramar, por outro lado".
Não
foi essa, no entanto, a opinião que cresceu na minha mente.
De
facto, como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de
portugueses "lidavam", quotidianamente, com o exotismo
proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no
Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República,
Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição
mundial de Lisboa, a Expo’98, "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o mundo" –, tivesse
‘nascido’ um mecanismo comandado pela Coroa Portuguesa e pela
Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta
e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através
dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie
humana: a intolerância?
Não
tenho, por isso, dúvidas de que a Inquisição – cujo lema era "Misericórdia e Justiça" –
impediu sempre a ‘instalação’ em Portugal de um verdadeiro "humanismo global" (nas palavras de Vitorino Magalhães
Godinho).