Não
sendo eu escritor concorri, no final de 2017, à sétima edição do
Festival Literário de Macau – Rota das Letras (que se
realizou em Março do ano seguinte) e, pois, à publicação do
meu texto no volume da colecção "Contos e Outros Escritos".
Um texto – conto – que deveria ter a cidade de Macau como ‘pano de fundo’ ou como tema e que deveria ser totalmente inédito.
Ora, obviamente que o texto por mim proposto não foi seleccionado como vencedor.
No entanto, querendo eu acreditar que não estaria assim tão mal escrito quanto este desfecho poderia, talvez, facilmente deixar prever, atrevo-me a republicar, por assim dizer, esse texto.
«Macau
"Sou
um ocidental que não só rejeita por instinto qualquer espécie de
imposições culturais como aceita, por respeito, ficar do lado de
fora daquilo que nunca chegará a entender satisfatoriamente. Estou
consciente de que daria um mau antropólogo. E, certamente, um
catequista ainda pior.".
Admito
que, sendo português e antropólogo, não me lembrei de nada mais a
não ser da frase que tinha lido num livro do escritor José Saramago
quando o director da unidade de investigação da universidade em que
trabalhava me propôs efectuar uma pesquisa em Macau.
"Gostaríamos
que passasse algum tempo em Macau para perceber o que é feito do
património que Portugal aí deixou em 20 de Dezembro de 1999 –
data estabelecida com o governo chinês para a saída política e
administrativa da cidade".
"Que
tipo de património?", questionei.
"Material
e imaterial: a arquitectura, a religião cristã, a gastronomia, a
comunidade e a língua portuguesas", esclareceu-me.
Na
verdade, não só a ideia de ir até Macau não me desagradou (já
que o Extremo Oriente sempre me fascinou) como achei muito pertinente
o motivo académico apresentado.
Confesso,
porém, sem qualquer pejo, que o meu desconhecimento em relação a
Macau era enorme: "Macau foi um território português, certo?",
perguntei ainda.
"Errado",
corrigiu-me de imediato. "Macau sempre foi uma cidade chinesa e os
chineses apenas deixaram que os portugueses a administrassem no
papel. Durante mais de quatro séculos...".
Pedi
algum tempo para pensar.
Mas
não foi preciso muito...
Sem
responsabilidades familiares, no dia seguinte a ter-me sido
apresentada a proposta fui dizer ao meu director que aceitava o
desafio.
"Pode
contar comigo", disse-lhe.
"Óptimo",
respondeu.
Explicou-me,
então, os contornos logísticos e metodológicos da minha estadia em
Macau: "Ficará alojado durante um mês nas instalações da
instituição de ensino com a qual a nossa escola tem um acordo de
intercâmbio académico. Fará entrevistas a governantes da cidade
(actuais e, se possível, passados), a responsáveis de instituições
cívicas de origem portuguesa e macaense e a outras personalidades a
definir. Pesquisará bibliografia e documentação consideradas
relevantes e, não menos importante, observará e, eventualmente,
tomará notas. Será, em suma, um antropólogo de campo. Escreverá,
depois, um relatório e, muito possivelmente, um livro".
"Muito
bem", retorqui.
"E
quando partirei?", perguntei novamente.
"Pois,
esqueci-me de lhe dizer: voará no dia 23 deste mês para Pequim e,
algumas horas depois, seguirá para Macau. Sugiro, pois, que vá
adiantando trabalho", observou.
"Absolutamente",
concordei.
A
consulta de alguma bibliografia sobre Macau e algumas conversas com
especialistas que me pudessem falar da cidade e do território, eis o
meu plano de trabalho em Lisboa.
Até
porque tinha já lido que qualquer investigador se encontrava
contextualizado e estava condicionado pela sua própria cultura.
A
solução para o contrariar?
Ora,
tentar, primeiramente, “libertar-se” das barreiras impostas
travando um diálogo com autores de outros tempos, de outros lugares
e de outros domínios disciplinares.
Assim
fiz.
Li
e conversei.
Desde
logo, com uma especialista em História.
"Cara
Professora, gostaria que me falasse de Macau", propus.
"Obrigado,
antes de mais, por se ter lembrado de me convidar. De facto,
assinalaram-se, em 2013, oitocentos e setenta anos da fundação de
Portugal e, paralelamente, quinhentos do início das relações entre
Portugal e a China. Efectivamente, em finais de Quatrocentos, os
ventos da História começaram a empurrar as naus portuguesas em
direcção ao Oriente onde, em 1513, chegaram a uma China que tinha
sido, economicamente, uma das principais potências do mundo mas que,
em virtude da vontade do imperador, se havia fechado sobre si própria
e, assim, ao mundo. Ora, os “bárbaros do mar do Sul” (designação
que os chineses davam aos estrangeiros que aportavam na costa
meridional da China) foram, progressivamente, empurrados para uma
península localizada no delta do Rio das Pérolas de onde poderiam
ser mais e melhor controlados: Macau – ou, antes do tempo e dos
homens o modificarem, A-Ma-Gao. E que serviria para “contornar”
aquela disposição oficial já que se tornaria o único porto de
entrada e de saída do império chinês nos séculos seguintes.
Corria o ano do Senhor de 1557 quando aí chegaram. Aqueles ficaram.
Outros chegaram. E outros, e outros, e outros… Por lá ficaram até
1999 quando negociações políticas prévias os obrigaram a sair.
Virou-se, nesse Domingo, 19 de Dezembro de 1999, uma página da
história de Macau que Portugal tinha, também, ajudado a escrever.
Uma página escrita durante quatrocentos e quarenta e dois anos. O
território de Macau voltou, a partir da meia-noite de 20 de
Dezembro, a ser formalmente administrado pela China e integrado na
Região Administrativa Especial de Macau (a RAEM) ao abrigo da
política oficial “Um país, dois sistemas”".
"Ou
seja, Portugal devolveu Macau à China?", perguntei.
"Ouça:
Macau nunca foi uma colónia uma vez que a soberania portuguesa,
antiga, pois, de mais de quatro séculos, nunca foi reconhecida pelas
autoridades chinesas: o território era uma fracção de terra
simplesmente arrendada. Nem conquistada, nem oferecida",
explicou-me.
"Não
sei se por causa disso ou se por causa dos 11 mil quilómetros de
distância entre Portugal e Macau", acrescentou, "este sempre foi
olhado pela capital do império com menos atenção, com desinteresse
e com indiferença! Não será, assim, muito estranho entender que,
em Macau, portugueses e chineses tenham sempre vivido de costas
voltadas", rematou.
E,
também, com um arquitecto “filho da terra”.
"A
marca da presença portuguesa de tantos séculos poderia e deveria
ter sido muito mais profunda e forte. Lamento que Portugal tivesse
“acordado” tão tardiamente da sua letargia e passividade quanto
à promoção da cultura portuguesa em Macau. É que, na verdade, não
tendo sido espectacular a “dimensão” do legado cultural que
Portugal deixou em – e a – Macau, ainda é nos pequenos feitos da
vida do dia-a-dia, nos pormenores menos aparatosos, nos costumes e na
filosofia de vida, na tolerância, no humanismo e na convivência
pacífica de todos que se poderá descobrir a maior influência
portuguesa, que se foi “entranhando” e consolidando em Macau,
pouco a pouco, imperceptivelmente, ao longo dos séculos".
E
conversei e li.
Numa
entrevista concedida em Novembro de 1999 a jornalistas portugueses,
Edmund Ho (que, em Maio desse ano, através de um processo político
conduzido desde Pequim, havia sido o seleccionado para comandar os
destinos do executivo da RAEM a partir de 20 de Dezembro) assegurou
que a presença portuguesa continuaria a ser, de facto, necessária
enquanto vector fundamental da identidade de Macau.
Porquê?
Talvez
porque Macau era um dos pouquíssimos lugares da China diferente de
tudo o resto: uma espécie de miniatura da Europa.
Do
Sul, claro.
Mas,
o tempo, esse, tirano como sempre, foi passando e o dia da minha
partida chegou.
Ainda
bem.
O
sonho estava prestes a transformar-se em realidade.
No
entanto, quando entrei no avião que me haveria de levar a Pequim e,
depois, a Macau, despi a capa de etnocentrismo que me cobria a pele:
é óbvio que nunca iria deixar de ser quem era mas poderia – e
deveria… –, isso sim, abandonar a pouca postura de arrogância
cultural que ainda me restava.
Sabendo
que, em Macau, poucas pessoas se conseguiriam exprimir na língua
inglesa, tinha levado a morada do meu destino escrita num papelinho
em cantonense.
Apresentei-a
a um taxista e combinei o preço da viagem.
Partimos.
Notei,
durante a breve viagem, a quantidade de pessoas que circulava nas
ruas.
É
absolutamente natural que o tivesse observado pois tinha acabado de
sair de um país com cerca de 115 habitantes por cada quilómetro
quadrado quando Macau era um território com uma das maiores
densidades populacionais do mundo...
Reparei,
ao chegar, que estavam já à minha espera.
Indicaram-me
o quarto que serviria de meu quartel-general durante o próximo mês
e mostraram-me as instalações.
Fisicamente
esgotado devido aos efeitos da longa viagem, do grau de humidade do
ar e da diferença horária em relação a Lisboa, durante um par de
dias só saí do quarto para me alimentar.
Apenas
depois de me achar restabelecido é que comecei a trabalhar.
Primeira
paragem: a biblioteca pública da cidade.
A
minha primeira tarefa era encontrar bibliografia e quaisquer
documentos (álbuns fotográficos, por exemplo) que pudessem trazer
alguma luz à temática em causa.
Depois
de algum trabalho de “detective”, consegui-o.
Devo
dizer que isso não me surpreendeu dada a riqueza do espólio do
arquivo macaense.
Para
além de que os bibliotecários me ajudaram muito nessa ‘missão de
busca’.
Apercebi-me
então, melhor, do quão a frase proferida, certo dia, pelo escritor
José Maria Eça de Queiroz, "Tudo muda menos a China", estava
desactualizada.
No
que se referia à dimensão material, pelo menos.
Folheei,
de facto, álbuns de fotografias e consegui viajar pelo passado
histórico de Macau: alguns edifícios e bairros que, li-o, tinham
sido testemunhas silenciosas (mas atentas) de tantas acções humanas
(como, entre tantas outras, as dos governadores portugueses e as dos
actores norte-americanos Clark Gable e Orson Welles) haviam,
entretanto, desaparecido ou sido profundamente modificados.
Consumi
neste trabalho de leitura cerca de duas semanas mas tinha já
solicitado entrevistas a responsáveis pela política, pela cultura e
pelos assuntos sociais no território.
O
que, pensei esperançado, não seria muito difícil de obter dadas as
credenciais da investigação que me levara a Macau.
Felizmente
não me equivoquei pois todos aqueles que contactei aceitaram
efectuar uma troca de palavras.
O
espírito multicultural de Macau tinha-o facilitado, quis acreditar.
Todos
me disseram que as autoridades políticas de Macau tinham, desde 20
de Dezembro de 1999, acarinhado, protegido e estimulado a sua herança
lusófona.
Recordo-me
de três respostas.
Uma,
‘proveniente’ de uma pessoa natural de Portugal e funcionária de
uma instituição local de solidariedade: "Creio que o território
de Macau se tem conseguido afirmar como uma espécie de
ponta-de-lança lusófono na Ásia: a pérola mestiçada do
Oriente!".
E
outra, dada por um actual responsável político de Macau: "se
é um facto que, até há
poucas décadas, fruto de migrações de zonas mais ou menos
próximas, poucos, de entre o meio milhão de residentes em Macau,
daqui
eram naturais, o que implicava, necessariamente,
um menor interesse e uma menor participação na condução dos
destinos da vida quotidiana do território, hoje, pelo contrário,
continuamos a assistir a uma mudança progressiva deste cenário o
que tem levado a que os próprios cidadãos de Macau assumam como
benéfico, perante si mesmos e perante os chineses de todas as outras
partes da China, a preservação da memória, material e imaterial.
Como quem diz: “nós, os de Macau, somos diferentes de vocês,
compatriotas chineses, porque temos aqui, também, as ruínas da
igreja de S. Paulo, a calçada portuguesa, a azulejaria, a língua
portuguesa…”".
A terceira resposta desta
lista improvisada foi-me dada por uma dirigente portuguesa de uma
instituição portuguesa: "Tal particularidade lusófona tem
permitido à RAEM e, pois, à República Popular da China, a
‘aproximação’, em diversos domínios como o económico, o
cultural, o social ou, até, o desportivo, a regiões e a países do
globo que tiveram uma mais vincada relação histórica com Portugal.
Isto é, ao Brasil, aos países africanos de língua oficial
portuguesa e a Timor-Leste. Só assim se perceberá que eventos
vários como o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial
entre a China e os Países de Língua Portuguesa (ou, muito
simplesmente, o “Fórum Macau”), o Fórum China-América latina,
a Festa da Lusofonia, a Semana Cultural da China e dos Países de
Língua Portuguesa, o festival literário de Macau Rota das Letras ou
os Jogos da Lusofonia tenham já adquirido uma enorme importância –
simbólica e tangível. Ou seja, Macau como um ‘laboratório’ da
China para melhor aprender como se lidava com a Lusofonia".
Assim, estando cumpridos
quase todos os objectivos do trabalho que me tinha sido confiado,
optei por aproveitar um pouco mais a minha visita a este minúsculo
território chinês para conhecer alguns pontos de interesse
histórico e não só: o farol da Guia, a fachada da igreja de S.
Paulo (que acolheu, por essa altura, um espectáculo de ópera
kunqu), os templos de A-Ma e de Na Tcha, a praça do Tap Seac, a
Torre de Macau e, naquela que alguns consideravam ainda a “Las
Vegas da Ásia”, o edifício de um casino (no qual, esforçando-me,
consegui encontrar alguns elementos representativos do famoso feng
shui – “vento e água” – e da chi – “energia” –
orientais...).
Para além de lojas.
Pois então, foi precisamente
numa loja – de antiguidades, por sinal – que encontrei alguém
que (não o sabia, claro, na altura) iria mudar a minha vida.
Já não me lembro
exactamente por que razão mas a verdade é que começámos a
conversar.
Ela, malaia.
Eu, português.
A língua franca não foi já
o português de outrora: foi em inglês que nos entendemos.
"Eu vim do Bairro Português
de Malaca a Macau para ter um certo vislumbre do que é Portugal,
terra que amo e que nunca vi", confidenciou-me.
Emocionei-me.
Ah, mas isso já é outra
história…".
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