09/03/2020

A VOC e a "Peregrinação"

Volto à "Vereenigde Oostindische Compagnie" – VOC –, a Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Constituída em 1602 (e dissolvida em 1798) e agrupando mercadores de várias cidades da Holanda, a VOC tinha como principal objectivo adquirir, e consolidar, um lugar no Comércio com o Oriente suplantando os seus inimigos ingleses (com a sua "East India Company") e portugueses (com a sua "Carreira da Índia").

Ora, sobrepor-se aos demais concorrentes significava para a VOC ter de participar em operações militares: eis a razão de, no seu seio, se ter formado um grupo constituído por mercenários suíços.

Grupo que, de resto, tinha como lema "Terra et Mare" e "Fidelitas et Honor" (ou, em português, "Na Terra e No Mar" e "Fidelidade e Honra").

Ou seja, superioridade militar.

Mas não só.

De facto, a muitos funcionários da Companhia Holandesa das Índias Orientais era solicitada a leitura da "Peregrinação" antes de embarcarem rumo ao Oriente.

Na verdade, assinalaram-se, em 2014, os 400 anos da publicação da "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto.

"Peregrinação" foi uma obra escrita em Almada (numa altura em que o autor se encontrava já afastado das suas jornadas mais aventureiras e agitadas) e publicada, postumamente, em 1614. Desde logo, em língua portuguesa, mas, pouco depois, noutros idiomas: em castelhano (a primeira edição espanhola data de 1620), em francês (com a sua primeira edição a ter lugar em Paris em 1625), em neerlandês (1652), em inglês (1653) e em alemão (1671).

É que "Peregrinação" – como destacava a capa da primeira edição inglesa – relatava as vivências e impressões do autor em muitos "reinos do Oriente" como o da Malásia, o do Sião (hoje, a Tailândia), o do Pegu (hoje, a Birmânia) ou o da China ao mesmo tempo que descrevia a sua "religião, leis, riquezas, costumes e formas de governo".

Mas a "Peregrinação" era, simultaneamente, como refere uma recente edição portuguesa, "um romance de crítica à sociedade do tempo: denúncia de atrocidades, ingratidões, desmandos, fraudes, hipocrisia e falsa religiosidade".

Sociedade de que, relembre-se, Fernão Mendes Pinto também fazia parte pelo que não podia, ele próprio, escapar às críticas tecidas.

Foi, no entanto, muito provavelmente, Fernão Mendes Pinto (para além de "marinheiro, senhor, escravo, jesuíta, pirata, mercador, juiz, escritor" como evoca o monumento erigido no Pragal, em Almada, por ocasião do 4.º centenário da sua morte, em 1983), independentemente da sua maior ou menor imaginação, o primeiro a recorrer, de forma sistemática e exaustiva, aos métodos fundamentais que, séculos mais tarde, viriam a ser reclamados pela ciência etnográfica para a obtenção de informação e simples relatos descritivos, isto é, a observação e a participação directas (na ‘primeira pessoa’) nos acontecimentos.

Contributo maior para a Europa ganhar uma maior consciência dos outros e, portanto, de si própria (e, talvez, um precioso auxílio para espoletar ou acelerar o início do fim do império português em terras do Oriente…), "Peregrinação" é, ainda hoje, um dos títulos em língua portuguesa mais traduzidos em todo o mundo.

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