Os ministros dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves le Drian, e o seu homólogo japonês, Taro Kono, firmaram, há poucos dias, um acordo para reforçar a cooperação entre a França e o Japão no domínio marítimo.
Isto é, cooperação, no Mar, nas 'áreas' da segurança, ciência, clima e economia.
Ao invés, "Downing Street", talvez recordando-se do percurso chauvinista e nacionalista de um seu primeiro-ministro da segunda metade do século XIX, Lord Palmerston, e talvez estando já a preparar a saída da União Europeia - o "Brexit" -, irá privilegiar uma outra abordagem: o país estabelecerá uma base naval na Ásia (em Singapura ou no sultanato do Brunei) - bem como na América (nas Caraíbas).
Assim, cooperação de um lado e afirmação do poder militar do outro lado.
Ou, por outras palavras, uma visão 'virada' para o presente - e, claro, também para o futuro - contra uma visão 'atrelada' ao passado imperial.
O que preferirão os povos?
31/01/2019
Cooperar Vs. reinventar um império?
30/01/2019
A Paz de Vestefália e o direito internacional
Uma exposição patente no já por mim aqui citado Arquivo Nacional Torre do Tombo dedicada ao património, material e imaterial, europeu refere o seguinte no que à Paz de Vestefália diz respeito:
"A Paz de Vestefália descreve a totalidade dos tratados de paz que foram negociados e acordados nas cidades de Münster e Osnabrück em 1648. Esses tratados puseram termo à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que todas as principais potências europeias estiveram envolvidas e que não foi apenas um conflito entre Estados, mas também entre religiões. Além disso, o conflito também pôs fim à Guerra da independência dos Países Baixos (1568-1648) contra a Espanha.
A Paz de Vestefália foi um evento fulcral no desenvolvimento da noção de Estado e do direito internacional. É um evento fundamental uma vez que a paz foi conseguida por meio de negociações diplomáticas, e não pela força. Os princípios aí desenvolvidos continuam a produzir os seus efeitos e moldaram de forma decisiva a ordem reinante na Europa de hoje.".
Pois sim.
No entanto, tomando em linha de conta um conjunto de acções que têm vindo a ser empreendidas e que têm também vindo a 'moldar' não apenas a "Europa de hoje" (estou, por exemplo, a lembrar-me de acções militares não autorizadas pela Organização das Nações Unidas), concordo em absoluto com o conteúdo de uma afirmação que terá sido feita pelo antropólogo anglo-americano Ashley Montagu já (ou ainda) no século XX: "O direito internacional apenas existe nos livros de direito internacional".
"A Paz de Vestefália descreve a totalidade dos tratados de paz que foram negociados e acordados nas cidades de Münster e Osnabrück em 1648. Esses tratados puseram termo à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que todas as principais potências europeias estiveram envolvidas e que não foi apenas um conflito entre Estados, mas também entre religiões. Além disso, o conflito também pôs fim à Guerra da independência dos Países Baixos (1568-1648) contra a Espanha.
A Paz de Vestefália foi um evento fulcral no desenvolvimento da noção de Estado e do direito internacional. É um evento fundamental uma vez que a paz foi conseguida por meio de negociações diplomáticas, e não pela força. Os princípios aí desenvolvidos continuam a produzir os seus efeitos e moldaram de forma decisiva a ordem reinante na Europa de hoje.".
Pois sim.
No entanto, tomando em linha de conta um conjunto de acções que têm vindo a ser empreendidas e que têm também vindo a 'moldar' não apenas a "Europa de hoje" (estou, por exemplo, a lembrar-me de acções militares não autorizadas pela Organização das Nações Unidas), concordo em absoluto com o conteúdo de uma afirmação que terá sido feita pelo antropólogo anglo-americano Ashley Montagu já (ou ainda) no século XX: "O direito internacional apenas existe nos livros de direito internacional".
29/01/2019
Voltarão?
De
origem germânica, os Visigodos estabeleceram um império no ‘flanco’
Sul da Europa Ocidental no século V: de
facto, na segunda metade do século VI, a Península Ibérica era já
o centro do poder visigótico (Leovigildo, rei deste povo, fez mesmo
da cidade espanhola de Toledo a sua
capital).
Mas,
no século VIII, a Península Ibérica foi uma vez mais invadida.
Desta feita por um outro povo
vindo do Sul: o Muçulmano (ou Mouro).
Ora, o ano de 2019 marca os oitocentos e trinta anos da conquista de Silves por tropas fiéis ao rei D. Sancho I.
Foi,
de facto, em 1189 que a conquista cristã da cidade até então
na posse dos Mouros ocorreu.
Mas não se tratou de uma conquista duradoura pois cerca de dois anos depois, em 1191, os Mouros reconquistaram Silves (a que se lhe 'juntaram' Alcácer do Sal, Palmela e Almada).
Efectivamente, a totalidade da região do Algarve apenas seria completamente dominada pelos Cristãos - através do rei D. Afonso III - em 1249.
Na verdade, ainda hoje a presença muçulmana se faz sentir e nem sempre traz consigo efeitos positivos: grupos islâmicos da actualidade - como o autoproclamado Estado Islâmico - reivindicam o restabelecimento da referida presença islâmica na Península Ibérica (em que Portugal se inclui, claro) com base naquele seu estabelecimento (antigo, nalgumas áreas da Península, de meio milénio) - o Al-Andaluz.
***
Creio
que nunca é demais falar na presença muçulmana em Portugal. Peço,
por isso, auxílio às instrutivas e sábias explicações do
Professor José Hermano Saraiva num programa televisivo por si
apresentado (salvo erro, da série "A
Alma e a Gente"):
"Como
todos sabem, os árabes [eram sobretudo muçulmanos do Norte
de África. Árabes vindos da zona do Próximo Oriente eram poucos]
iniciam a sua invasão no ano 711
[da chamada era cristã]. Bom,
vão rapidamente até ao Norte da Península [Ibérica] porque
em 722 (portanto onze anos depois) já é a batalha de Covadonga –
Covadonga é a primeira batalha entre cristãos e mouros para a
Reconquista. Isso quer dizer que eles em dez anos chegaram de cá de
baixo até lá cima. E depois os cristãos tentam reconquistar a
Península. Mas não demoraram dez anos. Demoraram setecentos e
setenta porque só acabaram a Reconquista com a conquista do Reino de
Granada que foi em 1492. (…)
Como é que os mouros demoram dez anos a ‘apanhar’ a terra toda e
os cristãos demoram setecentos e setenta a recuperá-la? (…) Há
uma fábula – a fábula do
avarento e dos ladrões – o
avarento levava um burro com as albardas pesadíssimas com todo o seu
ouro, e nessa altura vinham lá os ladrões e o avarento disse ao
burro: "foge, foge, que vêm lá os ladrões". E
o burro perguntou: "mas vou fugir… o que é que eles me fazem?". "Opá, põem-te umas albardas…". "Assim como estas?". "Sim,
como essas!". "Então tanto me faz. Albarda por albarda tanto me
faz ser burro de um ladrão como burro de um avarento...".
Ora, é isso que acontece com a
invasão árabe: quando os árabes chegam as populações não são
livres. Não se pense isso. Estão sob o domínio pesadíssimo dos
senhores visigóticos que são sustentados pelas populações (têm
pesados tributos) – são os visigodos a origem da nobreza … –.
Ora bem, os árabes são muito menos exigentes: cobram um tributo
mais leve.
(…) Então e a religião? Eles
passam assim do Cristianismo para o Islamismo? Não, não passam
coisa nenhuma porque os invasores tinham inteligência de ser
tolerantes: quem quisesse continuar cristão continuava cristão, a
igreja continuava aberta, os sacerdotes continuavam a dizer missa.
Era preciso, é claro, era pagar um impostozito...o que fazia com que
as autoridades árabes até preferissem que a população continuasse
cristã que era maneira de guardarem o imposto (de outra maneira não
ganhavam nada). Bom, isso é que explica que as populações
aceitaram como uma libertação a vinda dos árabes. E, depois,
quando os senhores visigodos voltaram aceitaram isso – a
Reconquista – como um regresso à opressão. E há inúmeras
revoltas dos povos que os visigodos diziam que libertavam mas que,
realmente, se revoltavam contra os seus senhores. (…) Contra os
seus próprios senhores.
Bom,
é isso que explica que, realmente, há regiões da Península onde a
dominação árabe durou muito tempo – no Sul durou mais de sete
séculos; no Norte durou poucas dezenas de anos"....
28/01/2019
Como outro qualquer
Escreveu a professora Teresa Ferreira Rodrigues na "História de Portugal" publicada sob a direcção de José Mattoso o seguinte:
"Assim, se a maior parte da população vivia em domínios que eram senhorio directo do rei, uma grande fatia continuava nas mãos da grande aristocracia próxima da família real e nas das ordens militares, à frente das quais se encontravam parentes muito próximos do monarca".
De resto, o historiador Oliveira Marques na sua "História de Portugal" escrevera igualmente as seguintes palavras:
"Assim, se a maior parte da população vivia em domínios que eram senhorio directo do rei, uma grande fatia continuava nas mãos da grande aristocracia próxima da família real e nas das ordens militares, à frente das quais se encontravam parentes muito próximos do monarca".
De resto, o historiador Oliveira Marques na sua "História de Portugal" escrevera igualmente as seguintes palavras:
"Dentro
dos seus senhorios (geralmente chamados coutos se pertenciam à
Igreja, honras se à nobreza), os senhores tinham toda a autoridade,
embora o rei conservasse os direitos de justiça suprema (direito de
pena de morte e de corte de membros), que sempre se esforçou por pôr
em prática.
Nesses senhorios vivia uma
população composta principalmente de servos, ligados à terra que
cultivavam.
O
rei mostrava-se um senhor como outro qualquer e a situação dos
habitantes das suas terras (reguengos) era idêntica".
26/01/2019
Portugal e Camões
Foi, há dias, lançado o primeiro volume de uma colecção dedicada ao percurso de vida de algumas personalidades portuguesas 'ligadas' à cultura.
Cultura contemporânea, por sinal.
Ora, de nada mais precisei para me recordar de uma frase que o Prof. José Hermano Saraiva proferiu num seu programa televisivo da série "A Alma e a Gente" - no 'episódio' " Constância, vila poema" -, emitido em 2010 pela Rádio e Televisão de Portugal (a RTP):
"É uma pena que um país que tem tão pouca gente 'grande' tenha prestado tão pequenas homenagens ao maior de todos nós".
Acho, porém, ser evidente que enquanto alguns consideram terem sido prestadas "tão pequenas homenagens" a Luís Vaz de Camões, outros considerarão, ao invés, que a este têm sido prestadas "grandes homenagens"...
Mas penso também que todos quantos amam a Língua Portuguesa reconhecerão, facilmente, que Luís Vaz de Camões é um dos maiores - se não mesmo o maior - 'vultos' de uma das (poucas) línguas verdadeiramente universais já que é hoje falada por povos em quatro continentes do mundo.
Post scriptum: a cada quatorze dias 'morre', no mundo, uma língua...
Cultura contemporânea, por sinal.
Ora, de nada mais precisei para me recordar de uma frase que o Prof. José Hermano Saraiva proferiu num seu programa televisivo da série "A Alma e a Gente" - no 'episódio' " Constância, vila poema" -, emitido em 2010 pela Rádio e Televisão de Portugal (a RTP):
"É uma pena que um país que tem tão pouca gente 'grande' tenha prestado tão pequenas homenagens ao maior de todos nós".
Acho, porém, ser evidente que enquanto alguns consideram terem sido prestadas "tão pequenas homenagens" a Luís Vaz de Camões, outros considerarão, ao invés, que a este têm sido prestadas "grandes homenagens"...
Mas penso também que todos quantos amam a Língua Portuguesa reconhecerão, facilmente, que Luís Vaz de Camões é um dos maiores - se não mesmo o maior - 'vultos' de uma das (poucas) línguas verdadeiramente universais já que é hoje falada por povos em quatro continentes do mundo.
Post scriptum: a cada quatorze dias 'morre', no mundo, uma língua...
25/01/2019
Aral e o ouro branco
A cultura do algodão - sim, o mesmo que 'habita' algum do vestuário que utilizamos - consome grande quantidade de água.
Ora, a íntima e desigual relação entre o mar de Aral e a cultura do algodão é exactamente esta: a água.
De facto, a então União Soviética decidiu, há mais de meio século, transformar um país que regia - o Uzbequistão - num grande produtor de algodão à escala mundial.
E conseguiu.
O Uzbequistão logrou, no espaço de alguns anos, alcançar o segundo lugar mundial entre os países produtores de algodão.
Mas à custa da água do mar de Aral: outrora um dos maiores lagos do mundo (tão grande que era designado mar...), a sua água serviu para irrigar a cultura do algodão naquele país da Ásia Central.
Consequência: hoje, o dito mar já quase não existe.
Assim, quais serão, por exemplo, as implicações no contexto geopolítico da região?
Ora, a íntima e desigual relação entre o mar de Aral e a cultura do algodão é exactamente esta: a água.
De facto, a então União Soviética decidiu, há mais de meio século, transformar um país que regia - o Uzbequistão - num grande produtor de algodão à escala mundial.
E conseguiu.
O Uzbequistão logrou, no espaço de alguns anos, alcançar o segundo lugar mundial entre os países produtores de algodão.
Mas à custa da água do mar de Aral: outrora um dos maiores lagos do mundo (tão grande que era designado mar...), a sua água serviu para irrigar a cultura do algodão naquele país da Ásia Central.
Consequência: hoje, o dito mar já quase não existe.
Assim, quais serão, por exemplo, as implicações no contexto geopolítico da região?
24/01/2019
Os judeus portugueses
Terá inicio, daqui a pouco, no Museu Abade de Baçal, em Bragança, uma Oficina de Conhecimento subordinada ao 'tema' da identidade dos judeus sefarditas naquela região de Trás-os-Montes.
Ora, num ano (2019) em que se assinala mais um aniversário da abertura, na capital holandesa, Amsterdão, da primeira sinagoga mandada construir por judeus portugueses (e seus descendentes, claro) - o 344. -, penso ser oportuno lembrar o quão mais pobre em termos sociais, culturais, económicos e financeiros Portugal ficou com a "emigração" em massa de cidadãos de origem judaica.
Tendo assistido ao confisco (ilegal) de muitos dos seus bens, os judeus portugueses foram enriquecer outros países (como a Holanda) onde não existia a sanha étnica e ideológica de uma qualquer Inquisição nem agentes políticos de 'vistas curtas'...
Ora, num ano (2019) em que se assinala mais um aniversário da abertura, na capital holandesa, Amsterdão, da primeira sinagoga mandada construir por judeus portugueses (e seus descendentes, claro) - o 344. -, penso ser oportuno lembrar o quão mais pobre em termos sociais, culturais, económicos e financeiros Portugal ficou com a "emigração" em massa de cidadãos de origem judaica.
Tendo assistido ao confisco (ilegal) de muitos dos seus bens, os judeus portugueses foram enriquecer outros países (como a Holanda) onde não existia a sanha étnica e ideológica de uma qualquer Inquisição nem agentes políticos de 'vistas curtas'...
23/01/2019
"Paine pour joie" e a história pública
Talvez não sejam poucos a saber que, na História de Portugal, nem só uma pessoa – D. Nuno Álvares
Pereira – ocupou o cargo de "Condestável".
Foram vários, de facto, aqueles que ostentaram esse título sendo que o primeiro foi D. Álvaro Pires de Castro, durante o reinado do rei D.
Fernando.
Na verdade, ser-se "Condestável de Portugal" significava que se era chefe do exército português e, portanto, uma das mais importantes personalidades da hierarquia do Estado.
Assim, e praticamente em meados do século XV, foi nomeado para ocupar esse cargo D. Pedro, filho do Infante D. Pedro e neto de D. João I (o primeiro mestre de Avis).
Ora, o Condestável D. Pedro adoptou como lema a expressão francesa "paine pour joie" ("A alegria depois do sofrimento",
em português).
Tal quereria reforçar que o momento presente se encontraria cheio de situações tristes e desagradáveis mas que os dias vindouros proporcionariam uma intensa 'luminosidade' e, enfim, alegria.
Tendo, no entanto, em consideração o facto de D. Pedro ter sido vítima, anos depois, de envenenamento (tal como, de resto, alguns dos seus
irmãos), será seguro afirmar que somente a "1.ª parte" desse lema – "paine" – descreveu a sua vida.
***
Poucos dias depois de ter visitado a exposição referente a Fernão Lopes, "Guardador das Escrituras que estom na Torre do Castello de Lisboa", patente no edifício do Arquivo Nacional Torre do Tombo (ANTT, em Lisboa), soube que havia sido encontrado para venda num portal digital dedicado a transacções comerciais (OLX, no caso) um
documento importante para a História de Portugal: em suporte pergaminho, o documento registando a escritura da entrega do Castelo de Lisboa ao Conde de Barcelos em Janeiro de 1383.
Confirmada a sua autenticidade, decidiu o referido ANTT adquiri-lo para lhe dar, depois, uma 'utilidade' pública.
Assim, em vez da sua compra por um qualquer particular permitir, apenas e só, uma utiliza ção privada, por assim dizer, o Estado português optou por, ao garantir a sua posse, proporcionar a todos a informação, certamente preciosa, nele presente.
Sábia decisão!
22/01/2019
Liberdade, lealdade e memória
"Chamo liberdade à minha ignorância do destino e destino ao meu ignorar da liberdade"
Agostinho da Silva (1906-1994), filósofo português
"Ser leal a si mesmo é a única forma de chegar a ser leal com os demais"
Vicente Aleixandre (1898-1984), escritor espanhol laureado com o prémio Nobel da Literatura
"Creio que nada substitui a leitura de um texto, nada substitui a memória de um texto, nada, nenhum jogo"
Marguerite Duras (1914-1996), escritora francesa
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