31/05/2019

Quem foi melhor?

O presidente norte-americano Abraham Lincoln foi já considerado pela maioria dos indivíduos que responderam a uma sondagem (ou inquérito) como o melhor presidente de sempre dos Estados Unidos da América.

Ora, creio que nunca participaria em votações deste género porque reconheço as minhas imensas dificuldades para, por exemplo, dizer que, em Portugal, a/o rainha/rei X foi a/o melhor monarca portuguesa/português de sempre ou que Y foi a/o pior monarca portuguesa/português (ou presidente da República) de ‘todos os tempos’.

Reconheço, por isso, que tais "rankings" são – como quase todos, aliás – muito subjectivos e (muito) pouco objectivos…

Limito-me, assim, a relembrar as e os 33 monarcas portugueses (e seus respectivos reinados) após, claro, ter recorrido a alguns manuais que me acompanharam enquanto estudante para não correr o risco de que alguma personalidade ficasse esquecida.


Dinastia Afonsina

- D. Afonso Henriques (de 1143 a 1185);

- D. Sancho I (de 1185 a 1211);

- D. Afonso II (de 1211 a 1223);

- D. Sancho II (de 1223 a 1248);

- D. Afonso III (de 1248 a 1279);

- D. Dinis (de 1279 a 1325);

- D. Afonso IV (de 1325 a 1357);

- D. Pedro I (de 1357 a 1367);

- D. Fernando (de 1367 a 1383);


Período de turbulência política (e social)


Dinastia de Avis (ou Aviz)

- D. João I (de 1385 a 1433);

- D. Duarte (de 1433 a 1438);

- D. Afonso V (de 1438 a 1481)
Como só tinha seis anos de idade, a regência do Reino foi assegurada, primeiro, por sua mãe, D. Leonor, e, depois, pelo seu tio, D. Pedro;

- D. João II (de 1481 a 1495);

- D. Manuel I (de 1495 a 1521);

- D. João III (de 1521 a 1557);

- D. Sebastião (de 1557 a 1578)
Como tinha só três anos de idade, a regência do Reino foi assegurada, primeiro, por sua avó, D. Catarina, e, depois, pelo seu tio-avô cardeal D. Henrique;

- Cardeal D. Henrique (de 1578 a 1580);


Período de turbulência política (e social)


Dinastia Filipina (ou castelhana)

- Filipe II de Espanha (o I.º de Portugal) (de 1581 a 1598);

- Filipe III de Espanha (o II.º de Portugal) (de 1598 a 1621);

- Filipe IV de Espanha (o III.º de Portugal) (de 1621 a 1640);


Período de turbulência política (e social): restauração da independência de Portugal


Dinastia de Bragança

- D. João IV (de 1640 a 1656);

- D. Afonso VI (de 1656 a 1683)
Como só tinha treze anos de idade, a regência do Reino foi assegurada por sua mãe, D. Luísa de Gusmão;

- D. Pedro II (de 1683 a 1706);

- D. João V (de 1706 a 1750);

- D. José I (de 1750 a 1777);

- D. Maria I (de 1777 a 1816)
No entanto, em virtude de ter enlouquecido, foi o seu filho D. João quem assumiu, a partir de certo momento, a regência do Reino;

- D. João VI (de 1816 a 1826);

- D. Pedro IV (1826)


Período de turbulência política (e social): estando D. Pedro IV no Brasil, nomeou como regente de Portugal a sua irmã, Infanta Isabel Maria. Para além do mais, abdicou D. Pedro IV a favor da sua filha, D. Maria II, que havia casado com o seu tio, D. Miguel, através de uma procuração. Este acabou por proclamar-se "rei absoluto" desencadeando uma guerra civil;

- D. Maria II (de 1834 a 1853);

- D. Pedro V (de 1853 a 1861)
Como era menor de idade, por assim dizer, a regência do Reino foi assegurada por seu pai, D. Fernando;

- D. Luís (de 1861 a 1889);

- D. Carlos (de 1889 a 1908);

- D. Manuel II (de 1908 a 1910, ano da implantação da República em Portugal).

30/05/2019

Joana d'Arc e Antónia Rodrigues

Com cerca de dezoito anos de idade, Joana d’Arc foi executada em 30 de Maio de 1431 em Rouen (na região francesa da Normandia).

A vida – e a morte – de Joana não podem, na verdade, ser ‘separadas’ do contexto geopolítico da época: combatente, pela França, no sentido de expulsar os soldados ingleses na Guerra dos Cem Anos, foi presa e, depois, sentenciada na base de inúmeras acusações convenientemente construídas pela Igreja Católica (através, por exemplo, do próprio bispo de Beauvais).

Ora, a sentença que a condenou à morrer na fogueira acabou por ser, mais de vinte anos depois da sua morte, anulada pelo representante do Estado francês – Carlos VII – com o apoio da referida Igreja Católica e mesmo canonizada em 1920 (ou seja, por quem quase quinhentos anos antes a havia condenado).

E foi também o rei Carlos VII quem – cerca do ano 1429 – atribuiu o brasão à família dessa jovem.

E o respectivo lema: "Consilio firmatei Dei" (ou, em português, "Iremos permanecer Fiéis").

Mas quem também permaneceu fiel – sobretudo a si mesma – foi uma outra figura que, noutra latitude, teve igualmente um outro destino apesar de, claro, estar igualmente sujeita ao ‘jogo’ geopolítico (e religioso).

Efectivamente, Antónia Rodrigues (que terá nascido por volta de 1580) decidiu, em certo momento da sua vida, disfarçar-se de homem e, assim, embarcar com militares portugueses para o Norte de África para combater os então designados infiéis (muçulmanos). Depois de revelada a sua verdadeira identidade – feminina –, foi recompensada por Filipe II (III em Espanha) com uma tença por actos heróicos a favor de Portugal.

Assim, se, hoje, talvez não seja injusto recordar que Joana d’Arc representa, enfim, a resistência e a valentia francesas, também não será injusto desejar que Antónia Rodrigues pudesse ser lembrada como um símbolo da luta feminista quando ainda se não falava de feminismo.





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A única imagem que existe da guerreira francesa do século XV é um desenho da autoria de um funcionário do Supremo Tribunal de Paris com data de Maio de 1429.

29/05/2019

Rússia, um gigante na Eurásia

Assinala-se hoje o 5.º aniversário da constituição da União Económica Euro-Asiática.

Efectivamente, esta organização conta, cinco anos passados desde a sua fundação, com precisamente cinco Estados-membros: Rússia, Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão e Quirguistão.

Todos países integrantes da então União Soviética.

A Rússia, principal ‘herdeira’ desta, continua a ser, actualmente, o país com a maior dimensão territorial do mundo – com mais de dezassete milhões de quilómetros quadrados (mais de cento e oitenta vezes maior do que o território português se se não considerar a extensão da sua plataforma continental…): por exemplo, a costa russa banhada pelo Ártico* estende-se por cerca de vinte e quatro mil quilómetros desde Murmansk (perto da Noruega) até Petropavlovsk-Kamchatsky (perto do Japão).

De facto, o presidente do conselho de supervisão do Instituto Demográfico, Migrações e Desenvolvimento Regional da Rússia (então Yury Krupnov) veio também propor, entretanto, a adopção de uma série de medidas no sentido de ‘aproximar’ o seu país do que muitos têm vindo a apelidar há anos de "verdadeiro centro geopolítico do mundo" – o Extremo Oriente: propunha, desde logo, a mudança territorial da capital russa – Moscovo – para uma localização mais ‘consentânea’ com o referido centro geopolítico. Ou seja, (muito) mais para Leste do que aquela de hoje**.

Se, na verdade, a Rússia é o ‘maior’ país do mundo, "congrega" não mais do que cerca de cento e quarenta e dois milhões de habitantes sendo que, de entre estes, mais ou menos vinte e oito milhões (vinte por cento do total) vivem em Moscovo e nas áreas circundantes…

Ora, mesmo que esta e outras mudanças não venham a ter lugar, penso ser necessário nunca perder de vista a noção de equilíbrio entre as ‘vertentes’ geopolítica e económica da União Económica Euro-Asiática e o que o presidente russo Vladimir Putin enunciou no discurso que fez na última reunião do "Projecto Uma Faixa, Um Caminho" que teve lugar na capital chinesa entre os dias 25 e 27 de Abril último: "a preservação da cultura e da identidade espiritual" das nações envolvidas.





* Cerca de um quinto do território continental da Rússia ‘integra’ a região ártica. Ora, um estudo divulgado pelo gabinete geológico norte-americano em 2008 estimou que o Ártico albergava cerca de 13% das reservas mundiais de petróleo e cerca de 30% das reservas mundiais de gás natural (para além de ouro, de urânio, de diamantes e de outros metais e elementos preciosos e raros e de peixe). Não é certamente por acaso que a Rússia tenha posto recentemente ao serviço da sua frota o terceiro navio quebra-gelo - o Ural - nem que detenha cerca de 96% de todos os recursos naturais de que o seu ‘tecido’ industrial e humano necessita. E também não me custaria nada acreditar que, sendo o ‘maior’ país do mundo, a Rússia reunisse alguns dos mais de cento e dezassete milhões de lagos que ‘polvilham’ a superfície do planeta Terra (e que cobrem, lembro, cerca de quatro por cento dos ‘terrenos úteis’)...

**  O czar Pedro, o Grande tinha já estabelecido a cidade 'ocidental' de São Petersburgo como a nova capital da Rússia em Maio de 1703.




***




Disputa-se hoje o jogo final da edição 2018/2019 da Liga Europa.

Sem um dos jogadores ‘fundamentais’ para uma das equipas envolvidas: Henrikh Mkhitaryan (pelo Arsenal).

O jogador, nascido na Arménia, recusa-se a participar no referido encontro uma vez que este se ‘desenrola’ no Azerbaijão, país com o qual a Arménia tem um diferendo (que já causou milhares de mortos) a propósito da região de Nagorno-Karabakh que, recordo, "foi atribuída pela URSS ao Azerbaijão mas os habitantes, pouco mais de 130 mil, não abdicam da sua identidade arménia, posta em causa quando uma declaração unilateral, embora sem reconhecimento internacional, transformou o enclave num estado independente".

Ora, tudo isto me leva a concluir que também esta situação mostra exemplarmente como um evento desportivo consegue alcançar uma dimensão que em muito transcende a mera reunião para competição de resultados e classificações.

28/05/2019

De perpétua memória?

Diz um dicionário da História de Portugal o seguinte a propósito do navegador João Rodrigues Cabrilho: 

"Dos poucos dados biográficos que foi possível apurar sobre João Rodrigues Cabrilho, antes da viagem marítima que lhe perpetuaria a memória, apenas se sabe que era de nacionalidade portuguesa".

Ora, apesar de ter participado "na conquista e pacificação da Guatemala" e comandado a armada responsável por efectuar a "primeira viagem de exploração da costa da Califórnia", tenho dúvidas que esta lhe tenha, efectivamente, perpetuado a memória pois eu, pelo menos, nunca dele tinha ‘ouvido’ falar até me deparar com uma imponente estátua que existe em Montalegre.

De facto, tal estátua refere que:


"Navegador do Séc. XVI
que ao serviço dos Reis de Espanha
descobriu a costa da Califórnia
Natural de Lapela – Cabril – Montalegre
e figura notável da História do Mundo"


Novamente admito que até ler esta indicação não sabia que tinha vivido um "João Rodrigues Cabrilho".

Mas seria o único português a ignorá-lo?

27/05/2019

O Duque de Palmela

O Marquês de La Fayette, um dos heróis da Revolução Americana, morreu em Maio de 1834.

Foi um ‘campeão’ da Liberdade e ainda hoje a sua figura e atitude é respeitada por causa disso mesmo.

Ora, foi precisamente em Maio mas do ano 1781 que nasceu, em Itália, Pedro de Sousa Holstein. Veio a tornar-se no primeiro Duque de Palmela e a ele muito se deve pelo triunfo das ideias liberais em Portugal.

Também eu continuo, por isso mesmo, a respeitar a sua figura.

25/05/2019

A Cidade: ontem, hoje e amanhã

A capital de Cuba, Havana, celebra em 2019 quinhentos anos de existência.

Folhear o livro "As Grandes Cidades da História" fez-me querer continuar em contexto urbano embora sem mais me referir a esta cidade e a este 'aniversário'.

Foi na área do Crescente Fértil, no Próximo Oriente, que há cerca de doze mil anos, 'acompanhando' uma nova fase climática da Terra - a pós-glaciar -, grupos humanos se começaram a fixar (ou a sedentarizar) e a viver da caça e da recolecção, 'antepassados' da agricultura e da pastorícia modernas.

Ora, a esta evolução económica da vivência humana correspondeu uma progressiva transformação e complexificaçāo da dimensão social da mesma: o Homem passou então a viver junto da terra em que cultivava e caçava.

Estavam, pois, criadas as bases para a Revolução Urbana.

É para mim, por isso mesmo, pouco relevante saber qual foi exactamente a primeira cidade a surgir: se Ur ou Uruk (no actual Iraque), se Çatal Huyuk ou Göbekli Tepe (na actual Turquia) ou se Jericó (na Palestina).

O livro - coordenado pelo historiador (recentemente falecido) britânico John Julius Norwich, faz, na verdade, uma espécie de viagem por um conjunto de cidades que, subjectivamente, claro, foram importantes para a história da humanidade e por outras que o são.

De facto, muito gostaria que este périplo urbano pudesse, também, suscitar a elaboração de reflexões em torno da Cidade do presente - e do futuro: o excesso populacional e a pressão sobre os recursos naturais disponíveis, por exemplo.


24/05/2019

A importância de recuperar a memória

O Cineteatro Mouzinho da Silveira – localizado em Castelo de Vide, no distrito de Portalegre – acolheu nos dias 17, 18 e 19 do corrente mês uma conferência internacional subordinada ao tema, por assim dizer, “Valorizar e Recuperar a Herança Perdida”.

Ora, admito que cheguei mesmo a pensar que só muito dificilmente uma conferência sobre a identidade judaica de (e em…) Portugal poderia realizar-se noutro local que não naquela região do país.

Pensei mal, evidentemente.

Porque, efectivamente, decorre hoje e amanhã na Universidade de Évora uma "evocação dos 450 anos da morte de Garcia de Orta (1568-2018)".

Recordo que Garcia de Orta nasceu precisamente em Castelo de Vide. Judeu, tornar-se-ia médico e botânico tendo morrido na Índia (em Goa).

Ora, numa altura em que em muitas zonas do continente europeu (e também em Portugal) se discute com base em notícias falsas e de forma "populista" a identidade, julgo não ser tarde para, pouquíssimos dias depois do Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, e recordando uma frase proferida por Garcia de Orta – "A verdade tem pés, e anda e nunca morre" –, se recuperar a memória já que esta, como 'representante' única do passado, 'representa' igualmente a única verdade.

Uma memória ‘composta’, também, de intolerância, de ódio e de barbárie. Social, económica, étnica e religiosa.

E perguntar: é esse o ‘caminho’ que queremos trilhar novamente?

23/05/2019

Alemanha, Namíbia e Portugal

Ter lido que as autoridades alemãs iriam devolver às da Namíbia o padrão aí colocado pelo navegador português Diogo Cão há mais de quinhentos anos levou-me, desde logo, a concordar com um diplomata daquele país africano quando afirmou não apenas que "O regresso da Cruz [o referido padrão] original é um passo importante para nos reconciliarmos com o nosso passado colonial e o rastro de humilhação e injustiças sistemáticas que deixou" mas também que apenas "o confronto e a aceitação deste passado doloroso libertará os namibianos para consciente e confiantemente poderem confrontar o futuro".

Mas também me levou a reflectir no seguinte: quando, em Vila Real, não há muitos anos, li esta inscrição


SEGVNDO A TRADIÇÃO
NESTA CASA NASCEV
DIOGO CÃO ESCVÐ
IRO DA CASA Ð D. JOÃO II QVE Ð
1482 A 1486 ÐSCOBRIV E EXPLO
ROV A COSTA OCIDENTAL Ð AFRICA
ÐEÐ O RIO ZAIRE À SERRA PARDA

não me recordei – imediatamente, pelo menos –, do facto de Diogo Cão ter, em 1479 (ou em 1480, não tenho a certeza), aprisionado, no Golfo da Guiné, um pirata/corsário francês e o ter trazido para Portugal.

Recordei-me, na verdade, das aulas de História que tive na escola.

E no muito que nelas me falaram dos Descobrimentos (ou ‘Achamentos’…) portugueses e de alguns dos seus ‘actores’ principais.

Ora, Diogo Cão foi um deles.

Percebi, entretanto, que, em Vila Real, apesar de aí ter, provavelmente, nascido Diogo Cão, não existia qualquer núcleo museológico que o homenageasse e, assim, dignificasse a sua figura e a sua acção como navegador ao serviço da Coroa portuguesa.

Triste, porque sinceramente acho que quer a memória de Diogo Cão, quer Vila Real, quer o próprio país o mereciam.

22/05/2019

A biodiversidade

Assinala-se hoje o Dia Internacional da Biodiversidade.

Mais do que recordar a viagem que, em 1831, o naturalista inglês Charles Darwin iniciou a bordo do navio Beagle e as suas observações que mudariam a forma de se compreender o mundo – com a formulação da teoria da Evolução das Espécies e o consequente ‘desmantelamento’ da teoria Criacionista do mundo –, a ‘efeméride’ que hoje se assinala relembra-nos, como referiu, há anos, a professora Maria Amélia Martins-Loução, "a necessidade de olhar a biodiversidade como um tema crucial das nossas vidas".

Certamente.

No entanto, e como o Tempo tem passado mas pouco (ou nada) “palpável” e “positivo” parece ter “avançado”, cito um texto que escrevi também já há um ano.


"Os Professores Ron Milo e Yinon M. Bar-On (ambos docentes no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel) e Rob Phillips (oriundo do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos da América) são os autores de um trabalho – “The biomass distribution on Earth – recentemente publicado, online, pelo jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

Nele se afirmou, com base em dados científicos e, pois, rigorosos, que a espécie humana (que, recorde-se, conta actualmente mais de sete biliões de ‘efectivos’), representando sempre uma ínfima parte de todos os seres vivos do planeta Terra, foi a causadora, sobretudo de forma directa, da destruição de cerca de 83% de todos os mamíferos e de 50% das plantas.

Mas, de facto, não é caso para se estranhar esta atitude predadora.

Porque, como chegou a afirmar o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, «O Homem é ainda – tal como sempre foi – brutal, violento, agressivo, materialista, competidor e construiu, por isso, uma sociedade de acordo com estas mesmas características»...".

Ora, uma vez que os Estados Unidos da América - poder-se-ia afirmar, ironicamente, que em mais um espectacular momento de liderança do mundo - nunca ratificaram a convenção sobre a diversidade biológica na Terra,  receio bem que a conferência da Organização das Nações Unidas sobre a biodiversidade que a China acolherá em 2020 seja só mais uma conferência...


***


Muito se tem escrito, nas últimas semanas, sobre a possibilidade, bem real, de Portugal voltar a ter no seu território, de forma permanente, ursos-pardos.

Ora, creio ser legitima a reflexão de quem, como eu, viu já um ‘busto’ de urso-pardo na "Sala de Caça" do Palácio Nacional de Mafra: por muito interessante que eu pudesse achar o facto de poder ver, por assim dizer, ‘exemplares’ do maior carnívoro da Europa em espaços controlados – "espaços animais" equivalentes às "reservas" que, por todo o mundo, ‘agrupam’ (e controlam…) alguns seres humanos – ou, mesmo, no seu habitat natural (ou assim considerado), quem me conseguiria garantir que esses animais não voltariam a ser exterminados?

Os nossos antepassados demonstraram em 1843 (ano em que foi morto em Portugal o último ‘exemplar’ de urso-pardo) que não sabiam conviver com esse outro mamífero. E agora?

21/05/2019

Os "cowboys" do apocalipse

Tendo sido um país politicamente nascido à beira do século XVIII, quase tudo nos Estados Unidos da América começou por ser o resultado de uma apropriação cultural.

Como a palavra "cowboy" – e, claro, o trabalho por este desenvolvido –, importada do México – que, como o lema actual do estado do Novo México, "Crescit eundo" (ou, em português, "Cresce avançando"), foi avançando e crescendo.

México que, por sua vez, também a ‘importou’ (através da colonização) de Espanha onde existia como "vaquero".

Que, também por sua vez, terá ‘sofrido’ uma espécie de contaminação ortográfica e linguística do "vaqueiro" usado em Portugal (recorde-se, por exemplo, "O Monólogo do Vaqueiro" de Gil Vicente).

Ora, alguns séculos depois – em (21 de) Maio de 1979 – foi feita a apresentação pública (no Festival de Cannes) do filme Apocalypse Now, realizado por Francis Ford Coppola.

Para muitos, este filme não se ‘limitou’ a fazer um ‘retrato’ da intervenção militar norte-americana no Vietname.

De facto, ele terá ajudado a esboçar um panorama mais claro do contexto geopolítico que envolvia a guerra nesse país asiático e, sobretudo, terá revelado – como poucos filmes, norte-americanos ou não, o têm sequer feito de então para cá –, mesmo que involuntariamente, a tal "mentalidade de cowboy".


E já em 2019, o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, acusou, numa entrevista televisiva (à TVE), os mais ‘altos’ dignitários do poder político norte-americano de terem uma "mentalidade de cowboy" em relação à situação na Venezuela.




Apocalypse Now poster.jpg
Poucos filmes realizados por cineastas norte-americanos têm vindo a denunciar uma espécie de mentalidade de "cowboy" dos Estados Unidos da América como Apocalypse Now de Francis Ford Coppola.


20/05/2019

Princeza e Fanqueiros

Pedi ao Gabinete de Estudos Olisiponenses se me saberia indicar pormenores, por assim dizer, sobre a indicação que se encontra ainda na Rua dos Fanqueiros.


Rua Nova da Princeza

5.ª Divisão do Lado
Occidental



Ora, efectivamente, uma resposta – muito atenciosa, por sinal – foi-me, dias depois, transmitida por alguém do referido gabinete da edilidade lisboeta.

Partilho-a, pois:


"Em 5/11/1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto.  Neste diploma, D. José estabeleceu a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regularizava a distribuição dos ofícios e ramos do comércio.

O arruamento foi denominado "Rua Nova da Princesa"  e nela ficaram arruados os "Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia".
Por edital da CML de 08/06/1889, passou a denominar-se "Rua da Princesa".

Com o advento da Implantação da República em 5/10/1910, foram alterados vários topónimos diretamente ligados à Monarquia. Um deles foi a "Rua da Princesa", que por edital de 5/11/1910, viu o seu topónimo alterado para "Rua dos Fanqueiros"".


Post scriptum: assinala-se hoje 521 anos desde que o navegador Vasco da Gama chegou a Calecute, na Índia. Recordo que, nesse tempo, portugueses e espanhóis dominavam os mares. Ora, é evidente que hoje, cinco séculos volvidos dessa extraordinária viagem, tudo é (muito) diferente: Portugal há muito que deixou de ser um 'actor' importante nos oceanos da Terra (a não ser em 'operações' de cariz humanitário ou de segurança). E Espanha? Creio que não deixa de ser interessante lembrar que um interveniente marítimo pouquíssimo relevante na actual conjuntura geopolítica do mundo irá treinar com a frota da marinha norte-americana num 'exercício' na zona do Indo-Pacífico: de facto, a fragata espanhola Méndez Núñez integrará o 'exercício' naval 'encabeçado' pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln numa missão de meio ano no Mar do Sul da China (mas não no Golfo Pérsico).

18/05/2019

Arábias e Djibouti

Quem ler apenas o título do livro que a jornalista e escritora Leonor Xavier publicou há não muito tempo poderá, talvez, julgar que se trata de (mais um) romance: "Uma Viagem das Arábias".

Creio, contudo, que o subtítulo é esclarecedor: "Na Rota dos Portugueses em Omã, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia e Egipto".

No entanto – e embora muito pudesse escrever sobre a acção portuguesa no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no próprio Mar Arábico –, foco a minha atenção num pequeno país localizado no nordeste de África que não tem, ao que sei, uma influência portuguesa directa, por assim dizer: o Djibouti.

Ora, para além de ter como ‘vizinhos’ a Etiópia, a Eritreia e a Somália, o Djibouti situa-se na confluência do Golfo de Áden e do Mar Vermelho (verdadeira ‘antecâmara’ do canal do Suez, por onde ‘passa’ cerca de dez por cento do petróleo exportado em todo o mundo bem como cerca de vinte por cento de todos os bens exportados comercialmente).

Não é, pois, por mera coincidência que todas as grandes potências económicas do mundo actual querem ter uma presença neste país (através de bases militares, por exemplo)...

17/05/2019

O Eurotúnel

Desde 1806 que o francês Napoleão Bonaparte tentava 'asfixiar' economicamente a Inglaterra.

Não demorou muito até que idealizasse um meio para, achava, o conseguir: o Bloqueio Continental.

Assim, todos os países da Europa iriam ser impedidos de comerciar com o reino de Jorge III.

A História encarregar-se-ia de demonstrar a grandeza do falhanço.

Foi, no entanto, necessário que passassem cerca de cento e oitenta anos para que fosse assinado, na "mãe" de todas as igrejas inglesas - a catedral de Cantuária, construída no século XIII - um acordo - o Tratado de Cantuária, justamente - prevendo a construção de uma infra-estrutura ligando a França, o maior país (no que respeita à sua dimensão territorial) do Ocidente europeu, à Inglaterra.  Esta infra-estrutura consistia num túnel submarino que, com cerca de cinquenta quilómetros de extensão, permitiria, pois, atravessar o Canal da Mancha.

Esta assinatura foi feita em Fevereiro de 1986 pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países (sob o olhar da então primeira-ministra Margaret Thatcher e do presidente François Miterrand) e precedeu, naturalmente, a circulação iniciada em 1994.

Assim, a França passou a ter mais uma fronteira partilhada para além das que tinha já com a Bélgica, com a Alemanha, com a Suíça, com a Espanha, com Andorra e com a Itália ao passo que o Reino Unido ganhou uma ligação terrestre ao continente europeu.

Ora, espero é que o Eurotúnel não abra mais uma brecha no chamado Brexit...

16/05/2019

'Olhar' para dentro

Li, há dias, num jornal português publicado "online" que havia sido descoberto no Reino Unido um recipiente em barro contendo cerca de três mil moedas de cobre em circulação no Império Romano ["do tempo em que Constantino foi declarado imperador em York [306 d.C.]"]. Tal descoberta foi já considerada a maior do género, por assim dizer, no país.

O que nunca li num jornal português, publicado "online" ou não, foi efectivamente sobre o extraordinário espólio do Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real.

Ora, de acordo com o que refere – e eu posso, ‘em parte’, confirmar… – a página na Internet do museu:


"A colecção de numismática do MNVR, inaugurada no dia 27 de Maio de 1999, é imponente. Segundo João Parente, coleccionador e primeiro director desta instituição, "iniciou-se em Junho de 1970 com 9 'pacharricas' compradas na aldeia do Cadaval, concelho de Murça, e cresceu seleccionando as moedas diferentes e as variantes encontradas nos tesouros monetários achados em Trás-os-Montes durante os últimos 25 anos".
Compõem a colecção cerca de 35.000 numismas [moedas], sendo formada por moedas provenientes, na sua maioria, da região tra[n]smontana, sendo ainda de referir a aquisição de alguns exemplares com o objectivo de representar determinados tipos de moedas, reis ou imperadores considerados importantes para o discurso expositivo.
Constituem a colecção moedas originárias de três tesouros completos (Santulhão - distrito de Bragança -, Reguengo e Vila Marim - distrito de Vila Real), e porções significativas dos tesouros de Izeda, Santa Maria de Émeres (distrito de Bragança), Poio, Campeã, Mosteirô, Paredes do Alvão, Cadaval, São Caetano e Fiolhoso (distrito de Vila Real), para além de várias provenientes de achados isolados.
O acervo numismático do MNVR está balizado cronologicamente entre os séculos V a.C. e VIII d. C. No entanto, a grande maioria das moedas pertence à época do Império Romano, sendo os séculos III e IV da nossa era os mais representados. Ainda assim, podem observar-se quatro moedas gregas, uma cartaginesa, quatro hispano-romanas, nove ibero-romanas, oito luso-romanas, vinte e cinco hispano-romanas, um conjunto de cento e vinte e oito da República Romana, três Bizantinas e vinte e três Visigóticas.
Está igualmente representada a maior parte das oficinas de cunhagem do Império Romano.
Do total da colecção foram seleccionados para a Exposição Permanente de Numismática cerca de 5.000 espécimes, considerados como representativos da totalidade, procurando o discurso expositivo permitir a percepção, através da quantidade de moedas expostas, da importância da região no seio do Império Romano".


Post scriptum: a vila espanhola de Albuera (localizada a poucos quilómetros de Badajoz) foi 'palco' em 16 de Maio de 1811 de uma batalha envolvendo milícias inglesas, portuguesas e espanholas que, comandadas pelo marechal Beresford, derrotaram o exército francês (que estava sob o comando do marechal Soult).

15/05/2019

Moçambique e Portugal

Recordo-me de já aqui ter citado uma declaração de um responsável do Turismo de Macau a propósito de um certo (quase total, na verdade…) desprezo de Portugal em relação ao território.

E também me recordo de ter lembrado o desconhecimento de Portugal (e as suas acções, claro) no Japão e no próprio Oriente.

No entanto, parece-me ser igualmente revelador que, por exemplo, a primeira "História de Moçambique" (abrangendo, ainda assim, não mais do que cinco séculos, desde o XV até ao ano de 1995) tenha sido escrita por um académico de nacionalidade...britânica: Malyn Newitt.

Creio que tais factos exigem, pois, algumas reflexões.

Primeira: não me parece, de todo, que Portugal – ou melhor, as autoridades políticas portuguesas, mais ou menos recentes – não tenham vindo a agir dolosamente (isto é, com culpa) no sentido de provocar e ampliar uma espécie de distanciamento cultural em relação a países e, enfim, a regiões com os quais se cruzou no passado. Ou seja, têm tido, sim, de facto, uma culpa activa.

Na verdade, como escrevi já em relação a uma reportagem que vi, há pouco menos de dois anos, com o título Esmeralda Perdida (da série "Linha da Frente" emitida pelo canal 1 da RTP) que procurou perceber como é que as autoridades portuguesas – o Estado – estavam a proteger uma parte do património histórico e cultural de Portugal – aquela que se encontrava submersa e que havia sido trazida à luz do dia em águas territoriais estrangeiras: tendo efectivamente  aprendido, então, que "Portugal assinou a Convenção da UNESCO [sigla inglesa para designar a United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura] para a Protecção do Património Cultural Subaquático e está obrigado a cooperar com os outros países", percebi, também, que nem sempre (quase nunca?) assim se passa pois "A posição do MNE [sigla para identificar o Ministério dos Negócios Estrangeiros português] é a de Portugal não reivindicar espólios". Porquê? Penso que por incompreensão do quão é importante proteger o património histórico e cultural português e por uma razão que considero ser particularmente grave: uma espécie de negação de um determinado período da História de Portugal. Ou seja, uma disfunção comportamental ("complexo de culpa", por assim dizer) que origina o repúdio e a vergonha por um período da História em que Portugal se superiorizou – neste 'caso' específico, nos mares, bem entendido, pela primeira e única vez – a outras nações do globo. 

Segunda: esta culpa activa tem, em minha opinião, de ser ‘repartida’ entre a Política e a Academia. Invoco a Academia porque não creio ser admissível – nem aceitável… – que, por exemplo, nas situações que acima mencionei, esta (e a ‘massa intelectual’ e crítica que supostamente a caracteriza) não se mobilize para preservar ‘pedaços’ da História de Portugal ainda que estejam submersos e no estrangeiro e que, também, apesar de Portugal e Moçambique partilharem uma ‘relação’ de séculos (a colonização e, depois, a descolonização e a independência do país africano)*, tenha sido um académico estrangeiro o primeiro a escrever uma "História de Moçambique".

Quando se assinala o Dia Internacional da Família, gostaria que também a "família" de Portugal pudesse crescer e ficar, assim, mais "robusta"... 





*O então porta-voz daquele que era (e é) um dos maiores políticos de Moçambique, a Resistência Nacional Moçambicana (a Renamo), António Muchanga, fez no final de Maio de 2014, a uma estação de rádio portuguesa, uma declaração: "Para a Renamo, Portugal já foi eleito como o primeiro país fora de África que deveria nos ajudar a resolver os problemas, como sempre. Portugal conhece melhor o território moçambicano. Portugal tem relações históricas seculares com o povo moçambicano, tem a mesma língua, a mesma cultura, que a maior parte dos povos de Moçambique".

14/05/2019

A universidade e a escravatura

A universidade britânica de Cambridge, uma das mais antigas e prestigiadas do país e cujo lema é "Hinc lucem et pocula sacra" ("Aqui recebemos a luz e o sagrado conhecimento", em português), comunicou já (no fim de Abril de 2019) que iria proceder à realização, durante dois anos, de um inquérito no sentido de perceber exactamente de que forma(s) contribuiu para, beneficiou do ou incentivou o tráfico de escravos no Atlântico (bem como para/de/ou outras formas do chamado trabalho forçado) durante a época colonial.

O vice-reitor da instituição, o professor Stephen Toope, declarou, ainda durante este anúncio, o seguinte:


"Não podemos mudar o passado mas não devemos, no entanto, esconder-nos dele. Espero que este processo ajude a Universidade a perceber o seu ‘papel’ durante esta fase negra da História humana".

Pretende-se, no fundo, trazer luz e conhecimento a essa ‘relação’.

De facto, escreveu o historiador e professor John Harold Plumb na Introdução do livro do também historiador e professor Charles Ralph Boxer "O Império Marítimo Português 1415-1825" (primeiramente publicado em 1969) o seguinte:


"Esses primeiros exploradores [Portugueses] hesitantes, assaltados pelo perigo e perseguidos pela morte, traçaram as grandes rotas comerciais, com barcos cada vez maiores, a abarrotar de gente e de mercadorias, que, através de tempestades e de calmarias, seguiam imponentemente o seu caminho até aos impérios orientais. Mas a sua empresa tinha despertado a Europa, e, um século após as suas descobertas, Holandeses e Ingleses ladravam-lhes aos calcanhares, sanguinários e vorazes".


E também: "Os Portugueses abriram a brecha através da qual se precipitaram os chacais, para se saciarem à vontade".


Acrescento, somente, que dada, de facto, a intervenção de Portugal na expansão do tráfico de seres humanos nessa "fase negra da História humana", penso que seria perfeitamente compreensível se as universidades portuguesas – a de Lisboa e a de Évora, sobretudo – seguissem esta mesmíssima lógica de querer perceber o seu ‘papel’ na escravatura.

E aproveito também para relembrar que, de acordo com um documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do "Global Slavery Index", de 2018, existirem então mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo.







Post scriptum: assinalaram-se ontem, dia 13 de Maio, cento e trinta e um anos (em 1888, portanto) da aprovação da Lei Áurea no Brasil abolindo a escravatura no país. Recordo, ainda, que o Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura.

13/05/2019

Saint Louis e Funchal

O filme "A Viagem dos Malditos" (ou, no título original, "Voyage of the Damned"), ‘lançado’ em 1976, e o documentário "A Viagem do St. Louis" (ou, no título original, "The Voyage of the St. Louis"), ‘lançado’ em 1995, imortalizaram a odisseia da viagem do navio Saint Louis, iniciada há exactamente oito décadas desde o Porto alemão de Hamburgo.

De facto, o navio, carregado de judeus que pressentiam a chegada da guerra, partiu dessa cidade do norte da Alemanha com destino a Havana, capital cubana, em 13 de Maio de 1939 onde, pensavam, começariam uma nova vida, por assim dizer.

No entanto, Havana não quis acolher os refugiados.

Ora, depois dessa recusa, o navio seguiu em direcção aos Estados Unidos da América e, após nova recusa, ao Canadá.

Que também recusou receber essas pessoas.


O navio acabaria, cerca de um mês passado a navegar, por regressar à Europa (à cidade belga de Antuérpia, se me não engano) e muitos dos passageiros acabariam, mais tarde, por morrer às mãos daqueles de quem queriam fugir: os "nazis".



Muitos dos antigos passageiros do Saint Louis não escapariam ao Holocausto...


É, efectivamente, esta triste e elucidativa história que irá ser novamente recordada numa nova película que terá como ‘palco’ (pelo menos, inicialmente) o Funchal, paquete que está actualmente atracado em Lisboa.

Excelente ideia!




Post scriptum: Curiosamente (ou talvez nem tanto), David Ben-Gurion declarou a independência do Estado de Israel no dia 14 de Maio de 1948.

11/05/2019

Palavras gregas e latinas

A palavra genocídio foi inventada pelo advogado polaco Raphael Lemkin - um judeu que logrou escapar ao Holocausto - através da combinação da palavra grega "génos", que significava raça (ou tribo), e o sufixo latino "cida", que significava matança (ou melhor, quem a provocava).

Ora, é evidente que eu não quero apresentar qualquer palavra e apenas me sirvo deste exemplo para citar, por um lado, algumas palavras escritas pelo imperador romano Marco Aurélio na sua obra "Pensamentos para si próprio" e, por outro, o epitáfio inscrito na lápide da sepultura que acolhe os restos mortais do filósofo e autor grego Nikos Kazantzakis.

Escreveu então Marco Aurélio o seguinte: "Não vivas como se devesses viver dez mil anos. A necessidade está suspensa sobre ti. Enquanto viveres e na medida em que to for permitido, torna-te melhor".

Já o epitáfio: "Não espero nada. Nada temo. Sou livre.".

10/05/2019

"Wanted: Dead or Alive"

O actual ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, acusou, numa recente entrevista televisiva (à TVE), os mais ‘altos’ dignitários do poder político norte-americano de terem uma "mentalidade de cowboy" em relação à situação na Venezuela.

Mas, pergunto: essa "mentalidade de cowboy" alguma vez se ‘ausentou’ do poder político norte-americano encarregado, por exemplo, pelos "assuntos exteriores"?




09/05/2019

Mas qual união? E que diversidade?

Assinalou-se ontem mais um aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Na Europa, bem entendido, já que no Oriente ela apenas terminaria alguns meses depois (após as explosões nucleares espoletadas por aviões militares norte-americanos sobre a população civil de duas cidades nipónicas, Hiroxima e Nagasaki).

E assinala-se hoje, precisamente, o Dia da Europa.

Ora, numa altura em que o populismo e o nacionalismo estão a avançar na Europa política e social - e que se irão repercutir, ao que tudo indica, na composição do Parlamento Europeu depois das eleições das próximas semanas -, penso ser chegado o "momento da verdade": o momento de os líderes políticos da Europa reflectirem profunda e seriamente nas 'sombras' do passado que continuam a pairar no presente. Se, pelo contrário, pouco (ou nada) continuarem a fazer para contrariar essa presença (e o seu 'crescimento' orgânico), penso ser completamente legítimo questionar o actual lema da União Europeia - "Unida na Diversidade" - e, enfim, a própria existência de tal instituição.

08/05/2019

Qual é o nosso?

Nasceu há pouco mais de quinhentos e cinquenta anos (em 3 de Maio de 1469) em Florença (hoje ‘parte’ da Itália) aquele que viria a tornar-se num dos ‘maiores’ (senão o ‘maior’…) filósofos políticos que o mundo conhecera até então e que influenciaria com os seus escritos – "Il Principe" (ou, na tradução em língua portuguesa, "O Príncipe"), por exemplo – a política – e o ‘modo’ de a fazer: Niccolò Machiavelli.

Escreveu, efectivamente, e por exemplo, o seguinte:


"Existem, entre os humanos, três tipos de personalidades: aquela que é capaz de pensar por si própria; Aquela que é capaz de perceber o pensamento de outros; e, por último, aquela que nem é capaz ďe pensar por si própria, nem capaz de perceber o pensamento de outros. O primeiro tipo é excelente, o segundo é bom e o terceiro é inútil".