A universidade britânica de
Cambridge, uma das mais antigas e prestigiadas do país e cujo
lema é "Hinc lucem et pocula sacra" ("Aqui
recebemos a luz e o sagrado conhecimento", em português),
comunicou já (no fim de Abril de 2019) que iria proceder à
realização, durante dois anos, de um inquérito no sentido de
perceber exactamente de que forma(s) contribuiu para, beneficiou do
ou incentivou o tráfico de escravos no Atlântico (bem como
para/de/ou outras formas do chamado trabalho forçado) durante
a época colonial.
O
vice-reitor da instituição, o professor Stephen Toope, declarou,
ainda durante este anúncio, o seguinte:
"Não
podemos mudar o passado mas não devemos, no entanto, esconder-nos
dele. Espero que este processo ajude a Universidade a perceber o seu
‘papel’ durante esta fase negra da História humana".
Pretende-se,
no fundo, trazer luz e conhecimento a essa ‘relação’.
De
facto, escreveu o historiador e professor John Harold Plumb na
Introdução do livro do também historiador e professor
Charles Ralph Boxer "O Império Marítimo Português 1415-1825"
(primeiramente publicado em 1969) o seguinte:
"Esses
primeiros exploradores [Portugueses] hesitantes, assaltados pelo
perigo e perseguidos pela morte, traçaram as grandes rotas
comerciais, com barcos cada vez maiores, a abarrotar de gente e de
mercadorias, que, através de tempestades e de calmarias, seguiam
imponentemente o seu caminho até aos impérios orientais. Mas a sua
empresa tinha despertado a Europa, e, um século após as suas
descobertas, Holandeses e Ingleses ladravam-lhes aos calcanhares,
sanguinários e vorazes".
E
também: "Os Portugueses abriram a brecha através da qual se
precipitaram os chacais, para se saciarem à vontade".
Acrescento, somente, que dada, de facto, a intervenção de Portugal na expansão do tráfico de seres
humanos nessa "fase negra da História humana", penso que
seria perfeitamente compreensível se as universidades portuguesas –
a de Lisboa e a de Évora, sobretudo – seguissem esta mesmíssima
lógica de querer perceber o seu ‘papel’ na escravatura.
E aproveito também para relembrar que, de acordo com um
documento elaborado em
conjunto com a Organização
Internacional do Trabalho,
a Walk Free
Foundation revelou,
através do "Global
Slavery Index",
de 2018, existirem então
mais de 40 milhões de
escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados
Unidos da América ou
136 mil no Reino Unido, por exemplo.
Post
scriptum: assinalaram-se ontem, dia 13 de Maio, cento e trinta e um
anos (em 1888, portanto) da aprovação da Lei Áurea no
Brasil abolindo a escravatura no país. Recordo, ainda, que o Brasil
foi o último país do continente americano a abolir a escravatura.
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