31/08/2019

O altruísmo da "raça superior"

Escreveram Francesco Alberoni e Salvatore Veca em "O Altruísmo e a Moral" (primeiramente editado pela Bertrand Editora em 1988) que "Em nenhuma sociedade, até agora, foi elogiada a mentira, o abuso, a violência, a crueldade, a opressão dos débeis, a arrogância, a inveja, a avareza, a mesquinhez de alma e condenada a amizade, a generosidade, o altruísmo".

Ora, um dos postulados que mais ‘sucesso’ obteve junto da sociedade alemã que Adolf Hitler e os seus lacaios governaram foi, precisamente, o da raça superior.

Talvez o maior sinal do Mal que o regime nacional socialista construiu foi o ter dito aos alemães o que eles queriam ouvir: que eram "grandes", importantes e, portanto, Senhores pertencentes à Raça Superior.

É claro que aqueles eram, pois então, mentirosos, violentos, arrogantes, mesquinhos, cruéis e não generosos e altruístas…

Creio que os milhões de vítimas dos nazis são disto o ‘melhor’ testemunho.

30/08/2019

O maior rio da Europa

"Qual é o maior rio da Europa?".

Foi esta a pergunta que um dos animadores da estação pública de rádio (Antena 1) colocou, há já alguns anos, aos ouvintes. 

E fê-lo no ‘separador’ cultural "jogo do sabichão" (na edição da tarde).


Momentos depois de colocar a questão deu a resposta.


"É o rio Voga!", anunciou triunfante.


Não uma mas duas vezes, portanto.


Ou seja, repetiu o erro.


Assim, creio que se poderá descartar a hipótese de o locutor se ter enganado. 


Ora, estou absolutamente convencido de que, caso não tivesse ficado triste e desapontado com alguém que, pelas funções ocupadas, julgava ser possuidor de uma cultura geral acima da média, como se costuma dizer, teria rido.

29/08/2019

Tão 'perto' e tão 'longe'

Segundo um texto que li há alguns anos, um estudo havia ‘descoberto’ que a maioria dos utilizadores de telemóveis "inteligentes" (os chamados "smartphones") residentes nos países considerados ricos em termos económicos interagia com esses mesmos aparelhos cerca de 2600 vezes em cada dia.
Concluí, assim, que essa maioria ‘mexia’ nos seus telefones portáteis 108 vezes por hora e quase duas vezes a cada segundo que passa.

Não pensei estar entre esta maioria de cidadãos mas, admitindo eu a validade científica de tal descoberta, o estudo provava, desde logo, o quão dependentes os habitantes dos países mais ricos estavam da tecnologia e, seguramente, viciados por ela.

Mas também provava uma outra ‘coisa’.

Por sinal, bem mais paradoxal e sinistra.

A de que, num momento histórico em que me parece que nunca existiram tantas oportunidades de contacto com o Outro – a época da chamada globalização – vivíamos (e vivemos) tão sós.

Ora, talvez a solidão seja mesmo o preço a pagar por tanto (ilusório...) conforto.

28/08/2019

"A mediocracia"

"O desporto de hoje já não se encontra verdadeiramente nos estádios, nem o dinheiro nos bancos, nem a religião nas igrejas. A política já não se faz no parlamento. E a justiça já não se encontra nos tribunais.
Toda esta confusão tem uma origem comum: a erupção de um novo poder que se insinua em todos os aspectos da nossa vida social. Este poder novo tem um nome: é o sistema mediático, um conjunto de fios de cobre, de computadores, de câmaras, de circuitos e de sondagens de opinião através dos quais a informação passa e volta a passar à velocidade da luz…
Os poderes já não estão onde a lei e o tempo os tinham instalado. E assim forma-se uma nova arte de governar, de executar, de julgar, de gerir. E também de existir.".

Fonte: François-Henri de Virieu, "La Médiocratie" (1990)

27/08/2019

A Conferência de Berlim

Pude ler, na pequena ‘nota’ de introdução ao documento "Migration: boosting development in Africa to create alternatives" que o Parlamento Europeu preparou, o seguinte:

"Crescimento económico e evitar que as pessoas tenham que abandonar a sua terra são alguns dos desafios que os países africanos enfrentam. Uma nova estratégia União Europeia-África proposta pelos Estados-membros estabelece de que forma é que o desenvolvimento pode fazer a diferença".

E, também, que "Desde que a crise migratória surgiu, os países europeus têm vindo a prestar mais atenção ao que tem vindo a acontecer em seu redor, particularmente em África".

Mas só agora se percebeu que apenas o facto de os países proporcionarem boas ‘condições de vida’ pode evitar a fuga das suas populações em busca de uma vida, noutro país, que lhes permita alcançar mais e melhores condições económicas, por exemplo?

E que só a chamada crise migratória levou a que a Europa se interessasse mais com o que se estava a passar ao seu lado, por assim dizer?

E pude também ler, entretanto, um artigo que David Pilling assinou na edição digital do jornal britânico Financial Times cujo título era "Africa is not immune from secessionist sentiment".

"Os Estados africanos modernos foram criados na Conferência de Berlim de 1884-1885 por potências coloniais com poucos conhecimentos acerca das realidades étnicas, políticas e geográficas" em presença, concluiu.

Ora, parece-me que os ‘resultados’ de tal estratégia (ou falta dela) têm estado à vista de todos...

26/08/2019

"A ascensão da nova ignorância"

Retive uma palavra, apenas e só, do discurso que o presidente norte-americano Donald Trump proferiu na 72.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: "Nambia".
Situado em África, o suposto país foi elogiado pela qualidade do seu serviço de saúde.

Lembro-me que, há também alguns anos, tinha já sido a vez do seu colega George Walker Bush (o 43.º presidente dos Estados Unidos da América) cometer uma imprecisão linguística e cultural: chamou aos naturais da Grécia "grécios".

Ora, estas invenções e imprecisões mais não são, em minha opinião, do que "pérolas" nascidas de uma ignorância confrangedora por parte de pessoas que são, frequentemente, rotuladas como "as mais poderosas lideranças do mundo" já que estão à frente de colossos económicos, militares e diplomáticos, por exemplo.

Creio serem, também, exemplos claros daquilo que significa "a ascensão da nova ignorância" de que deu conta o historiador José Pacheco Pereira no 3.º Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico" de 1990!” que decorreu, no início de Maio de 2017, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

24/08/2019

Uma definição da História

"Irremediavelmente algo temos que fazer ou estar fazendo sempre, pois esta vida que nos é dada não nos é dada feita, mas cada um de nós tem de fazê-la, cada qual a sua.


Esta vida que nos é dada é-nos dada, e o homem [e a mulher, claro] tem que a ir preenchendo, ocupando. São estas as nossas ocupações.".




Fonte: Ortega y Gasset, "El Hombre y la Gente"


23/08/2019

A CPLP

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (C.P.L.P.) foi criada em meados da década de 1990.
De facto, a C.P.L.P. congrega, actualmente, nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Tal significa, desde logo, que a C.P.L.P. é uma organização com uma ‘projecção’ global já que os seus membros de encontram geograficamente localizados em quatro continentes – América, África, Europa e Ásia.

Mas tem, também, um outro significado.

 Que é este.

De facto, muito poucos, na chamada Lusofonia (e não só), concordarão com a veracidade do lema da (na...) Guiné Equatorial – "Unidad, Paz, Justicia" (ou, em português, "Unidade, Paz, Justiça").

Ora, Portugal – que, recorde-se, administrou a hoje designada Guiné Equatorial durante cerca de três séculos – foi um dos países fundadores de uma organização que acolhe, hoje, um país – a referida Guiné Equatorial – que tem, de forma ininterrupta, o mesmo líder político aos ‘comandos’ do país – Teodoro Obiang Nguema – desde 1979: o acto eleitoral que no dia 23 de Agosto de 2017 marcou o afastamento de José Eduardo dos Santos da presidência de Angola (também após 38 anos de governo "non stop") acabou por, apenas, consolidar o líder da Guiné Equatorial como o político africano há mais tempo no poder pois estava no “seu” posto há algumas semanas mais do que o seu homólogo angolano.

22/08/2019

Integração 'perfeita'?

Lembro-me de ter visto (e ouvido) uma reportagem que uma estação televisiva portuguesa emitiu, há alguns anos, sobre vários portugueses que haviam sido expulsos dos Estados Unidos da América para as suas terras de origem, nos Açores.
Pareceu-me que os ‘entrevistados’ que participaram naquele trabalho de investigação – todos eles – se "esqueceram" de dois aspectos que eram (e são), para mim, fundamentais: o de que eram estrangeiros naquelas novas terras e o de que havia regras sociais a cumprir (tal como, claro está, existem em todo o lado).

Ou seja, não conseguiram, por razões várias, conjugar as "fronteiras" da sua identidade cultural com as da sociedade de acolhimento.

Lembro-me, também, da intervenção, na dita peça jornalística, de alguém que trabalhava como sociólogo junto desses ‘repatriados’: estes estavam, disse então, "perfeitamente integrados" quando foram ‘apropriados’ pelo sistema judicial.

"Perfeitamente integrados"?

Ora, como se poderá considerar que alguém estava "perfeitamente integrado" numa dada sociedade se vivia uma existência à margem da lei (admitida e pormenorizada, de resto, por todos os entrevistados…) e que, depois, foi judicialmente condenado?

21/08/2019

Maias ultraviolentos

Um estudo recentemente disponibilizado pela publicação digital Nature Behavior revelou que uma inscrição que havia sido encontrada nas ruínas de uma antiga cidade maia mostrou que os vários reinos desta civilização da América do Sul faziam uso de violência 'extrema' em momentos de guerra destruindo completamente cidades inimigas e executando as famílias 'nobres' que nelas residiam.

De resto, os investigadores pensam que este uso da 'ultraviolência' bem como as secas e a erosão dos solos relacionada com a desflorestação terão sido determinantes para a extinção desta civilização há cerca de mil anos.

Recordo, aliás, que a civilização maia abrangia a região que se situa, actualmente, entre a parte mais a Sul do México e a parte mais a Norte da chamada América Central e 'durou', sensivelmente, desde o ano 250 até ao ano 900 (da chamada era cristã).

E pergunto: apesar de vivermos numa época em que existe tanto 'escrutínio' mediático e tantos tratados com disposições morais e éticas e, ainda, ameaças de penalizações criminais para colocar em prática em caso de conflito armado, será que uma barbaridade semelhante à dos maias de há um milénio não continua a existir?

20/08/2019

O ladrão de espíritos

Não foi apenas ao nível material que o colonialismo (oficial, claro) que todos conhecemos espoliou os povos e as pessoas que o sofreram.

Na verdade, o dito colonialismo foi, antes de mais, um ladrão de espíritos e da(s) identidade(s) dessas pessoas.

Ora, o governo da Jamaica veio já exigir ao britânico British Museum a devolução de um conjunto de objectos que tinham sido 'retirados' (ou roubados?) do país há centenas de anos.

Exemplo que não é, feliz e infelizmente, único.

Felizmente porque alguns dos povos - ou melhor, os seus representantes políticos - 'interessados' parecem ter começado já a adquirir uma maior e melhor consciência de si próprios e da sua História.

E infelizmente porque tais exigências provam aquilo que escrevi há algumas linhas atrás: que o colonialismo foi, sobretudo, um ladrão de espíritos e de identidades.

Por tudo isto, apoio esta pretensão.

E todas as que se seguirem.


 
Post scriptum:

O Castelo de Powis, em Gales, no Reino Unido, está cheio de artefactos roubados na Índia pela inglesa Companhia das Índias Orientais.

Na verdade, mais do que aqueles que integram o espólio do Museu Nacional do país (em Nova Deli) ...

19/08/2019

O compêndio do mundo

Viviam em Maio de 2003, de acordo com a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, cerca de 4.8 milhões de portugueses e indivíduos de origem portuguesa em todo o mundo.
E, segundo dados compilados pelo Observatório da Emigração (disponíveis em Setembro de 2009), esses milhões de pessoas dispersavam-se por cento e quarenta dos então cento e noventa países do mundo.
Ora, poucos anos mais tarde residiam em Portugal representantes, por assim dizer, de mais de cento e setenta nacionalidades (falando cerca de cem idiomas).
Assim, embora seja, talvez, possível encontrar uma ‘concentração’ maior desta diversidade cultural na zona de Lisboa, ela verifica-se em todo o país.
E ainda bem.
Seja como for, estou a lembrar-me das palavras de um poema do poeta português André Falcão de Resende (1527-1599) ‘composto’ num contexto político, social, cultural e económico muito diferente do de hoje: "É Lisboa um mar profundo; de vária navegação; É um compêndio do mundo; aonde tudo acharão; Ásia, África, Europa".

17/08/2019

O lago Baikal

Também no Turismo foram precisos milhares de anos para que o Homem deixasse para trás os locais que os seus antepassados sempre haviam conhecido e desse, assim, um passo rumo ao desconhecido.

Mas eis que, no entanto, cerca de 95% dos actuais turistas ocupam apenas 5% do planeta.

Ou seja, a esmagadora maioria dos turistas opta por visitar somente uma ínfima parte da Terra.

Ora, na verdade, é precisamente devido ao excesso de Turismo que as autoridades do Sul da região russa da Sibéria pretendem impor uma espécie de travão ao número de turistas que tem anualmente vindo a visitar o mais antigo, profundo e maior (com cerca de 630 quilómetros de diâmetro) lago de água doce do mundo – e aquele que, na língua mongol, significa "Natureza": o lago Baikal.

Recordo, de resto, que, quer a ilha filipina de Boracay, quer a ilha indonésia de Komodo (‘casa’ dos famosos "dragões de Komodo"), impôs (no caso da primeira, em 2018) ou imporá (no caso da segunda, a partir de 2020) "restrições turísticas".

Restará, apenas, saber, no caso russo, se o actor norte-americano – e defensor do Ambiente com ascendência russa – Leonardo DiCaprio ajudará as autoridades e alguns dos ambientalistas do país a defenderem o lago Baikal.

16/08/2019

Estudos (pouco) credíveis

Um dos mais conceituados centros de pesquisa norte-americanos, o Pew Research Center, divulgou, no início de Agosto de 2017, um estudo – "Globally, People Point to ISIS and Climate Change as Leading Security Threats" – que teve por base as respostas de 41 953 pessoas espalhadas por 38 países em todo o mundo (na América: Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos da América, Colômbia, Canadá, Venezuela, México e Peru; em África: Tunísia, Gana, Quénia, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Nigéria; na Europa: França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Espanha, Suécia, Reino Unido, Rússia e Turquia; na Ásia: Japão, Filipinas, Israel, Líbano, Índia, Indonésia, Vietname, Coreia do Sul e Jordânia; na Oceânia: Austrália).
Concluiu-se, então, que "de entre oito possíveis ameaças à segurança dos países em que vivia, a maior parte dos habitantes do planeta ‘elegeu’ o Estado Islâmico e as alterações climáticas".

Lembro-me de, de facto, ter concordado com a justeza desta ‘eleição’.

No entanto, e embora não fosse um especialista em estudos de opinião ou, se se quiser, em sondagens, consegui formular a minha própria opinião acerca da metodologia utilizada por este estudo.

Assim, e segundo as contas que então fiz, os trinta e oito países escolhidos contavam cerca de 3 biliões, 828 milhões e 293 mil habitantes.

Ora, as 41 953 pessoas seleccionadas pelos autores da pesquisa para darem as suas respostas correspondiam, em termos percentuais, a 0.001% do ‘valor’ populacional que apurei.

Considerei, por isso, que não era possível fazer-se qualquer juízo sério a partir desta percentagem e, muito menos, extrapolar para uma parte da humanidade a opinião de alguns milhares de pessoas (não que não seja, evidentemente, passível de ser ‘escutada’) já que a margem de erro era ínfima.

15/08/2019

A França, o Egipto, a Inglaterra e a Índia

A França ocupou o Egipto entre 1789 e 1805.

Napoleão esperava, desse 'modo', pôr um ponto final ao comércio inglês com a Índia.

14/08/2019

"O povo é sereno"

Foi há já alguns anos que o jornal digital Nature Human Behaviour publicou um estudo levado a cabo por quatro investigadores em economia comportamental.
Ora, nas linhas introdutórias desse estudo – "Behavioural economics: Preserving rank as a social norm" – escreveu-se o seguinte: "os testes realizados permitem afirmar que as pessoas não gostam da desigualdade de rendimentos. Será que, no entanto, estão dispostas a alterar a hierarquia social estabelecida para eliminar essa mesma desigualdade? Uma ampla experiência de cariz multicultural permite mostrar que, desde jovens, a maior parte das pessoas recusa a alteração da ‘configuração’ social como forma de remover as diferenças entre ricos e pobres. Tal é, pois, uma norma social".

Ou seja, as pessoas – quaisquer que sejam a sua idade e o seu país de origem – recusam desencadear processos que possam levar a mudanças na hierarquia social.

Não estou, por isso, a conseguir deixar de me lembrar, à medida que vou escrevendo estas linhas, de uma frase proferida pelo almirante José Pinheiro de Azevedo em Novembro de 1975 no Terreiro do Paço, em Lisboa: "o povo é sereno".

13/08/2019

Emigração, imigração e 'integração'

Miriam Halpern Pereira, investigadora, referiu na sua obra "A política de emigração: 1850-1930"publicada em 1981, que o emigrante estava bem longe de imaginar que constituía um mero "peão" na política dos países implicados no seu destino. 
Mas, o que é um emigrante?

E um imigrante?

Emigrar é sair, temporária ou definitivamente, do país de onde se é natural (e/ou nacional).
 
Imigrar é, por outro lado, entrar e fixar-se, temporária ou definitivamente, num outro país de que se não é natural (e/ou nacional).

A mesma diferenciação aplica-se, assim, aos respectivos ‘derivados’ como emigrante/imigrante ou emigração/imigração.

Tome-se o exemplo de um cidadão português que vá para França: se, para as autoridades portuguesas, ele é um "emigrante", para as autoridades francesas ele é um "imigrante".


***


O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, sublinhou, em finais de Outubro de 2013, que a ‘nova’ geração de emigrantes portugueses não participava na vida comunitária no país de acolhimento o que poderia, alertou, criar problemas no caso de existirem dificuldades na chamada integração social.

Desconheço em que documento(s) se baseou para fazer tal observação: não sei, desde logo, o que, cientificamente, significa "não participar na vida comunitária no país de acolhimento".

Não integrar ranchos folclóricos nem frequentar cafés ou outros estabelecimentos comerciais de "origem" portuguesa, por exemplo?

Ou, pelo contrário, não participar, em actividades desenvolvidas por partidos políticos, organizações não-governamentais ou associações desses mesmos países de acolhimento (ou seja, não portugueses)?

12/08/2019

A comunidade internacional

Creio que muitos se terão já habituado (tal como eu) a associar a expressão comunidade internacional à opinião pública (ou publicada?) de países europeus e da América do Norte.
Ou seja, a Europa e a América do Norte têm dito – e continuam a dizer – ao resto do mundo o que é o Bem e o que é o Mal.
Até quando o farão?

Ou melhor: até quando deixarão que o façam?

10/08/2019

Ficção ou realidade?

O embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista que, há já alguns anos, concedeu a um jornalista do jornal Diário de Notícias, a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: "Os Maias".
Afirmou, então, que bastava ler "Os Maias" para se perceber ‘o’ Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas ou por historiadores.

Mas é, no entanto, outra obra sua – "As Farpas" –, escrita em 1871, que agora cito:


"Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!".


***


Ora, não quero deixar de citar igualmente o poeta Abílio de Guerra Junqueiro.

Mais especificamente, um excerto do poema "A Pátria" (escrito em 1896):


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amolgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar".

09/08/2019

Regiões ultraperiféricas

O arquipélago dos Açores, situado a cerca de 1600 quilómetros do continente português, é uma das sete regiões ultraperiféricas da União Europeia.
Ora, uma das razões por que uma região é considerada ultraperiférica tem a ver com a sua dependência económica de uma pequena quantidade de produtos.
De facto, Maria Gilda de Andrade Fernandes Dantas, no seu trabalho de doutoramento "Rede Urbana e Desenvolvimento na Região Autónoma da Madeira" (de 2012), referindo-se, também, aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, observou que, por exemplo, "o turismo, para muitos destinos, é um dos poucos caminhos possíveis para o desenvolvimento".

08/08/2019

Escolhas

A capa do Jornal de Notícias de um dia de Setembro de 2017 destacou, também, o caso de uma escolha académica.
"Melhor aluno do Minho seguiu o coração e escolheu História", registou.

Assim, quando muitos esperavam que esse jovem escolhesse Medicina, Engenharia ou, até, Direito, ele escolheu cursar História.

Creio, por isso, ser uma excelente ocasião para recordar um excerto de um texto – "O fim das ciências sociais e das humanidades?" – que escrevi há ainda mais anos sobre este género de opções académicas.

E de vida...


"O artigo Le Japon va fermer 26 facs de sciences humaines et sociales, pas assez «utiles», publicado na edição online do jornal francês Le Monde no passado dia 17 de Setembro de 2015, sublinhou que 26 universidades nipónicas tinham anunciado querer encerrar as suas faculdades de ciências sociais e humanas ou, pelo menos, limitar e reduzir a sua actividade.
Uma decisão, observou, tomada após a recepção de uma missiva enviada pelo ministro da educação do país dirigida, no início de Junho deste ano, aos presidentes de 86 universidades de todo o país pedindo-lhes que encerrassem ou modificassem «tais departamentos no sentido de beneficiar disciplinas que servem melhor as necessidades da sociedade» japonesa.
Por outro lado, o artigo Which country has most humanities graduates?, publicado em 2 de Setembro de 2015 no sítio do Fórum Económico Mundial, salientou que «um pilar decisivo para o crescimento económico é a disponibilidade de um diverso e altamente especializado “viveiro” de talentos» já que o mesmo «permite a um país poder maximizar o seu capital humano.».
Citando dados compilados pelo próprio Fórum para o seu relatório de 2015 acerca do capital humano, frisou que o top 10 dos países com o maior número de graduados em artes e em humanidades era encabeçado pelos Estados Unidos da América com quase 400 mil licenciados anualmente nestas duas áreas seguido, precisamente, pelo Japão com pouco mais de 144 mil diplomados todos os anos.
Em terras lusas, revelou o físico e político independente recentemente eleito por um partido político nas eleições legislativas portuguesas, Alexandre Quintanilha, num bloco noticioso emitido em 7 de Outubro de 2015 (Telejornal da cadeia televisiva RTP 1) que «há uma depreciação da área das humanidades e das ciências sociais que me desagrada».
Estaria a referir-se, apenas, ao panorama académico e cultural português?
Não sei.
Fruto da minha formação académica em antropologia e da minha actividade profissional de investigador, reflicto muitas vezes sobre a existência das ciências sociais, das artes e das humanidades nos sistemas educativo, social, económico e cultural da maior parte das actuais sociedades do mundo.
E se não existissem, de todo?
Então, todos os assuntos e acontecimentos que preocupam – e que modelam – os cidadãos contemporâneos (como o desemprego, as dependências físicas e virtuais, a guerra, as migrações, as mudanças climáticas, a criminalidade, por exemplo) teriam de ser observados, analisados e comentados, maioritariamente, por actores ligados à engenharia, à medicina, à matemática, à física, à química e às finanças…
Enfim, às ciências exactas e naturais.
Assim, a “lupa” analítica reduzir-se-ia bastante.
Quem perderia?
As sociedades no seu todo porque ver-se-iam privadas de opiniões e de pontos de vista diferentes e alternativos.
Ou seja, todas são precisas: ciências sociais e humanas, artes, ciências naturais e exactas uma vez que os ensinamentos que propõem nos permitem olhar o mundo com outros olhos e pensar.
Mas parece que alguns ainda não perceberam isto".

Ou, pelo contrário, perceberam isso, sim, mas não querem que se pense.


07/08/2019

O Terrorismo no mundo

Já aqui escrevi sobre Terrorismo e algo me diz que esta não será a última vez…

Um relatório recentemente divulgado pela ONU (a Organização das Nações Unidas) qualificou como "elevada" a probabilidade de o continente europeu ser atingido, a breve prazo, por assim dizer, por uma nova vaga de ataques de índole terrorista.

Recordo, no entanto, que muito poucas vezes – ou nenhuma – o chamado Ocidente foi a região do globo mais ‘alvejada’ pelo Terrorismo.

Na época moderna e contemporânea, claro.

Por exemplo, o Global Peace Index 2016, elaborado pelo Institute for Economics & Peace, destacou que, à excepção dos países das regiões do Próximo Oriente e do Norte de África, os que se ‘situavam’ na Europa foram os mais fustigados, em 2015, pelo Terrorismo.

Ora, o gabinete de estudos National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism da universidade norte-americana de Maryland realçou, por sua vez, que embora os ataques terroristas ocorridos em 2015 tenham acontecido em quase cem países espalhados pelo mundo, mais de metade deles ocorreu em, apenas, cinco: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Índia e Filipinas.

Por outro lado, 69% de todas as mortes associadas a esses ataques tiveram lugar, igualmente, em cinco países: Iraque, Afeganistão, Nigéria, Síria e Iémen.

06/08/2019

Ataques infames


O lema da divisão de engenharia do exército do Estados Unidos da América é "Essayons" ("Tentemos", em português).

Ora, esta divisão foi, depois de tentar, claro, a responsável pela construção e desenvolvimento da bomba atómica sendo que um ‘exemplar’ da mesma foi, há setenta e quatro anos (no dia 6 de Agosto de 1945), lançado por um avião militar ao seu serviço sobre a cidade japonesa de Hiroshima.

Uma bomba atómica (ou nuclear, se se quiser) com a capacidade de destruição conferida por uma potência equivalente a cerca de 15 mil toneladas de TNT (trinitrotolueno).

Foi, de facto, no dia 6 de Agosto de 1945 e a referida bomba tinha o nome Little boy ("criança").

Que cinismo.

Dar-se um nome que significa "alegria" e, na verdade, "vida", a um engenho que tinha sido concebido para aniquilar milhares de pessoas e arrasar uma cidade.

Assim, cerca de 80 mil pessoas morreram instantaneamente e mais de 110 mil faleceriam, depois, vitimadas pelas radiações e pelas complicações delas decorrentes.

Dias depois – a 9 de Agosto – seria a vez da também nipónica cidade de Nagasaki ser pulverizada por uma uma bomba vinda do ar (igualmente nuclear) com um poder de destruição equivalente ao proporcionado por 21 mil toneladas de TNT.

Levando a morte, de forma instantânea, a mais de 70 mil pessoas.

Ou seja, cerca de 270 mil mortos e duas cidades inteiramente reduzidas a pó (ou quase…).

Mas, para os senhores da guerra (ou da paz, dirão outros), tal destruição tinha valido a pena: a 14 de Agosto de 1945, cinco dias após a bomba sobre Nagasaki ter sido lançada, o imperador japonês Hirohito (avô do actual imperador) anunciou a rendição do Japão (uma das três potências que formavam o "Eixo") pondo, desse modo, fim à II Guerra Mundial.

Recordo, no entanto, um excerto do discurso proferido pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt em 8 de Dezembro de 1941 a propósito do ataque, ocorrido na véspera, de navios e aviões japoneses à base norte-americana de Pearl Harbor: "a date which will live in infamy" ("uma data infame").

Ora, infame é, também, a palavra que escolho para caracterizar cada um dos ataques norte-americanos.

05/08/2019

O primeiro relvado em Portugal

Dada a relevância cultural que o Futebol tem em Portugal, julgo ser pertinente recordar o conteúdo de uma 'placa' que existe junto de um pequeno campo onde se pratica esse desporto e se situa na confluência das ruas Alexandre de Sá Pinto e Matateu [um dos melhores jogadores portugueses de futebol de sempre], em Lisboa.


"C. F. "Os Belenenses"
Estádio das Salésias
1° campo relvado em Portugal




29-01-1928
A
09-09-1956"


03/08/2019

Platão e os sem valor

O filósofo grego Platão viveu há praticamente 2500 anos e escreveu, entre muitíssimas outras coisas, claro, o seguinte: "O preço que os homens bons pagam pela sua indiferença face à coisa pública é virem a ser governados por homens sem valor".

Poderá quem se dedique a estudar a História da humanidade confirmar ou, pelo contrário, refutar o conteúdo de tal frase?

02/08/2019

O perigo dos estereótipos e das generalizações

A edição digital do jornal de Hong Kong South China Morning Post publicou, há alguns anos, um texto com o título "Who are the world’s worst tourists? Six nations that stand out – you may be surprised".

O seu autor optou, desde logo, por fazer, desde logo, referência a um "estudo" efectuado, por sua vez, em 2015, pelo sítio Hotels.com: nos lugares cimeiros do ‘pódio’ dos turistas que mais furtos realizavam de artigos dos quartos de hotel em que se encontravam alojados estavam os provenientes da Argentina e os de Singapura (estes últimos foram mesmo descritos como sendo – poderia supor-se que geneticamente – "propensos para os roubos").

Já aqueles com origem na chinesa Hong Kong foram, por sua vez, descritos como os turistas "mais confiáveis".

Colocou, em seguida, uma questão: "Mas qual é a nacionalidade dos turistas que mais indigna os cidadãos locais e faz os seus próprios compatriotas desculparem, embaraçados, os seus comportamentos?".

Seguiu-se, então, a prometida lista: China, Reino Unido, Alemanha, América do Norte, Israel e Rússia.

Coadjuvada’, de resto, por um conjunto de situações que a ‘enriqueciam’ e que, simultaneamente, a justificavam.

Terminou, no entanto, com uma chamada de atenção: eram os chamados turistas nacionais aqueles que pior se comportavam.

Ora, o que me motivou a recordar este artigo foi a generalização de comportamentos a todos os que faziam Turismo e que eram cidadãos da Argentina, de Singapura, da China (também de Hong Kong), do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou de qualquer outro país.

Tudo se resumia – e resume –, quanto a mim, à chamada Educação: se se a tem é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer e, por sua vez, se se a não tem também é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer.

Poderá, por exemplo, tomar-se como o estereótipo do turista português o indivíduo tranquilo, agradável no trato e cumpridor das normas estabelecidas…

No entanto, se se generalizasse esse modo de estar (e de ser) a todos os turistas lusos, como explicar o que se passou com aquele grupo de jovens portugueses num hotel espanhol também já há alguns anos quando, na sequência de actos de vandalismo gratuito, foram, pura e simplesmente, expulsos?

Eu também cheguei a fazer uma "viagem de finalistas" e não me comportei de forma arruaceira nem de maneira turbulenta.

Nem, diga-se, aqueles e aquelas colegas com quem fui a Lloret de Mar, em Espanha.

Ora, teria sido, em minha opinião, muito mais exacto dizer-se o seguinte: "alguns turistas oriundos da Argentina e de Singapura (e seguramente que não estão sozinhos…) furtam objectos do quarto de hotel em que estão alojados" e "alguns turistas oriundos da China, do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou, na realidade, de qualquer outro país poderão exibir, por razões várias (a ingestão de bebidas alcoólicas, por exemplo), comportamentos que a sociedade receptora poderá reprovar e condenar, moral e, até, judicialmente".

01/08/2019

Uma canção portuguesa

A vitória da canção interpretada por Salvador Sobral no Festival Eurovisão da Canção de 2017 representou muito mais do que a consagração internacional de um artista e de um país.

É que apesar de estar em competição (é mesmo esta a palavra) com melodias oriundas de diversas nações do chamado Velho Continente – e de outras partes do mundo –, não é possível ignorar o papel do meio "televisão" e de outras plataformas (Youtube, por exemplo) que, ainda antes do festival organizado na Ucrânia, ajudaram a catapultar a canção de Salvador Sobral (escrita pela sua irmã, Luísa) para um nível planetário.

Representou, por isso, para além da enorme capacidade da canção interpretada pelo jovem músico, o reconhecimento da língua portuguesa no mundo.

Não terão, efectivamente, a edição de 2017 Festival Eurovisão da Canção e o "desempenho" do artista e da canção portugueses feito mais pela divulgação da língua portuguesa do que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua fizeram em anos e anos de actividade?