31/07/2019

Paz e prisioneiros

O pacifista germânico Carl von Ossietzky foi, no final da década de 1930, preso pelos chamados nazis e acabou por morrer encarcerado.

Tornou-se, assim, na primeira pessoa agraciada com o prémio Nobel da Paz a morrer numa prisão.

Ora, foram precisos quase setenta anos para que um outro activista e galardoado por um prémio Nobel da Paz (em 2010) falecesse na prisão (estava preso desde Dezembro de 2008): o chinês Liu Xiabo foi o segundo.

30/07/2019

Uma nova colonização?

O estudo que a publicação científica Proceedings of the National Academy of Sciences divulgou, há poucos anos – "Biological annihilation via the ongoing sixth mass extinction signaled by vertebrate population losses and declines" – demonstrou, efectivamente, que estava em curso uma nova extinção em massa de espécies animais no planeta. 

Um dos factores apontados como estando na sua origem foi, precisamente, a sobrepopulação humana.

Ora, há muitos anos que me venho colocando uma pergunta: não serão as viagens científicas a outros planetas do sistema solar (como a Marte, por exemplo) feitas, "em última análise", com um objectivo que é o de analisar se existem – ou se poderão vir a ser criadas – condições para que, sendo necessário (se se verificasse, por exemplo, caos militar, social e económico generalizado no planeta Terra), algumas centenas ou milhares de pessoas (possuidoras de determinadas "características" financeiras, evidentemente...) pudessem ir viver para esses planetas como os colonos de outrora?

29/07/2019

O Museu Sidónio Pais

Já aqui citei uma frase sobre o assassinato de Sidónio Pais.

Ora, se essa frase qualificou como trágico tal acontecimento foi porque Sidónio foi uma ‘personagem’ importante na História de Portugal.

Desde logo porque foi presidente da República.

Creio, por isso mesmo, que seria também importante que o município de Caminha concretizasse o que havia anunciado há pelo menos três anos junto à casa onde nasceu e viveu: "Aqui vai nascer o Museu Sidónio Pais".

27/07/2019

Ameaça neutralizada

Escreveu o escritor norte-americano Chuck Palahniuk, no romance "Lullaby" (de 2002), o seguinte:


"O velho George Orwell entendeu tudo ao contrário. O Big Brother não está a ver. Ele está, sim, a cantar e a dançar. Ele está a tirar coelhos de uma cartola. O Big Brother está a captar a tua atenção a partir do momento em que estás acordado. Ele quer assegurar que estarás, sempre, distraído. Ele quer ter a certeza de que estarás, sempre, imerso em distracções… e isto é pior do que ser observado. Com qualquer coisa sempre a distrair-te ninguém tem que se preocupar com o que estás a pensar. A partir do momento em que a imaginação de todos está atrofiada, a certeza de que nunca ninguém se irá tornar numa ameaça para o mundo".

26/07/2019

Que Educação?

De acordo com um estudo que o francês Ministére de L’Éducation Nationale levou a efeito, em 2016, 22.5% dos 760 mil participantes (com idades entre os 16 e os 25 anos) que nele foram "auscultados" tinham capacidades de leitura muito deficientes.

De facto, 11.7% foram considerados leitores medíocres, 5.7% como tendo muito fracas capacidades de leitura e 5.1% como possuidores de sérias dificuldades para fazê-lo.

No ano seguinte - em 2017, portanto -, uma docente da disciplina de francês chamada a corrigir provas do Baccalauréat do país (o Baccalauréat é um exame escrito cujos objectivos, tais como as provas portuguesas feitas no 12.º ano de escolaridade, são sintetizar a matéria aprendida e, ao mesmo tempo, servir de base, por assim dizer, para uma eventual candidatura ao chamado ensino superior), lamentou-se, num "post" publicado na rede social Facebook com o título "Désolation d’une correctrice du bac en détresse...", da qualidade intelectual presente na maioria dos exemplares que tinha que corrigir e, mais do que isso, que as próprias classificações tivessem que ser aumentadas artificialmente por forma a corresponder às "expectativas" que o Sistema ambicionava.

"Pobre França"… "Pobre educação", comentou.

Ora, o que tais dados revelaram também foi uma muito reduzida capacidade de muitos desses alunos para interpretarem o mundo que os rodeava e, claro, para, partindo do passado, retirarem ensinamentos para o presente e para o futuro, por assim dizer.

Mas proponho que se faça um exercício mental e se lhe associe uma pergunta: será que se substituísse, nesta (triste) situação, tudo o que diz respeito à França por professores e alunos portugueses, sistema de ensino português e provas escritas em português, por exemplo, seria muito disparatado escrever "Pobre educação"… "Pobre Portugal"?

25/07/2019

Sócrates e a Liberdade

Ano 399 antes da era de Cristo (a.C.).

Atenas.

Acusado de corromper a juventude e de não prestar homenagem às divindades da cidade, prenderam-no.

Mas isso não o impediu de continuar a receber alunos com quem discutia, por exemplo, a imortalidade da alma.

Ora, para ele a Morte não seria mais do que uma passagem para o outro lado da Vida.

Seria, por isso, uma libertação já que o corpo impediria que o Ser pudesse atingir a plenitude da sua existência terrestre.

Por ser denso, enganador e demasiadamente exigente.

Assim, em 399 a. C., o filósofo Sócrates bebeu veneno e libertou-se.




24/07/2019

A transformação inglesa

"A Inglaterra tradicional em fins do século XVII está centrada na cidade e na bacia de Londres. A Inglaterra pré-industrial dos fins do século XVIII organiza-se à volta de dois eixos. Uma forte mancha à volta de Londres, uma bacia de Londres que se esvazia a favor da capital, uma zona de forte densidade industrial e demográfica a oeste. Vê-se, pois, aparecer, desde o fim do take off, a geografia humana da Inglaterra industrial do século XIX".

Fonte: P. Chaunu em "A Civilização da Europa das Luzes", 1985.

23/07/2019

Ensino e intolerância

A rede social YouTube começou já a impedir professores de História de publicarem vídeos com discursos pronunciados por Adolf Hitler.

Ou seja, pessoas que tentavam ensinar outras pessoas foram impedidas de o fazer.

Ora, deveria ser evidente que uma função didáctica não é um 'veículo' para a promoção de uma atitude social violenta e de ódio.

Acho, por isso, lamentável os algoritmos - e algumas pessoas - não perceberem tal coisa.

22/07/2019

D. João III e a Cultura

No já por mim citado volume III da "História de Portugal" coordenada por José Mattoso escreveu António Rosa Mendes o seguinte:

"É inquestionável que sob D. João III ganhou vulto um fenómeno de "investimento na cultura" que, tanto quantitativa quanto qualitativamente, não teve precedentes na nossa história. A modernização do aparelho cultural respondia, aliás, e a um tempo, a solicitações que se prendiam com a necessidade de acertar o passo pelo da Europa evoluída e com as exigências do processo de concentração, racionalização e secularização do Poder - portanto, da própria construção do Estado moderno".

No entanto, como é possível afirmar que esse monarca tenha feito um "investimento na cultura" sem paralelo em Portugal quando a Inquisição - cuja acção se revelaria 'cheia' de perseguições, repressões e censuras - foi criada pelo Papa, sim, mas sob pressão do próprio D. João III que se encarregou de a tornar, cada vez mais, de resto, num tribunal da coroa?


20/07/2019

A 'superioridade' e a 'inferioridade' civilizacionais

A editora Cosmos publicou em 1979 o livro escrito pelo sinólogo francês Jacques Gernet, "O Mundo Chinês".

Porque me parece sempre extraordinariamente importante rejeitar as aparências das chamadas inferioridade e superioridade civilizacionais opto por ‘fixar’ em texto algumas informações daí extraídas, por assim dizer.

Inovações técnicas

China
Europa
Tecelagem da seda
5000 Antes de Cristo (a. C.)
Século XII
Leme à popa
Século I
Século XII
Bússola marítima
Século X
Século XII
Utilização militar da pólvora para canhão
Século X
Século XIV
Fabrico do papel
Século II
Século XIII
Imprensa com caracteres móveis
Século XI
Século XV
Fundição do ferro
Século I a. C.
Século XIV

19/07/2019

A Batalha de Matapão

O lema da República da Turquia foi ‘retirado’ de um discurso proferido por Mustafa Kemal Atatürk (que aboliu o Império Otomano e estabeleceu a República Turca).

Durante muitos anos, a frase "Ne mutlu Türkün diyene!" ("Quão feliz é quem pode dizer que é Turca/o!", em português) figurou como o lema nacional turco.

Ora, também foi há muitos anos que o católico rei português D. João V interveio numa luta com a Turquia muçulmana.

De facto, segundo o "Dicionário de História de Portugal" dirigido por Joel Serrão:


"Perante nova ameaça dos Turcos, que conquistaram a Moreia [Península do Peloponeso, Sul da Grécia] e ameaçavam outros domínios venezianos, como Corfo e até a própria Itália, esta potência recorre ao papa, que apela para os reis de Portugal e da Espanha. D. João V mandou sair de Lisboa uma armada, a 5 de Julho de 1716, comandada pelo conde do Rio Grande – Lopo Furtado de Mendonça. Mas a armada voltou sem combater, devido à retirada do inimigo. Em 28 de Abril de 1717, saindo aquela outra vez para o Mediterrâneo, encontra os Turcos ao largo do cabo de Matapão, em 19 de Julho, e, colaborando com duas naus da Ordem de Malta e uma fragata veneziana, alcança uma brilhante vitória".

18/07/2019

A Europa do século XVII e o Próximo Oriente de hoje

Na crónica que Éric Zemmour assinou e foi publicada na edição digital do jornal francês Le Figaro no dia 10 de Julho de 2017, foi escrito o seguinte: "O Próximo Oriente vive, actualmente, uma situação parecida com aquela que a Europa viveu no século XVII já que a querela religiosa entre católicos e protestantes se transformou numa guerra total".

17/07/2019

A origem da fé

O médico psiquiatra austríaco Sigmund Freud – considerado o pai da psicanálise – escreveu várias cartas a James Jackson Putnam, neurologista norte-americano.

Cito, de facto, um excerto de uma delas (escrita no início de 1910):


"A religiosidade encontra-se biologicamente relacionada com o prolongado despojamento e a contínua necessidade de protecção do ser humano durante a infância; quando, mais tarde, o adulto reconhece o seu abandono real e a sua fraqueza perante as grandes forças da vida, reencontra-se numa situação semelhante à da infância e procura então desmentir essa situação sem esperança ressuscitando, pela via da regressão, as potências que o protegiam em pequeno".

16/07/2019

Guerras e misérias

Escreveu o prof. Charles Ralph Boxer no seu "O Império Marítimo Português 1415-1825" o seguinte:

"O povo da tribo Pende, que vivia na costa angolana no século XVI mas emigrou depois para o interior,  junto do rio Kasaï, manteve uma interessante tradição oral da conquista feita por Portugal da sua terra natal.

"Um dia os homens brancos chegaram em navios com asas, que brilhavam como facas ao sol. Travaram duas batalhas com o N'gola e bombardearam-no. Conquistaram as suas salinas e o N'gola fugiu para o interior, para o rio Lucala. Alguns dos seus súbditos mais corajosos ficaram junto do mar e, quando os homens brancos vieram, trocaram ovos e galinhas por tecidos e contas. Os homens brancos voltaram outra vez ainda. Trouxeram-nos milho e mandioca, facas e enxadas , amendoim e tabaco. Desde então até aos nossos dias, os brancos não nos trouxeram nada senão guerras e misérias"".

15/07/2019

A queda da Bastilha

A França assinalou ontem o seu dia nacional.

Foi, de facto, em 14 de Julho de 1789 que o povo de Paris assaltou e tomou a Bastilha (que acabou depois por ser demolida) que, durante muito tempo, havia sido utilizada como prisão política.

Assim, a sua inutilização foi encarada como a destruição de um dos mais flagrantes símbolos do poder absoluto da monarquia francesa e, enfim, como uma espécie de presságio para o que aconteceria, poucos anos depois, ao rei Luís XVI e à rainha Maria Antonieta.

13/07/2019

As fortalezas abaluartadas

A Fortaleza de Valença assinala hoje, dia 13 de Julho de 2019, os duzentos e dez anos da segunda invasão francesa de Portugal.

Aproveito, assim, para lembrar que membros da agremiação francesa Association Vauban, especialistas em fortificações arquitecturalmente abaluartadas, visitaram, em Setembro de 2016, uma das infra-estruturas que integram o património da cidade minhota de Valença: a fortaleza.

Antiga estrutura militar com uma extensão de cerca de 5.5 quilómetros, a fortaleza de Valença, que conta com cerca de sete séculos de existência, foi uma das mais importantes no seio da estrutura defensiva portuguesa.

Nos dias de hoje, porém, a fortaleza de Valença não é já um equipamento que procura impedir o acesso de visitas "indesejáveis" mas, sim, conquistar visitantes: a fortaleza de Valença integra, juntamente com as fortificações de Almeida, de Elvas e de Marvão, a candidatura das ‘Fortalezas abaluartadas’ a património mundial da UNESCO (sigla inglesa para designar a United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura).

Na verdade, a cidade de Elvas é, em todo o mundo, aquela com o maior sistema de fortificações abaluartadas tendo, inclusivamente, sido distinguida pela UNESCO como "Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e suas Fortificações" no final de Junho de 2012.

Ora, uma funcionária da edilidade de Elvas explicou-me, entretanto, que a cerimónia de apresentação de tal candidatura teve lugar no Forte da Graça, em Elvas, em Junho de 2016, e contou com a presença dos presidentes dos municípios envolvidos.

Adiantou-me, também, que todos os processos de candidatura de bens a património da humanidade eram acompanhados pela Comissão Nacional da UNESCO (organismo intermediário entre o Estado português e a UNESCO) e era esta que, de acordo com as directrizes definidas pelo Comité do Património Mundial da UNESCO, organizava todo o "calendário" do processo de candidatura.

Recordou-me, ainda, que Portugal só poderia apresentar candidaturas a partir de 2018 uma vez que o mandato de Portugal como membro do Comité do Património Mundial terminaria no fim do ano de 2017.

Ora, dado o meu interesse pelo património português e por todas as acções que poderão contribuir, na minha opinião, para a dinamização do mesmo - e, no fundo, para a sua protecção (e preservação)... - já que o entendo como uma parte importantíssima da chamada cultura portuguesa, só posso manifestar o meu contentamento por mais esta candidatura à Convenção do Património Mundial, Cultural e Natural adoptada pela UNESCO em 1972.

12/07/2019

Portugal inclinado

Ao ler "A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa" do Professor e historiador Vitorino Magalhães Godinho (livro primeiramente publicado em 1971) adquiri uma 'ideia' que me pareceu ser fundamental: a população residente em Portugal distribuía-se, no início do século XVI, de forma irregular.

Creio mesmo que uma das sínteses que melhor concretizou já essa distribuição populacional 'desnivelada' foi feita pela docente que ainda ontem aqui citei, Teresa Ferreira Rodrigues.

"As unidades administrativas mais importantes em termos populacionais encontravam-se na província de Entre Douro e Minho e no Nordeste da Beira, correspondendo a dois quintos do total de efectivos. A região a sul do Tejo, metade do território nacional, continuava escassamente povoada e nela vivia apenas um quinto da população estimada".

Ou seja, o facto de existir uma (muito) maior concentração populacional em determinadas regiões de Portugal não é um fenómeno recente. Nem a chamada macrocefalia de Lisboa.

Continuarão?

11/07/2019

O Dia Mundial da População

Assinala-se hoje, dia 11 de Julho, o Dia Mundial da População.

Esta foi uma data que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (o PNUD) instituiu em 1989.

1 milhão de habitantes.

Seria este, aproximadamente, o número total da população portuguesa em fins de Quatrocentos e no início do século XVI.

E, na década de 1530, Portugal contaria cerca de 1.3 milhões de habitantes.

Ora, a professora Teresa Ferreira Rodrigues ensaiou na já por mim citada "História de Portugal" uma explicação para este aumento populacional:

"Estes valores, meras ordens de grandeza, indiciam um crescimento populacional durante o período. Apesar das pestes e epidemias, das catástrofes naturais, das guerras e da emigração, a população do reino não terá decrescido, em grande parte pelos fortes níveis de natalidade, que se sobrepunham à também muito elevada mortalidade".

Todavia, passados cerca de 500 anos o ‘panorama’ populacional é muito diferente: mesmo sem "pestes e epidemias", "catástrofes naturais" e "guerras", Portugal regista uma das mais baixas taxas de natalidade na Europa (com 8 nascimentos por cada mil habitantes) bem como de fertilidade (1.4 filhos por mulher). O facto de estas taxas continuarem a baixar não permite traçar uma evolução populacional nada ‘optimista’.

Na verdade, as Projeções de população residente 2012-2060 (Cenário central) publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística em 2014 confirmaram-no:


- 8.6 milhões de pessoas residentes em Portugal em 2060;

- O índice de envelhecimento registado em 2012 – 131 idosos por cada 100 jovens – ‘subirá’, em 2060, para 307 idosos por cada 100 jovens;

- O índice de sustentabilidade verificado em 2012 – 340 pessoas em idade activa por cada 100 idosos – ‘passará’, em 2060, para 149 por cada 100;

- Cerca de 35% da população a viver em Portugal terá mais de 65 anos de idade em vez dos 20% registados em 2012*;

- A população residente no país em idade activa (dos 15 aos 64 anos de idade) diminuirá dos 6.9 milhões verificados em 2012 para os cerca de 4.5 milhões em 2060.


Mas se para Portugal as previsões demográficas são verdadeiramente preocupantes no longo prazo (ou no curto prazo já que 2060 será já amanhã, por assim dizer…)**, para outras regiões do mundo as previsões são outras: segundo lembrou um estudo recentemente divulgado pela universidade norte-americana de Stanford - "How Will Demographic Transformations Affect Democracy in the Coming Decades?" –, a população em idade activa nos países da África subsariana irá (segundo indicam as projecções) aumentar em cerca de 1 bilião de pessoas entre 2020 e 2060.

Ou seja, 25 milhões de indivíduos a cada ano que passar.

E mais: muitas destas pessoas ver-se-ão forçadas a migrar em consequência das alterações climáticas e da guerra.

De facto, aquilo que me parece mais significativo não é, de todo, a diferença de opiniões nem a diferença de supostas soluções para um dado problema.

É não haver debate sequer.

Ora, o que destaco como o mais importante na demografia em Portugal, por assim dizer, é precisamente a ausência de um debate a nível nacional que pudesse encontrar uma espécie de estratégia clara em relação ao que "está em jogo" e, dela decorrente, a idealização de medidas avulsas e pontuais, mais ou menos populares.
E o que "está e estará em jogo" não é "apenas" o envelhecimento da população do país mas, também, o futuro do sistema de protecção social e, no fundo, do da sociedade portuguesa como um todo.


***


A mesma professora Teresa Ferreira Rodrigues acrescentou também na indicada "História de Portugal":"Ainda com D. Afonso V, cerca de 1480, se tentou saber o número de habitantes do reino. No entanto, a operação foi rodeada de cautelas dado o medo que se temia poder gerar nas populações. Muitos poderiam pensar tratar-se este levantamento de uma primeira fase de preparação para novo conflito bélico".

Ora, eu – que mais de 500 anos depois trabalhei como recenseador nos Censos 2011 pude testemunhar in loco este sentimento de desconfiança para com o Estado pois alguns imigrantes que tinha que recensear não o foram: pela simples razão (como vários vizinhos então me explicaram) de que pensariam que eu era um empregado do Estado que procuraria investigar – e posteriormente denunciar – a sua condição de imigrantes eventualmente irregulares.




* De facto, no que se refere à percentagem populacional de pessoas com 65 e mais anos, a Europa irá contar quase 13% do total mundial.
Já a Ásia somará, neste ‘capítulo’, pouco mais de 62%.
Invoco, ainda, dois ‘pedaços’ do relatório "World Population Ageing 2015" compilado pela Organização das Nações Unidas (a ONU): "A população do planeta está a envelhecer: todos os países do mundo estão a verificar um crescimento no número de pessoas idosas na sua população e na proporção ocupada por estas nessa mesma população. Está previsto que o envelhecimento da população – o aumento do ‘peso’ do número de pessoas idosas na população – se torne num dos mais importantes factores capazes de contribuir para a mudança social no século XXI com implicações em quase todos os sectores das sociedades como o do mercado de trabalho e financeiro, o da procura por bens e serviços como o imobiliário, os transportes e a protecção social. Bem como nas próprias estruturas familiares e nos laços inter-geracionais" e "Enquanto que o declínio da taxa de fertilidade e o aumento da longevidade são os pontos-chave do envelhecimento da população mundial, as migrações internacionais contribuíram, igualmente, para a mudança das estruturas etárias da população nalguns países e regiões. Contudo, na maior parte deles, as migrações internacionais deverão produzir pequenos efeitos no combate ao ritmo do envelhecimento da população. Entre 2015 e 2030, o saldo migratório deverá abrandar o envelhecimento da população de acolhimento em, pelo menos, um ponto percentual em 24 países ou regiões e, simultaneamente, deverá acelerar o envelhecimento populacional da população de origem em, pelo menos, um ponto percentual em 14 países ou regiões".

** As investigadoras Filipa Castro Henriques (do Observatório de Estudos Políticos) e a já citada Teresa Ferreira Rodrigues (do Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa) apresentaram, há alguns anos, o estudo "(re)Birth: Desafios Demográficos Colocados à Sociedade Portuguesa".
Refira-se que tais investigadoras foram convidadas pela Plataforma Para o Crescimento Sustentável, um "think tank" fundado em 2011.
Aquele estudo procurou, desde logo, ‘olhar’ para a actual situação demográfica de Portugal comparando com o que, neste ‘tópico’, se passou em décadas passadas e perspectivar como vai ser no futuro. E teceu, depois, considerações sobre políticas que permitiriam rectificar ou, de alguma forma, atenuar os problemas identificados.
Assim, disse-se, por exemplo, o seguinte: "um número crescente de países procura minorar os efeitos da falta de adultos em idade activa, adoptando medidas de incentivo à imigração. o aumento dos contingentes imigratórios gera um aumento da população activa, o rejuvenescimento etário e a subida da natalidade, porque os migrantes são maioritariamente jovens, em idade fértil e de constituir família".
Desse modo, acrescentou-se, "o aumento da natalidade é outra das consequências indiretas da imigração, porque muitos imigrantes provêm de sociedades e culturas com níveis de fecundidade superiores aos do país de acolhimento".
O que, em certa medida, contrariou aquilo que o relatório "World Population Ageing 2015" havia sublinhado...

10/07/2019

Cunhas: presente e passado

A edição impressa de um jornal destacou, em Abril de 2018, o seguinte: "Portugueses são os ‘reis’ das cunhas" e que "Portugal é o país da UE [União Europeia] onde as pessoas mais enaltecem as boas ligações para progredir no trabalho e onde mais se queixam da desigualdade de rendimentos".


Ora, percebi melhor de quão ‘longe' vem essa dependência ao assistir, há dias, a um colóquio sobre o império forjado por Portugal aquando dos chamados Descobrimentos: no ‘capítulo' sobre a "Experiência como requisito dos agentes governativos", abordando-se a "Hierarquia de atributos sociais para nomeação/recrutamento – império", concluiu-se serem o "Estatuto social/linhagem/parentesco" e as "Redes clientelares" os ‘factores' determinantes para a ‘carreira imperial'. . .

09/07/2019

"Lisbon Maru"

 Não sei por que motivo alguém no Japão decidiu chamar a um barco "Lisbon".


Aquilo que sei, de facto, é o que se pode ler numa das páginas do primeiro volume da obra "A Segunda Guerra Mundial" que o historiador britânico Martin Gilbert escreveu (e que a Publicações Dom Quixote editou em Novembro de 1989):


"No Extremo Oriente, no dia 1 de Outubro [de 1942], um torpedo atingiu o barco japonês Lisbon Maru*, que começou a afundar-se. A bordo estavam 1816 prisioneiros de guerra britânicos, seguindo de Hong Kong a caminho do Japão. Quando os prisioneiros tentaram sair do barco que se afundava, os japoneses mantiveram as escotilhas fechadas. Depois, enquanto o barco continuava a ir ao fundo, algumas centenas dos homens conseguiram sair. Os japoneses abriram fogo sobre eles. Os que puderam saltar para a água e tentaram subir para alguns dos quatro navios japoneses que ali se encontravam, foram repelidos de novo para o mar. Mais de 840 prisioneiros foram mortos a tiro ou por afogamento. Os restantes, recolhidos mais tarde por pequenos barcos de patrulha ou chineses compadecidos, seriam levados para o Japão".



* Foram, efectivamente, seis os torpedos que o submarino norte-americano "Grouper" disparou contra o barco com bandeira nipónica. Mas, na verdade, tal não significa que os seis tivessem atingido a embarcação...

08/07/2019

Vasco da Gama e a Índia

Partiu de Lisboa em 8 de Julho de 1497 a frota comandada pelo navegador Vasco da Gama com o objectivo de descobrir o caminho marítimo para a Índia passando pelo Cabo da Boa Esperança.

Conseguiu-o uma vez que chegou a Calecute, importante cidade e entreposto comercial na costa ocidental da Índia em 17 – ou no dia 18 – de Maio de 1498.

Demonstrou, assim, existir uma ligação marítima directa entre a Europa e a Ásia.

06/07/2019

O mundo em Lisboa

Recordo uma das coisas que diz o narrador do filme de Ivo Ferreira, "O Estrangeiro""Para ele, todo o mundo é o pequeno ponto onde vivemos. Cabe quase na palma de uma mão".

Ora, quem quer que actualmente circule por Lisboa conseguirá, muito facilmente, ouvir linguajares originários de muitos pontos do globo.

Mas existem outras dimensões deste cosmopolitismo (muito) anteriores à ‘vaga’ turística.

Na toponímia, por exemplo.

Podem, assim, encontrar-se, por exemplo, a Praça de Espanha, a Avenida do Brasil, a Rua de Angola, a Avenida dos Estados Unidos da América, a Rua da Guiné, a Avenida Rio de Janeiro, a Rua Cidade de Cádiz, a Rua Cidade do Lobito, a Avenida da Índia, a Rua Cidade de Rabat, a Rua de São Paulo (e a Praça de São Paulo), a Rua de Moçambique, a Rua Cidade de Cardiff, a Rua da Venezuela, a Praça de Damão, a Avenida de Paris, a Rua Cidade de Gabela, a Rua República da Bolívia, a Rua de Manhiça, a Praça de Malaca, a Avenida do México, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Cidade de Bolama, a Rua da Ilha de São Tomé, a Praça de Goa, a Avenida do Uruguai, a Rua Cidade de Benguela, a Praça de Londres, a Avenida de Pádua, a Rua Cidade da Beira, a Praça de Dio [ou Diu], a Avenida de Ceuta, a Rua Washington, a Rua de Macau, a Rua de Marracuene, a Rua Cidade de Bafatá, a Praça de Bilene, a Avenida de Madrid, a Rua do Zaire, a Rua Cidade de Liverpool, a Avenida Cidade de Luanda, a Rua Cidade de Bissau, a Avenida de Berlim, a Rua Vila de Bassorã, a Rua de Timor, a Avenida de Roma, a Rua do Dondo, a Rua de Buenos Aires, a Rua de Cabo Verde, a Rua da Ilha do Príncipe, a Avenida Brasília, a Rua Cidade da Praia, a Rua de Chibuto, a Rua Cidade de Nampula, a Rua Cidade de Quelimane, a Rua Cidade de Tete ou a Avenida das Nações Unidas

05/07/2019

Os portugueses de Malaca

Recordo-me de, há alguns anos, ter visto, na plataforma YouTube, um determinado episódio (não me lembro de qual) de um documentário que havia já passado num canal televisivo do Brasil.
"Além Mar" era o seu ‘nome’.

Nesse episódio que vi, uma das pessoas – o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares –, fez a seguinte declaração: "Nós devemos perguntar por que é que povos – alguns deles na Ásia, em Malaca e tudo – que já não vêem portugueses há 300 ou há 400 anos (…), guardaram uma imagem tão forte e ainda estão apegados a algumas coisas que têm que ver com o mundo português"…

De facto, Malaca localiza-se na região do sudeste da Ásia e faz parte de um país, a Malásia.

Quando, em 1511, o comandante português Afonso de Albuquerque e os seus homens conquistaram "a opulenta Malaca" (como a apelidaria, mais tarde, Luís Vaz de Camões) estavam, muito provavelmente, bem longe de imaginar que, passados quinhentos anos, ainda ali pudessem viver pessoas que tinham orgulho no nome de Portugal e honrassem, sempre que lhes era possível, os seus antepassados portugueses e as suas tradições, os seus costumes religiosos e a sua língua porque não queriam que, simplesmente, desaparecessem na chamada espuma dos dias.

Ora, os portugueses que primeiro se fixaram em Malaca eram, naturalmente, em pequeno número e iam servir na fortaleza entretanto mandada construir por Afonso de Albuquerque e na armada portuguesa durante um determinado período de tempo findo o qual partiam para outra qualquer parte do então império português.

Todavia, ao longo do século XVI, pouco a pouco, alguns daqueles foram-se fixando em Malaca após casarem com mulheres locais (depois de convertidas ao cristianismo...).

Eis as origens dos luso-descendentes de Malaca.

Mas, logo em 1641, cerca de cento e trinta anos após terem entrado em Malaca como conquistadores, os portugueses foram expulsos pelos holandeses.

A ocupação holandesa foi severa para com os vestígios da presença portuguesa: as igrejas foram destruídas ou transformadas em dependências militares, a velha torre de menagem (a fortaleza já referida), actualmente apelidada de "A Famosa", foi transformada em armazém e o culto católico foi proibido.

Impuseram-se, desse modo, sérias restrições à identidade dessas pessoas.

É, no entanto, importante recordar que os holandeses decidiram também fazer de Batávia (a actual Jacarta, capital da Indonésia) o ‘centro’ da sua vasta rede comercial na região do sudeste asiático deixando, assim, para Malaca o papel de protecção à navegação no estreito com o mesmo nome.

Votados, por isso, a um certo desprezo social, os descendentes dos portugueses não desistiram, porém, da tarefa de preservar a sua cultura e, enfim, a sua identidade.

Compreenderam que a sua luta só poderia ser bem sucedida se fundissem a sua cultura com outras culturas autóctones (incorporando alguns elementos, por exemplo) e contribuíssem, desse modo, para um enriquecimento da sua própria identidade.

No entanto, em 1795, na Europa, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram a Holanda e a Inglaterra, receosa de que os franceses se apropriassem de possessões holandesas na Ásia – entre as quais Malaca e Batávia –, assumiram, eles próprios, o controlo directo de várias dessas terras.

Entretanto, terminadas as chamadas guerras napoleónicas, os holandeses regressaram a Batávia em 1816 e a Malaca em 1818.

Ainda assim, poucos anos após o seu regresso, em 1824, a Holanda e a Inglaterra firmaram um tratado essencialmente destinado a evitar a expansão de outras potências europeias – a França, particularmente – na região do sudeste da Ásia.

Uma das consequências imediatas desse tratado foi a retirada definitiva dos holandeses de Malaca. 

Terminou assim, na vida de Malaca, mais um ciclo.

Deste modo, como sempre acontece na vida, logo outro se iniciou.
 
Importará dizer, em relação aos luso-descendentes – os portugueses de Malaca – que a administração inglesa também os não favoreceu em relação a outros povos da península malaia.

Circulava, de resto, entre as gentes cristãs, por exemplo, a firme convicção de que só se se falasse a língua inglesa se teria alguma hipótese de "entrar" no mundo anglo-malaio da administração colonial.

Na verdade, a língua portuguesa não foi oficialmente ensinada desde o fim da ocupação portuguesa de Malaca. O papiá cristang (como é também conhecido este crioulo, uma mistura de português e de malaio) foi apreendido pelas crianças através dos seus pais que, por sua vez, o passaram aos filhos e assim sucessivamente: o político e autor malaio Bernard Santa Maria – ele próprio um luso-descendente – ilustrou bem, numa frase apenas, a intolerância com que os católicos portugueses de Malaca foram tratados, quer pelos holandeses, quer pelos ingleses: "Não fomos às escolas holandesas porque eram calvinistas, nem às inglesas porque eram metodistas, e por isso não tivemos educação até hoje".

Foi, no entanto, durante a administração inglesa que foi construído o bairro português em Malaca: de facto, por volta de 1930, os padres católicos da cidade convenceram as autoridades a edificar, nos arredores da cidade, junto ao mar, um espaço e respectivas infra-estruturas que pudessem congregar uma etnia um tanto ou quanto dispersa pela península malaia facilitando, assim, a preservação da cultura e, até, a integridade étnica dos luso-descendentes.

E foi só a partir da década de 1950 que, com o apoio dos padres católicos da missão portuguesa, foram criados alguns grupos folclóricos (como o "the portuguese culture group") com canções e com danças próprias ao estilo do verificado em Portugal (ou seja, ‘copiadas’) e incentivadas outras tradições (essas sim, locais e muito antigas) como as "mata-cantiga" (cantigas ao desafio).

Como tem, também, vindo a acontecer em muitas outras partes do mundo, tais tradições têm merecido cada vez mais atenção por parte das autoridades locais devido ao papel desempenhado no turismo local.
 
Por exemplo, o jornalista português Joaquim Vieira, numa peça escrita, há já alguns anos, sobre o bairro e as suas gentes, escreveu: "sendo o turismo uma das prioridades e Malaca a principal atracção turística da Malásia, os portugueses [de Malaca, claro está] – uma espécie em vias de extinção – transformaram-se numa atracção de jardim zoológico. O governo construiu no bairro português uma "praça portuguesa" com "restaurantes portugueses" anunciando "comida portuguesa" e onde se realizam espectáculos de "folclore português". O local é ponto de passagem obrigatória dos visitantes que passam por Malaca, embora a probabilidade de haver alguma coisa de português em tudo isto seja tão grande como a de encontrar um esquimó no Equador".

Em 1984, o papiá cristang foi declarado, pela própria UNESCO, como estando em risco de extinção.

João Pedro de Campos Guimarães e José Maria Cabral Ferreira escreveram no seu livro "Bairro Português de Malaca" o seguinte: "Uma língua contém e define um modo de ser e de ver o mundo. Enquanto dura, um certo tipo de personalidade existe: com o seu desaparecimento é um certo homem que morre. A língua tem relação intrínseca com todos os elementos que integram e dão rosto a uma cultura; ela é um dos pilares sobre que assenta a pertença de um grupo: se falo tal língua, encontro-me com os que a falam, distingo-me e distancio-me dos que não falam".

Assim, não terá sido grande a surpresa o facto de que, por volta de 2003, nenhuma criança residente no bairro conseguisse falar correntemente papiá cristang (recordo que o Bairro Português de Malaca tem, hoje, 11.2 hectares e cerca de 1200 pessoas a lá viver).

Ou seja, o que pretendo, finalmente, notar é que existe, ainda hoje, uma comunidade que se reclama ‘herdeira’ da cultura portuguesa – malaio-portuguesa – mas não uma comunidade malaio-holandesa ou uma malaio-inglesa ainda que a presença de holandeses e ingleses tenha durado cerca de cento e sessenta anos cada. Uma comunidade em que, por exemplo, citando o já referido episódio do documentário brasileiro "Além Mar", "o culto dos santos católicos manteve-se vivo por todos esses séculos mesmo cercado pelo islamismo da Malásia" ou, como sublinhou um artigo assinado pelo escritor e viajante Gonçalo Cadilhe em fins de Março de 2011, "Em Malaca, cruzamento de povos dos mares, uma pequena comunidade católica resiste à uniformização religiosa e cultural imposta pela maioria muçulmana que governa a Malásia".

Creio, por isso, estar mais do que na altura, por assim dizer, de, em Malaca como em muitas outras latitudes (algumas das quais já aqui aludidas), as autoridades portuguesas, sem se deixarem perturbar e condicionar por qualquer sentimento saudosista, neo-imperialista ou neo-colonialista que queira e possa revelar-se, possam compreender o sentido genuíno de uma frase proferida pelo Professor Agostinho da Silva – "E hoje o que Portugal poderia fazer o favor de perceber é que um dos corpos que ele é está aqui entre o Minho e o Algarve! Outro corpo que ele é está, por exemplo, no Brasil. O outro corpo que ele é, está, vamos pôr, em Moçambique. E talvez outro corpo que ele é está em Malaca, ou em Macau ou em Timor!" e o de uma outra registada pelo jurista e político Guilherme d’Oliveira Martins (então o presidente do Centro Nacional de Cultura) num artigo publicado em Novembro de 2011 – "sentimos que a comunidade que deixámos no longínquo século XVII precisa mais do nosso conhecimento e do nosso apoio. É isso que todos nos pedem e não podemos deixar de corresponder" e agir.

Espero que a recente visita do secretário de Estado das Comunidades a Malaca vá neste sentido.



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De facto, tendo conseguido sobreviver ao Tempo e à segregação, activa e passiva, das administrações holandesa, inglesa e malaia, é possível que algumas das cerca de 1200 pessoas que hoje vivem no Bairro Português de Malaca integrem o exército da Malásia.

Que tem como lema "Gagah Setia" ("Forte e Leal", em português).

Ora, também os portugueses de Malaca têm sido sempre fortes e leais.




04/07/2019

Os Estados Unidos da América

Os Estados Unidos da América celebram, hoje, o 243.º aniversário da sua formação como país soberano e independente.

Soberania e independência que têm sido definidas – e ‘alimentadas’ –, sobretudo, pelo poder da geopolítica.

Por exemplo, uma investigadora do Observatório Político declarou, numa entrevista televisiva, que "a Rússia é a única potência mundial que tem, verdadeiramente, algum interesse geoestratégico e político na Síria. Os Estados Unidos não têm".

Ora, apesar de eu não ser um especialista nestas matérias, discordei imediatamente do que tinha acabado de ouvir: sendo os Estados Unidos da América a única actual grande potência política e militar à escala planetária não é simplesmente possível que não tenha uma "orientação" estratégica numa zona do globo que, historicamente, tem sido palco de conflitos e disputas também pelo controlo dos recursos energéticos. E, ainda mais, porque é, precisamente, nessa região que se situa, por assim dizer, um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América e um dos que recebe, anualmente, mais fundos e material militar, sobretudo (e que até tem disputas territoriais com a Síria): Israel.


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O artigo "Will we have a 2nd Civil War? You tell me." que a revista norte-americana Foreign Policy publicou, "online", em Março de 2017 foi escrito tendo por base a questão "Quais serão as probabilidades de uma guerra civil eclodir neste país [Estados Unidos da América] nos próximos 10 a 15 anos?" e algumas das suas hipóteses de resposta.

O seu autor perguntou, assim, a um grupo constituído por pensadores da segurança nacional quais seriam as suas.

O consenso, sublinhou, ‘andaria’ por volta dos 35%.

E solicitou, ainda, a colaboração dos leitores.

Ora, perguntando-me, desde logo, se uma das pessoas que ajudou a fundar a Foreign Policy – Samuel P. Huntington (autor, por exemplo, de "O choque das civilizações") –, subscreveria as acusações, entretanto surgidas, do carácter pouco científico de tal inquérito, quero dizer que faz, para mim, todo o sentido que se coloque a hipótese de, em pleno século XXI, os Estados Unidos da América serem ‘palco’ de uma guerra civil.

Quando disse "faz todo o sentido" estava, também, a lembrar-me do que se passou nesse mesmo ano em Charlottesville (estado da Virgínia): a violência que surgiu quando grupos apoiantes do racismo, da intolerância e do ódio (neonazis, "skinheads" e membros do grupo Ku Klux Klan) se manifestaram... 

Mas não só. 

O também norte-americano Public Religion Research Institute publicou, depois do artigo que citei, um estudo – "America’s Changing Religious Identity" – que concluiu o seguinte: "Actualmente, apenas 43% dos norte-americanos afirmam ser brancos e cristãos e, desses, apenas 30% dizem ser protestantes. Em 1976, cerca de 8 em cada 10 norte-americanos (81%) assumiam ser brancos e cristãos sendo que, desses, mais de metade (55%) era protestante".
Não é, certamente, por acaso que o segundo idioma mais utilizado em quase todos os estados da América do Norte é o espanhol (castelhano…)*.
Ou seja, os ‘famosos’ WASP’s ("White Anglo-Saxon Protestant") – os cidadãos brancos, de origem anglo-saxónica e praticantes da religião protestante – estão em declínio.
Ora, talvez este declínio ajude a explicar a animosidade ‘racial’ que hoje se vive nos Estados Unidos da América e a hipótese de o país vir a sofrer uma segunda guerra civil...

*Assim, no estado North Dakota a segunda língua mais falada é a alemã, no Louisiana é a francesa, no Maine, no New Hampshire e no Vermont é, também, a francesa, no Hawai são o Ilocano, o Tagalog e o japonês e no Alaska é o Yup’ik.
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Talvez influenciados por estarem a brindar com vinho da Madeira, o lema adoptado pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América foi "E Pluribus Unum" (ou, em português, "Entre Muitos, Um") – à semelhança do escolhido, em Portugal, pelo clube Sport Lisboa e Benfica mais de uma centena de anos mais tarde – para aludir à ‘herança’ cultural e étnica do país e a uma tolerância que, de resto, em muito poucas ocasiões se verificaria.

Ora, em meados da década de 1950, os Estados Unidos – então em confronto ideológico (e não só) com a Comunista União Soviética – decidiram, num gesto desafiador, inscrever o lema "In God We Trust" ("Confiamos Em Deus", em português) nalgumas notas e moedas em circulação corrente: perante um país com um regime político comunista (e claro, anticapitalista) e ateu, o que poderia ser melhor do que exaltar uma entidade divina no sistema monetário, fulcro do Capitalismo?

Mas, embora a União Soviética possa ter já desaparecido, tal lema tem-se mantido e irá continuar a existir: o Supremo Tribunal norte-americano anunciou já, em Junho de 2019, que considerava improcedente uma queixa apresentada que pretendia a retirada pura e simples do referido "In God We Trust" por, argumentou-se, chocar contra os direitos religiosos de quem se identificava como ateu.


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O lema que o estado norte-americano New Hampshire decidiu adoptar em 1945 (e que ainda hoje mantém) foi "Live Free or Die" (ou, em língua portuguesa, "Vive Livre ou Morre").

Ora, terá também sido de forma livre que uma reunião camarária realizada em 1824 numa determinada localidade daquele que é um dos cinquenta estados dos Estados Unidos da América decidiu atribuir a si própria o nome Lisbon em homenagem à cidade que é a capital de Portugal.

Tal como tinha sido, certamente, em liberdade que New Hampshire havia declarado a sua independência face à Inglaterra. Tanta liberdade que havia mesmo sido a primeira colónia inglesa na América do Norte a fazê-lo.

Foram, no entanto, alguns anos antes de tal adopção e alguns anos depois de tal declaração de independência e da mudança de nome que o presidente do país Thomas Woodrow Wilson (eleito pelo Partido Democrata) havia escrito as seguintes palavras no seu livro "The New Freedom" (publicado em 1913, já depois de se ter tornado no 28.º presidente dos Estados Unidos da América):


"Tornámo-nos num dos governos pior governados e completamente dominados e controlados do mundo civilizado. Não mais um governo baseado na livre opinião, em convicções e no voto da maioria dos cidadãos mas, na verdade, um governo formado pelas opiniões de pequenos grupos de homens e por eles condicionado".


Wilson tinha nascido no estado da Virginia (em 1856) e o lema deste é actualmente "Sic Semper Tyrannis" ("Assim Sempre aos Tiranos", em português).



Post scriptum: Os Estados Unidos da América declararam, efectivamente, a independência no dia 2 de Julho de 1776. Mas o texto da Declaração apenas acabaria por ser aprovado dois dias depois – isto é, no dia 4 de Julho. No entanto, a sua ratificação (e, portanto, o reconhecimento oficial) somente foi autenticada no dia 2 de Agosto.





03/07/2019

História para venda

O lema "Sic Parvis Magna" (ou, em português, "De Pequeno Se Fez Grande") foi atribuído ao corsário Francis Drake pela própria rainha inglesa Isabel para aludir ao seu humilde ‘começo’ de vida.

Assim, o corsário ao serviço da Coroa inglesa e que se tornaria enquanto tal no segundo homem, depois do português Fernão de Magalhães, a fazer a circum-navegação do globo terrestre, e um dos principais obreiros da derrota infligida à Invencível Armada espanhola, obteve o reconhecimento maior.

Mas, muitos séculos após a sua morte, talvez a sua memória não fique maior se nos lembrarmos que, há cerca de um ano, no Reino Unido evidentemente, foi 'colocada' para venda...uma ilha: a ilha de Drake.

Portando o apelido do famoso navegador e corsário inglês Francis Drake, assim se chamava a ilha britânica (localizada no Sudoeste de Inglaterra) que então se encontrava para venda.

Ou, como dizem por esses lados, "for sale".

Assim, desde que desembolsasse perto de sete milhões de euros, qualquer pessoa poderia adquirir um pouco da história do país já que esta ilha (com uma dimensão pouco maior do que dois hectares) havia sido um importante bastião (fortificada no século XVII) na defesa da costa britânica.

‘Converteu-se’, mais tarde, numa prisão de Estado.

Ora, admito a minha perplexidade ao ler aquela ‘notícia’.

Que não era tributária, no entanto, do facto de ser uma novidade na Europa (ou no mundo…).

Tal deveu-se, na verdade, ao facto de que, em minha opinião evidentemente, tal venda extravasava a simples venda de património físico: era, sim, a venda de uma parte da História de um país. E de pessoas.

Compreendo que, numa época em que tudo parece ter um preço e, assim, se pode vender e comprar (como escreveu o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, "A razão de ser do capitalismo é a eterna acumulação de capital"), a alienação de património histórico e cultural mais não seja do que uma venda de um bem como qualquer outro.

Percebo mas desprezo este tipo de atitude pelo que não abdico de pensar que o mundo precisa urgentemente de verdadeiros líderes que, por serem isto mesmo, respeitem a História como um dos ‘pilares’ identitários essenciais do ser humano.