Ouvi há alguns meses o
primeiro-ministro, num debate sobre "o estado da nação", dizer, numa sua intervenção, que os números não enganavam.
Achei,
e acho, ser um pensamento acertadissimo.
O
que engana – ou melhor, pode enganar – é a utilização
(manipulação) dos números pelos seres humanos…
Tal
é, julgo eu, facilmente constatado quando vemos as fichas técnicas
(ou metodológicas) de alguns 'estudos' de opinião.
Ora,
o que eu humildemente critico é o facto de se fazerem generalizações
a partir de algumas – às vezes poucas – características
essencialmente individuais.
Ou
seja, "vê-se o todo a partir de uma parte".
Parte
que às vezes, insisto, não é propriamente grande…
Refiro-me,
pois, em particular, a 'estudos' sobre os tipos de personalidade
de um país: um dos mais 'completos' foi publicado em 2005 por
Robert McCrae (que se apoiou, por assim dizer, no trabalho de setenta
e nove colaboradores de todo o mundo e em dados obtidos a partir de
respostas de mais de doze mil estudantes universitários em cinquenta
e uma "culturas").
O
seu título?
"Personality
profiles of cultures: aggregate personality traits".
Assim,
a "pontuação" mais elevada para a Extroversão foi a
registada pelos estudantes brasileiros, pelos suíços (de língua
francesa) e pelos malteses enquanto a "pontuação" mais baixa
para aquele 'critério' foi obtida pelos estudantes nigerianos,
pelos marroquinos e pelos indonésios.
Já
a "pontuação" obtida para a Abertura à experiência foi
mais elevada junto dos estudantes suíços (de língua alemã), pelos
dinamarqueses e pelos alemães.
A "pontuação" mais reduzida foi, por seu lado, obtida pelos
estudantes chineses (de Hong Kong), pelos norte-irlandeses e pelos do
Kuwait.
Recorde-se
que este 'estudo' incidiu igualmente na Neurose, na
Consciência e na Agradabilidade.
Na
verdade, as supostas conclusões ensaiadas por estes chamados estudos
psicológicos têm pouco (ou nada…) de científico.
Lembro,
de facto, um texto que me parece ser precisamente um 'testemunho'
exacto da credibilidade científica desses 'estudos'.
Escreveu
o jornal Público há já alguns anos o seguinte: "Elena
Ferrante, pseudónimo de uma das mais influentes escritoras da
actualidade, que mantém a sua identidade desconhecida, vai escrever
todas as semanas uma coluna para a edição do fim-de-semana do
jornal britânico The Guardian".
Ora,
é precisamente sobre um texto assinado por Elena Ferrante – "'Yes,
I’m Italian – but I’m not loud, I don’t gesticulate and I’m
not good with pizza'" – digitalmente publicado no início
do ano 2018 no sítio do jornal The Guardian que quero agora 'debruçar-me'.
De
facto, referiu Elena que "Amo o
meu país mas não tenho qualquer espírito patriota nem orgulho
nacional. E mais: praticamente
não como pizza e
como muito pouco spaghetti,
não falo alto e não gesticulo, detesto todas as organizações
mafiosas e não digo "Mamma mia!". Os 'traços' nacionais são meras simplificações que deveriam ser
contestadas. Ser italiana, para mim, começa e acaba no facto de que
me exprimo (na escrita e na
fala) na língua italiana".
Concordo
em absoluto com aquilo que Elena Ferrante escreveu embora tenha
muitas dúvidas acerca do facto de que alguém se considere 'filho'
de um determinado país apenas por se expressar na língua oficial
desse mesmo país.
A
personalidade de cada pessoa nada tem a ver com o país onde nasce e
os estereótipos nacionais tão em voga nalguns 'estudos' não
passam disso mesmo, estereótipos.
Ora,
a história demonstrou já imensas vezes o quão estereótipos
e generalizações podem
ser usados para esconder a realidade.
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