22/03/2022

Poesia, água e naus

Tendo-se ontem assinalado o "Dia Mundial da Poesia" e assinalando-se hoje o "Dia Mundial da Água", parece-me oportuno 'associar' aqui no blogue "poesia" e "água".

Assim, espero que seja também oportuno recordar um poema escrito por António Gedeão - o "poema da malta das naus"...


"Lancei ao mar um madeiro,

espetei-lhe um pau e um lençol.

Com palpite marinheiro

medi a altura do Sol.


Deu-me o vento de feição, 

levou-me ao cabo do mundo,

pelote de vagabundo,

rebotalho de gibão.


Dormi no dorso das vagas,

pasmei na orla das praias,

arreneguei, roguei pragas,

mordi peloiros e zagaias.


Chamusquei o pêlo hirsuto,

tive o corpo em chagas vivas,

estalaram-me as gengivas, 

apodreci de escorbuto.


Com a mão esquerda benzi-me,

com a direita esganei.

Mil vezes no chão, bati-me,

outras mil me levantei.


Meu riso de dentes podres

ecoou nas sete partidas. 

Fundei cidades e vilas,

rompi as arcas e os odres.


Tremi no escuro da selva,

alambique de suores.

Estendi na areia e na relva

mulheres de todas as cores.


Moldei as chaves do mundo 

a que outros chamaram seu,

Mas quem mergulhou no fundo 

do sonho, esse, fui eu.


O meu sabor é diferente. 

Provo-me e saibo-me a sal.

Não se nasce impunemente 

nas praias de Portugal.".




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