Na
crónica que Éric Zemmour assinou e foi publicada na edição digital do jornal francês Le
Figaro no dia 10 de Julho de 2017, foi escrito o
seguinte: "O Próximo Oriente
vive, actualmente, uma situação parecida com aquela que a Europa
viveu no século XVII já que a querela religiosa entre católicos e
protestantes se transformou numa guerra total".
18/07/2019
17/07/2019
A origem da fé
O
médico psiquiatra austríaco Sigmund Freud – considerado o pai da
psicanálise – escreveu várias cartas a James Jackson Putnam,
neurologista norte-americano.
Cito,
de facto, um excerto de uma delas (escrita no início de 1910):
"A
religiosidade encontra-se biologicamente relacionada
com o prolongado despojamento e a contínua necessidade de protecção
do ser humano durante a infância; quando,
mais tarde, o adulto reconhece o seu abandono real e a sua fraqueza
perante as grandes forças da vida, reencontra-se numa situação
semelhante à da infância e procura então desmentir essa situação
sem esperança ressuscitando, pela via da regressão, as potências
que o protegiam em pequeno".
16/07/2019
Guerras e misérias
Escreveu o prof. Charles Ralph Boxer no seu "O Império Marítimo Português 1415-1825" o seguinte:
"O povo da tribo Pende, que vivia na costa angolana no século XVI mas emigrou depois para o interior, junto do rio Kasaï, manteve uma interessante tradição oral da conquista feita por Portugal da sua terra natal.
"Um dia os homens brancos chegaram em navios com asas, que brilhavam como facas ao sol. Travaram duas batalhas com o N'gola e bombardearam-no. Conquistaram as suas salinas e o N'gola fugiu para o interior, para o rio Lucala. Alguns dos seus súbditos mais corajosos ficaram junto do mar e, quando os homens brancos vieram, trocaram ovos e galinhas por tecidos e contas. Os homens brancos voltaram outra vez ainda. Trouxeram-nos milho e mandioca, facas e enxadas , amendoim e tabaco. Desde então até aos nossos dias, os brancos não nos trouxeram nada senão guerras e misérias"".
"O povo da tribo Pende, que vivia na costa angolana no século XVI mas emigrou depois para o interior, junto do rio Kasaï, manteve uma interessante tradição oral da conquista feita por Portugal da sua terra natal.
"Um dia os homens brancos chegaram em navios com asas, que brilhavam como facas ao sol. Travaram duas batalhas com o N'gola e bombardearam-no. Conquistaram as suas salinas e o N'gola fugiu para o interior, para o rio Lucala. Alguns dos seus súbditos mais corajosos ficaram junto do mar e, quando os homens brancos vieram, trocaram ovos e galinhas por tecidos e contas. Os homens brancos voltaram outra vez ainda. Trouxeram-nos milho e mandioca, facas e enxadas , amendoim e tabaco. Desde então até aos nossos dias, os brancos não nos trouxeram nada senão guerras e misérias"".
15/07/2019
A queda da Bastilha
A
França assinalou ontem o seu dia nacional.
Foi,
de facto, em 14 de Julho de 1789 que o povo de Paris assaltou e tomou
a Bastilha (que acabou depois por ser demolida) que, durante muito
tempo, havia sido utilizada como prisão política.
Assim,
a sua inutilização foi encarada como a destruição de um dos mais
flagrantes símbolos do poder absoluto da monarquia francesa e,
enfim, como uma espécie de presságio para o que aconteceria, poucos
anos depois, ao rei Luís XVI e à rainha Maria Antonieta.
13/07/2019
As fortalezas abaluartadas
A
Fortaleza de Valença assinala hoje, dia 13 de Julho de 2019, os
duzentos e dez anos da segunda invasão francesa de Portugal.
Aproveito,
assim, para lembrar que membros da agremiação francesa Association
Vauban, especialistas em fortificações arquitecturalmente
abaluartadas, visitaram, em Setembro de 2016, uma das
infra-estruturas que integram o património da cidade minhota de
Valença: a fortaleza.
Antiga
estrutura militar com uma extensão de cerca de 5.5 quilómetros, a
fortaleza de Valença, que conta com cerca de sete séculos de
existência, foi uma das mais importantes no seio da estrutura
defensiva portuguesa.
Nos
dias de hoje, porém, a fortaleza de Valença não é já um
equipamento que procura impedir o acesso de visitas "indesejáveis"
mas, sim, conquistar visitantes: a fortaleza de Valença integra,
juntamente com as fortificações de Almeida, de Elvas e de Marvão,
a candidatura das ‘Fortalezas abaluartadas’ a património mundial
da UNESCO (sigla inglesa para designar a United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization,
a organização das Nações
Unidas para a educação, a ciência e a cultura).
Na
verdade, a cidade de Elvas é, em todo o mundo, aquela com o maior
sistema de fortificações abaluartadas tendo, inclusivamente, sido
distinguida pela UNESCO como "Cidade-Quartel Fronteiriça
de Elvas e suas Fortificações" no
final de Junho de 2012.
Ora,
uma funcionária da edilidade de Elvas explicou-me, entretanto, que a
cerimónia de apresentação de tal candidatura teve lugar no Forte
da Graça, em Elvas, em Junho de 2016, e contou com a presença dos
presidentes dos municípios envolvidos.
Adiantou-me,
também, que todos os processos de candidatura de bens a património
da humanidade eram acompanhados pela Comissão Nacional da UNESCO
(organismo intermediário entre o Estado português e a UNESCO) e era
esta que, de acordo com as directrizes definidas pelo Comité do
Património Mundial da UNESCO, organizava todo o "calendário" do
processo de candidatura.
Recordou-me,
ainda, que Portugal só poderia apresentar candidaturas a partir de
2018 uma vez que o mandato de Portugal como membro do Comité do
Património Mundial terminaria no fim do ano de 2017.
Ora, dado
o meu interesse pelo património português e por todas as acções
que poderão contribuir, na minha opinião, para a dinamização do
mesmo - e, no fundo, para a sua protecção (e preservação)... - já
que o entendo como uma parte importantíssima da chamada cultura
portuguesa, só
posso manifestar o meu contentamento por mais
esta candidatura à Convenção
do Património Mundial, Cultural
e Natural adoptada
pela UNESCO em
1972.
12/07/2019
Portugal inclinado
Ao ler "A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa" do Professor e historiador Vitorino Magalhães Godinho (livro primeiramente publicado em 1971) adquiri uma 'ideia' que me pareceu ser fundamental: a população residente em Portugal distribuía-se, no início do século XVI, de forma irregular.
Creio mesmo que uma das sínteses que melhor concretizou já essa distribuição populacional 'desnivelada' foi feita pela docente que ainda ontem aqui citei, Teresa Ferreira Rodrigues.
"As unidades administrativas mais importantes em termos populacionais encontravam-se na província de Entre Douro e Minho e no Nordeste da Beira, correspondendo a dois quintos do total de efectivos. A região a sul do Tejo, metade do território nacional, continuava escassamente povoada e nela vivia apenas um quinto da população estimada".
Ou seja, o facto de existir uma (muito) maior concentração populacional em determinadas regiões de Portugal não é um fenómeno recente. Nem a chamada macrocefalia de Lisboa.
Continuarão?
Creio mesmo que uma das sínteses que melhor concretizou já essa distribuição populacional 'desnivelada' foi feita pela docente que ainda ontem aqui citei, Teresa Ferreira Rodrigues.
"As unidades administrativas mais importantes em termos populacionais encontravam-se na província de Entre Douro e Minho e no Nordeste da Beira, correspondendo a dois quintos do total de efectivos. A região a sul do Tejo, metade do território nacional, continuava escassamente povoada e nela vivia apenas um quinto da população estimada".
Ou seja, o facto de existir uma (muito) maior concentração populacional em determinadas regiões de Portugal não é um fenómeno recente. Nem a chamada macrocefalia de Lisboa.
Continuarão?
11/07/2019
O Dia Mundial da População
Assinala-se
hoje, dia 11 de Julho, o Dia Mundial
da População.
Esta
foi uma data que o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (o PNUD) instituiu em 1989.
1
milhão de habitantes.
Seria
este, aproximadamente, o número total da população portuguesa em
fins de Quatrocentos e no início do século XVI.
E,
na década de 1530, Portugal contaria cerca de 1.3 milhões de
habitantes.
Ora,
a professora Teresa Ferreira Rodrigues ensaiou na já por mim citada "História de Portugal" uma
explicação para este aumento populacional:
"Estes
valores, meras ordens de grandeza, indiciam um crescimento
populacional durante o período. Apesar das pestes e epidemias, das
catástrofes naturais, das guerras e da emigração, a população do
reino não terá decrescido, em grande parte pelos fortes níveis de
natalidade, que se sobrepunham à também muito elevada mortalidade".
Todavia,
passados cerca de 500 anos o ‘panorama’ populacional é muito
diferente: mesmo sem "pestes e epidemias", "catástrofes
naturais" e "guerras", Portugal regista uma das mais baixas
taxas de natalidade na Europa (com 8 nascimentos por cada mil
habitantes) bem como de fertilidade (1.4 filhos por mulher). O facto
de estas taxas continuarem a baixar não permite traçar uma evolução
populacional nada ‘optimista’.
Na
verdade, as Projeções de população residente 2012-2060
(Cenário central)
publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística em 2014
confirmaram-no:
-
8.6 milhões de pessoas residentes em Portugal em 2060;
-
O índice de envelhecimento registado em 2012 – 131 idosos por cada
100 jovens – ‘subirá’, em 2060, para 307 idosos por cada 100
jovens;
-
O índice de sustentabilidade verificado em 2012 – 340 pessoas em
idade activa por cada 100 idosos – ‘passará’, em 2060, para
149 por cada 100;
-
Cerca de 35% da população a viver em Portugal terá mais de 65 anos
de idade em vez dos 20% registados em 2012*;
-
A população residente no país em idade activa (dos 15 aos 64 anos
de idade) diminuirá dos 6.9 milhões verificados em 2012 para os
cerca de 4.5 milhões em 2060.
Mas
se para Portugal as previsões demográficas são verdadeiramente
preocupantes no longo prazo (ou no curto prazo já que 2060 será já
amanhã, por assim dizer…)**, para outras regiões do mundo as
previsões são outras: segundo lembrou um estudo recentemente
divulgado pela universidade norte-americana de Stanford - "How Will
Demographic Transformations Affect Democracy in the Coming Decades?"
–, a população em idade activa nos países da África subsariana
irá (segundo indicam as projecções) aumentar em cerca de 1 bilião
de pessoas entre 2020 e 2060.
Ou
seja, 25 milhões de indivíduos a cada ano que passar.
E
mais: muitas destas pessoas ver-se-ão forçadas a migrar em
consequência das alterações climáticas e da guerra.
De
facto, aquilo que me parece mais significativo não é, de todo, a
diferença de opiniões nem a diferença de supostas soluções para
um dado problema.
É não haver debate sequer.
Ora, o que destaco como o mais importante na demografia em Portugal, por assim dizer, é precisamente a ausência de um debate a nível nacional que pudesse encontrar uma espécie de estratégia clara em relação ao que "está em jogo" e, dela decorrente, a idealização de medidas avulsas e pontuais, mais ou menos populares.
E
o que "está e estará em jogo" não é "apenas" o
envelhecimento da população do país mas, também, o futuro do
sistema de protecção social e, no fundo, do da sociedade portuguesa
como um todo.
***
A mesma professora Teresa Ferreira Rodrigues acrescentou também na indicada "História de Portugal":"Ainda com D. Afonso V, cerca de 1480, se tentou saber o número de habitantes do reino. No entanto, a operação foi rodeada de cautelas dado o medo que se temia poder gerar nas populações. Muitos poderiam pensar tratar-se este levantamento de uma primeira fase de preparação para novo conflito bélico".
Ora, eu – que mais de 500 anos depois trabalhei como recenseador nos Censos 2011 – pude testemunhar in loco este sentimento de desconfiança para com o Estado pois alguns imigrantes que tinha que recensear não o foram: pela simples razão (como vários vizinhos então me explicaram) de que pensariam que eu era um empregado do Estado que procuraria investigar – e posteriormente denunciar – a sua condição de imigrantes eventualmente irregulares.
*
De facto, no que se refere à percentagem populacional de pessoas com
65 e mais anos, a Europa irá contar quase 13% do total mundial.
Já
a Ásia somará, neste ‘capítulo’, pouco mais de 62%.
Invoco,
ainda, dois ‘pedaços’ do relatório "World
Population Ageing 2015" compilado
pela Organização das Nações Unidas
(a ONU): "A população do
planeta está a envelhecer: todos os países do mundo estão a verificar um crescimento no número de pessoas idosas na sua
população e na proporção ocupada por estas nessa mesma população.
Está previsto que o envelhecimento da população – o aumento do
‘peso’ do número de pessoas idosas na população – se torne
num dos mais importantes factores capazes de contribuir para a
mudança social no século XXI com implicações em quase todos os
sectores das sociedades como o do mercado de trabalho e financeiro, o
da procura por bens e serviços como o imobiliário, os transportes e
a protecção social. Bem como nas próprias estruturas familiares e
nos laços inter-geracionais" e "Enquanto que o declínio
da taxa de fertilidade e o aumento da longevidade são os
pontos-chave do envelhecimento da população mundial, as migrações
internacionais contribuíram, igualmente, para a mudança das
estruturas etárias da população nalguns países e regiões.
Contudo, na maior parte deles, as migrações internacionais deverão
produzir pequenos efeitos no combate ao ritmo do envelhecimento da
população. Entre 2015 e 2030, o saldo migratório deverá abrandar
o envelhecimento da população de acolhimento em, pelo menos, um
ponto percentual em 24 países ou regiões e, simultaneamente, deverá
acelerar o envelhecimento populacional da população de origem em,
pelo menos, um ponto percentual em 14 países ou regiões".
**
As
investigadoras Filipa Castro Henriques (do Observatório de
Estudos Políticos) e a
já citada Teresa Ferreira
Rodrigues (do Departamento de Estudos Políticos da Faculdade
de Ciências Sociais e Humanas
da Universidade Nova de Lisboa)
apresentaram, há alguns
anos, o estudo "(re)Birth:
Desafios Demográficos Colocados à Sociedade Portuguesa".
Refira-se
que tais investigadoras foram convidadas pela Plataforma Para o
Crescimento Sustentável, um "think
tank" fundado em 2011.
Aquele
estudo procurou, desde logo, ‘olhar’ para a actual situação
demográfica de Portugal comparando com o que, neste ‘tópico’,
se passou em décadas passadas e perspectivar como vai ser no futuro.
E teceu, depois, considerações sobre políticas que permitiriam
rectificar ou, de alguma forma, atenuar os problemas identificados.
Assim,
disse-se, por exemplo, o seguinte: "um
número crescente de países procura minorar os efeitos da falta de
adultos em idade activa,
adoptando
medidas de incentivo à imigração. o aumento dos contingentes
imigratórios gera um aumento da população activa,
o rejuvenescimento etário e a subida da natalidade, porque os
migrantes são maioritariamente jovens, em idade fértil e de
constituir família".
Desse
modo, acrescentou-se, "o aumento da natalidade é outra das
consequências indiretas da imigração, porque muitos imigrantes
provêm de sociedades e culturas com níveis de fecundidade
superiores aos do país de acolhimento".
O
que, em certa medida, contrariou aquilo que o relatório "World
Population Ageing 2015" havia sublinhado...
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