08/08/2019

Escolhas

A capa do Jornal de Notícias de um dia de Setembro de 2017 destacou, também, o caso de uma escolha académica.
"Melhor aluno do Minho seguiu o coração e escolheu História", registou.

Assim, quando muitos esperavam que esse jovem escolhesse Medicina, Engenharia ou, até, Direito, ele escolheu cursar História.

Creio, por isso, ser uma excelente ocasião para recordar um excerto de um texto – "O fim das ciências sociais e das humanidades?" – que escrevi há ainda mais anos sobre este género de opções académicas.

E de vida...


"O artigo Le Japon va fermer 26 facs de sciences humaines et sociales, pas assez «utiles», publicado na edição online do jornal francês Le Monde no passado dia 17 de Setembro de 2015, sublinhou que 26 universidades nipónicas tinham anunciado querer encerrar as suas faculdades de ciências sociais e humanas ou, pelo menos, limitar e reduzir a sua actividade.
Uma decisão, observou, tomada após a recepção de uma missiva enviada pelo ministro da educação do país dirigida, no início de Junho deste ano, aos presidentes de 86 universidades de todo o país pedindo-lhes que encerrassem ou modificassem «tais departamentos no sentido de beneficiar disciplinas que servem melhor as necessidades da sociedade» japonesa.
Por outro lado, o artigo Which country has most humanities graduates?, publicado em 2 de Setembro de 2015 no sítio do Fórum Económico Mundial, salientou que «um pilar decisivo para o crescimento económico é a disponibilidade de um diverso e altamente especializado “viveiro” de talentos» já que o mesmo «permite a um país poder maximizar o seu capital humano.».
Citando dados compilados pelo próprio Fórum para o seu relatório de 2015 acerca do capital humano, frisou que o top 10 dos países com o maior número de graduados em artes e em humanidades era encabeçado pelos Estados Unidos da América com quase 400 mil licenciados anualmente nestas duas áreas seguido, precisamente, pelo Japão com pouco mais de 144 mil diplomados todos os anos.
Em terras lusas, revelou o físico e político independente recentemente eleito por um partido político nas eleições legislativas portuguesas, Alexandre Quintanilha, num bloco noticioso emitido em 7 de Outubro de 2015 (Telejornal da cadeia televisiva RTP 1) que «há uma depreciação da área das humanidades e das ciências sociais que me desagrada».
Estaria a referir-se, apenas, ao panorama académico e cultural português?
Não sei.
Fruto da minha formação académica em antropologia e da minha actividade profissional de investigador, reflicto muitas vezes sobre a existência das ciências sociais, das artes e das humanidades nos sistemas educativo, social, económico e cultural da maior parte das actuais sociedades do mundo.
E se não existissem, de todo?
Então, todos os assuntos e acontecimentos que preocupam – e que modelam – os cidadãos contemporâneos (como o desemprego, as dependências físicas e virtuais, a guerra, as migrações, as mudanças climáticas, a criminalidade, por exemplo) teriam de ser observados, analisados e comentados, maioritariamente, por actores ligados à engenharia, à medicina, à matemática, à física, à química e às finanças…
Enfim, às ciências exactas e naturais.
Assim, a “lupa” analítica reduzir-se-ia bastante.
Quem perderia?
As sociedades no seu todo porque ver-se-iam privadas de opiniões e de pontos de vista diferentes e alternativos.
Ou seja, todas são precisas: ciências sociais e humanas, artes, ciências naturais e exactas uma vez que os ensinamentos que propõem nos permitem olhar o mundo com outros olhos e pensar.
Mas parece que alguns ainda não perceberam isto".

Ou, pelo contrário, perceberam isso, sim, mas não querem que se pense.


07/08/2019

O Terrorismo no mundo

Já aqui escrevi sobre Terrorismo e algo me diz que esta não será a última vez…

Um relatório recentemente divulgado pela ONU (a Organização das Nações Unidas) qualificou como "elevada" a probabilidade de o continente europeu ser atingido, a breve prazo, por assim dizer, por uma nova vaga de ataques de índole terrorista.

Recordo, no entanto, que muito poucas vezes – ou nenhuma – o chamado Ocidente foi a região do globo mais ‘alvejada’ pelo Terrorismo.

Na época moderna e contemporânea, claro.

Por exemplo, o Global Peace Index 2016, elaborado pelo Institute for Economics & Peace, destacou que, à excepção dos países das regiões do Próximo Oriente e do Norte de África, os que se ‘situavam’ na Europa foram os mais fustigados, em 2015, pelo Terrorismo.

Ora, o gabinete de estudos National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism da universidade norte-americana de Maryland realçou, por sua vez, que embora os ataques terroristas ocorridos em 2015 tenham acontecido em quase cem países espalhados pelo mundo, mais de metade deles ocorreu em, apenas, cinco: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Índia e Filipinas.

Por outro lado, 69% de todas as mortes associadas a esses ataques tiveram lugar, igualmente, em cinco países: Iraque, Afeganistão, Nigéria, Síria e Iémen.

06/08/2019

Ataques infames


O lema da divisão de engenharia do exército do Estados Unidos da América é "Essayons" ("Tentemos", em português).

Ora, esta divisão foi, depois de tentar, claro, a responsável pela construção e desenvolvimento da bomba atómica sendo que um ‘exemplar’ da mesma foi, há setenta e quatro anos (no dia 6 de Agosto de 1945), lançado por um avião militar ao seu serviço sobre a cidade japonesa de Hiroshima.

Uma bomba atómica (ou nuclear, se se quiser) com a capacidade de destruição conferida por uma potência equivalente a cerca de 15 mil toneladas de TNT (trinitrotolueno).

Foi, de facto, no dia 6 de Agosto de 1945 e a referida bomba tinha o nome Little boy ("criança").

Que cinismo.

Dar-se um nome que significa "alegria" e, na verdade, "vida", a um engenho que tinha sido concebido para aniquilar milhares de pessoas e arrasar uma cidade.

Assim, cerca de 80 mil pessoas morreram instantaneamente e mais de 110 mil faleceriam, depois, vitimadas pelas radiações e pelas complicações delas decorrentes.

Dias depois – a 9 de Agosto – seria a vez da também nipónica cidade de Nagasaki ser pulverizada por uma uma bomba vinda do ar (igualmente nuclear) com um poder de destruição equivalente ao proporcionado por 21 mil toneladas de TNT.

Levando a morte, de forma instantânea, a mais de 70 mil pessoas.

Ou seja, cerca de 270 mil mortos e duas cidades inteiramente reduzidas a pó (ou quase…).

Mas, para os senhores da guerra (ou da paz, dirão outros), tal destruição tinha valido a pena: a 14 de Agosto de 1945, cinco dias após a bomba sobre Nagasaki ter sido lançada, o imperador japonês Hirohito (avô do actual imperador) anunciou a rendição do Japão (uma das três potências que formavam o "Eixo") pondo, desse modo, fim à II Guerra Mundial.

Recordo, no entanto, um excerto do discurso proferido pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt em 8 de Dezembro de 1941 a propósito do ataque, ocorrido na véspera, de navios e aviões japoneses à base norte-americana de Pearl Harbor: "a date which will live in infamy" ("uma data infame").

Ora, infame é, também, a palavra que escolho para caracterizar cada um dos ataques norte-americanos.

05/08/2019

O primeiro relvado em Portugal

Dada a relevância cultural que o Futebol tem em Portugal, julgo ser pertinente recordar o conteúdo de uma 'placa' que existe junto de um pequeno campo onde se pratica esse desporto e se situa na confluência das ruas Alexandre de Sá Pinto e Matateu [um dos melhores jogadores portugueses de futebol de sempre], em Lisboa.


"C. F. "Os Belenenses"
Estádio das Salésias
1° campo relvado em Portugal




29-01-1928
A
09-09-1956"


03/08/2019

Platão e os sem valor

O filósofo grego Platão viveu há praticamente 2500 anos e escreveu, entre muitíssimas outras coisas, claro, o seguinte: "O preço que os homens bons pagam pela sua indiferença face à coisa pública é virem a ser governados por homens sem valor".

Poderá quem se dedique a estudar a História da humanidade confirmar ou, pelo contrário, refutar o conteúdo de tal frase?

02/08/2019

O perigo dos estereótipos e das generalizações

A edição digital do jornal de Hong Kong South China Morning Post publicou, há alguns anos, um texto com o título "Who are the world’s worst tourists? Six nations that stand out – you may be surprised".

O seu autor optou, desde logo, por fazer, desde logo, referência a um "estudo" efectuado, por sua vez, em 2015, pelo sítio Hotels.com: nos lugares cimeiros do ‘pódio’ dos turistas que mais furtos realizavam de artigos dos quartos de hotel em que se encontravam alojados estavam os provenientes da Argentina e os de Singapura (estes últimos foram mesmo descritos como sendo – poderia supor-se que geneticamente – "propensos para os roubos").

Já aqueles com origem na chinesa Hong Kong foram, por sua vez, descritos como os turistas "mais confiáveis".

Colocou, em seguida, uma questão: "Mas qual é a nacionalidade dos turistas que mais indigna os cidadãos locais e faz os seus próprios compatriotas desculparem, embaraçados, os seus comportamentos?".

Seguiu-se, então, a prometida lista: China, Reino Unido, Alemanha, América do Norte, Israel e Rússia.

Coadjuvada’, de resto, por um conjunto de situações que a ‘enriqueciam’ e que, simultaneamente, a justificavam.

Terminou, no entanto, com uma chamada de atenção: eram os chamados turistas nacionais aqueles que pior se comportavam.

Ora, o que me motivou a recordar este artigo foi a generalização de comportamentos a todos os que faziam Turismo e que eram cidadãos da Argentina, de Singapura, da China (também de Hong Kong), do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou de qualquer outro país.

Tudo se resumia – e resume –, quanto a mim, à chamada Educação: se se a tem é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer e, por sua vez, se se a não tem também é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer.

Poderá, por exemplo, tomar-se como o estereótipo do turista português o indivíduo tranquilo, agradável no trato e cumpridor das normas estabelecidas…

No entanto, se se generalizasse esse modo de estar (e de ser) a todos os turistas lusos, como explicar o que se passou com aquele grupo de jovens portugueses num hotel espanhol também já há alguns anos quando, na sequência de actos de vandalismo gratuito, foram, pura e simplesmente, expulsos?

Eu também cheguei a fazer uma "viagem de finalistas" e não me comportei de forma arruaceira nem de maneira turbulenta.

Nem, diga-se, aqueles e aquelas colegas com quem fui a Lloret de Mar, em Espanha.

Ora, teria sido, em minha opinião, muito mais exacto dizer-se o seguinte: "alguns turistas oriundos da Argentina e de Singapura (e seguramente que não estão sozinhos…) furtam objectos do quarto de hotel em que estão alojados" e "alguns turistas oriundos da China, do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou, na realidade, de qualquer outro país poderão exibir, por razões várias (a ingestão de bebidas alcoólicas, por exemplo), comportamentos que a sociedade receptora poderá reprovar e condenar, moral e, até, judicialmente".

01/08/2019

Uma canção portuguesa

A vitória da canção interpretada por Salvador Sobral no Festival Eurovisão da Canção de 2017 representou muito mais do que a consagração internacional de um artista e de um país.

É que apesar de estar em competição (é mesmo esta a palavra) com melodias oriundas de diversas nações do chamado Velho Continente – e de outras partes do mundo –, não é possível ignorar o papel do meio "televisão" e de outras plataformas (Youtube, por exemplo) que, ainda antes do festival organizado na Ucrânia, ajudaram a catapultar a canção de Salvador Sobral (escrita pela sua irmã, Luísa) para um nível planetário.

Representou, por isso, para além da enorme capacidade da canção interpretada pelo jovem músico, o reconhecimento da língua portuguesa no mundo.

Não terão, efectivamente, a edição de 2017 Festival Eurovisão da Canção e o "desempenho" do artista e da canção portugueses feito mais pela divulgação da língua portuguesa do que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua fizeram em anos e anos de actividade?