22/08/2019

Integração 'perfeita'?

Lembro-me de ter visto (e ouvido) uma reportagem que uma estação televisiva portuguesa emitiu, há alguns anos, sobre vários portugueses que haviam sido expulsos dos Estados Unidos da América para as suas terras de origem, nos Açores.
Pareceu-me que os ‘entrevistados’ que participaram naquele trabalho de investigação – todos eles – se "esqueceram" de dois aspectos que eram (e são), para mim, fundamentais: o de que eram estrangeiros naquelas novas terras e o de que havia regras sociais a cumprir (tal como, claro está, existem em todo o lado).

Ou seja, não conseguiram, por razões várias, conjugar as "fronteiras" da sua identidade cultural com as da sociedade de acolhimento.

Lembro-me, também, da intervenção, na dita peça jornalística, de alguém que trabalhava como sociólogo junto desses ‘repatriados’: estes estavam, disse então, "perfeitamente integrados" quando foram ‘apropriados’ pelo sistema judicial.

"Perfeitamente integrados"?

Ora, como se poderá considerar que alguém estava "perfeitamente integrado" numa dada sociedade se vivia uma existência à margem da lei (admitida e pormenorizada, de resto, por todos os entrevistados…) e que, depois, foi judicialmente condenado?

21/08/2019

Maias ultraviolentos

Um estudo recentemente disponibilizado pela publicação digital Nature Behavior revelou que uma inscrição que havia sido encontrada nas ruínas de uma antiga cidade maia mostrou que os vários reinos desta civilização da América do Sul faziam uso de violência 'extrema' em momentos de guerra destruindo completamente cidades inimigas e executando as famílias 'nobres' que nelas residiam.

De resto, os investigadores pensam que este uso da 'ultraviolência' bem como as secas e a erosão dos solos relacionada com a desflorestação terão sido determinantes para a extinção desta civilização há cerca de mil anos.

Recordo, aliás, que a civilização maia abrangia a região que se situa, actualmente, entre a parte mais a Sul do México e a parte mais a Norte da chamada América Central e 'durou', sensivelmente, desde o ano 250 até ao ano 900 (da chamada era cristã).

E pergunto: apesar de vivermos numa época em que existe tanto 'escrutínio' mediático e tantos tratados com disposições morais e éticas e, ainda, ameaças de penalizações criminais para colocar em prática em caso de conflito armado, será que uma barbaridade semelhante à dos maias de há um milénio não continua a existir?

20/08/2019

O ladrão de espíritos

Não foi apenas ao nível material que o colonialismo (oficial, claro) que todos conhecemos espoliou os povos e as pessoas que o sofreram.

Na verdade, o dito colonialismo foi, antes de mais, um ladrão de espíritos e da(s) identidade(s) dessas pessoas.

Ora, o governo da Jamaica veio já exigir ao britânico British Museum a devolução de um conjunto de objectos que tinham sido 'retirados' (ou roubados?) do país há centenas de anos.

Exemplo que não é, feliz e infelizmente, único.

Felizmente porque alguns dos povos - ou melhor, os seus representantes políticos - 'interessados' parecem ter começado já a adquirir uma maior e melhor consciência de si próprios e da sua História.

E infelizmente porque tais exigências provam aquilo que escrevi há algumas linhas atrás: que o colonialismo foi, sobretudo, um ladrão de espíritos e de identidades.

Por tudo isto, apoio esta pretensão.

E todas as que se seguirem.


 
Post scriptum:

O Castelo de Powis, em Gales, no Reino Unido, está cheio de artefactos roubados na Índia pela inglesa Companhia das Índias Orientais.

Na verdade, mais do que aqueles que integram o espólio do Museu Nacional do país (em Nova Deli) ...

19/08/2019

O compêndio do mundo

Viviam em Maio de 2003, de acordo com a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, cerca de 4.8 milhões de portugueses e indivíduos de origem portuguesa em todo o mundo.
E, segundo dados compilados pelo Observatório da Emigração (disponíveis em Setembro de 2009), esses milhões de pessoas dispersavam-se por cento e quarenta dos então cento e noventa países do mundo.
Ora, poucos anos mais tarde residiam em Portugal representantes, por assim dizer, de mais de cento e setenta nacionalidades (falando cerca de cem idiomas).
Assim, embora seja, talvez, possível encontrar uma ‘concentração’ maior desta diversidade cultural na zona de Lisboa, ela verifica-se em todo o país.
E ainda bem.
Seja como for, estou a lembrar-me das palavras de um poema do poeta português André Falcão de Resende (1527-1599) ‘composto’ num contexto político, social, cultural e económico muito diferente do de hoje: "É Lisboa um mar profundo; de vária navegação; É um compêndio do mundo; aonde tudo acharão; Ásia, África, Europa".

17/08/2019

O lago Baikal

Também no Turismo foram precisos milhares de anos para que o Homem deixasse para trás os locais que os seus antepassados sempre haviam conhecido e desse, assim, um passo rumo ao desconhecido.

Mas eis que, no entanto, cerca de 95% dos actuais turistas ocupam apenas 5% do planeta.

Ou seja, a esmagadora maioria dos turistas opta por visitar somente uma ínfima parte da Terra.

Ora, na verdade, é precisamente devido ao excesso de Turismo que as autoridades do Sul da região russa da Sibéria pretendem impor uma espécie de travão ao número de turistas que tem anualmente vindo a visitar o mais antigo, profundo e maior (com cerca de 630 quilómetros de diâmetro) lago de água doce do mundo – e aquele que, na língua mongol, significa "Natureza": o lago Baikal.

Recordo, de resto, que, quer a ilha filipina de Boracay, quer a ilha indonésia de Komodo (‘casa’ dos famosos "dragões de Komodo"), impôs (no caso da primeira, em 2018) ou imporá (no caso da segunda, a partir de 2020) "restrições turísticas".

Restará, apenas, saber, no caso russo, se o actor norte-americano – e defensor do Ambiente com ascendência russa – Leonardo DiCaprio ajudará as autoridades e alguns dos ambientalistas do país a defenderem o lago Baikal.

16/08/2019

Estudos (pouco) credíveis

Um dos mais conceituados centros de pesquisa norte-americanos, o Pew Research Center, divulgou, no início de Agosto de 2017, um estudo – "Globally, People Point to ISIS and Climate Change as Leading Security Threats" – que teve por base as respostas de 41 953 pessoas espalhadas por 38 países em todo o mundo (na América: Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos da América, Colômbia, Canadá, Venezuela, México e Peru; em África: Tunísia, Gana, Quénia, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Nigéria; na Europa: França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Espanha, Suécia, Reino Unido, Rússia e Turquia; na Ásia: Japão, Filipinas, Israel, Líbano, Índia, Indonésia, Vietname, Coreia do Sul e Jordânia; na Oceânia: Austrália).
Concluiu-se, então, que "de entre oito possíveis ameaças à segurança dos países em que vivia, a maior parte dos habitantes do planeta ‘elegeu’ o Estado Islâmico e as alterações climáticas".

Lembro-me de, de facto, ter concordado com a justeza desta ‘eleição’.

No entanto, e embora não fosse um especialista em estudos de opinião ou, se se quiser, em sondagens, consegui formular a minha própria opinião acerca da metodologia utilizada por este estudo.

Assim, e segundo as contas que então fiz, os trinta e oito países escolhidos contavam cerca de 3 biliões, 828 milhões e 293 mil habitantes.

Ora, as 41 953 pessoas seleccionadas pelos autores da pesquisa para darem as suas respostas correspondiam, em termos percentuais, a 0.001% do ‘valor’ populacional que apurei.

Considerei, por isso, que não era possível fazer-se qualquer juízo sério a partir desta percentagem e, muito menos, extrapolar para uma parte da humanidade a opinião de alguns milhares de pessoas (não que não seja, evidentemente, passível de ser ‘escutada’) já que a margem de erro era ínfima.

15/08/2019

A França, o Egipto, a Inglaterra e a Índia

A França ocupou o Egipto entre 1789 e 1805.

Napoleão esperava, desse 'modo', pôr um ponto final ao comércio inglês com a Índia.