28/08/2019

"A mediocracia"

"O desporto de hoje já não se encontra verdadeiramente nos estádios, nem o dinheiro nos bancos, nem a religião nas igrejas. A política já não se faz no parlamento. E a justiça já não se encontra nos tribunais.
Toda esta confusão tem uma origem comum: a erupção de um novo poder que se insinua em todos os aspectos da nossa vida social. Este poder novo tem um nome: é o sistema mediático, um conjunto de fios de cobre, de computadores, de câmaras, de circuitos e de sondagens de opinião através dos quais a informação passa e volta a passar à velocidade da luz…
Os poderes já não estão onde a lei e o tempo os tinham instalado. E assim forma-se uma nova arte de governar, de executar, de julgar, de gerir. E também de existir.".

Fonte: François-Henri de Virieu, "La Médiocratie" (1990)

27/08/2019

A Conferência de Berlim

Pude ler, na pequena ‘nota’ de introdução ao documento "Migration: boosting development in Africa to create alternatives" que o Parlamento Europeu preparou, o seguinte:

"Crescimento económico e evitar que as pessoas tenham que abandonar a sua terra são alguns dos desafios que os países africanos enfrentam. Uma nova estratégia União Europeia-África proposta pelos Estados-membros estabelece de que forma é que o desenvolvimento pode fazer a diferença".

E, também, que "Desde que a crise migratória surgiu, os países europeus têm vindo a prestar mais atenção ao que tem vindo a acontecer em seu redor, particularmente em África".

Mas só agora se percebeu que apenas o facto de os países proporcionarem boas ‘condições de vida’ pode evitar a fuga das suas populações em busca de uma vida, noutro país, que lhes permita alcançar mais e melhores condições económicas, por exemplo?

E que só a chamada crise migratória levou a que a Europa se interessasse mais com o que se estava a passar ao seu lado, por assim dizer?

E pude também ler, entretanto, um artigo que David Pilling assinou na edição digital do jornal britânico Financial Times cujo título era "Africa is not immune from secessionist sentiment".

"Os Estados africanos modernos foram criados na Conferência de Berlim de 1884-1885 por potências coloniais com poucos conhecimentos acerca das realidades étnicas, políticas e geográficas" em presença, concluiu.

Ora, parece-me que os ‘resultados’ de tal estratégia (ou falta dela) têm estado à vista de todos...

26/08/2019

"A ascensão da nova ignorância"

Retive uma palavra, apenas e só, do discurso que o presidente norte-americano Donald Trump proferiu na 72.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: "Nambia".
Situado em África, o suposto país foi elogiado pela qualidade do seu serviço de saúde.

Lembro-me que, há também alguns anos, tinha já sido a vez do seu colega George Walker Bush (o 43.º presidente dos Estados Unidos da América) cometer uma imprecisão linguística e cultural: chamou aos naturais da Grécia "grécios".

Ora, estas invenções e imprecisões mais não são, em minha opinião, do que "pérolas" nascidas de uma ignorância confrangedora por parte de pessoas que são, frequentemente, rotuladas como "as mais poderosas lideranças do mundo" já que estão à frente de colossos económicos, militares e diplomáticos, por exemplo.

Creio serem, também, exemplos claros daquilo que significa "a ascensão da nova ignorância" de que deu conta o historiador José Pacheco Pereira no 3.º Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico" de 1990!” que decorreu, no início de Maio de 2017, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

24/08/2019

Uma definição da História

"Irremediavelmente algo temos que fazer ou estar fazendo sempre, pois esta vida que nos é dada não nos é dada feita, mas cada um de nós tem de fazê-la, cada qual a sua.


Esta vida que nos é dada é-nos dada, e o homem [e a mulher, claro] tem que a ir preenchendo, ocupando. São estas as nossas ocupações.".




Fonte: Ortega y Gasset, "El Hombre y la Gente"


23/08/2019

A CPLP

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (C.P.L.P.) foi criada em meados da década de 1990.
De facto, a C.P.L.P. congrega, actualmente, nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Tal significa, desde logo, que a C.P.L.P. é uma organização com uma ‘projecção’ global já que os seus membros de encontram geograficamente localizados em quatro continentes – América, África, Europa e Ásia.

Mas tem, também, um outro significado.

 Que é este.

De facto, muito poucos, na chamada Lusofonia (e não só), concordarão com a veracidade do lema da (na...) Guiné Equatorial – "Unidad, Paz, Justicia" (ou, em português, "Unidade, Paz, Justiça").

Ora, Portugal – que, recorde-se, administrou a hoje designada Guiné Equatorial durante cerca de três séculos – foi um dos países fundadores de uma organização que acolhe, hoje, um país – a referida Guiné Equatorial – que tem, de forma ininterrupta, o mesmo líder político aos ‘comandos’ do país – Teodoro Obiang Nguema – desde 1979: o acto eleitoral que no dia 23 de Agosto de 2017 marcou o afastamento de José Eduardo dos Santos da presidência de Angola (também após 38 anos de governo "non stop") acabou por, apenas, consolidar o líder da Guiné Equatorial como o político africano há mais tempo no poder pois estava no “seu” posto há algumas semanas mais do que o seu homólogo angolano.

22/08/2019

Integração 'perfeita'?

Lembro-me de ter visto (e ouvido) uma reportagem que uma estação televisiva portuguesa emitiu, há alguns anos, sobre vários portugueses que haviam sido expulsos dos Estados Unidos da América para as suas terras de origem, nos Açores.
Pareceu-me que os ‘entrevistados’ que participaram naquele trabalho de investigação – todos eles – se "esqueceram" de dois aspectos que eram (e são), para mim, fundamentais: o de que eram estrangeiros naquelas novas terras e o de que havia regras sociais a cumprir (tal como, claro está, existem em todo o lado).

Ou seja, não conseguiram, por razões várias, conjugar as "fronteiras" da sua identidade cultural com as da sociedade de acolhimento.

Lembro-me, também, da intervenção, na dita peça jornalística, de alguém que trabalhava como sociólogo junto desses ‘repatriados’: estes estavam, disse então, "perfeitamente integrados" quando foram ‘apropriados’ pelo sistema judicial.

"Perfeitamente integrados"?

Ora, como se poderá considerar que alguém estava "perfeitamente integrado" numa dada sociedade se vivia uma existência à margem da lei (admitida e pormenorizada, de resto, por todos os entrevistados…) e que, depois, foi judicialmente condenado?

21/08/2019

Maias ultraviolentos

Um estudo recentemente disponibilizado pela publicação digital Nature Behavior revelou que uma inscrição que havia sido encontrada nas ruínas de uma antiga cidade maia mostrou que os vários reinos desta civilização da América do Sul faziam uso de violência 'extrema' em momentos de guerra destruindo completamente cidades inimigas e executando as famílias 'nobres' que nelas residiam.

De resto, os investigadores pensam que este uso da 'ultraviolência' bem como as secas e a erosão dos solos relacionada com a desflorestação terão sido determinantes para a extinção desta civilização há cerca de mil anos.

Recordo, aliás, que a civilização maia abrangia a região que se situa, actualmente, entre a parte mais a Sul do México e a parte mais a Norte da chamada América Central e 'durou', sensivelmente, desde o ano 250 até ao ano 900 (da chamada era cristã).

E pergunto: apesar de vivermos numa época em que existe tanto 'escrutínio' mediático e tantos tratados com disposições morais e éticas e, ainda, ameaças de penalizações criminais para colocar em prática em caso de conflito armado, será que uma barbaridade semelhante à dos maias de há um milénio não continua a existir?