O que é, socialmente falando,
uma comunidade?
E
uma sociedade?
Remontam,
efectivamente, ao sociólogo alemão Ferdinand Tönnies as primeiras
discussões, em finais do século XIX, a propósito dos conceitos de
comunidade e
de sociedade.
Na
realidade, e até então, a discussão sobre os problemas da
industrialização e da urbanização reduzia-se, frequentemente, ao
mero antagonismo polarizador de "campo" – "cidade"
e de "agricultura" – "indústria" sendo,
apenas, na obra de Tönnies que foi ‘ligado’ a estas categorias o
par sociológico antagónico "comunidade" – "sociedade".
De
facto, na sua obra "Gemeinschaft und Gesellschaft"
(ou, na tradução a partir do original alemão, "comunidade e associação"), datada de 1887 (que inspirou, de resto, diferentes
modelos de análise sociológica e antropológica), Tönnies avançou
com a identificação e análise de dois conceitos sobre a vivência
de grupos sociais: a comunidade, em que os ‘laços’ e as
relações entre os indivíduos se baseavam em sentimentos e atitudes
frequentemente designados de primários (no sentido de uma maior
proximidade afectiva e sentimental), de face a face ou de
interdependência, e a sociedade que, por oposição, se
caracterizava, segundo ele, por congregar um conjunto de indivíduos
que, associados e interagindo, regra geral, de forma porventura não
tão regular como no verificado nos postulados do conceito
precedente, não tinham entre si outras relações cujos únicos
laços de comunhão não se cingissem, por exemplo, a uma perspectiva
laboral ou institucional (e, portanto, mais formal) fruto, pois, de
uma divisão do trabalho mais complexa.
No
entanto, Tönnies distinguiu ainda a comunidade de parentesco
(fixada pelos laços de sangue e por uma vivência num meio social
comum onde a cooperação se desenvolvia regularmente) da comunidade
de vizinhança (frequentemente representada pelas relações de
dependência e de cooperação que se estabeleciam no meio rural ou
no âmbito do trabalho mas em que os indivíduos poderiam possuir um
certo sentimento de integração social e de solidariedade) e da
comunidade de cariz urbano.
Ora,
verificou-se, desde esse momento, a dificuldade analítica e teórica
de estabelecer uma relação necessária e obrigatória entre a
cidade/sociedade e o campo/comunidade.
Sociedade
e comunidade não eram, portanto, aplicáveis ou específicas,
respectivamente, dos meios urbanos, nem dos meios rurais.
Em
ambos os contextos (aldeia e cidade) se poderiam verificar relações
sociais tidas como características da sociedade e da
comunidade embora, naturalmente, se pudessem verificar mais ou
menos num dos meios fruto da diferenciação das estruturas que cada
um deles pudesse, porventura, evidenciar.
Ainda
assim, autores vários continuavam a referir que, por oposição à
comunidade existente
em meio rural, a sociedade poderia designar uma forma
de vida social impessoal, correspondente à vida no aglomerado
situado em ambiente urbano e industrial.
Poderia,
de facto, na comunidade, o grupo ser entendido como a unidade
máxima de referência para os indivíduos já que lhes poderia dar
uma forte sensação de pertença e de coesão (ao nível dos valores
partilhados, sobretudo) face a ‘investidas’ e 'agressões' do
exterior.
Todavia,
essa mesma unanimidade ao nível da partilha e da afirmação dos
valores comuns poderia, por exemplo, não permitir ao grupo uma fácil
resolução de conflitos no seu interior. Neste sentido, poderia
falar-se da existência de uma comunidade no caso do conjunto
dos habitantes de uma aldeia ou, até, no caso de fiéis de uma
qualquer confissão religiosa.
(continua)
