Nunca Portugal teve, ao longo
dos seus quase nove séculos de História, um só povo e um só líder
embora tivesse conseguido formar – e manter – um império.
Ao
contrário da Alemanha nacional-socialista: durante os seus doze anos
de ‘vigência’ (de 1933 a 1945), o seu lema foi "Ein Volk, Ein
Reich, Ein Führer" ("Um Povo, Um Império, Um Líder", em
português).
Ora,
em determinado momento da sua governação, a taxa de
aprovação/satisfação pelos eleitores alemães chegou a ser
extremamente elevada.
É
claro que a melhoria da capacidade económica e da ‘desenvoltura’
social da generalidade da sociedade alemã influenciou grandemente
uma vastíssima percentagem do povo germânico a aprovar o seu líder
mas talvez tão (ou mesmo mais) importante do que a dita elevação
económica e social da Alemanha tenha sido o facto de Adolf Hitler –
e seus algozes – terem ‘dito’ a cada um desses alemães que
pertencia a uma suposta raça superior.
Efectivamente,
Hitler e o nacional-socialismo mais não fizeram do que dizer (porque
talvez não existam grandes dúvidas de que o ‘sentimento’ de
suposta superioridade étnica e racial já existia) aquilo que a
maior parte dos alemães queria ouvir: que eram "grandes" e "importantes".
O
que depois se veio a passar já todos (feliz e infelizmente) conhecemos.
De
facto, foi esse mesmo discurso que foi cativando a força militar que
começou por constituir a guarda pessoal de Adolf Hitler mas que se
tornou num dos principais ‘braços’ do regime nacional-socialista
e da sua brutalidade: a Schutzstaffeln (ou SS).
Que
tinha como lema "Meine Ehre
heißt Treue" ("A Minha Honra é a Lealdade", em português).
O
seu dirigente máximo desde o início de 1929, o Reichsführer –
SS Heinrich Himmler, empenhou-se em radicalizar a organização
pelo que esta cometeu as maiores atrocidades a coberto da guerra (a
II Guerra Mundial).
Na
verdade, tal envolvimento poderá ser facilmente compreendido se se
lerem as palavras de um discurso que Himmler pronunciou no dia 4 de
Outubro de 1943 em Poznan, na Polónia, perante algumas centenas de
oficiais da dita SS.
Através
desse discurso procurou lembrar à sua audiência a lealdade que
esperava no extermínio dos Judeus (o Holocausto) que estava a ser
levado a efeito pelo regime alemão.
Assim,
afirmou, por exemplo, o seguinte: "A maioria de vós sabe o que é
estar junto a 100, a 500 ou mesmo a 1000 corpos. Ora, sabê-lo e ter
conseguido permanecer decentes tornou-nos duros".
Precisamente,
também o
filósofo Claude Polin, no seu "O totalitarismo", reflectiu sobre
esta questão da punição pela
guerra: "Em todas as
guerras existe um inimigo, mas que só o é condicionalmente, e a
prova disso é que apenas se pretende que ele desista da luta. Se
pretendermos tornar a luta em algo de absoluto, é preciso que o
inimigo também o seja".
Ou
seja, o Outro
– e quem será o Outro,
já agora? – é, não
raras vezes, "um inimigo
que não sabe que o é, mas que continua a ser um inimigo sem o saber
e sem querer, faça o que fizer".
Himmler,
no entanto, é que parece não ter sido honrado, nem leal, quando,
pressentindo o fim da guerra (e a derrota alemã), se apressou a
tentar encetar negociações com os Aliados ‘ocidentais’ sem o
conhecimento de Hitler.
Ao
contrário do que se passou com o português Aristides de Sousa
Mendes: o cônsul de Portugal em Bordéus optou por ser leal a si
próprio pelo que, depois de ter salvo do Holocausto nazi milhares de
pessoas, regressou a Portugal pagando com a aposentação compulsiva
a sua insubordinação à neutralidade do Estado.
E ao contrário do cidadão
português que foi morto a tiro na cidade de Paris em 1944 às mãos
de soldados alemães…