Volto à "Vereenigde
Oostindische Compagnie" – VOC –, a Companhia Holandesa das
Índias Orientais.
Constituída
em 1602 (e dissolvida em 1798) e agrupando mercadores de várias
cidades da Holanda, a VOC tinha como principal objectivo adquirir, e
consolidar, um lugar no Comércio com o Oriente suplantando os seus
inimigos ingleses (com a sua "East India Company") e portugueses
(com a sua "Carreira da Índia").
Ora,
sobrepor-se aos demais concorrentes significava para a VOC ter de
participar em operações militares: eis a razão de, no seu seio, se
ter formado um grupo constituído por mercenários suíços.
Grupo
que, de resto, tinha como lema "Terra et Mare" e "Fidelitas et
Honor" (ou, em português, "Na Terra e No Mar" e "Fidelidade
e Honra").
Ou
seja, superioridade militar.
Mas
não só.
De facto, a muitos funcionários
da Companhia Holandesa das Índias Orientais era solicitada a leitura
da "Peregrinação" antes de embarcarem rumo ao Oriente.
Na verdade, assinalaram-se, em
2014, os 400 anos da publicação da "Peregrinação", de Fernão
Mendes Pinto.
"Peregrinação" foi uma
obra escrita em Almada (numa altura em que o autor se encontrava já
afastado das suas jornadas mais aventureiras e agitadas) e publicada,
postumamente, em 1614. Desde logo, em língua portuguesa, mas, pouco
depois, noutros idiomas: em castelhano (a primeira edição espanhola
data de 1620), em francês (com a sua primeira edição a ter lugar
em Paris em 1625), em neerlandês (1652), em inglês (1653) e em
alemão (1671).
É que "Peregrinação" –
como destacava a capa da primeira edição inglesa – relatava as
vivências e impressões do autor em muitos "reinos do Oriente"
como o da Malásia, o do Sião (hoje, a Tailândia), o do Pegu (hoje,
a Birmânia) ou o da China ao mesmo tempo que descrevia a sua "religião, leis, riquezas, costumes e formas de governo".
Mas a "Peregrinação" era,
simultaneamente, como refere uma recente edição portuguesa, "um
romance de crítica à sociedade do tempo: denúncia de atrocidades,
ingratidões, desmandos, fraudes, hipocrisia e falsa religiosidade".
Sociedade de que, relembre-se,
Fernão Mendes Pinto também fazia parte pelo que não podia, ele
próprio, escapar às críticas tecidas.
Foi, no entanto, muito
provavelmente, Fernão Mendes Pinto (para além de "marinheiro,
senhor, escravo, jesuíta, pirata, mercador, juiz, escritor" como
evoca o monumento erigido no Pragal, em Almada, por ocasião do 4.º
centenário da sua morte, em 1983), independentemente da sua maior ou
menor imaginação, o primeiro a recorrer, de forma sistemática e
exaustiva, aos métodos fundamentais que, séculos mais tarde, viriam
a ser reclamados pela ciência etnográfica para a obtenção de
informação e simples relatos descritivos, isto é, a observação e
a participação directas (na ‘primeira pessoa’) nos
acontecimentos.
Contributo
maior para a Europa ganhar uma maior consciência dos outros e,
portanto, de si própria (e, talvez, um precioso auxílio para
espoletar ou acelerar o início do fim do império português em
terras do Oriente…), "Peregrinação" é, ainda hoje, um
dos títulos
em língua portuguesa mais traduzidos
em todo o mundo.