11/03/2020

Fra Angelico

Foi por volta do ano 1436 que Guido di Pietro se tornou num dos habitantes do recém-construído Mosteiro de São Marcos, em Florença, Itália.

Um homem do Renascimento – artista (pintor), pois – tornado frade num espaço dominicano.

Sabendo das suas capacidades artísticas, o patrono do mosteiro, Cosme de Médicis, encarregou-o da decoração (e da inspiração…) das celas dos companheiros de reclusão.

Ora, tais trabalhos de pintura deram-lhe um reconhecimento artístico tal que terá mesmo chegado a afirmar o seguinte: "Colui che fa il lavoro di Cristo deve rimanere sempre con Cristo" ("Aquele que faz o trabalho de Cristo terá que ficar sempre com Ele", em português).

Este lema valeu a Fra Angelico – o nome atribuído a di Pietro não muito depois da sua morte – o ser beatificado pelo papa João Paulo II em 1982 sendo que é, actualmente, considerado o padroeiro dos artistas.

Portugal também teve, no entanto, quem se identificasse com aquelas palavras: Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de São Vicente de Fora é, apenas, o mais conhecido.

10/03/2020

A constatação

Apresentando o próximo Congresso Nacional da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, o seu presidente, Pedro Costa Ferreira, fez algumas afirmações que me parecem ter sido muito pertinentes e razoáveis tendo em consideração a histeria que, creio sinceramente, grassa actualmente em muitos ‘pontos’ da Terra em virtude de um vírus.

De facto, afirmou então que nesse ‘conclave’ estar-se-ia "a lutar pela modernidade, contra um mundo antigo" assim como "a lutar pela solidariedade e pela tolerância, contra os muros e os estigmas".

E concretizou: "A pandemia do Covid-19 revelou, em pouco tempo, como habitamos um mundo antigo", com a criação de estigmas e estereótipos sobre a comunidade chinesa tal como se apedrejaram supostos infectados ucranianos, por exemplo.

Tudo revelador (desculpe-se-me a repetição), em seu entender, da escolha do "medo" em detrimento de uma ‘escolha’ baseada em factos (e, portanto, em dados objectivos).

Ou seja, seres humanos por fora modernos e cosmopolitas mas por dentro preconceituosos e xenófobos como sempre foram, por assim dizer.

09/03/2020

A VOC e a "Peregrinação"

Volto à "Vereenigde Oostindische Compagnie" – VOC –, a Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Constituída em 1602 (e dissolvida em 1798) e agrupando mercadores de várias cidades da Holanda, a VOC tinha como principal objectivo adquirir, e consolidar, um lugar no Comércio com o Oriente suplantando os seus inimigos ingleses (com a sua "East India Company") e portugueses (com a sua "Carreira da Índia").

Ora, sobrepor-se aos demais concorrentes significava para a VOC ter de participar em operações militares: eis a razão de, no seu seio, se ter formado um grupo constituído por mercenários suíços.

Grupo que, de resto, tinha como lema "Terra et Mare" e "Fidelitas et Honor" (ou, em português, "Na Terra e No Mar" e "Fidelidade e Honra").

Ou seja, superioridade militar.

Mas não só.

De facto, a muitos funcionários da Companhia Holandesa das Índias Orientais era solicitada a leitura da "Peregrinação" antes de embarcarem rumo ao Oriente.

Na verdade, assinalaram-se, em 2014, os 400 anos da publicação da "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto.

"Peregrinação" foi uma obra escrita em Almada (numa altura em que o autor se encontrava já afastado das suas jornadas mais aventureiras e agitadas) e publicada, postumamente, em 1614. Desde logo, em língua portuguesa, mas, pouco depois, noutros idiomas: em castelhano (a primeira edição espanhola data de 1620), em francês (com a sua primeira edição a ter lugar em Paris em 1625), em neerlandês (1652), em inglês (1653) e em alemão (1671).

É que "Peregrinação" – como destacava a capa da primeira edição inglesa – relatava as vivências e impressões do autor em muitos "reinos do Oriente" como o da Malásia, o do Sião (hoje, a Tailândia), o do Pegu (hoje, a Birmânia) ou o da China ao mesmo tempo que descrevia a sua "religião, leis, riquezas, costumes e formas de governo".

Mas a "Peregrinação" era, simultaneamente, como refere uma recente edição portuguesa, "um romance de crítica à sociedade do tempo: denúncia de atrocidades, ingratidões, desmandos, fraudes, hipocrisia e falsa religiosidade".

Sociedade de que, relembre-se, Fernão Mendes Pinto também fazia parte pelo que não podia, ele próprio, escapar às críticas tecidas.

Foi, no entanto, muito provavelmente, Fernão Mendes Pinto (para além de "marinheiro, senhor, escravo, jesuíta, pirata, mercador, juiz, escritor" como evoca o monumento erigido no Pragal, em Almada, por ocasião do 4.º centenário da sua morte, em 1983), independentemente da sua maior ou menor imaginação, o primeiro a recorrer, de forma sistemática e exaustiva, aos métodos fundamentais que, séculos mais tarde, viriam a ser reclamados pela ciência etnográfica para a obtenção de informação e simples relatos descritivos, isto é, a observação e a participação directas (na ‘primeira pessoa’) nos acontecimentos.

Contributo maior para a Europa ganhar uma maior consciência dos outros e, portanto, de si própria (e, talvez, um precioso auxílio para espoletar ou acelerar o início do fim do império português em terras do Oriente…), "Peregrinação" é, ainda hoje, um dos títulos em língua portuguesa mais traduzidos em todo o mundo.

07/03/2020

Conhecimento e ignorância

"Se o conhecimento pode criar problemas, não será através da ignorância que os resolveremos".



Isaac Asimov (1920-1992), escritor norte-americano nascido na Rússia

06/03/2020

Magalhães e Guam

O navegador Fernão de Magalhães ‘descobriu’ a ilha de Guam no dia 6 de Março de 1521. Há quatrocentos e noventa e nove anos, portanto.

05/03/2020

Macau e o Belo

Recordo o que o arquitecto italiano Leon Battista Alberti explicou no livro "Da Re Aedificatoria" (no século XV) a sua própria definição de Belo: "Todo e qualquer objecto ao qual nada possa ser acrescentado ou subtraído sem que a harmonia do todo se altere".

Por outro ‘lado’, o Dia Mundial da Arquitectura que se assinalou no ano 2013 (Dia celebrado anualmente, desde 1986, na primeira segunda-feira do mês de Outubro) teve como lema "Architecture and Culture" (ou, em português, "Arquitectura e Cultura").

De facto, se se tiver em consideração exemplos arquitectónicos ‘espalhados’ pelo mundo não será difícil perceber-se a dificuldade – também motivada pela falta de vontade – em atingir essa simbiose.

Quer na teoria, quer na prática, portanto.

Mas outros, pelo contrário, exibem-na facilmente.

Ora, se, efectivamente, a igreja de São Paulo, deixou de ser bela por causa de um incêndio, o que sobrou não deixou de ser arquitectura, nem cultura: foi pouco antes da soberania de Macau mudar oficialmente (de Portugal para a China) que o então presidente da República Federativa do Brasil, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, a visitou.

Eis o que declarou: "a gente chega e leva um choque porque quase ninguém fala a nossa língua, mas basta parar um pouco em frente às ruínas da igreja de São Paulo para ver que naquela fachada está sintetizada toda a cultura portuguesa".

04/03/2020

"Semper Fi", John Philip Sousa

Criados em Novembro de 1775 (oito meses antes da declaração de independência dos Estados Unidos da América), os Marines ("United States Marine Corps") participaram ao longo do tempo, como "ramo" das Forças Armadas do país, em inúmeras operações militares em vários continentes.

Ora, o que tem também vindo a acompanhar os Marines – cujo lema é "Semper Fi [delis]" ("Sempre Fiel", em português) – ao longo de muito tempo – desde o fim do século XIX – é o seu hino: composto pelo líder da banda musical do referido corpo de fuzileiros navais norte-americano, o lusodescendente John Philip Sousa, para representar os valores honra, coragem e compromisso e, no fundo, o espírito de união para com o país, é ainda hoje um dos ‘símbolos’ do poder militar (e não só) do país além-fronteiras.

De facto, os soldados vêm e vão mas a música ficará para sempre!