15/03/2020

Origem: Drácon

"Tempos draconianos".

"Esforços draconianos".

Duas expressões que, em tempos de pandemia, é comum ouvir.

No entanto, qual é a origem?

Efectivamente, ambas as citações remetem para um nome: Drácon.

Drácon, nascido no ano 620 antes do suposto nascimento de Jesus Cristo, foi quem primeiro elaborou um conjunto de leis escritas que, de certo modo, como que regulamentavam a vida na sociedade ateniense de então afirmando, igualmente, a autoridade do Estado.

Começou esse conjunto legislativo por ser, desde logo, considerado como extremamente severo e rígido.

O facto de ainda hoje, em 2020, o ser explica que expressões como as que expus há algumas linhas atrás revelem a dureza e a gravidade de um determinado momento social, económico e político.


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Num artigo de opinião que o jornal Negócios ("O coronavírus e a economia global") publicou no passado dia 5 de Março de 2020, Simon Johnson, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor universitário norte-americano escreveu, entre muitas outras coisas, claro, o seguinte: "Parece improvável que esta doença se mostre tão mortífera quanto algumas doenças de que padeceram os nossos antepassados".

Ainda que eu não tenha conhecimentos para confirmar ou não a probabilidade da gravidade do vírus ‘baptizado’ COVID-19, limito-me a desejar que a sua opinião se venha a confirmar.

14/03/2020

O Dia Internacional da Matemática

Assinala-se hoje, 14 de Março de 2020, pela primeira vez, o Dia Internacional da Matemática.

Estranho somente que apenas em 2020 se comemore este "ramo" do conhecimento humano quando, por exemplo, a construção de estruturas - pirâmides - por povos em África (no Egipto) e na América (no actual México e não só) que necessitou de complicadíssimos cálculos matemáticos tenha começado há muitas centenas de anos.

13/03/2020

Então, se necessário for, molde-se ("manipule-se")

"O sentimento público é tudo. Com ele nada poderá falhar; sem ele nada poderá ter êxito".



Abraham Lincoln (1809-1865), político norte-americano

12/03/2020

A ponte e o padrão de Arcos de Valdevez

Já aqui escrevi sobre o chamado Padre Himalaia.

No entanto, as palavras que hoje escrevo não se referem a este extraordinário 'filho' da localidade minhota de Arcos de Valdevez mas sim à sua ponte e ao Padrão Comemorativo do Recontro/Torneio de Valdevez.


"A actual ponte que liga as duas margens da Vila de Arcos de Valdevez é uma construção do século XIX, iniciada em 1876 e finalizada em 1880, que substituiu integralmente um exemplar de origem medieval, de estrutura marcadamente românica, construída, provavelmente, entre os finais do século XII, inícios do século XIII, uma vez que nas Inquirições de 1258 o topónimo Arcos surge já referenciado.
A existência da ponte e sua associação com a feira local, de significativa dimensão e importância no século XV, bem como uma importante rede viária de e para o exterior, estiveram na base do desenvolvimento histórico, económico e social da vila dos Arcos".


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"No âmbito das comemorações dos 800 anos do “Recontro de Valdevez”, ocorridas em Junho de 1940, a Câmara Municipal decide realizar, nesse mesmo ano, este padrão evocativo da efeméride. Colocado inicialmente no então denominado “Campo Almirante Reis”, hoje “Campo do Trasladário”, foi movido para uma nova localização, junto à Igreja do Espírito Santo, fruto das necessidades de intervenção na zona marginal. A atual implantação procura restituir ao monumento o seu anterior significado, devolvendo-o a um espaço simbólico original, marcado pela Avenida e pelo monumento equestre de homenagem ao “Recontro”, da autoria do escultor José Rodrigues, formando um percurso pelos símbolos e interpretações contemporâneas desse singular episódio histórico do século XII, um dos marcos essenciais na formação e génese de Portugal.
Ocorrido no Vale do Vez em 1141, o “Recontro”, “Torneio” ou “Bafordo” de Valdevez marcou as aspirações de independência do nosso futuro primeiro monarca Afonso Henriques, uma vez que do seu desfecho, vantajoso para os “portucalenses”, resultou, em 1143, um importante tratado de paz com Afonso VII de Leão e o uso, pela primeira vez, do título de “Rei” (rex), embora a soberania portuguesa só fosse reconhecida definitivamente, pelo Papa, em 1179.
Na inscrição patente neste Padrão lê-se: Recontro de Valdevez 1141. Aos cavaleiros de Afonso Henriques os portugueses de 1940".

11/03/2020

Fra Angelico

Foi por volta do ano 1436 que Guido di Pietro se tornou num dos habitantes do recém-construído Mosteiro de São Marcos, em Florença, Itália.

Um homem do Renascimento – artista (pintor), pois – tornado frade num espaço dominicano.

Sabendo das suas capacidades artísticas, o patrono do mosteiro, Cosme de Médicis, encarregou-o da decoração (e da inspiração…) das celas dos companheiros de reclusão.

Ora, tais trabalhos de pintura deram-lhe um reconhecimento artístico tal que terá mesmo chegado a afirmar o seguinte: "Colui che fa il lavoro di Cristo deve rimanere sempre con Cristo" ("Aquele que faz o trabalho de Cristo terá que ficar sempre com Ele", em português).

Este lema valeu a Fra Angelico – o nome atribuído a di Pietro não muito depois da sua morte – o ser beatificado pelo papa João Paulo II em 1982 sendo que é, actualmente, considerado o padroeiro dos artistas.

Portugal também teve, no entanto, quem se identificasse com aquelas palavras: Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de São Vicente de Fora é, apenas, o mais conhecido.

10/03/2020

A constatação

Apresentando o próximo Congresso Nacional da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, o seu presidente, Pedro Costa Ferreira, fez algumas afirmações que me parecem ter sido muito pertinentes e razoáveis tendo em consideração a histeria que, creio sinceramente, grassa actualmente em muitos ‘pontos’ da Terra em virtude de um vírus.

De facto, afirmou então que nesse ‘conclave’ estar-se-ia "a lutar pela modernidade, contra um mundo antigo" assim como "a lutar pela solidariedade e pela tolerância, contra os muros e os estigmas".

E concretizou: "A pandemia do Covid-19 revelou, em pouco tempo, como habitamos um mundo antigo", com a criação de estigmas e estereótipos sobre a comunidade chinesa tal como se apedrejaram supostos infectados ucranianos, por exemplo.

Tudo revelador (desculpe-se-me a repetição), em seu entender, da escolha do "medo" em detrimento de uma ‘escolha’ baseada em factos (e, portanto, em dados objectivos).

Ou seja, seres humanos por fora modernos e cosmopolitas mas por dentro preconceituosos e xenófobos como sempre foram, por assim dizer.

09/03/2020

A VOC e a "Peregrinação"

Volto à "Vereenigde Oostindische Compagnie" – VOC –, a Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Constituída em 1602 (e dissolvida em 1798) e agrupando mercadores de várias cidades da Holanda, a VOC tinha como principal objectivo adquirir, e consolidar, um lugar no Comércio com o Oriente suplantando os seus inimigos ingleses (com a sua "East India Company") e portugueses (com a sua "Carreira da Índia").

Ora, sobrepor-se aos demais concorrentes significava para a VOC ter de participar em operações militares: eis a razão de, no seu seio, se ter formado um grupo constituído por mercenários suíços.

Grupo que, de resto, tinha como lema "Terra et Mare" e "Fidelitas et Honor" (ou, em português, "Na Terra e No Mar" e "Fidelidade e Honra").

Ou seja, superioridade militar.

Mas não só.

De facto, a muitos funcionários da Companhia Holandesa das Índias Orientais era solicitada a leitura da "Peregrinação" antes de embarcarem rumo ao Oriente.

Na verdade, assinalaram-se, em 2014, os 400 anos da publicação da "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto.

"Peregrinação" foi uma obra escrita em Almada (numa altura em que o autor se encontrava já afastado das suas jornadas mais aventureiras e agitadas) e publicada, postumamente, em 1614. Desde logo, em língua portuguesa, mas, pouco depois, noutros idiomas: em castelhano (a primeira edição espanhola data de 1620), em francês (com a sua primeira edição a ter lugar em Paris em 1625), em neerlandês (1652), em inglês (1653) e em alemão (1671).

É que "Peregrinação" – como destacava a capa da primeira edição inglesa – relatava as vivências e impressões do autor em muitos "reinos do Oriente" como o da Malásia, o do Sião (hoje, a Tailândia), o do Pegu (hoje, a Birmânia) ou o da China ao mesmo tempo que descrevia a sua "religião, leis, riquezas, costumes e formas de governo".

Mas a "Peregrinação" era, simultaneamente, como refere uma recente edição portuguesa, "um romance de crítica à sociedade do tempo: denúncia de atrocidades, ingratidões, desmandos, fraudes, hipocrisia e falsa religiosidade".

Sociedade de que, relembre-se, Fernão Mendes Pinto também fazia parte pelo que não podia, ele próprio, escapar às críticas tecidas.

Foi, no entanto, muito provavelmente, Fernão Mendes Pinto (para além de "marinheiro, senhor, escravo, jesuíta, pirata, mercador, juiz, escritor" como evoca o monumento erigido no Pragal, em Almada, por ocasião do 4.º centenário da sua morte, em 1983), independentemente da sua maior ou menor imaginação, o primeiro a recorrer, de forma sistemática e exaustiva, aos métodos fundamentais que, séculos mais tarde, viriam a ser reclamados pela ciência etnográfica para a obtenção de informação e simples relatos descritivos, isto é, a observação e a participação directas (na ‘primeira pessoa’) nos acontecimentos.

Contributo maior para a Europa ganhar uma maior consciência dos outros e, portanto, de si própria (e, talvez, um precioso auxílio para espoletar ou acelerar o início do fim do império português em terras do Oriente…), "Peregrinação" é, ainda hoje, um dos títulos em língua portuguesa mais traduzidos em todo o mundo.