19/03/2020

Ladrão que rouba ladrão, tem...

De acordo com um texto – "NATO Seen Favorably Across Member States" – que o instituto de estudos de opinião norte-americano Pew Research Center publicou na sua página na Internet no início do passado mês de Fevereiro (de 2020) a propósito de um estudo por si efectuado, observou-se que – atenção que desconheço a ficha técnica a que ‘obedeceu’ a elaboração deste estudo – 60% da população de Espanha não considerava que existissem ‘porções’ de outros países que pertencessem, por direito, a Espanha.

Mas também se observou que eram cerca de 40% (37%, na verdade) aqueles, no conjunto da população de Espanha, que achavam que outros países (Portugal e/ou a França e/ou o Reino Unido, sobretudo) haviam roubado (com ou sem aspas) a Espanha, ao longo da História, parcelas do seu território.

Ora, lamento dois factos: o primeiro é que Portugal, por assim dizer, não tenha participado neste estudo de opinião – repito: desconheço a ficha técnica a que ‘obedeceu’ a elaboração deste estudo. O segundo é a referência ao facto de me parece que muitos dos que sentem que Espanha foi espoliada de parte do seu território como país soberano se esqueceram – e esquecem –, seguramente, de Olivença*.

Concordo que um roubo não ‘desfaz’, nem ‘apaga’, outro roubo, mas...










* Recordo que foi, efectivamente, com a chamada "Guerra das Laranjas" (que foi levada a cabo em pouco mais do que duas semanas) que, em 1801 (durante o caos causado pela 1.ª Invasão Francesa em Portugal), Espanha – liderada pelo primeiro-ministro e chefe militar Manuel Godoy – ocupou um conjunto de localidades portuguesas situadas junto à fronteira. Ora, na sequência da assinatura de um outro tratado – o Tratado de Badajoz –, em Junho de 1801, foram restituídas a Portugal as localidades ocupadas: Arronches, Barbacena, Juromenha, Castelo de Vide, Ouquela e Campo Maior, por exemplo. Mas não Olivença. Anos mais tarde, em Junho de 1815, o Congresso de Viena decidiu a "devolução" de Olivença a Portugal sem que, no entanto, as autoridades espanholas lhe tivessem dado seguimento… Até hoje.



Post scriptum: o presidente da República Portuguesa declarou ontem o "estado de emergência". Ora, em quase novecentos anos de história só muito raramente (ou nunca, de facto...) Portugal - e os seus habitantes, evidentemente) - foram obrigados a submeter-se a um tal 'regime' de isolamento social.

18/03/2020

O discurso e a realidade

O presidente chinês Deng Xiaoping proclamou no início da década de 1980 a fórmula para a República Popular da China enfrentar a reunificação: "一国两制" ("Um País, Dois Sistemas", em português).


Efectivamente, à meia-noite de 1 de Julho de 1997 a "Union Jack", a bandeira do Reino Unido, foi substituída em Hong Kong pela bandeira de Pequim tornando-se essa região – juntamente com a ‘portuguesa’ Macau dois anos e meio mais tarde – uma região administrativa especial da China governada, claro está, sob a égide da referida política "一国两制" ("Um País, Dois Sistemas", em português).


Ora, à margem da reunião da ASEAN (sigla em língua inglesa) no início de Agosto de 2019, o então novo ministro dos Negócios Estrangeiros do país antigo colonizador desse território chinês pediu à China que respeitasse as manifestações (pacíficas, em seu entender) que já há algumas semanas estavam a decorrer em Hong Kong e que, enfim, cumprisse a Declaração Conjunta que os dois países – Reino Unido e China – haviam assinado antes da ‘devolução’ de Hong Kong.


No entanto, a importância de Hong Kong nem sempre parece ter sido levada na devida ‘conta’ pelo reino de Sua Majestade (que chegou a ‘acordo’ com a China após as guerras do ópio para colonizar Hong Kong): foi em Julho (no dia 24) de 2018 que a edição digital do jornal South China Morning Post escreveu o seguinte (no artigo "Britain’s ‘disgraceful’ pre-handover efforts to deny nationality to Hongkongers revealed in declassified cabinet files"):




"Antes do retorno das duas cidades, Hong Kong e Macau, para o domínio chinês, a Grã-Bretanha pressionou de forma repetida Portugal por forma a não conceder a nacionalidade lusa [nem demais direitos] aos seus residentes em Macau para evitar que os de Hong Kong pedissem o mesmo tratamento, revelaram documentos recentemente desclassificados".

17/03/2020

Epidemia e Pandemia

A Organização Mundial de Saúde declarou, há dias, que o surto de coronavírus (e a doença COVID-19 que 'originou') que estava - e está - a assolar o Mundo era uma pandemia.

Assim, não já uma epidemia mas uma pandemia.

Mas qual é a exacta diferença etimológica entre as palavras epidemia e pandemia?

Lembro que até cerca de meados do século XIX ambas as palavras eram utilizadas indiferentemente nos dicionários e documentos médicos.

Ora, a ‘origem’ é a palavra endémico.

Que significa que algo (uma doença, por exemplo) é originário de um determinado lugar.

É, portanto, específico.

Endémico provém do Grego en ("em") + demos ("gente") + o sufixo ic ("pertencente a um lugar").

Efectivamente, também a palavra epidemia tem uma ‘origem’ grega: Epi significa "entre".

Já a palavra pandemia tem, também, uma ‘origem’ grega: pan significa "comum", "todos".

Ou seja, uma epidemia ‘apenas’ existe numa comunidade relativamente diminuta em termos do número de pessoas (afectadas) enquanto que uma pandemia tem subjacente uma dimensão geográfica e humana muito maior.

Mas, como quase sempre, as definições têm explicações – e implicações, pois – políticas e económicas.

16/03/2020

Tavira, cidade

Embora tivesse começado a ser habitada alguns séculos antes da data atribuída ao nascimento de Jesus Cristo, só em 1520 o rei português D. Manuel I outorgou a Tavira o título de "cidade".


No dia 16 de Março de 1520, precisamente.


Ora, talvez a esta decisão real não tivesse sido alheia a ‘questão’ populacional já que os censos de 1527 registariam essa cidade como sendo o maior aglomerado populacional do Algarve.

 

 


 

15/03/2020

Origem: Drácon

"Tempos draconianos".

"Esforços draconianos".

Duas expressões que, em tempos de pandemia, é comum ouvir.

No entanto, qual é a origem?

Efectivamente, ambas as citações remetem para um nome: Drácon.

Drácon, nascido no ano 620 antes do suposto nascimento de Jesus Cristo, foi quem primeiro elaborou um conjunto de leis escritas que, de certo modo, como que regulamentavam a vida na sociedade ateniense de então afirmando, igualmente, a autoridade do Estado.

Começou esse conjunto legislativo por ser, desde logo, considerado como extremamente severo e rígido.

O facto de ainda hoje, em 2020, o ser explica que expressões como as que expus há algumas linhas atrás revelem a dureza e a gravidade de um determinado momento social, económico e político.


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Num artigo de opinião que o jornal Negócios ("O coronavírus e a economia global") publicou no passado dia 5 de Março de 2020, Simon Johnson, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor universitário norte-americano escreveu, entre muitas outras coisas, claro, o seguinte: "Parece improvável que esta doença se mostre tão mortífera quanto algumas doenças de que padeceram os nossos antepassados".

Ainda que eu não tenha conhecimentos para confirmar ou não a probabilidade da gravidade do vírus ‘baptizado’ COVID-19, limito-me a desejar que a sua opinião se venha a confirmar.

14/03/2020

O Dia Internacional da Matemática

Assinala-se hoje, 14 de Março de 2020, pela primeira vez, o Dia Internacional da Matemática.

Estranho somente que apenas em 2020 se comemore este "ramo" do conhecimento humano quando, por exemplo, a construção de estruturas - pirâmides - por povos em África (no Egipto) e na América (no actual México e não só) que necessitou de complicadíssimos cálculos matemáticos tenha começado há muitas centenas de anos.

13/03/2020

Então, se necessário for, molde-se ("manipule-se")

"O sentimento público é tudo. Com ele nada poderá falhar; sem ele nada poderá ter êxito".



Abraham Lincoln (1809-1865), político norte-americano