02/10/2020

Ainda a Inquisição

Não são poucas as palavras que conseguem descrever como ‘foi’ o século XVI na Europa.

Mas eis que bastarão apenas duas para descrever o século XVI português: Descobrimentos e Inquisição.

Ora, à primeira dedica qualquer manual escolar de História publicado em Portugal imensas páginas.

À segunda, não.

Estranho pois andaram sempre lado a lado: se os Descobrimentos deram "novos mundos ao mundo" tornando-o, nas palavras do historiador e professor Vitorino Magalhães Godinho, palco de um "humanismo global", a Inquisição – sob o lema "Misericórdia e Justiça" – mostrou, segundo o também historiador John Harold Plumb, que o "mesmo zelo cruel que arrastava os capitães nunca abandonou inteiramente os homens de Deus, tanto em Lisboa como no Oriente".

Que o dissessem os acusados de serem cristãos-novos, hereges ou, enfim, todos os que, de algum modo, perturbavam e discutiam a ordem social instituída.

Mas não se pense que a Inquisição foi algo que ficou lá atrás, perdido no Tempo.

Infelizmente não.

Porque, na verdade – como escreveram os professores José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci na sua "História da Inquisição Portuguesa 1536-1821" (e que já aqui citei) –, a "sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar".

01/10/2020

O Auto da Índia

Aquela que foi a primeira farsa de Gil Vicente foi, justamente, uma das primeiras obras representadas em toda a Península Ibérica a apresentar um enredo composto por diversas personagens ao contrário de um simples monólogo como era, de resto, habitual apresentar-se em contexto real.


O Auto da Índia teve a sua primeira representação no início do século XVI (em 1509) em Almada perante a atenção da rainha D. Leonor (viúva do rei D. João II).


Tratou-se, na verdade, de mais um momento de (inteligente) crítica social daquele que é por muitos considerado como o "pai" do teatro em Portugal: talvez tenha sido essa mesma inteligência a 'responsável ' pela perseguição que a Inquisição lhe fez...


30/09/2020

Saber para deixar de suspeitar

"O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso, os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais em vez de se deixarem sufocar por elas".



Francis Bacon (1561-1626), filósofo e político inglês

29/09/2020

King, Ray e Lisboa

Martin Luther King, Jr. foi um defensor dos direitos humanos que ‘conduziu’ o movimento a favor das chamadas liberdades civis nos Estados Unidos da América a partir de meados da década de 1950 até ser assassinado em 1968.

Ora, o seu assassino foi James Earl Ray.

Após ter cometido esse acto desprezível e hediondo, Ray viajou para o Canadá (em busca de um passaporte emitido por esse país), depois para Londres, Lisboa e novamente para Londres, onde acabou por ser preso.

Lisboa uma vez mais usada para fins obscuros...

28/09/2020

Turismo, globalização e Ramalho Ortigão

Assinalou-se ontem, 27 de Setembro, o Dia Mundial do Turismo.

De facto, na História humana, nunca como actualmente – tentemos esquecer momentaneamente a omnipresente pandemia... – os seres humanos puderam afastar-se tanto do local onde habitualmente viviam.

As consequências?

Como sempre, positivas e negativas.


*** 


Registo igualmente que ontem também se assinalaram cento e cinco anos da morte daquele que foi, na minha opinião, claro, um dos ‘maiores’ escritores e ensaístas portugueses de sempre: José Duarte Ramalho Ortigão.

26/09/2020

O emir

Existem, no Próximo Oriente, vários territórios – países... – governados por outros tantos emires: "Emirados Árabes Unidos", "Kuwait" e "Qatar".


Ora, o "emir" é, nessa região, um monarca que, no chamado Ocidente, poderia ser ‘equiparado’ a um príncipe.

25/09/2020

Papas "novos" e "velhos"

O Catolicismo considera que o Papa é o representante de Deus na Terra.


Mas "até que ponto" existiu – e existe – uma espécie de limite etário (máximo e mínimo) que ‘ajudasse’ – e ‘ajude’ – como que a seleccionar este representante (que é, também, o bispo de Roma)?


Ora, sendo que o Papa que assumiu o nome "João XI" (que ‘reinou’ entre os anos 931 e 935 da chamada era cristã) tinha vinte anos quando "entrou em funções", que "João XII" (que ‘reinou’ entre 955 e 964) tinha dezoito anos quando foi eleito para a "cadeira de Pedro", que "Bento IX" (que ‘governou’ entre 1032 e 1044, em 1045 e entre 1047 e 1048) teria de idade entre onze e vinte anos quando ocupou o ‘trono’ da Igreja Católica Apostólica Romana e que, ao invés, "Clemente X" tinha quase oitenta anos quando se tornou no Sumo Pontífice (entre 1670 e 1676), a resposta é "não".