Não são poucas as palavras que
conseguem descrever como ‘foi’ o século XVI na Europa.
Mas
eis que bastarão apenas duas para descrever o século XVI português:
Descobrimentos e Inquisição.
Ora,
à primeira dedica qualquer manual escolar de História publicado em
Portugal imensas páginas.
À
segunda, não.
Estranho
pois andaram sempre lado a lado: se os Descobrimentos deram "novos mundos ao mundo" tornando-o, nas palavras do historiador e
professor Vitorino Magalhães Godinho, palco de um "humanismo
global", a Inquisição – sob o lema "Misericórdia e
Justiça" – mostrou, segundo o também historiador John Harold
Plumb, que o "mesmo zelo cruel que arrastava os capitães nunca
abandonou inteiramente os homens de Deus, tanto em Lisboa como no
Oriente".
Que
o dissessem os acusados de serem cristãos-novos, hereges ou, enfim,
todos os que, de algum modo, perturbavam e discutiam a ordem social
instituída.
Mas
não se pense que a Inquisição foi algo que ficou lá atrás,
perdido no Tempo.
Infelizmente
não.
Porque,
na verdade – como escreveram os professores José Pedro Paiva e
Giuseppe Marcocci na sua "História da Inquisição Portuguesa
1536-1821" (e que já aqui citei) –, a "sua influência continua a
sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e
até nos costumes e modos de ser e pensar".