Celebram-se em 2022 os quatrocentos anos da canonização de Inácio de Loyola e de Francisco Xavier.
Aproveito, por isso, para aqui reproduzir um texto que escrevi há alguns anos e que o jornal publicado em Macau "O Clarim" fez o favor de editar com o título "Relembrando o legado de São Francisco Xavier".
"Numa
altura em que se sentem por todo o mundo as ondas de choque
provocadas pela intolerância religiosa – ou alimentadas por ela…
– é importante relembrar o papel de São Francisco Xavier no
diálogo entre pessoas com culturas e visões de Deus e do mundo
completamente diferentes. E de como a sua aproximação não é, de
todo, impossível.
Francisco
Xavier nasceu no ano de 1506 no Castelo de Xavier, em Navarra, reino
ibérico (mais tarde pertencente a Espanha). Celebram-se, por isso,
em 2016, 510 anos do seu nascimento.
Oriundo
de uma família abastada pôde, pois, estudar na Universidade de
Paris e, depois, em Veneza. Tinha frequentado, ainda na capital
francesa, o Colégio de Santa Bárbara e aqui conheceu, entre outros,
Inácio de Loyola. No contexto da Reforma proposta pelo alemão
Martinho Lutero e de uma certa crise identitária da Igreja Católica
provocada pela ascensão do Protestantismo, decidem fundar a
Companhia de Jesus.
O
monarca português de então, D. João III, propôs-lhes que
continuassem a sua luta de afirmação espiritual da fé cristã no
Oriente. Depois de anuir, o padre Francisco Xavier chegou a Lisboa em
1540 e aí permaneceu cerca de um ano, trabalhando no Hospital Real
de Todos os Santos.
Começou
em Goa, na Índia, em 1542, o seu “périplo” como grande apóstolo
do Oriente tendo sido uma espécie de representante do Papa.
Estabelecendo-se no Colégio de São Paulo (nele se educavam jovens
vindos de muitas partes do Oriente: por exemplo, um discurso por
ocasião da abertura de um ano lectivo chegou a ser traduzido em
trinta idiomas…), deu, então, início à sua missão de
evangelização.
Após
abandonar Goa percorreu o litoral indiano até ao extremo meridional
do País, chegando até Malaca e às Molucas e a muitas ilhas da
região chegando, depois, ao Japão. Aí voltou a empenhar-se na
difusão da Doutrina Cristã: não é sem razão que, ainda hoje, no
Japão, se refere ao período de tempo que medeia a segunda metade do
século XVI e a primeira metade do século XVII como o século
cristão, nem que, por exemplo, segundo me explicou, há um par de
anos, Maho Kinoshita, da embaixada portuguesa em Tóquio, se encontre
na cidade de Nobeoka (na ilha de Kyushu) um bairro chamado Mushika
(“Música”, em Português), em virtude de Otomo Sorin, daimyo
(chefe local) convertido ao Cristianismo, que viveu no século XVI,
assim o ter nomeado, pois uma igreja cristã da região ensinava
melodias e músicas europeias.
O
Cristianismo acabou, no entanto, por ser declarado uma fé “non
grata”, tendo sido mesmo acusado de heresia um conjunto de
missionários franciscanos e, em consequência, crucificados. Foram,
também, posteriormente, martirizadas centenas ou, até, milhares de
pessoas que tinham já abraçado a religião cristã.
Os
missionários jesuítas acabariam por ser expulsos do País – e da
povoação de pescadores doada à Companhia de Jesus em 1580,
Nagasaki – em 1614. O padre Francisco Xavier, esse, tinha já
falecido em 1552 na China. Foi beatificado em 1605 pelo Papa Paulo V
e, depois, canonizado em 1622 por Gregório XV.
Mais
do que terminar esta breve evocação de São Francisco Xavier,
reafirmando a sua pertença à Companhia de Jesus ou a sua figura
enquanto personalidade cimeira da expansão da cultura europeia no
mundo (pois que não tendo nascido em terras portuguesas esteve ao
serviço de uma causa encabeçada por portugueses), importará vincar
a sua luta pela convivência de todos em paz e fraternidade e,
também, pela supremacia do espiritualismo sobre o materialismo. Ou
seja, um verdadeiro espírito ecuménico".