28/05/2022

O Homem: vida, morte e "vida eterna"

Já aqui citei o escritor checo Franz Kafka - "se estou condenado, então estou não só condenado a morrer mas também condenado a lutar até morrer".

Admito que talvez tivesse sido o 'álibi' perfeito para invocar as palavras que o escritor inglês William Somerset Maugham escreveu no primeiro registo do ano 1902 do seu diário: "Os homens, banais e medíocres, não me parecem talhados para enfrentar o feito descomunal da vida eterna. Com as suas pequenas paixões, pequenas virtudes e pequenos vícios, estão bem adaptados ao mundo de todos os dias; mas o conceito de imortalidade é demasiado vasto para seres moldados numa tão pequena escala".


27/05/2022

O Mediterrâneo: o "Nosso Mar"

Está a decorrer, no Mónaco, o "torneio internacional de natação Mare Nostrum".

Ora, nada aqui direi sobre os resultados aí obtidos ou sobre, por exemplo, as virtudes comprovadas cientificamente da prática da natação enquanto "exercício físico".

Direi, sim, sobre a expressão "Mare Nostrum".

Que eram as palavras com que o Império Romano designava o "Mar Mediterrâneo": o espaço marítimo que considerava ser "seu" (que incluía, naturalmente, as 'redes' comerciais aí existentes).

26/05/2022

A consequência da "supremacia"

Lembro-me de, enquanto estudante, me ter sido dito que Adolf Hitler havia sido uma espécie de admirador da teoria da "superioridade da raça Ariana" proposta, no século XIX, pelo nobre francês Joseph Arthur de Gobineau.

Mas só muito mais tarde li que Hitler havia também admirado o trabalho do historiador e jornalista norte-americano Lothrop Stoddard - principalmente, o livro que escrevera "The Rising Tide Of Color Against White World-Supremacy".

Sempre a "supremacia do Homem Branco"...

E o resultado?

25/05/2022

S. Francisco Xavier

Celebram-se em 2022 os quatrocentos anos da canonização de Inácio de Loyola e de Francisco Xavier. 

Aproveito, por isso, para aqui reproduzir um texto que escrevi há alguns anos e que o jornal publicado em Macau "O Clarim" fez o favor de editar com o título "Relembrando o legado de São Francisco Xavier".

 

"Numa altura em que se sentem por todo o mundo as ondas de choque provocadas pela intolerância religiosa – ou alimentadas por ela… – é importante relembrar o papel de São Francisco Xavier no diálogo entre pessoas com culturas e visões de Deus e do mundo completamente diferentes. E de como a sua aproximação não é, de todo, impossível.

Francisco Xavier nasceu no ano de 1506 no Castelo de Xavier, em Navarra, reino ibérico (mais tarde pertencente a Espanha). Celebram-se, por isso, em 2016, 510 anos do seu nascimento.

Oriundo de uma família abastada pôde, pois, estudar na Universidade de Paris e, depois, em Veneza. Tinha frequentado, ainda na capital francesa, o Colégio de Santa Bárbara e aqui conheceu, entre outros, Inácio de Loyola. No contexto da Reforma proposta pelo alemão Martinho Lutero e de uma certa crise identitária da Igreja Católica provocada pela ascensão do Protestantismo, decidem fundar a Companhia de Jesus.

O monarca português de então, D. João III, propôs-lhes que continuassem a sua luta de afirmação espiritual da fé cristã no Oriente. Depois de anuir, o padre Francisco Xavier chegou a Lisboa em 1540 e aí permaneceu cerca de um ano, trabalhando no Hospital Real de Todos os Santos.

Começou em Goa, na Índia, em 1542, o seu “périplo” como grande apóstolo do Oriente tendo sido uma espécie de representante do Papa. Estabelecendo-se no Colégio de São Paulo (nele se educavam jovens vindos de muitas partes do Oriente: por exemplo, um discurso por ocasião da abertura de um ano lectivo chegou a ser traduzido em trinta idiomas…), deu, então, início à sua missão de evangelização.

Após abandonar Goa percorreu o litoral indiano até ao extremo meridional do País, chegando até Malaca e às Molucas e a muitas ilhas da região chegando, depois, ao Japão. Aí voltou a empenhar-se na difusão da Doutrina Cristã: não é sem razão que, ainda hoje, no Japão, se refere ao período de tempo que medeia a segunda metade do século XVI e a primeira metade do século XVII como o século cristão, nem que, por exemplo, segundo me explicou, há um par de anos, Maho Kinoshita, da embaixada portuguesa em Tóquio, se encontre na cidade de Nobeoka (na ilha de Kyushu) um bairro chamado Mushika (“Música”, em Português), em virtude de Otomo Sorin, daimyo (chefe local) convertido ao Cristianismo, que viveu no século XVI, assim o ter nomeado, pois uma igreja cristã da região ensinava melodias e músicas europeias.

O Cristianismo acabou, no entanto, por ser declarado uma fé “non grata”, tendo sido mesmo acusado de heresia um conjunto de missionários franciscanos e, em consequência, crucificados. Foram, também, posteriormente, martirizadas centenas ou, até, milhares de pessoas que tinham já abraçado a religião cristã.

Os missionários jesuítas acabariam por ser expulsos do País – e da povoação de pescadores doada à Companhia de Jesus em 1580, Nagasaki – em 1614. O padre Francisco Xavier, esse, tinha já falecido em 1552 na China. Foi beatificado em 1605 pelo Papa Paulo V e, depois, canonizado em 1622 por Gregório XV.

Mais do que terminar esta breve evocação de São Francisco Xavier, reafirmando a sua pertença à Companhia de Jesus ou a sua figura enquanto personalidade cimeira da expansão da cultura europeia no mundo (pois que não tendo nascido em terras portuguesas esteve ao serviço de uma causa encabeçada por portugueses), importará vincar a sua luta pela convivência de todos em paz e fraternidade e, também, pela supremacia do espiritualismo sobre o materialismo. Ou seja, um verdadeiro espírito ecuménico".

24/05/2022

A Irlanda e as "Guerras Religiosas"

Há décadas que a "Irlanda do Norte" está dividida: de um "lado" estão aqueles que defendem a reunificação da Irlanda (que são, maioritariamente, fiéis ao Catolicismo) e do "outro lado" estão os defensores da manutenção da actual união política com o Reino Unido (os "unionistas", maioritariamente crentes no Protestantismo).

Recordo que o continente europeu viveu nos séculos XVI, XVII e XVIII as "Guerras Religiosas".

23/05/2022

Adaptações ibéricas

O último texto que aqui escrevi mencionou o casamento de D. Catarina de Bragança com o rei Carlos II de Inglaterra e a tentativa de estabelecimento de uma aliança entre a Inglaterra, Portugal e Espanha. 

Ora, se é uma certeza que o dote que a princesa portuguesa 'apresentou' no referido matrimónio incluiu, por exemplo, o território indiano de "Bombaim" e o território marroquino de "Tânger", é, apenas, uma hipótese que tenha sido D. Catarina a introduzir o hábito do consumo de chá em Inglaterra. 

Mas o que é, também, uma certeza é que a morte do igualmente citado "Sir" Richard Fanshawe não impediu que, durante muito tempo, súbditos leais à dinastia "Stuart" continuassem a visitar Portugal e Espanha com o objectivo de 'mergulhar' nas culturas ibéricas e delas extrair 'elementos' que pudessem adaptar à realidade anglo-saxónica. 

21/05/2022

A tentativa de aliança

Foi no dia 21 de Maio de 1662 que a princesa portuguesa Catarina de Bragança casou com o rei inglês Carlos II.

No entanto, foi a sua mãe - e "rainha de Portugal" -, D. Luísa de Gusmão, quem, enquanto regente de Portugal (recordo que o seu marido, o rei D. João IV, havia falecido em 1656), negociou com a corte inglesa os termos de uma nova aliança entre Portugal e a Inglaterra. 

Tendo esta estipulado, por exemplo, o casamento da princesa Catarina com Carlos II. 

Ainda assim, cerca de quatro anos depois desse matrimónio que uniu novamente os dois reinos - em 1666, portanto -, foi "Sir" Richard Fanshawe quem tentou estabelecer uma aliança tripartida entre Inglaterra, Portugal e Espanha. 

Sem sucesso.