07/11/2022

O "Calígula de Angola"

É em Coimbra que se pode encontrar o "Bairro Norton de Matos". Ora, mais do que alguém que viveu mais de oito décadas nas quais foi um militar e político oposicionista ao "Estado Novo" de Oliveira Salazar, Norton de Matos foi alguém que foi ministro de Afonso Costa (em 1917, na chamada "primeira República") e, depois, governador-geral de Angola (em 1925) em que se mostrou um fervoroso 'adepto' de uma estrita separação étnica entre o Branco colonizador e o Negro autóctone. Apesar de oposicionista ao regime político vigente em Portugal - foi, por exemplo, o primeiro candidato nomeado pela oposição democrática portuguesa a um acto eleitoral, as eleições presidenciais de 1949 -, a sua figura acabou por ser como que recuperada pelo "Estado Novo" para legitimar o movimento colonial.

06/11/2022

O "cadavre exquis"

Foi na década de 1920 que alguns artistas 'adeptos' das teorias defendidas pelo Surrealismo inventaram um jogo. Jogo que poderia associar-se ao Desenho mas não de uma 'forma' exclusiva já que poderia ser também adaptado ao discurso literário. Designou-se o "cadavre exquis" (ou "cadáver esquisito").

05/11/2022

O papel, a eminência e os cordéis

Estou absolutamente convencido de que o ex-director do jornal "Expresso" Henrique Monteiro não me iria 'condenar' por não ter lido o seu romance "Papel pardo" já que foi exactamente isso que, até agora, pelo menos, aconteceu. Mas, assim que encontrei esse título - "Papel pardo" -, lembrei-me imediatamente da expressão "eminência parda". "Eminência parda", descobri, significa "aquele que, oculta e secretamente, influencia quem detém poderes de mando, sem se dar a conhecer" ["Ciberdúvidas da Língua Portuguesa"]. Ou seja, aquela/aquele que "puxa os cordéis"... Como li também, "Supõe-se que o primeiro indivíduo conhecido por tal designação foi o frade capuchinho francês, Père Joseph, em vida secular, François Leclerc de Tremolay, que viveu entre 1577 e 1638 e foi o principal conselheiro do Cardeal Richelieu, sem nunca ter tido funções na corte" ["Dicionário das Origens das Frases Feitas"].

04/11/2022

Luz Soriano e o liberalismo

É em Lisboa que se pode encontrar a "Rua Luz Soriano". No "Bairro Alto", mais concretamente. Ora, Simão José da Luz Soriano (que viveu entre 1802 e 1891) foi o director do primeiro jornal que foi impresso no Arquipélago dos Açores - a "Chronica da Terceira". Primeiramente publicada em Abril de 1830, "Chronica da Terceira", 'nasceu' no contexto da luta (guerra civil?) entre as ideologias liberal e absolutista ("miguelista") e foi uma acérrima defensora da causa liberal.

03/11/2022

O flautista de Hamelin

Embora o jóquei (ou "jockey", se se preferir) francês Antoine Hamelin seja, actual e internacionalmente, um dos que mais vitórias conquista em corridas de cavalos, nada mais quero referir em relação à pessoa e ao desporto em que compete. O mesmo não acontecerá, no entanto, com o conto "O flautista de Hamelin". Efectivamente, foram os irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm) - sobre os quais já aqui escrevi - quem "popularizou" essa história tradicional alemã: terá sido no século XIII (em 1284) que a uma localidade da Alemanha - Hamelin, precisamente - chegou um indivíduo que prometia livrar a terra de uma praga de ratos. Para tanto, munir-se-ia tão-somente de uma flauta (e da melodia que dela emanaria) para como que enfeitiçar os ratos e levá-los para onde se entendesse. Contra uma recompensa. No entanto, depois de feito o seu trabalho, foi receber a quantia acordada mas depressa se apercebeu de que o (ou "os") seu ("seus") interlocutor(es) não estava(m) a cumprir. Decidiu, então, castigar a aldeia: faria exactamente o mesmo mas com as crianças. E fez. Quem 'perdeu' então?

02/11/2022

Vários olhares para o Crocodilo

É claro que o Crocodilo é um animal essencial para o equilíbrio do ecossistema terrestre. Ora, talvez os factos de, primeiro, ser uma espécie que já há muitos milhões de anos que habita a Terra e, depois, ser predadora, ajudem a explicar alguns dos "epítetos" que lhe têm vindo a ser atribuídos: "resistente" - ou "resiliente"... -, "brutal", "poderosa", "calculista", etc.. Mas é também verdade que não tem sido sempre essa 'imagem' de crueldade a veiculada: estou a lembrar-me, por exemplo, do filme de animação realizado na União Soviética no "fim" da década de 1960 com o título "O Crocodilo Gena" ou do filme produzido nos Estados Unidos da América (e aí 'lançado' em 2022) com o título original de "Lyle, Lyle, Crocodile". E, sobretudo, pela espécie de associação literária constituída na Alemanha no século XIX "Gesellschaft der Krokodile" (ou "Sociedade do Crocodilo").

01/11/2022

O terramoto de 1 de Novembro de 1755

Assinala-se hoje, em Portugal também, o "dia de Todos os Santos". Mas hoje assinala-se igualmente uma ocorrência que matou milhares de pessoas: o "Terramoto de 1755" (há precisamente duzentos e sessenta e sete anos, portanto). No entanto, apesar de todo o tempo volvido, continua a discutir-se a capacidade - ou a falta dela - dos edifícios em Portugal (e em Lisboa, sobretudo) para enfrentar um evento de origem natural como um terramoto já que está cientificamente previsto - quando e não se... - que um desastre de semelhante intensidade irá acontecer novamente. Ora, não sendo eu um especialista nestas 'questões', nem sendo, de resto, o propósito dos escritos que aqui exponho quotidianamente suscitar esse 'tipo' de interrogações, irei dedicar algumas palavras a uma pintura que, à época, foi feita por um artista que vivia em Portugal e que me parece uma das que melhor interpretou a angústia e o desespero provocados pelo terramoto de 1755: "A Alegoria do Terramoto", precisamente, por João Glama Ströberle. "Angústia" e "desespero" dos homens resultantes do castigo divino, insistiu-se então...