Desde
meados do ano de 2018 que todos os edifícios públicos no estado da
Baviera, na Alemanha, passaram obrigatoriamente a ostentar junto à
respectiva porta de entrada (e de saída, claro) um crucifixo.
Ou
seja, um símbolo cristão.
Ora,
não demorei muito a lembrar-me da legenda atribuída ao beato San
Andrés de Arroyo (do século XIII) – não confundir com o músico
nascido na cidade espanhola de Oiartzun no século XIX José
Francisco Arroyo – que tinha lido, alguns anos antes, na exposição
O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores
Arquivos e Bibliotecas do Mundo patente nas instalações do
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa: "é
o mais europeu de todos os beatos".
O
que é que se pretenderia dizer exactamente com estas palavras
escritas já no século XXI?
Nunca
consegui, no entanto, dar uma resposta à minha própria pergunta: o
que significaria, desde logo, ser-se "mais
europeu" (e "menos
europeu", evidentemente)?
Mas
uma ‘coisa’ consegui.
Perceber
a existência de uma associação, por assim dizer, entre ser-se
europeu e ser-se cristão.
O
que significaria, evidentemente, excluir-se de ser europeu
aquele que fosse ‘seguidor’ das religiões muçulmana ou judaica,
por exemplo.
Diga-se
que tal não foi nunca a opção ‘escolhida’ para a proposta de
texto constitucional para a Europa delineada por Valéry Giscard
d’Estaing já que não pressupunha uma espécie de supremacia do
Cristianismo nos chamados pilares fundamentais da ‘civilização’
(ou história) europeia ‘esquecendo’, assim, os contributos da
‘civilização’ grega, das tribos nómadas que acabaram por
integrar o Império Romano, dos mongóis (que dominaram,
politicamente, a Rússia do século XIII ao XV) e de tantos outros.
Creio
que, na verdade, a ‘base’ mental para a construção da
aparentemente inocente frase "é
o mais europeu de todos os beatos" está, se se quiser dizer
assim, naquilo que o Professor Eduardo Lourenço já referiu ser a
missão de uma parte da Europa (de que Portugal também faz parte): a
sua missão era (e é…) ‘civilizar’ a Humanidade.
Mas, como escreveu Samuel P. Huntington no seu livro "O choque das civilizações" ("The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order", no original), "O Ocidente ‘ganhou’ o mundo não pela superioridade dos seus ideais, valores ou religião mas sim pela utilização sistemática da violência. Os Ocidentais esquecem, muito frequentemente, este facto mas os não-ocidentais nunca o fazem"…
Sem comentários:
Enviar um comentário