16/02/2019

Gerir a dois (e as futuras 'elites')

Jim Yong Kim anunciou, há algumas semanas, a sua demissão de presidente do Banco Mundial. 

Kim acabou por ser substituído interinamente pela então directora-geral da instituição, a búlgara Kristalina Georgieva até que seja encontrado alguém 'definitivo'.

Embora Kim fosse oriundo da Coreia do Sul, a gestão do Banco Mundial tem sido, predominantemente, detida por alguém originário da América do Norte (enquanto que, por seu lado, tem sido alguém oriundo do continente europeu a 'comandar' os destinos do Fundo Monetário Internacional)...

Continuará a ser esta a distribuição geográfica privilegiada?


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De acordo com dados compilados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, os alunos do ensino secundário científico-humanístico em Portugal registaram no triénio 2015, 2016 e 2017 classificações médias nos exames nacionais (numa escala de 0 a 20 valores) de 10 valores à disciplina de História A, de 10,3 a Filosofia, de 10,7 a Matemática A, de 10,9 a Português e de 11,06 valores à disciplina de Geografia A.


Ora, a 'começar' na História e a 'acabar' na Geografia, todas estas disciplinas nos fornecem as bases teóricas essenciais, em minha opinião, para se poder articular um raciocínio lógico e, assim, melhor interpretar e pensar a realidade que nos rodeia.


Não será, pois, deveras preocupante que grande parte do desempenho escolar da futura 'elite' de Portugal nada mais seja do que medíocre?

15/02/2019

O Panóptico


Apesar de ter tido em Portugal um enorme sucesso com as vendas do seu "Traités de législation civile et pénale" (publicado no início do século XIX), o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham foi responsável pela publicação de uma vasta obra.

"A Fragment on Government", por exemplo.

Ora, esboçou neste título o "lema do Bom Cidadão": "To obey punctually, to censure freely" (ou, em português, "Obedecer primeiro, criticar depois").

Anos antes, tinha já 'aparecido' o Panóptico. Palavra "inspirada" no vocábulo grego "panoptes" (que significa "tudo ver") e, claro, na personagem mitológica Argos Panoptes, gigante com o corpo coberto de olhos.

Citando um documento elaborado pela professora Olga Pombo (da Universidade de Lisboa):




"O Panóptico era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel dividia-se em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia, segundo o objectivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco tentando corrigir a sua loucura, etc. Na torre havia um vigilante. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nenhum ponto de sombra e, por conseguinte, tudo o que o indivíduo fazia estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de persianas, de postigos semi-cerrados de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo.
O panoptismo corresponde à observação total, é a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo. Ele é vigiado durante todo o tempo, sem que veja o seu observador, nem que saiba em que momento está a ser vigiado. Aí está a finalidade do Panóptico".




Mas, se os mecanismos de controlo social levados 'ao extremo' já se encontravam no Panóptico, formulado antes sequer do ano 1800, será que a narrativa de "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" (escrito em 1949 pelo também inglês George Orwell/Eric Arthur Blair) foi assim tão inovadora?

14/02/2019

Almada

É certo que D. Antão Vaz de Almada (1573-1644) foi uma das personalidades mais 'afirmativas' da causa portuguesa na Restauração da Independência de 1640.

E também é certo que D. Antão teve uma 'ligação' àquela então vila por via familiar sendo que até um dos seus filhos veio a ser agraciado com o título de Conde de Almada.

Mas não acho, no entanto, que seja crível explicar a origem do topónimo Almada com a presença de membros dessa mesma família que lhe teriam, pois, 'dado' o seu nome: a própria página na Internet da Câmara Municipal de Almada o refere de forma muito sintética e clara - "topónimo de raiz árabe"...

13/02/2019

A República Árabe Unida

Numa altura em que se assinalam cento e cinquenta anos da primeira inauguração (a sua abertura ocorreu, pois, em 1869) de um importantíssimo 'corredor' marítimo para os países banhados pelo Mediterrâneo e, enfim, para a própria Europa - o egípcio Canal do Suez - e quando a Síria parece estar prestes a reintegrar as fileiras da Liga Árabe (a crer, por exemplo, nas recentemente produzidas declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargach - "um papel desempenhado pelos Árabes na Síria tornou-se ainda mais essencial face ao expansionismo regional iraniano e turco" (1) -, parece-me oportuno relembrar a união política que existiu durante cerca de três breves anos entre o Egipto e a Síria.

Selo emitido pela efémera República Árabe Unida. Fonte: shutterstock.com.



 Efectivamente, estes dois países estiveram politicamente unidos entre 1958 e 1961 através da República Árabe Unida que, apesar da descontinuidade geográfica existente entre ambos, procurou, simultaneamente, mobilizar e fomentar uma espécie de nacionalismo árabe.



(1) - A próxima reunião da Liga Árabe acontecerá no fim de Março na capital tunisina, Tunes, sendo que a Síria dela havia sido expulsa em Novembro de 2011.








12/02/2019

O assassinato de Sidónio

"No dia 14 de dezembro de 1918, o Presidente da República portuguesa foi assassinado. A morte de Sidónio Pais foi um dos momentos trágicos que marcaram o século XX português".



Fonte: página na Internet do Museu da República portuguesa.

11/02/2019

Um Museu dentro de outro 'Museu'

Foi assinado, há dias, um protocolo, formalizando a integração do Museu Nacional da Música no Palácio Nacional de Mafra.

Na verdade, ambos têm história neste 'ramo' da cultura: o Palácio é possuidor de seis órgãos (na Basílica) e "os dois maiores carrilhões do século XVIII" e o Museu Nacional da Música "possui uma colecção onde se reúnem cerca de 1000 instrumentos musicais dos séculos XVI a XX, sobretudo europeus, mas também africanos e asiáticos, de tradição erudita e popular".

Ora, creio que faz todo o sentido que um dos mais ricos espólios de instrumentos musicais da Europa integre também um dos espaços mais 'ricos' no que à cultura diz respeito existentes em solo europeu.




Post scriptum: como sempre, qualquer decisão que seja tomada pode ser criticada. De facto, a decisão de transferir o Museu Nacional da Música para fora da cidade de Lisboa não foi excepção. Não propriamente por causa do espaço para onde se deslocará o Museu da Música mas sim devido a sair da própria cidade de Lisboa. Mas isso em nada me preocupa. Ao invés, preocupa-me é que, como há meses li, Mafra continue "sem atrair turismo literário por manter fora da visita ao palácio e à vila a abordagem a José Saramago e sua obra, 20 anos depois da vitória do Nobel"...

09/02/2019

A identidade

Uma das características da humanidade que melhor explica, em minha opinião, o percurso histórico de um indivíduo, de um povo ou de uma Nação, por exemplo, é a identidade. 

Mas, simultaneamente, a identidade de um indivíduo, de um povo ou de uma Nação, por exemplo, também explica a construção desse mesmo percurso histórico.

Ou seja, a identidade explica um certo percurso histórico mas também é, ao mesmo tempo,  explicada por este.

Ora, longe vai o tempo em que o cientista político norte-americano Francis Fukuyama decretou o "fim da História". Defendendo-se com a errada interpretação das suas palavras, tem vindo a moderar a sua ideia de 'vitória total' dos regimes democráticos e capitalistas em todo o mundo acabando, entretanto, por reflectir sobre a identidade (sobretudo ao nível nacional) num mundo, para o melhor e para o pior, cada vez mais globalizado (e globalizante?) num livro já traduzido para a língua portuguesa.

Seguramente, uma das minhas próximas leituras. . .