25/02/2019

Macau

Não sendo eu escritor concorri, no final de 2017, à sétima edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras (que se realizou em Março do ano seguinte) e, pois, à publicação do meu texto no volume da colecção "Contos e Outros Escritos".

Um texto – conto – que deveria ter a cidade de Macau como ‘pano de fundo’ ou como tema e que deveria ser totalmente inédito.

Ora, obviamente que o texto por mim proposto não foi seleccionado como vencedor.

No entanto, querendo eu acreditar que não estaria assim tão mal escrito quanto este desfecho poderia, talvez, facilmente deixar prever, atrevo-me a republicar, por assim dizer, esse texto.

«Macau

"Sou um ocidental que não só rejeita por instinto qualquer espécie de imposições culturais como aceita, por respeito, ficar do lado de fora daquilo que nunca chegará a entender satisfatoriamente. Estou consciente de que daria um mau antropólogo. E, certamente, um catequista ainda pior.".
Admito que, sendo português e antropólogo, não me lembrei de nada mais a não ser da frase que tinha lido num livro do escritor José Saramago quando o director da unidade de investigação da universidade em que trabalhava me propôs efectuar uma pesquisa em Macau.
"Gostaríamos que passasse algum tempo em Macau para perceber o que é feito do património que Portugal aí deixou em 20 de Dezembro de 1999 – data estabelecida com o governo chinês para a saída política e administrativa da cidade".
"Que tipo de património?", questionei.
"Material e imaterial: a arquitectura, a religião cristã, a gastronomia, a comunidade e a língua portuguesas", esclareceu-me.
Na verdade, não só a ideia de ir até Macau não me desagradou (já que o Extremo Oriente sempre me fascinou) como achei muito pertinente o motivo académico apresentado.
Confesso, porém, sem qualquer pejo, que o meu desconhecimento em relação a Macau era enorme: "Macau foi um território português, certo?", perguntei ainda.
"Errado", corrigiu-me de imediato. "Macau sempre foi uma cidade chinesa e os chineses apenas deixaram que os portugueses a administrassem no papel. Durante mais de quatro séculos...".
Pedi algum tempo para pensar.
Mas não foi preciso muito...
Sem responsabilidades familiares, no dia seguinte a ter-me sido apresentada a proposta fui dizer ao meu director que aceitava o desafio.
"Pode contar comigo", disse-lhe.
"Óptimo", respondeu.
Explicou-me, então, os contornos logísticos e metodológicos da minha estadia em Macau: "Ficará alojado durante um mês nas instalações da instituição de ensino com a qual a nossa escola tem um acordo de intercâmbio académico. Fará entrevistas a governantes da cidade (actuais e, se possível, passados), a responsáveis de instituições cívicas de origem portuguesa e macaense e a outras personalidades a definir. Pesquisará bibliografia e documentação consideradas relevantes e, não menos importante, observará e, eventualmente, tomará notas. Será, em suma, um antropólogo de campo. Escreverá, depois, um relatório e, muito possivelmente, um livro".
"Muito bem", retorqui.
"E quando partirei?", perguntei novamente.
"Pois, esqueci-me de lhe dizer: voará no dia 23 deste mês para Pequim e, algumas horas depois, seguirá para Macau. Sugiro, pois, que vá adiantando trabalho", observou.
"Absolutamente", concordei.
A consulta de alguma bibliografia sobre Macau e algumas conversas com especialistas que me pudessem falar da cidade e do território, eis o meu plano de trabalho em Lisboa.
Até porque tinha já lido que qualquer investigador se encontrava contextualizado e estava condicionado pela sua própria cultura.
A solução para o contrariar?
Ora, tentar, primeiramente, “libertar-se” das barreiras impostas travando um diálogo com autores de outros tempos, de outros lugares e de outros domínios disciplinares.
Assim fiz.
Li e conversei.
Desde logo, com uma especialista em História.
"Cara Professora, gostaria que me falasse de Macau", propus.
"Obrigado, antes de mais, por se ter lembrado de me convidar. De facto, assinalaram-se, em 2013, oitocentos e setenta anos da fundação de Portugal e, paralelamente, quinhentos do início das relações entre Portugal e a China. Efectivamente, em finais de Quatrocentos, os ventos da História começaram a empurrar as naus portuguesas em direcção ao Oriente onde, em 1513, chegaram a uma China que tinha sido, economicamente, uma das principais potências do mundo mas que, em virtude da vontade do imperador, se havia fechado sobre si própria e, assim, ao mundo. Ora, os “bárbaros do mar do Sul” (designação que os chineses davam aos estrangeiros que aportavam na costa meridional da China) foram, progressivamente, empurrados para uma península localizada no delta do Rio das Pérolas de onde poderiam ser mais e melhor controlados: Macau – ou, antes do tempo e dos homens o modificarem, A-Ma-Gao. E que serviria para “contornar” aquela disposição oficial já que se tornaria o único porto de entrada e de saída do império chinês nos séculos seguintes. Corria o ano do Senhor de 1557 quando aí chegaram. Aqueles ficaram. Outros chegaram. E outros, e outros, e outros… Por lá ficaram até 1999 quando negociações políticas prévias os obrigaram a sair. Virou-se, nesse Domingo, 19 de Dezembro de 1999, uma página da história de Macau que Portugal tinha, também, ajudado a escrever. Uma página escrita durante quatrocentos e quarenta e dois anos. O território de Macau voltou, a partir da meia-noite de 20 de Dezembro, a ser formalmente administrado pela China e integrado na Região Administrativa Especial de Macau (a RAEM) ao abrigo da política oficial “Um país, dois sistemas”".
"Ou seja, Portugal devolveu Macau à China?", perguntei.
"Ouça: Macau nunca foi uma colónia uma vez que a soberania portuguesa, antiga, pois, de mais de quatro séculos, nunca foi reconhecida pelas autoridades chinesas: o território era uma fracção de terra simplesmente arrendada. Nem conquistada, nem oferecida", explicou-me.
"Não sei se por causa disso ou se por causa dos 11 mil quilómetros de distância entre Portugal e Macau", acrescentou, "este sempre foi olhado pela capital do império com menos atenção, com desinteresse e com indiferença! Não será, assim, muito estranho entender que, em Macau, portugueses e chineses tenham sempre vivido de costas voltadas", rematou.
E, também, com um arquitecto “filho da terra”.
"A marca da presença portuguesa de tantos séculos poderia e deveria ter sido muito mais profunda e forte. Lamento que Portugal tivesse “acordado” tão tardiamente da sua letargia e passividade quanto à promoção da cultura portuguesa em Macau. É que, na verdade, não tendo sido espectacular a “dimensão” do legado cultural que Portugal deixou em – e a – Macau, ainda é nos pequenos feitos da vida do dia-a-dia, nos pormenores menos aparatosos, nos costumes e na filosofia de vida, na tolerância, no humanismo e na convivência pacífica de todos que se poderá descobrir a maior influência portuguesa, que se foi “entranhando” e consolidando em Macau, pouco a pouco, imperceptivelmente, ao longo dos séculos".
E conversei e li.
Numa entrevista concedida em Novembro de 1999 a jornalistas portugueses, Edmund Ho (que, em Maio desse ano, através de um processo político conduzido desde Pequim, havia sido o seleccionado para comandar os destinos do executivo da RAEM a partir de 20 de Dezembro) assegurou que a presença portuguesa continuaria a ser, de facto, necessária enquanto vector fundamental da identidade de Macau.
Porquê?
Talvez porque Macau era um dos pouquíssimos lugares da China diferente de tudo o resto: uma espécie de miniatura da Europa.
Do Sul, claro.
Mas, o tempo, esse, tirano como sempre, foi passando e o dia da minha partida chegou.
Ainda bem.
O sonho estava prestes a transformar-se em realidade.
No entanto, quando entrei no avião que me haveria de levar a Pequim e, depois, a Macau, despi a capa de etnocentrismo que me cobria a pele: é óbvio que nunca iria deixar de ser quem era mas poderia – e deveria… –, isso sim, abandonar a pouca postura de arrogância cultural que ainda me restava.
Sabendo que, em Macau, poucas pessoas se conseguiriam exprimir na língua inglesa, tinha levado a morada do meu destino escrita num papelinho em cantonense.
Apresentei-a a um taxista e combinei o preço da viagem.
Partimos.
Notei, durante a breve viagem, a quantidade de pessoas que circulava nas ruas.
É absolutamente natural que o tivesse observado pois tinha acabado de sair de um país com cerca de 115 habitantes por cada quilómetro quadrado quando Macau era um território com uma das maiores densidades populacionais do mundo...
Reparei, ao chegar, que estavam já à minha espera.
Indicaram-me o quarto que serviria de meu quartel-general durante o próximo mês e mostraram-me as instalações.
Fisicamente esgotado devido aos efeitos da longa viagem, do grau de humidade do ar e da diferença horária em relação a Lisboa, durante um par de dias só saí do quarto para me alimentar.
Apenas depois de me achar restabelecido é que comecei a trabalhar.
Primeira paragem: a biblioteca pública da cidade.
A minha primeira tarefa era encontrar bibliografia e quaisquer documentos (álbuns fotográficos, por exemplo) que pudessem trazer alguma luz à temática em causa.
Depois de algum trabalho de “detective”, consegui-o.
Devo dizer que isso não me surpreendeu dada a riqueza do espólio do arquivo macaense.
Para além de que os bibliotecários me ajudaram muito nessa ‘missão de busca’.
Apercebi-me então, melhor, do quão a frase proferida, certo dia, pelo escritor José Maria Eça de Queiroz, "Tudo muda menos a China", estava desactualizada.
No que se referia à dimensão material, pelo menos.
Folheei, de facto, álbuns de fotografias e consegui viajar pelo passado histórico de Macau: alguns edifícios e bairros que, li-o, tinham sido testemunhas silenciosas (mas atentas) de tantas acções humanas (como, entre tantas outras, as dos governadores portugueses e as dos actores norte-americanos Clark Gable e Orson Welles) haviam, entretanto, desaparecido ou sido profundamente modificados.
Consumi neste trabalho de leitura cerca de duas semanas mas tinha já solicitado entrevistas a responsáveis pela política, pela cultura e pelos assuntos sociais no território.
O que, pensei esperançado, não seria muito difícil de obter dadas as credenciais da investigação que me levara a Macau.
Felizmente não me equivoquei pois todos aqueles que contactei aceitaram efectuar uma troca de palavras.
O espírito multicultural de Macau tinha-o facilitado, quis acreditar.
Todos me disseram que as autoridades políticas de Macau tinham, desde 20 de Dezembro de 1999, acarinhado, protegido e estimulado a sua herança lusófona.
Recordo-me de três respostas.
Uma, ‘proveniente’ de uma pessoa natural de Portugal e funcionária de uma instituição local de solidariedade: "Creio que o território de Macau se tem conseguido afirmar como uma espécie de ponta-de-lança lusófono na Ásia: a pérola mestiçada do Oriente!".
E outra, dada por um actual responsável político de Macau: "se é um facto que, até há poucas décadas, fruto de migrações de zonas mais ou menos próximas, poucos, de entre o meio milhão de residentes em Macau, daqui eram naturais, o que implicava, necessariamente, um menor interesse e uma menor participação na condução dos destinos da vida quotidiana do território, hoje, pelo contrário, continuamos a assistir a uma mudança progressiva deste cenário o que tem levado a que os próprios cidadãos de Macau assumam como benéfico, perante si mesmos e perante os chineses de todas as outras partes da China, a preservação da memória, material e imaterial. Como quem diz: “nós, os de Macau, somos diferentes de vocês, compatriotas chineses, porque temos aqui, também, as ruínas da igreja de S. Paulo, a calçada portuguesa, a azulejaria, a língua portuguesa…”".
A terceira resposta desta lista improvisada foi-me dada por uma dirigente portuguesa de uma instituição portuguesa: "Tal particularidade lusófona tem permitido à RAEM e, pois, à República Popular da China, a ‘aproximação’, em diversos domínios como o económico, o cultural, o social ou, até, o desportivo, a regiões e a países do globo que tiveram uma mais vincada relação histórica com Portugal. Isto é, ao Brasil, aos países africanos de língua oficial portuguesa e a Timor-Leste. Só assim se perceberá que eventos vários como o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (ou, muito simplesmente, o “Fórum Macau”), o Fórum China-América latina, a Festa da Lusofonia, a Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, o festival literário de Macau Rota das Letras ou os Jogos da Lusofonia tenham já adquirido uma enorme importância – simbólica e tangível. Ou seja, Macau como um ‘laboratório’ da China para melhor aprender como se lidava com a Lusofonia".
Assim, estando cumpridos quase todos os objectivos do trabalho que me tinha sido confiado, optei por aproveitar um pouco mais a minha visita a este minúsculo território chinês para conhecer alguns pontos de interesse histórico e não só: o farol da Guia, a fachada da igreja de S. Paulo (que acolheu, por essa altura, um espectáculo de ópera kunqu), os templos de A-Ma e de Na Tcha, a praça do Tap Seac, a Torre de Macau e, naquela que alguns consideravam ainda a “Las Vegas da Ásia”, o edifício de um casino (no qual, esforçando-me, consegui encontrar alguns elementos representativos do famoso feng shui – “vento e água” – e da chi – “energia” – orientais...).
Para além de lojas.
Pois então, foi precisamente numa loja – de antiguidades, por sinal – que encontrei alguém que (não o sabia, claro, na altura) iria mudar a minha vida.
Já não me lembro exactamente por que razão mas a verdade é que começámos a conversar.
Ela, malaia.
Eu, português.
A língua franca não foi já o português de outrora: foi em inglês que nos entendemos.
"Eu vim do Bairro Português de Malaca a Macau para ter um certo vislumbre do que é Portugal, terra que amo e que nunca vi", confidenciou-me.
Emocionei-me.
Ah, mas isso já é outra história…".

23/02/2019

Portugal na ONU

"Com o advir da "guerra fria", Portugal é um país do "bloco ocidental" que só conseguirá entrar para a ONU em 1955, no âmbito de uma negociação com o Bloco de Este para impedir o seu (URSS) veto.".


Fonte: "O poder de Portugal nas relações internacionais", José Palmeira, 2006 (data da 1a. edição).

22/02/2019

Os Estados Unidos do Brasil

A designação do Brasil introduzida pela Constituição de 1891 foi República dos Estados Unidos do Brasil.

Tal 'título' constitucionalmente consagrado procurava, de facto, vincar o 'teor' republicano do sistema político brasileiro.

Ora, há pouco mais de meio século (em 1968), essa designação foi abolida: o país passou a denominar-se República Federativa do Brasil (ainda em vigor actualmente).

21/02/2019

Da irreversibilidade

O lema do clube inglês de futebol Liverpool Football Club é, desde 1963, "You’ll Never Walk Alone" (ou, em português, "Nunca Estarás Sozinho").

Fazendo parte de uma letra musical composta em 1945 para honrar as famílias das vítimas da Segunda Guerra Mundial, essa "frase" foi adoptada pelo clube depois de integrar diversas adaptações musicais.

No entanto, a palavra nunca é uma das que têm que ser sempre pronunciadas com muito, muito, cuidado: veja-se, por exemplo, o 'conteúdo' de uma placa existente no Beco do Chão Salgado, na zona de Belém, em Lisboa:


AQVϳ FORAO AS CAZAS ARAZADAS E SALGADAS DE JOZÉ
MASCARENHAS, EXAVTHORADO DAS HONRAS DE DVQVE
DÐ AVEϳRO EOUVTRAS E CONDEMNADO POR SENTENCA
PROFERϳDA NA SVPREMA ϳVNTA DaϳNCONFϳDENCϳA
EM 12 DE JANEϳRO DE 1759 JVSTϳCADO COMO HVM
DOSCHEFES DOBARBARO E EXECRANDO DESACATO
QVE NA NoϳTE DE 3 SE SETEMBRO DE 1758 SEHAVϳA
COMMVLlADO CONTRA AREAL ESAGRADA PESSOA
DE EL’REϳ NOSSO SENHOR D. JOZÉ Iº NESTE TERRENO
ϳNFAME SENAO PODERÁ EdϳFϳCAR EMTEMPO ALGVM


E compare-se com o panorama patrimonial actual.


***


Assim, duvido muito (para não dizer totalmente...) da declaração emitida no fim da reunião, na capital argentina, dos líderes políticos dos países mais 'poderosos' do mundo (o chamado G20) referindo serem irreversíveis os objectivos climáticos (desculpe-se-me a utilização da expressão), estabelecidos no Acordo de Paris (em 2015) já que, como se tem visto desde então, esse Acordo tem sido sucessivamente 'torpedeado' e boicotado (mesmo estando-se perante uma autêntica "espada de Dâmocles"...).


 

20/02/2019

"Timor, a moral dos outros"


O lema oficial da República Democrática de Timor-Leste é "Unidade, Acção, Progresso".

No entanto, quando Timor era apenas um território que havia sido invadido pela Indonésia, estas ‘componentes’ não existiam.

Uma reportagem preparada pelo jornalista correspondente da então Rádio Televisão Portuguesa (a RTP) na capital dos Estados Unidos da América (Mário Crespo de seu nome), Washington, e emitida pelo programa "Actual Reportagem" no início do ano 1995 fez uma espécie de retrospectiva do percurso histórico, político e social de Timor-Leste desde 1975 e a sua ocupação pela Indonésia até então.

Ora, dando conta do ‘conteúdo’ da comissão de inquérito nomeada por um membro do Senado norte-americano alguns meses depois do massacre ocorrido no cemitério de Santa Cruz, em Díli, capital timorense, o jornalista comentou que "nunca, na história das relações entre Portugal e os Estados Unidos, Portugal foi tão insultado como na declaração do secretário de Estado adjunto [dos EUA], Kenneth Quinn".


"Em 1991, Timor-Leste recebeu cerca de 170 milhões de dólares em verbas do governo indonésio. Estes 170 milhões de dólares, note-se, em termos nominais, são quase cem vezes mais o volume médio de fundos para o desenvolvimento nos últimos anos do regime colonial. Toda essa verba era concedida sob a forma de empréstimos. Os resultados do investimento (indonésio) são notáveis. Em 1974, após quatro séculos de regime colonial, Timor-Leste possuía 47 escolas primárias, duas escolas de ensino médio, um liceu e nenhuma universidade. Agora, tem 574 escolas primárias, 99 de ensino médio, 14 liceus e três universidades. Em 1974, Timor-Leste tinha dois hospitais e 14 centros de saúde. Agora, tem dez hospitais e 197 centros de saúde. Em 1974, Timor-Leste tinha cem igrejas. Hoje tem 518. Em 1974, Timor-Leste tinha 20km de estrada asfaltada, todos na cidade de Dili. Agora tem 428km por toda a província. Em 1974, a pobreza era endémica em Timor-Leste. Hoje a pobreza permanece um problema tal como em toda aquela área da Indonésia. Mas a fome é extremamente rara. O elemento económico que falta, é emprego suficiente para as expectativas crescentes da juventude agora educada. Mas os investidores insistem num ambiente pacífico, e isso é um problema até a questão de Timor-Leste estar completamente resolvida".


Ora, se estes dados eram exactos, adivinhe-se o motivo para Portugal (ou melhor, as autoridades portuguesas) se sentir insultado.






19/02/2019

Quem não é racista?

Uma publicação de Angola acusou, há dias, o poeta português Fernando Pessoa de ter tido um pensamento racista impossibilitando, por isso mesmo, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (a CPLP) de organizar um determinado projecto.

Ora, lembro-me de ter lido, não há muito tempo, que uma estátua de Mahatma Gandhi havia sido retirada do local onde se situava - junto a uma Universidade no Gana - precisamente porque, enquanto advogado a exercer (e a viver) na África do Sul, utilizou uma linguagem insultuosa para com os negros - kaffir (tendo, até, referido que os indianos eram infinitamente 'superiores' aos ditos "kaffir"...).

Dada a 'transversalidade', étnica e cultural, do racismo, opto por reproduzir integralmente um pequeno texto que, sobre tal 'fenómeno', escrevi há não muitos anos:

 
"A sala Luís Miguel Cintra do São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, estreou ontem, 5 de Outubro, a peça “Os Negros” (do dramaturgo francês Jean Genet).
Lembrei-me, a propósito desta exibição teatral, da emissão do programa televisivo Prós e Contras que o canal 1 da estação RTP transmitiu em meados de Julho passado já que nele se pretendeu dar uma resposta à pergunta «Portugal é um país racista?».
Relembro, por isso, as palavras iniciais da apresentadora do programa: «O conceito de racismo tem um largo trajecto histórico desde o primeiro contacto das raças até aos nossos dias. Se, no início, a própria ciência contribuiu para a base e elaboração, hoje, o conceito de racismo sustenta-se, cada vez mais, na ideia de diferença e incompatibilidade de culturas. Por outro lado, os níveis de racismo podem ser vários, dependendo de diversos factores (entre eles, os quadros legislativos de cada nação). Mais frequente é a discriminação racial ou de outra índole. (…). Será o Portugal de hoje, no século XXI, multicultural e – na frase do maior patologista do mundo, Manuel Sobrinho Simões, «descendente de uma notável mistura de genes» numa alusão clara aos caminhos que a nossa história percorreu, será que Portugal é, hoje, um país racista?».
Compreendo que se diga que «hoje, o conceito de racismo sustenta-se, cada vez mais, na ideia de diferença e incompatibilidade de culturas».
Compreendo mas não concordo.
Penso que o que motiva o racismo é a aparência física do ‘Outro’.
Ou, como dizem os antropólogos, o fenótipo.
A cor da pele.
Digo assim: o sentimento ‘clássico’ racismo baseia-se, sobretudo, na aparência física (na cor da pele) do outro indivíduo (seja ele quem for) e só depois na tal diferença cultural.
E, como não concordo com a bondade das generalizações, tenho muitíssimas dificuldades em aceitar a validade científica da pergunta «Portugal é um país racista?»: Portugal é, sim, um país onde vivem pessoas que acreditam nas virtudes do racismo.
Como, de resto, muitas pessoas originárias de países da América, de África [em que Angola se inclui], da Europa, da Ásia e da Oceânia...".

18/02/2019

A moda

Escreveu o historiador francês Fernand Braudel no seu livro "Civilização Material, Economia e Capitalismo do século XV ao século XVIII" (publicado em 1979), citando um comerciante em 1690, o seguinte:


"A moda, a alteração do traje, é um dos grandes promotores do comércio porque leva a gastar dinheiro em fatos novos antes de os velhos estarem usados: ela é a alma e a vida do negócio; (...) conserva em movimento o grande corpo do comércio; é uma invenção que leva o homem a vestir-se como se vivesse numa eterna primavera porque nunca vê chegar o outono dos seus fatos...".