25/03/2019

Difícil e lenta

Pela segunda vez no espaço temporal de cinco anos a redução dos preços do petróleo nos mercados financeiros internacionais 'sugeriu' aos produtores membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (a OPEP) a conclusão de que seria necessário baixar a quantidade disponível de "ouro negro" nesses mesmos mercados mundiais para garantir uma espécie de estabilização dos preços em questão.

Resultado: menos 1,2 milhões de barris de petróleo para o mundo, por assim dizer, consumir todos os dias.

Para além daqueles que também foram, entretanto, 'cortados' por países não-membros da OPEP (como a Rússia, por exemplo).

De qualquer modo, segundo dados disponibilizados pela agência norte-americana de Administração de Informação de Energia, a China tornou-se, em 2017, o maior importador mundial de petróleo com 8,4 milhões de barris diários 'ultrapassando' os Estados Unidos da América que, nesse ano, consumiram, todos os dias, 7,9 milhões de barris de petróleo.

Ou seja, apenas dois países importaram (ou melhor, consumiram), num ano, mais de 16 milhões de barris de petróleo diariamente.

Ora, se se pensar que a capacidade de um barril é de cerca de cento e cinquenta litros, 16 milhões de barris correspondem a 2400 milhões de litros de petróleo gastos a cada dia por estes dois países.

Mas há mais países...

Tais dados permitirão, assim, creio, ensaiar duas conclusões imediatas: a primeira é a de que quaisquer mudanças de hábitos de consumo e, enfim, de vida dos seres humanos, serão sempre extremamente difíceis de introduzir e a segunda é a de que esta introdução será sempre muito lenta.

Infelizmente.



***



Há precisamente vinte anos – em 24 de Março de 1999 –, aviões pertencentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (a OTAN, em língua portuguesa, e a NATO, em língua inglesa) começaram a bombardear a capital da Sérvia, Belgrado, argumentando com a situação então vivida pelo Kosovo. Em consequência, terão morrido duas mil e quinhentas pessoas.
 

23/03/2019

O Iluminismo

Não foi há muito tempo que aqui evoquei um 'episódio' a propósito da Enciclopédia (primeiramente publicada em 1751).

Ora, o filósofo francês Denis Diderot escreveu, precisamente na Enciclopédia, o seguinte:


" Nenhum homem recebeu da Natureza o direito de dirigir os outros. A liberdade é um presente do céu e cada indivíduo tem o direito de a utilizar como quiser tal como utiliza a razão. (...) A autoridade provém, geralmente, de duas fontes: da força e da violência dos que dela se apoderaram ou do consentimento daqueles que a ela se submeteram. (...) O poder que se baseia na violência não é mais do que uma usurpação e só durará enquanto durar a força do usurpador e a submissão dos dominados. Quando estes sacodem o jugo do tirano e o expulsam fazem uso de um direito legítimo (...). O poder que deriva do consentimento do povo pressupõe a existência de regras que o tornam legítimo (...). O príncipe recebe dos seus súbditos a autoridade que exerce sobre eles e esta autoridade é limitada pelas leis da Natureza e do Estado.".



O rei Frederico II de pé e o filósofo Voltaire sentado... ("Frederico e Voltaire numa Sessão de Estudo em Sanssouci"; gravura de N. A. Monsiau e P. C. Baquoy).

22/03/2019

O Motim das Maçarocas

Porto, 1628.

Foi exactamente nesta cidade e nesta data que se verificou uma revolta contra um imposto criado pelo governo que então mandava em Portugal - o do espanhol Filipe III.

Uma revolta contra o imposto sobre a fiação do linho.

De facto, as mulheres que, no Porto, se 'dedicavam' a este ofício rebelaram-se não apenas contra este imposto mas, também, contra a pessoa que detinha a força legal para o cobrar - um tal de Francisco de Lucena: "sofreu um desaire quando foi encarregado de ir ao Porto para pôr em execução um novo imposto, pois este provocou tumultuosa arruaça das regateiras que, tendo-o encontrado, o obrigaram a fugir." (Fonte: "Dicionário de História de Portugal" com a direcção de Joel Serrão).




Post scriptum: Francisco de Lucena foi, mais tarde, julgado e condenado à morte acabando por ser degolado em Abril de 1643.

21/03/2019

O Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial

Assinala-se no dia de hoje, 21 de Março, o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.

De facto, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas decidiu, deste modo, em 1966, marcar a data dos trágicos acontecimentos na cidade de Sharpville, na África do Sul, quando perante a reunião pacífica de alguns milhares de pessoas que se manifestavam contra o regime do apartheid, as forças policiais abriram fogo causando dezenas de vítimas mortais.

Ora, se se 'incluir' na referida Discriminação Racial a existência, também, de barreiras à plena afirmação social e económica do Outro, creio não ser totalmente despropositado lembrar que, de acordo com números oficiais desse país africano, cerca de 70 % de toda a terra agrícola aí existente é actualmente controlada por agricultores "brancos"...

20/03/2019

A face muçulmana da antiga e da nova Rota da Seda

Ainda há poucos dias aqui escrevi sobre a sinicização (na China, pois) de todo o 'movimento' religioso presente no país.

E também me pronunciei sobre a tolerância religiosa exercida, por assim dizer, pela religião muçulmana.

Insisto no 'tema' da religião na China propondo-me dedicar uma atenção especial - ainda que brevíssima - à presença do culto muçulmano no Império do Meio.

Assim, a 'ligação' entre a China e a religião muçulmana é muito antiga.

Remonta à antiga Rota da Seda e a elementos culturais e religiosos (já que atravessava vários territórios e civilizações, se se quiser dizer assim) que a China incorporou também.

De facto, uma das várias etnias que compõem o 'mosaico' social, cultural e religioso da China nos dias de hoje - a Hui -, praticante da fé muçulmana, tem vindo a assistir ao longo das últimas décadas (e, particularmente, nos últimos anos) a intromissões de carácter político e burocrático, sobretudo, por parte das autoridades da China.

Ora, muitos dos membros desta etnia Hui pretendiam vir a tornar-se como que embaixadores e mediadores nos 'campos' político e cultural junto de vários países maioritariamente muçulmanos, por assim dizer (na Ásia Central e em África, por exemplo), 'atravessados' pelo extremamente ambicioso plano chinês "One Belt, One Road Initiative" (ou Projecto Uma Faixa, Um Caminho) - a nova Rota da Seda.

Mas, de facto, não sei se, entretanto, irá essa etnia conseguir cumprir esse tão ambicionado papel de "representante" da China dada a sua séria limitação de direitos.

E também não sei qual será a reacção desses referidos países muçulmanos ao projecto "Uma Faixa, Um Caminho" perante o que tem estado a ser feito aos seus "irmãos muçulmanos" chineses.

Isto para além da já tão propalada armadilha da dívida que tem levado vários países a "torcer o nariz" a tal projecto massivo de infra-estruturas e de comércio (e/ou político?) como aconteceu já com a Malásia, por exemplo...




19/03/2019

Leonor de Portugal

Nasceu em Torres Vedras em 1434 aquela que, depois de casar com o imperador alemão Frederico III, se tornaria imperatriz do reino germânico: Leonor.


Filha do rei D. Duarte (décimo primeiro rei de Portugal e filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre) e de sua mulher, D. Leonor (filha, por sua vez, dos reis de Aragão, Espanha), casou no dia 15 de Março de 1452 com Frederico – cerimónia nupcial a que presidiu o papa Nicolau V – vindo a ser coroada imperatriz do território alemão no dia 19 seguinte.


Imperatriz com apenas dezasseis anos de idade, morreria com pouco mais de trinta, longe da terra onde havia nascido mas certamente com a consciência convencida de que havia contribuído para cumprir o lema do seu marido, "Austriae est imperare orbi universo" ("A Áustria está destinada a governar o mundo", em português).


Mas esquecida.


Tal como quinhentos e cinquenta anos depois.

18/03/2019

Catacumbas e tolerância

Um projecto de engenharia civil foi, há dias, apresentado como sendo o salvador das catacumbas da cidade egípcia de Alexandria pois permitirá manter as galerias funerárias ao abrigo da subida do nível das águas subterrâneas.


De facto, a instalação de um conjunto de bombas de drenagem mais não foi do que uma espécie de união entre a Engenharia Civil e a Arqueologia que permitirá eliminar definitivamente um problema que vinha ameaçando esse ‘testemunho vivo’ de uma parte da História do Egipto desde há mais de um século (data da sua ‘descoberta’ recente…).


Excelente colaboração!



                                                                           ***






Aproveito a oportunidade de estar a escrever sobre a cidade de Alexandria para recordar a conferência “Islam Today and Intercultural Dialogue” que decorreu nas instalações da Universidade Lusófona no passado mês de Outubro.

Ora, uma das palavras que mais ouvi pronunciar foi tolerância.

Ouvi-a das bocas de vários intervenientes (da do Dr. Mostafa el Feki, director da Nova Bibliotheca Alexandrina, no Egipto e da do Sheikh David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, por exemplo).

Tolerância em relação àqueles que praticam a fé muçulmana, claro.

Ou seja, onde quer que os fiéis muçulmanos estejam em minoria, por assim dizer.

Mas o que se passa quando, ao invés, estão em “maioria”?

Não sei: se existem vários exemplos de convivência pacífica que poderia citar – como a testemunhada em várias regiões de Portugal há bastantes séculos e por inúmeras comunidades de judeus, de cristãos coptas e de drusos no ‘mundo’ islâmico –, posso também citar vários exemplos de sectarismo religioso nesse mesmo ‘mundo’ islâmico – como as acções do Estado Islâmico.

Opto, ainda assim, por uma ‘dimensão’ específica.

De acordo com o Committee to Protect Journalists – ou, em português, o Comité de Protecção aos Jornalistas – seis dos dez países que, em 2017, mais profissionais do jornalismo tinham presos eram muçulmanos (se se quiser simplificar assim): Turquia, Egipto, Azerbaijão, Síria (ou, melhor, o que restava do país…), Arábia Saudita e Bahrain.

Ou seja, tais dados sugerem que esta “abertura de espírito” – a tolerância – nem sempre é respeitada e ‘exercitada’ se em vez de apelarmos a outros para serem condescendentes, tivermos nós que ser os “sujeitos activos” sobre quem recaiem as responsabilidades de cumprir – e de fazer cumprir – a existência , neste caso em particular, da liberdade de expressão e de informação...