29/04/2019

Macau e o desprezo de Portugal

Ainda não há muito tempo me referi ao facto de um determinado manual escolar actualmente "em vigor" em Portugal não ser cientificamente rigoroso no que à Inquisição se referia.

Não querendo, efectivamente, generalizar essa ‘insuficiência’ aos manuais escolares ‘dedicados’ à História ou sequer aos manuais escolares de apoio a outras disciplinas, pretendo invocar o que parece ter sido um perfeito exemplo dessa ‘insuficiência’ que ‘recebi’, enquanto estudante do então ensino preparatório (no 6.º ano de escolaridade, se não estou em erro), em relação a Macau.

Ora, o manual escolar que me serviu de apoio no início da década de 1990 na disciplina de História ‘forneceu’ um mapa em que se indicavam os principais locais de fixação e de comércio dos portu-


Veja-se, por exemplo, a localização geográfica de Macau...

-gueses na costa oriental africana e no Oriente (na Ásia, pois) à data da morte do rei D. Manuel I, em 1521. Penso, até, que a falta de rigor com que assinalou a localização geográfica de Macau poderá ter contribuído para a crítica que, em 2004, o então subdirector dos Serviços de Turismo daquele território chinês teceu: Portugal nunca teve a exacta noção do que era Macau.

Creio, de resto, que só este desconhecimento podia – e pode – explicar o facto de em Portugal alguns invocarem palavras como compreensão e entendimento para descreverem a relação secular entre portugueses e chineses em Macau: a verdade é que, em quase cinco séculos de presença portuguesa em Macau, portugueses – e chineses, claro – raramente se ‘cruzaram’ com os modos de ser e estar do Outro uma vez que, salvo raríssimas excepções, nem sequer tinham aprendido a cumprimentar-se nas suas línguas ‘maternas’.

27/04/2019

O latim

Livros vendidos em Portugal: se em 2009 foram cerca de quinze milhões, em 2018 foram menos de doze milhões.

Ora, não é nem o exacto momento nem o ‘fórum’ mais adequado para se poderem ensaiar possíveis teorias explicativas dessa redução.

Receio, no entanto, que também a recém-chegada às livrarias "Nova Gramática do Latim" – de Frederico Lourenço – venha a sofrer esta conjuntura negativa.

Será, neste caso, uma desolação visto que o referido trabalho (levado a cabo por um autor que, recordo, foi o responsável por uma "nova tradução da Bíblia, na sua forma mais completa - a partir da Bíblia Grega, ou seja, contendo o Novo Testamento e todos os livros do Antigo Testamento". Ou seja, "a Bíblia mais completa que jamais existiu em português") é a primeira gramática de latim publicada em Portugal desde 1974 e visto ser o latim o ‘progenitor’ do português que é, nem mais nem menos, a terceira língua europeia mais falada no mundo (com mais de duzentos milhões de falantes).

Um livro que não hesito, desde já, em qualificar como fascinante e que, espero, não deixarei de folhear...

26/04/2019

Antes e depois de Abril

Porque se passaram, ontem, 45 anos do dia 25 de Abril de 1974, opto por recordar um texto que escrevi o ano passado por esta mesma altura: "Assinalaram-se ontem 44 anos do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Embora democrata e resolutamente antifascista, não consigo partilhar do ‘entusiasmo’ daqueles que chamam ao acontecimento "Revolução dos Cravos" pelo simples facto de acreditar que um movimento verdadeiramente revolucionário não pode ser feito com ‘flores’. Veja-se, por exemplo, o estado de coisas em que vive a Tunísia alguns anos após a "Revolução do Jasmim"… Cito, por isso, duas pessoas temporalmente separadas por mais de trinta anos: o grande músico/cantor e resistente José Afonso ("Zeca Afonso") e o fiscalista e sócio da "Espanha e Associados" João Espanha. "O 25 de Abril não foi feito para aquilo que estamos agora a viver. Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril imaginaram uma sociedade muito diferente da actual que está a ser oferecida aos jovens. Os jovens deparam-se hoje com problemas tão graves – ou talvez mais graves que aqueles que nós tivemos que enfrentar – o desemprego, por exemplo, e por vezes não têm recursos. O sistema ultrapassa-os. O sistema oprime-os criando-lhes uma aparência de liberdade. Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos – nós, refiro-me à minha geração: de recusa frontal, de recusa inteligente (se possível até pela insubordinação; se possível até pela subversão) ao modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido com belos discursos, com o fundamento da legalidade democrática, com o fundamento do respeito pelos direitos dos cidadãos. É, de facto, uma sociedade teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro que é imposta aos jovens de hoje". "Zeca Afonso" em 1984, nas comemorações dos dez anos do "25 de Abril" "Só uma pequena minoria endinheirada pode recorrer a um advogado mesmo que seja vítima de injustiça [do Fisco]". João Espanha no "Jornal de Negócios" em 12 de Abril de 2018 Acrescento, todavia, uma frase escrita pelo filósofo italiano Nicolau Maquiavel que me parece exemplar para descrever o que, em minha opinião, se tem vindo a passar na História (de Portugal e não só): "Os povos que perdem a liberdade pela força, pela força haverão de reconquistá-la. Mas os que perdem a liberdade por descuido, estes demorarão muito a voltar a ser livres".

24/04/2019

"O Estado sou eu"

O até há poucos meses embaixador francês nos Estados Unidos da América comparou a actual administração governativa daquele país da América do Norte à do rei Luís XIV, o Rei-Sol.


"Um velho rei, um pouco sonhador, imprevisível, mal informado, mas que quer ser o único a tomar as decisões", observou então.


Luís XIV – que terá afirmado ser ele o Estado (neste caso o francês) – tinha como lema "Nec Pluribus Impar" ("Não Desigual A Muitos Sóis", em português).


Ora, este lema era bem menos solidário e colectivo do que o lema dos "Três Mosqueteiros" (romance de Alexandre Dumas) – "Unus pro omnibus, omnes pro uno" ("Um por todos, todos por um", em português).


Já Isabel de Bragança, filha única do rei D. Pedro II de Portugal e de D. Maria Francisca de Sabóia, foi uma das pretendentes do filho do Rei-Sol, Luís, Grande Delfim de França.


Recorde-se que Luís XIV reinou durante 72 anos.

23/04/2019

O fim da O.T.A.N.?

Não é para mim segredo que as mais 'altas' instâncias políticas da França e da Alemanha  - para muitos, o "eixo" que verdadeiramente dirige o destino da União Europeia - estão a discutir a formação de um exército europeu com o objectivo de prescindir da, de facto, força militar de ocupação que é a Organização do Tratado do Atlântico Norte ( a OTAN ou, em língua inglesa, NATO).

Ora, a questão que, quanto a mim, deveria começar por merecer uma tentativa de resposta por quem analisa a actual realidade geopolítica do mundo é esta: irá o país que mais tem vindo a financiar os orçamentos da organização criada em 1949 para conter a União Soviética (e o ideário comunista, pois) - os Estados Unidos da América - permitir que a Europa tenha o seu próprio Exército?

22/04/2019

A beleza desaparecida

O arquitecto italiano Leon Battista Alberti explicou no livro "Da Re Aedificatoria" (no século XV) a sua própria definição de Belo: "Todo e qualquer objecto ao qual nada possa ser acrescentado ou subtraído sem que a harmonia do todo se altere.".

Ora, de acordo com esta definição, alguns dos elementos arquitectónicos que existem (ou que desapareceram já...) no mundo elencados pela UNESCO perderam necessariamente a sua beleza.

Lembro, assim, alguns deles, o número de anos em que foram belos e as "causas directas" da sua destruição (parcial ou total):

a) o Museu Nacional do Brasil (na cidade do Rio de Janeiro), de 1817 até (Setembro) de 2018 (201 anos), incêndio;

b) a "Ponte Velha" - Stari Most - (na Bósnia-Herzegovina), de 1567 até 1993 (426 anos), conflito armado ('guerra');

c) os Mausoléus de Tombuctu (ou Timbuktu, no Mali) de 'algures' no século XIV até 2012 (cerca de sete séculos), conflito armado ('terrorismo');

d) a Mesquita de Al-Nuri (em Mossul, no Iraque), de 1172 até 2017 (845 anos), conflito armado ('terrorismo');

e) a Catedral de Notre-Dame (na cidade de Paris, em França), construída em 1163 até (Abril de) 2019 (856 anos), incêndio;

f) as Estátuas de Bamiyan (no Afeganistão), de (cerca de) 500 anos após a convencionada data do nascimento de Jesus Cristo até 2001 (cerca de 1500 anos), conflito armado ('terrorismo');

e

g) a cidade de Palmira (na Síria), de (cerca de) 200 da chamada era cristã até 2016 (cerca de 1800 anos), conflito armado ('terrorismo').


20/04/2019

O elemento Rádio

Pierre e Marie Curie - a única pessoa a ser galardoada com dois Prémios Nobel (Química e Física) - 'isolaram' o elemento Rádio em 20 de Abril de 1902.
Ora, num momento em que se celebram os cento e cinquenta anos da tabela periódica, parece-me ser perfeitamente justo assinalar um facto acerca de um elemento fundamental na luta contra o cancro.




A tabela periódica (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tabela_peri%C3%B3dica#/media/File:Periodic_table_pt.svg. Ao rádio foi atribuído o número atómico 88).