04/05/2019

Shakespeare e Saramago

O pai daquele que viria a tornar-se num dos mais populares poetas ingleses – William Shakespeare – obteve, no final do século XVI, autorização para usar um brasão.


Tal significava, desde logo, uma ascensão social: passava-se a ser uma família nobre.


Assim, era-se autorizado a exibir o brasão à entrada da casa onde se vivia e a gravá-lo na respectiva mobília.


Ora, o lema da família Shakespeare foi "Non Sans Droit" ("Não Sem Direito", em português).


William Shakespeare nasceu em Abril de 1564 e faleceu em Abril de 1616 e todos os anos a pequena cidade britânica de Stratford-upon-Avon recebe não apenas o Festival Literário mas também milhões de turistas que querem calcorrear as ruas e os locais que um dos mais famosos (se não mesmo o mais famoso...) escritores de língua inglesa terá percorrido.

Já em Portugal, por exemplo, concluiu-se já que "Mafra continua sem atrair turismo literário por manter fora da visita ao palácio e à vila a abordagem a José Saramago e à sua obra, 20 anos depois da atribuição do Nobel da Literatura".

03/05/2019

"Os portugueses vistos..."

Ainda ontem aqui citei duas personalidades que, por razões certamente diferentes e separadas por alguns anos de distância, confluíram no ‘diagnóstico’: a ‘imagem’ de Portugal era, então, muito ‘pobre’ e difusa na Ásia.

Mas seria muitíssimo interessante para mim perceber, hoje, em 2019, que estereótipos e generalizações existem sobre os portugueses por esse mundo fora.

Lembro, de qualquer modo – e apesar de ser evidente que as ‘visões’ a seguir transcritas estavam, como não poderia, talvez, deixar de ser , imbuídas de um conjunto de estereótipos e generalizações criados e ampliados pelo facto de aqueles portugueses serem dominadores e conquistadores – um excerto de um compêndio escolar de História que utilizei quando era estudante do ensino secundário:


Os Portugueses vistos…

...pelos Africanos
Um dia sobre o mar surgiu um grande barco. Tinha asas brancas e brilhantes como facas ao sol. Homens brancos saíram da água dizendo palavras que ninguém compreendia. Os nossos antepassados tomaram medo e pensaram que eram «vumbi», almas do outro mundo. Conseguiram fazê-los regressar ao mar disparando nuvens de flechas. Mas os «vumbi» começaram a cuspir fogo com um barulho de trovão…

Tradução oral africana, in F. Braudel, Civilização Material…, III.


...pelos Chineses
Pode dizer-se que o objectivo primeiro da vinda dos Fu-lang-chi [os Portugueses] para a China foi o comércio (…).
As gentes Fu-lang-chi são altas e têm grandes narizes. Os olhos são como os do gato e a forma da boca como a da águia. O pêlo cresce-lhes até nas costas das mãos e as suas barbas são vermelhas. Amam o comércio e, apoiados no seu poder militar, têm o hábito de invadir e oprimir os países mais pequenos. Vão a qualquer sítio onde haja lucro (…) Usam roupas limpas e bonitas...Sempre que surge uma disputa, apontam para o céu e juram dizer a verdade.

História dos Ming (adaptado).


...e pelos Japoneses
Estes homens [os Portugueses] são comerciantes (…). Bebem em copo sem o oferecerem aos outros. Comem com os dedos (1) e não com pauzinhos como nós (…). São gente que passa a vida viajando de aqui para além, sem morada certa, e trocam os produtos que possuem pelos que não têm, mas no fundo não são má gente.

Crónica Teppo-Ki (adaptado).

(1) No século XVI, os Europeus ainda só raramente usavam o garfo..

02/05/2019

Uma nova era

O Japão iniciou ontem uma nova 'etapa' da sua história com a era Reiwa do centésimo vigésimo sexto (126) imperador do país, Naruhito.


Espero, sinceramente, que esta nova era no País do Sol Nascente traga também, no que a Portugal diz respeito, um novo impulso às relações culturais até pelo facto do próprio Naruhito ser historiador .


Lembro, de facto, algumas linhas que o escritor e investigador Joaquim Magalhães de Castro - creio que 'baseado', precisamente, no Oriente - escreveu no livro "Oriente Distante" (publicado em 2012): "Quatrocentos e cinquenta anos após a chegada ao Japão da nossa Nau do Trato, o karafune (barco negro), o que é que se sabia dos usos e costumes desse povo à beira-mar esquecido que, um dia, lhes trouxe o teppu, vulgo, espingarda, que, segundo alguns historiadores, teria contribuído decisivamente para o estabelecimento do Japão como estado moderno? Nada. Ou quase nada. Se fizéssemos a pergunta a um japonês comum, a resposta era um inevitável castera. Ou seja, castela, o abastardamento do pão-de-ló aqui introduzido pelos marinheiros quinhentistas, e que depressa se transformaria no doce favorito dos japoneses. Para além disso, talvez os nomes Rosa Mota, Amália Rodrigues ou de qualquer ocasional jogador de futebol acendessem uma luzinha na mente dos cidadãos mais inclinados para o que chegava de fora desse país asiático, que, embora se fartasse de construir pontes de cultura com o resto do mundo, permanecia teimosamente uma ilha, acima de tudo. E pronto. Arquivados ficariam no esquecimento séculos de contactos entre os namban jin e os autóctones das ilhas do Sol Nascente.".





Post scriptum: D. Duarte Pio, pretendente ao trono português – citado pelo jornal Diário de Notícias no segundo dia de Dezembro de 1986 –, revelou, na cerimónia comemorativa do Dia da Restauração da Independência que havia tido lugar no dia anterior numa das salas do lisboeta Castelo de São Jorge que, no decurso da sua recente visita ao Extremo Oriente, havia sentido existirem ainda, para com Portugal, sentimentos de prestígio e reconhecimento na região apesar da "actual quase ausência de expressão cultural e económica portuguesa nessas paragens".

30/04/2019

O 'peso' da História e o dos 'heróis'

Um artigo de opinião com o título "Hong Kong, like India, needs to remember the truth about british colonialism" que a edição "online" do jornal South China Morning Post publicou há alguns anos afirmou, por exemplo, existirem "em Moscovo, dois memoriais, construídos pelo Estado, em honra dos milhões de vítimas de Stalin, incluindo um "museu do Gulag". No entanto, em Washington como em Londres, não existem quaisquer monumentos dedicados aos horrores da escravatura e às crueldades do colonialismo.". 

Ora, penso que lembrar o conteúdo deste artigo de opinião é duplamente oportuno.

Por isto:


a) o domínio político da Índia pelo Reino Unido durou de 1757 até 1947. Ora, em 13 de Abril de 1919 – e numa altura em que Winston Churchill ocupava o cargo de secretário de Estado da guerra –, um chefe militar britânico ordenou aos militares que comandava que disparassem sobre uma multidão que se encontrava reunida pacificamente assassinando, desse modo, centenas de pessoas. No entanto, tal chefe militar acabou mesmo por receber, anos depois, honras de Estado no seu funeral ‘apagando-se’ assim as suas responsabilidades - e as da própria potência colonizadora e seus agentes políticos - naquele que é ainda hoje lembrado como o "massacre de Amritsar";


b) E já em 1943, em plena II Guerra Mundial, o estado de Bengala viu morrer cerca de três milhões de pessoas. Assassinadas pois, já que morreram de fome quando, segundo um estudo publicado no jornal Geophysical Research Letters em Fevereiro passado, a comida disponível na Índia foi 'exportada' para a metrópole colonizadora para auxiliar nos esforços de combate à tirania do Eixo... Ora, que ´titulo’ se atribui a alguém que mata pessoas? Assassino e, eventualmente, genocida, certo? (lembro também que Winston Churchill foi o primeiro-ministro do Reino Unido entre 1940 e 1945).


Recordo, apenas, que nunca as autoridades britânicas pediram formalmente desculpa pelo sucedido em 1919 (e suponho que também nunca o tenham feito em relação ao genocídio de 1943).





Post scriptum: afirmo também, uma vez mais, a necessidade de que em Portugal, para honrar uma dimensão negativa da sua História - e honrar igualmente a memória dos muitos milhões de seres humanos que colonizou e escravizou -, embora de forma muito tardia, claro, se edifiquem núcleos museológicos e educativos e que, sobretudo, tal se 'fale' seriamente na Escola.

29/04/2019

Macau e o desprezo de Portugal

Ainda não há muito tempo me referi ao facto de um determinado manual escolar actualmente "em vigor" em Portugal não ser cientificamente rigoroso no que à Inquisição se referia.

Não querendo, efectivamente, generalizar essa ‘insuficiência’ aos manuais escolares ‘dedicados’ à História ou sequer aos manuais escolares de apoio a outras disciplinas, pretendo invocar o que parece ter sido um perfeito exemplo dessa ‘insuficiência’ que ‘recebi’, enquanto estudante do então ensino preparatório (no 6.º ano de escolaridade, se não estou em erro), em relação a Macau.

Ora, o manual escolar que me serviu de apoio no início da década de 1990 na disciplina de História ‘forneceu’ um mapa em que se indicavam os principais locais de fixação e de comércio dos portu-


Veja-se, por exemplo, a localização geográfica de Macau...

-gueses na costa oriental africana e no Oriente (na Ásia, pois) à data da morte do rei D. Manuel I, em 1521. Penso, até, que a falta de rigor com que assinalou a localização geográfica de Macau poderá ter contribuído para a crítica que, em 2004, o então subdirector dos Serviços de Turismo daquele território chinês teceu: Portugal nunca teve a exacta noção do que era Macau.

Creio, de resto, que só este desconhecimento podia – e pode – explicar o facto de em Portugal alguns invocarem palavras como compreensão e entendimento para descreverem a relação secular entre portugueses e chineses em Macau: a verdade é que, em quase cinco séculos de presença portuguesa em Macau, portugueses – e chineses, claro – raramente se ‘cruzaram’ com os modos de ser e estar do Outro uma vez que, salvo raríssimas excepções, nem sequer tinham aprendido a cumprimentar-se nas suas línguas ‘maternas’.

27/04/2019

O latim

Livros vendidos em Portugal: se em 2009 foram cerca de quinze milhões, em 2018 foram menos de doze milhões.

Ora, não é nem o exacto momento nem o ‘fórum’ mais adequado para se poderem ensaiar possíveis teorias explicativas dessa redução.

Receio, no entanto, que também a recém-chegada às livrarias "Nova Gramática do Latim" – de Frederico Lourenço – venha a sofrer esta conjuntura negativa.

Será, neste caso, uma desolação visto que o referido trabalho (levado a cabo por um autor que, recordo, foi o responsável por uma "nova tradução da Bíblia, na sua forma mais completa - a partir da Bíblia Grega, ou seja, contendo o Novo Testamento e todos os livros do Antigo Testamento". Ou seja, "a Bíblia mais completa que jamais existiu em português") é a primeira gramática de latim publicada em Portugal desde 1974 e visto ser o latim o ‘progenitor’ do português que é, nem mais nem menos, a terceira língua europeia mais falada no mundo (com mais de duzentos milhões de falantes).

Um livro que não hesito, desde já, em qualificar como fascinante e que, espero, não deixarei de folhear...

26/04/2019

Antes e depois de Abril

Porque se passaram, ontem, 45 anos do dia 25 de Abril de 1974, opto por recordar um texto que escrevi o ano passado por esta mesma altura: "Assinalaram-se ontem 44 anos do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Embora democrata e resolutamente antifascista, não consigo partilhar do ‘entusiasmo’ daqueles que chamam ao acontecimento "Revolução dos Cravos" pelo simples facto de acreditar que um movimento verdadeiramente revolucionário não pode ser feito com ‘flores’. Veja-se, por exemplo, o estado de coisas em que vive a Tunísia alguns anos após a "Revolução do Jasmim"… Cito, por isso, duas pessoas temporalmente separadas por mais de trinta anos: o grande músico/cantor e resistente José Afonso ("Zeca Afonso") e o fiscalista e sócio da "Espanha e Associados" João Espanha. "O 25 de Abril não foi feito para aquilo que estamos agora a viver. Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril imaginaram uma sociedade muito diferente da actual que está a ser oferecida aos jovens. Os jovens deparam-se hoje com problemas tão graves – ou talvez mais graves que aqueles que nós tivemos que enfrentar – o desemprego, por exemplo, e por vezes não têm recursos. O sistema ultrapassa-os. O sistema oprime-os criando-lhes uma aparência de liberdade. Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos – nós, refiro-me à minha geração: de recusa frontal, de recusa inteligente (se possível até pela insubordinação; se possível até pela subversão) ao modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido com belos discursos, com o fundamento da legalidade democrática, com o fundamento do respeito pelos direitos dos cidadãos. É, de facto, uma sociedade teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro que é imposta aos jovens de hoje". "Zeca Afonso" em 1984, nas comemorações dos dez anos do "25 de Abril" "Só uma pequena minoria endinheirada pode recorrer a um advogado mesmo que seja vítima de injustiça [do Fisco]". João Espanha no "Jornal de Negócios" em 12 de Abril de 2018 Acrescento, todavia, uma frase escrita pelo filósofo italiano Nicolau Maquiavel que me parece exemplar para descrever o que, em minha opinião, se tem vindo a passar na História (de Portugal e não só): "Os povos que perdem a liberdade pela força, pela força haverão de reconquistá-la. Mas os que perdem a liberdade por descuido, estes demorarão muito a voltar a ser livres".