15/05/2019

Moçambique e Portugal

Recordo-me de já aqui ter citado uma declaração de um responsável do Turismo de Macau a propósito de um certo (quase total, na verdade…) desprezo de Portugal em relação ao território.

E também me recordo de ter lembrado o desconhecimento de Portugal (e as suas acções, claro) no Japão e no próprio Oriente.

No entanto, parece-me ser igualmente revelador que, por exemplo, a primeira "História de Moçambique" (abrangendo, ainda assim, não mais do que cinco séculos, desde o XV até ao ano de 1995) tenha sido escrita por um académico de nacionalidade...britânica: Malyn Newitt.

Creio que tais factos exigem, pois, algumas reflexões.

Primeira: não me parece, de todo, que Portugal – ou melhor, as autoridades políticas portuguesas, mais ou menos recentes – não tenham vindo a agir dolosamente (isto é, com culpa) no sentido de provocar e ampliar uma espécie de distanciamento cultural em relação a países e, enfim, a regiões com os quais se cruzou no passado. Ou seja, têm tido, sim, de facto, uma culpa activa.

Na verdade, como escrevi já em relação a uma reportagem que vi, há pouco menos de dois anos, com o título Esmeralda Perdida (da série "Linha da Frente" emitida pelo canal 1 da RTP) que procurou perceber como é que as autoridades portuguesas – o Estado – estavam a proteger uma parte do património histórico e cultural de Portugal – aquela que se encontrava submersa e que havia sido trazida à luz do dia em águas territoriais estrangeiras: tendo efectivamente  aprendido, então, que "Portugal assinou a Convenção da UNESCO [sigla inglesa para designar a United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura] para a Protecção do Património Cultural Subaquático e está obrigado a cooperar com os outros países", percebi, também, que nem sempre (quase nunca?) assim se passa pois "A posição do MNE [sigla para identificar o Ministério dos Negócios Estrangeiros português] é a de Portugal não reivindicar espólios". Porquê? Penso que por incompreensão do quão é importante proteger o património histórico e cultural português e por uma razão que considero ser particularmente grave: uma espécie de negação de um determinado período da História de Portugal. Ou seja, uma disfunção comportamental ("complexo de culpa", por assim dizer) que origina o repúdio e a vergonha por um período da História em que Portugal se superiorizou – neste 'caso' específico, nos mares, bem entendido, pela primeira e única vez – a outras nações do globo. 

Segunda: esta culpa activa tem, em minha opinião, de ser ‘repartida’ entre a Política e a Academia. Invoco a Academia porque não creio ser admissível – nem aceitável… – que, por exemplo, nas situações que acima mencionei, esta (e a ‘massa intelectual’ e crítica que supostamente a caracteriza) não se mobilize para preservar ‘pedaços’ da História de Portugal ainda que estejam submersos e no estrangeiro e que, também, apesar de Portugal e Moçambique partilharem uma ‘relação’ de séculos (a colonização e, depois, a descolonização e a independência do país africano)*, tenha sido um académico estrangeiro o primeiro a escrever uma "História de Moçambique".

Quando se assinala o Dia Internacional da Família, gostaria que também a "família" de Portugal pudesse crescer e ficar, assim, mais "robusta"... 





*O então porta-voz daquele que era (e é) um dos maiores políticos de Moçambique, a Resistência Nacional Moçambicana (a Renamo), António Muchanga, fez no final de Maio de 2014, a uma estação de rádio portuguesa, uma declaração: "Para a Renamo, Portugal já foi eleito como o primeiro país fora de África que deveria nos ajudar a resolver os problemas, como sempre. Portugal conhece melhor o território moçambicano. Portugal tem relações históricas seculares com o povo moçambicano, tem a mesma língua, a mesma cultura, que a maior parte dos povos de Moçambique".

14/05/2019

A universidade e a escravatura

A universidade britânica de Cambridge, uma das mais antigas e prestigiadas do país e cujo lema é "Hinc lucem et pocula sacra" ("Aqui recebemos a luz e o sagrado conhecimento", em português), comunicou já (no fim de Abril de 2019) que iria proceder à realização, durante dois anos, de um inquérito no sentido de perceber exactamente de que forma(s) contribuiu para, beneficiou do ou incentivou o tráfico de escravos no Atlântico (bem como para/de/ou outras formas do chamado trabalho forçado) durante a época colonial.

O vice-reitor da instituição, o professor Stephen Toope, declarou, ainda durante este anúncio, o seguinte:


"Não podemos mudar o passado mas não devemos, no entanto, esconder-nos dele. Espero que este processo ajude a Universidade a perceber o seu ‘papel’ durante esta fase negra da História humana".

Pretende-se, no fundo, trazer luz e conhecimento a essa ‘relação’.

De facto, escreveu o historiador e professor John Harold Plumb na Introdução do livro do também historiador e professor Charles Ralph Boxer "O Império Marítimo Português 1415-1825" (primeiramente publicado em 1969) o seguinte:


"Esses primeiros exploradores [Portugueses] hesitantes, assaltados pelo perigo e perseguidos pela morte, traçaram as grandes rotas comerciais, com barcos cada vez maiores, a abarrotar de gente e de mercadorias, que, através de tempestades e de calmarias, seguiam imponentemente o seu caminho até aos impérios orientais. Mas a sua empresa tinha despertado a Europa, e, um século após as suas descobertas, Holandeses e Ingleses ladravam-lhes aos calcanhares, sanguinários e vorazes".


E também: "Os Portugueses abriram a brecha através da qual se precipitaram os chacais, para se saciarem à vontade".


Acrescento, somente, que dada, de facto, a intervenção de Portugal na expansão do tráfico de seres humanos nessa "fase negra da História humana", penso que seria perfeitamente compreensível se as universidades portuguesas – a de Lisboa e a de Évora, sobretudo – seguissem esta mesmíssima lógica de querer perceber o seu ‘papel’ na escravatura.

E aproveito também para relembrar que, de acordo com um documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do "Global Slavery Index", de 2018, existirem então mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo.







Post scriptum: assinalaram-se ontem, dia 13 de Maio, cento e trinta e um anos (em 1888, portanto) da aprovação da Lei Áurea no Brasil abolindo a escravatura no país. Recordo, ainda, que o Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura.

13/05/2019

Saint Louis e Funchal

O filme "A Viagem dos Malditos" (ou, no título original, "Voyage of the Damned"), ‘lançado’ em 1976, e o documentário "A Viagem do St. Louis" (ou, no título original, "The Voyage of the St. Louis"), ‘lançado’ em 1995, imortalizaram a odisseia da viagem do navio Saint Louis, iniciada há exactamente oito décadas desde o Porto alemão de Hamburgo.

De facto, o navio, carregado de judeus que pressentiam a chegada da guerra, partiu dessa cidade do norte da Alemanha com destino a Havana, capital cubana, em 13 de Maio de 1939 onde, pensavam, começariam uma nova vida, por assim dizer.

No entanto, Havana não quis acolher os refugiados.

Ora, depois dessa recusa, o navio seguiu em direcção aos Estados Unidos da América e, após nova recusa, ao Canadá.

Que também recusou receber essas pessoas.


O navio acabaria, cerca de um mês passado a navegar, por regressar à Europa (à cidade belga de Antuérpia, se me não engano) e muitos dos passageiros acabariam, mais tarde, por morrer às mãos daqueles de quem queriam fugir: os "nazis".



Muitos dos antigos passageiros do Saint Louis não escapariam ao Holocausto...


É, efectivamente, esta triste e elucidativa história que irá ser novamente recordada numa nova película que terá como ‘palco’ (pelo menos, inicialmente) o Funchal, paquete que está actualmente atracado em Lisboa.

Excelente ideia!




Post scriptum: Curiosamente (ou talvez nem tanto), David Ben-Gurion declarou a independência do Estado de Israel no dia 14 de Maio de 1948.

11/05/2019

Palavras gregas e latinas

A palavra genocídio foi inventada pelo advogado polaco Raphael Lemkin - um judeu que logrou escapar ao Holocausto - através da combinação da palavra grega "génos", que significava raça (ou tribo), e o sufixo latino "cida", que significava matança (ou melhor, quem a provocava).

Ora, é evidente que eu não quero apresentar qualquer palavra e apenas me sirvo deste exemplo para citar, por um lado, algumas palavras escritas pelo imperador romano Marco Aurélio na sua obra "Pensamentos para si próprio" e, por outro, o epitáfio inscrito na lápide da sepultura que acolhe os restos mortais do filósofo e autor grego Nikos Kazantzakis.

Escreveu então Marco Aurélio o seguinte: "Não vivas como se devesses viver dez mil anos. A necessidade está suspensa sobre ti. Enquanto viveres e na medida em que to for permitido, torna-te melhor".

Já o epitáfio: "Não espero nada. Nada temo. Sou livre.".

10/05/2019

"Wanted: Dead or Alive"

O actual ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, acusou, numa recente entrevista televisiva (à TVE), os mais ‘altos’ dignitários do poder político norte-americano de terem uma "mentalidade de cowboy" em relação à situação na Venezuela.

Mas, pergunto: essa "mentalidade de cowboy" alguma vez se ‘ausentou’ do poder político norte-americano encarregado, por exemplo, pelos "assuntos exteriores"?




09/05/2019

Mas qual união? E que diversidade?

Assinalou-se ontem mais um aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Na Europa, bem entendido, já que no Oriente ela apenas terminaria alguns meses depois (após as explosões nucleares espoletadas por aviões militares norte-americanos sobre a população civil de duas cidades nipónicas, Hiroxima e Nagasaki).

E assinala-se hoje, precisamente, o Dia da Europa.

Ora, numa altura em que o populismo e o nacionalismo estão a avançar na Europa política e social - e que se irão repercutir, ao que tudo indica, na composição do Parlamento Europeu depois das eleições das próximas semanas -, penso ser chegado o "momento da verdade": o momento de os líderes políticos da Europa reflectirem profunda e seriamente nas 'sombras' do passado que continuam a pairar no presente. Se, pelo contrário, pouco (ou nada) continuarem a fazer para contrariar essa presença (e o seu 'crescimento' orgânico), penso ser completamente legítimo questionar o actual lema da União Europeia - "Unida na Diversidade" - e, enfim, a própria existência de tal instituição.

08/05/2019

Qual é o nosso?

Nasceu há pouco mais de quinhentos e cinquenta anos (em 3 de Maio de 1469) em Florença (hoje ‘parte’ da Itália) aquele que viria a tornar-se num dos ‘maiores’ (senão o ‘maior’…) filósofos políticos que o mundo conhecera até então e que influenciaria com os seus escritos – "Il Principe" (ou, na tradução em língua portuguesa, "O Príncipe"), por exemplo – a política – e o ‘modo’ de a fazer: Niccolò Machiavelli.

Escreveu, efectivamente, e por exemplo, o seguinte:


"Existem, entre os humanos, três tipos de personalidades: aquela que é capaz de pensar por si própria; Aquela que é capaz de perceber o pensamento de outros; e, por último, aquela que nem é capaz ďe pensar por si própria, nem capaz de perceber o pensamento de outros. O primeiro tipo é excelente, o segundo é bom e o terceiro é inútil".