08/06/2019

Portugal e os "guerreiros do mar"

Poderia, neste Dia Mundial dos Oceanos, citar o exemplo da Tanzânia que se tornou no trigésimo quarto país africano (África, recordo, é a ‘casa’ de cinquenta e quatro países oficialmente reconhecidos) a proibir a importação, a produção, a venda e o uso de sacos de plástico ou o facto de terminar hoje em Lisboa uma conferência subordinada ao ‘tema’ da Economia Azul que, lembro também, contou com o apoio da Embaixada da Dinamarca acreditada em Portugal.

Mas não.

O lema da actual monarca da Dinamarca, Margarida II (em tradução na língua portuguesa) é "Guds hjælp, Folkets kælighed, Danmarks styrke" ("A ajuda de Deus, o amor do Povo, a força da Dinamarca", em português).

Ora, terá sido exactamente por ajuda divina que muitos povos da Europa clamaram quando as hordas Vikings vindas da que é hoje a Dinamarca atacaram, por via marítima, o continente europeu.

Recorde-se, de facto, uma conferência que o Museu de Marinha organizou há pouco menos de dois anos: foi, efectivamente, em 21 de Junho de 2017 que este Museu acolheu a conferência "Rainhas, Pescas e Cruzadas. Portugal e Dinamarca desde os Vikings até à Era dos Descobrimentos".

A realização desta conferência – a primeira que se debruçou sobre as relações luso-dinamarquesas anteriores ao século XVI – inseriu-se no âmbito de uma exposição temporária sobre o período Viking em Portugal ("Vikings, os Guerreiros do Mar") que, patente no referido espaço museológico, havia sido inaugurada pelo actual presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

"Há mais de mil anos, povos vindos do Norte chegaram às margens de uma Europa que não estava preparada para os receber. A capacidade de se deslocarem em rápidos e versáteis navios e a violência inesperada dos seus ataques constituíam as principais características destes "guerreiros do mar"", explicou então o sítio na "Internet" do Museu de Marinha.

Para além disso, sublinhou também, a exposição contava com mais de seiscentas peças originais emprestadas pelo Museu Nacional da Dinamarca e que retratavam "a vida e o quotidiano dos Vikings, os quais foram presença constante em saques e pilhagens no litoral da Península Ibérica a partir do século IX".

07/06/2019

A 'civilização' europeia

Desde meados do ano de 2018 que todos os edifícios públicos no estado da Baviera, na Alemanha, passaram obrigatoriamente a ostentar junto à respectiva porta de entrada (e de saída, claro) um crucifixo.

Ou seja, um símbolo cristão.

Ora, não demorei muito a lembrar-me da legenda atribuída ao beato San Andrés de Arroyo (do século XIII) – não confundir com o músico nascido na cidade espanhola de Oiartzun no século XIX José Francisco Arroyo – que tinha lido, alguns anos antes, na exposição O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo patente nas instalações do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa: "é o mais europeu de todos os beatos".

O que é que se pretenderia dizer exactamente com estas palavras escritas já no século XXI?

Nunca consegui, no entanto, dar uma resposta à minha própria pergunta: o que significaria, desde logo, ser-se "mais europeu" (e "menos europeu", evidentemente)?

Mas uma ‘coisa’ consegui.

Perceber a existência de uma associação, por assim dizer, entre ser-se europeu e ser-se cristão.

O que significaria, evidentemente, excluir-se de ser europeu aquele que fosse ‘seguidor’ das religiões muçulmana ou judaica, por exemplo.

Diga-se que tal não foi nunca a opção ‘escolhida’ para a proposta de texto constitucional para a Europa delineada por Valéry Giscard d’Estaing já que não pressupunha uma espécie de supremacia do Cristianismo nos chamados pilares fundamentais da ‘civilização’ (ou história) europeia ‘esquecendo’, assim, os contributos da ‘civilização’ grega, das tribos nómadas que acabaram por integrar o Império Romano, dos mongóis (que dominaram, politicamente, a Rússia do século XIII ao XV) e de tantos outros.

Creio que, na verdade, a ‘base’ mental para a construção da aparentemente inocente frase "é o mais europeu de todos os beatos" está, se se quiser dizer assim, naquilo que o Professor Eduardo Lourenço já referiu ser a missão de uma parte da Europa (de que Portugal também faz parte): a sua missão era (e é…) ‘civilizar’ a Humanidade.

Mas, como escreveu Samuel P. Huntington no seu livro "O choque das civilizações" ("The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order", no original), "O Ocidente ‘ganhou’ o mundo não pela superioridade dos seus ideais, valores ou religião mas sim pela utilização sistemática da violência. Os Ocidentais esquecem, muito frequentemente, este facto mas os não-ocidentais nunca o fazem"

06/06/2019

Obrigado pela Liberdade

Presto agora um sentido reconhecimento aos 156 mil e 115 soldados das tropas aliadas (oriundas de onze países) que em 6 de Junho de 1944 desembarcaram nas praias da Normandia, em França, naquela que foi a maior acção militar anfíbia (invasão) do mundo: a operação Overlord. 



Obrigado!

05/06/2019

Vasco da Gama: passado e presente

Não é ao jardim Vasco da Gama, em Lisboa, que, agora, me refiro.

Refiro-me, isso sim, a um navio: "Numa economia cada vez mais global, este gigantesco navio tem a capacidade de transportar quase 200 mil toneladas de bens de consumo entre mercados na Europa, no Médio Oriente e na Ásia" perfazendo 11 países.

De facto, o navio a que a citação se refere é o CMA CGM Vasco de Gama (construído em instalações pertencentes ao estaleiro chinês Shanghai Waigaoqiao Shipbuilding) que integra a frota de porta-contentores da companhia francesa CMA CGM e se tornou no primeiro "mega" navio porta-contentores a ser construído na China.

De facto – e numa altura em que cerca de 90% do comércio realizado mundialmente é assegurado por via marítima* –, o navio CMA CGM Vasco de Gama consegue, com os seus 399 metros de comprimento e 54 metros de ‘boca’, transportar 18 mil TEU (um TEU é uma unidade padrão de comprimento dos contentores que corresponde a um contentor com 20 pés/6 metros de comprimento).

Assim, se se pudessem alinhar todos esses milhares de contentores, verificar-se-ia uma espécie de linha com mais de cem quilómetros de extensão.

O colosso dos mares CMA CGM Vasco da Gama deve o seu nome ao explorador português dos séculos XV (e XVI) que descobriu o caminho marítimo para a Índia navegando por África e contornando o Cabo da Boa Esperança [Vasco da Gama partiu de Lisboa no início de Julho de 1497 e alcançou terra indiana em Maio de 1498]".

Tratou-se, pois, de uma muito oportuna e excelente homenagem ao grande navegador português!



* A grandeza da importância dos navios para o comércio mundial é equivalente à grandeza destes no nível de poluição da Terra pois tendem a consumir combustíveis de muito baixa qualidade, por assim dizer...

04/06/2019

Quantos são e quantos serão?

Uma recente edição de um atlas das relações internacionais refere que se assiste no mundo a um apagamento das identidades e que a emergência de referências à escala planetária – fruto da tantas vezes invocada globalizaçãonão seria incompatível, apesar de crispações identitárias e do desenvolvimento de diferenciações locais e/ou regionais, com o apoio ao Estado-nação como referência principal.

No entanto (poder-se-ia, talvez, acrescentar "uma vez mais"), a realidade parece estar a contrariar algumas das parcelas da teoria (no continente europeu mas não só).



Mas proponho que façamos um pequeno exercício mental: tentemos imaginar, apesar da defesa disponibilizada pelos governos centrais para a manutenção de uma unidade política e administrativa (fictícia, pois), que alguma destas regiões conseguia tornar-se independente, por assim dizer.

O que aconteceria?
Assistir-se-ia, desde logo, a uma ‘fragmentação’ de alguns Estados já que, noutras regiões, se colocaria necessariamente a questão política "se a/o ……….. pôde seguir o seu caminho, por que não nós?". Seria, pois, o início do fim da ‘configuração’ desses Estados e o "início do início" de outros.




Veja-se, por exemplo, o caso da Escócia: a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, confirmou aos jornalistas, no rescaldo das eleições europeias, querer iniciar uma nova ‘ronda’ legislativa de modo a realizar um novo referendo a propósito da independência da Escócia e da sua separação política do Reino Unido.

Mas as movimentações independentistas não se têm limitado, na Europa, ao reino de Sua Majestade: no País Basco e na Catalunha, em Espanha; na Córsega, em França; na Flandres, na Bélgica; os húngaros que vivem na Roménia, os do Norte de Itália, ...

E, de facto, não apenas numa Europa que conta, actualmente, com cerca de 50 países (este é, apenas, um número aproximado já que a contagem da quantidade de países na entidade Europa está dependente de critérios geográficos, culturais e, até, religiosos…).

Na verdade, também os berberes do Norte de África (os amazighs), os sarauís, muitos habitantes da região nigeriana do Biafra (que declarou primeiramente a sua independência em Maio de 1967), alguns ‘dirigentes’ étnicos da região sudoeste dos Camarões, anglófona, sobretudo, que anunciaram já a independência, o chamado Curdistão iraquiano (onde se aprovou já, via referendo, a sua independência face ao Iraque), por exemplo, estão à espreita’.

03/06/2019

Atenas e a civilização helénica

O território de Atenas ocupou toda a península da Ática.

Ou seja, cerca de 2650 km2.

Tal dimensão tornou-a na maior das Cidades-Estados da Grécia.

Mas a sua grandeza não foi apenas territorial.

De facto, Atenas conseguiu tornar-se na mais importante das pólis gregas porque a sua organização política - e social - foi 'seguida' por muitos outros Estados*.

A Atenas dos séculos V e IV a.C. logrou também tornar-se no maior centro de Cultura (na Europa, claro).

Não creio, de resto, que seja 'obra' do acaso que Keramikos, em Atenas, tenha sido já considerada a mais extensa necrópole da Antiguidade grega já que terá sido 'utilizada' entre 3000 anos a.C. e o sexto século depois do (suposto) nascimento de Jesus Cristo.

Por tudo isto, julgo que é justo qualificar Atenas como o "modelo de civilização helénica"!




* Muitos dos próprios Atenienses teriam consciência da influência que a 'sua' Cidade exercia sobre outras Cidades do 'mundo' grego: Péricles, um dos 'grandes' políticos de Atenas, chegou a afirmar num dos seus discursos ser "a nossa Cidade a escola da Grécia".

01/06/2019

D. Dinis e a fronteira de Portugal

Dizia um pequeno texto que há algum tempo encontrei no Museu do Dinheiro, em Lisboa, o seguinte:


"Com apenas 17 anos, D. Dinis (1261-1325) iniciou um longo reinado que o consagrou como um dos monarcas de maior relevância na sua época. Fixou as fronteiras de Portugal, cuja configuração é a mais antiga da Europa, e impulsionou estrategicamente o comércio nacional e internacional. A ele se deveu a grande importância dada, nesta época, ao ensino, à língua portuguesa e à cultura – merece destaque o vasto legado trovadoresco da sua autoria".


Ora, devo relembrar que a este interesse pela cultura e pela língua portuguesa não foi seguramente alheio o facto de D. Dinis ter sido o primeiro rei português que sabia ler…

Mas quero dizer, também, algumas coisas em relação à frase "Fixou as fronteiras de Portugal, cuja configuração é a mais antiga da Europa".

Fixou, efectivamente, a fronteira de Portugal nos últimos anos do século XIII mas tal não significa que a sua configuração seja a mais antiga da Europa.

Ou seja, isso não será, pura e simplesmente, exacto.

Se, de facto, o tratado de Zamora, assinado, em Outubro de 1143, por D. Afonso Henriques e o seu primo Afonso VII de Leão e Castela, levou ao "nascimento" daquele que pode ser, actualmente, considerado um dos mais antigos Estados-nação do mundo, o tratado de Alcanizes, por sua vez, tendo sido assinado em 1297 por D. Dinis e por D. Fernando de Leão e Castela "definiu os limites do território continental português, que não tiveram alteração posterior, à exceção da perda de Olivença em 1801", como refere um artigo de apoio do portal Infopédia.

Ou seja, o facto de se 'encarar' a configuração fronteiriça portuguesa como a mais antiga da Europa só é válido se se considerar que os quinhentos e quatro anos que mediaram 1297 e 1801 era a ‘duração’, em 1801, mais antiga na Europa relativamente à configuração fronteiriça de um dado país não sendo, pois, correcto nem verdadeiro considerar-se que Portugal tem as fronteiras mais bem definidas – no que se refere à sua antiguidade – no continente europeu (de 1297 até hoje, 1 de Junho de 2019) "esquecendo-se" o roubo e a não devolução (com ou sem aspas) de Olivença…