Em
1371 criou o rei D. Dinis a primeira frota naval portuguesa.
Esta
tinha objectivos meramente militares – para protecção da costa –
mas tal não o impediu de conceder o privilégio de comerciar com a
Flandres, com Génova ou, na verdade, com qualquer outro lugar.
Hoje,
quase 650 anos depois, penso que, no que concerne ao Mar, o grande
desígnio da Economia portuguesa transcende em muito – ou, pelo
menos, deveria transcender... – o necessário patrulhamento da
costa.
Assim,
o texto que agora escrevo é, sim, um meio para afirmar a minha plena
convicção de que Portugal é muito mais do que os 92 mil
quilómetros quadrados que compõem a sua dimensão territorial e,
assim também, penso, prestar um louvor, naturalmente pequeno, ao
Mar.
Efectivamente,
vi e ouvi há alguns, poucos, anos (no início do mês de Agosto de
2017 se estou bem lembrado) uma reportagem televisiva dando conta de
que a Polícia Marítima ficaria, a partir desse momento,
alojada em permanência na ilha Selvagem Grande.
Pertencente
às Ilhas Selvagens (localizadas a cerca de 250 quilómetros
da ilha da Madeira) e reserva natural desde 1971, a ilha Selvagem
Grande passou a ser habitada por três elementos da Polícia
Marítima e por dois vigilantes da Natureza.
Mas
o facto de o Estado português passar a estar "representado" em
permanência numa ilha que integrava o território português não poderia
querer dizer que Portugal teria direito a ‘reclamar’ uma maior
Zona Económica Exclusiva (ZEE) junto de instâncias internacionais
para além de, naturalmente, afirmar (ou melhor, reafirmar) a
soberania portuguesa sobre esse local?
Solicitei,
por isso, a alguém da Autoridade Marítima Nacional que me
explicasse. Eis a sua resposta: "Os
espaços marítimos sob soberania e jurisdição nacional (mar
territorial (MT), zona contígua (ZC), e zona económica exclusiva
(ZEE)) estendem-se, nos termos definidos na Convenção das Nações
Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) até ao limite máximo de 200
milhas marítimas [cerca de 370 quilómetros],
contadas, na forma estabelecida
na Convenção, desde as linhas de base ou linhas de base retas
utilizadas para medir a largura do MT, não sendo possível aos
Estados Costeiros requererem o prolongamento da extensão destes
espaços. Em concreto, a extensão da plataforma continental (PC),
que corresponde, morfologicamente, ao subsolo e leito marinhos, e que
no caso português se estende até ao limite exterior da ZEE, pode,
em determinadas circunstâncias (desde que cientifica e tecnicamente
comprovadas, conforme impõe a CNUDM) ser objeto de extensão até às
350 milhas marítimas [cerca
de 648 quilómetros]. Ora,
é sabido que Portugal apresentou, há já uns anos, uma proposta
formal às Nações Unidas no sentido de ser reconhecida a
possibilidade do Estado Português ver aumentada a actual extensão
da PC portuguesa, proposta esta que será apreciada pela comissão
técnica internacional com competência na matéria".
Ora, "O facto de Portugal
pretender ver reconhecida internacionalmente a extensão da PC não
tem que ver, directamente, com o facto do Estado Português ter
decidido instituir uma presença permanente da Autoridade Marítima
nas Ilhas Selvagens, através da criação de uma extensão da
Capitania do Porto do Funchal e da presença de elementos do Comando
Local da Polícia Marítima do Funchal, com vista a cumprir
[e] a fazer cumprir as leis e
regulamentos marítimos, mas, sobretudo, para fazer valer a soberania
do Estado Português naqueles espaços nacionais através de uma
acção visível em termos de vigilância, controlo e fiscalização,
de modo a, designadamente, evitar a ocorrência de ilícitos. De
facto, inserindo-se as Ilhas Selvagens, em termos de direito do mar,
no conjunto do espaço marítimo nacional, foi considerado
imprescindível e absolutamente necessário encontrar uma forma
eficaz e adequada de assegurar o exercício da Autoridade Marítima
naqueles espaços, evitando-se, desta forma, que continuasse a
existir uma parcela integrante da jurisdição marítima nacional em
que não houvesse uma forma permanente de fiscalização".
Achei,
no entanto, que poderia ser, igualmente, importante ‘recolher’
uma explicação por parte do gabinete da então ministra do Mar: "O
regime jurídico em que se baseia a proposta de expansão da
plataforma continental é a Convenção das Nações Unidas sobre o
Direito do Mar (CNUDM). Essa convenção estabelece os limites dos
espaços marítimos e define o regime aplicável às diferentes
formações marítimas. Relativamente à sua pergunta, importa
referir que o Art. 121º da CNUDM estabelece os regimes aplicáveis
às ilhas. Este artigo, além de definir o que é uma ilha, refere
que as ilhas geram em seu redor mar territorial, ZEE e
plataforma continental. O mesmo não se aplica às rochas que apenas
geram mar territorial. No caso concreto da pergunta que colocou, é
precisamente por causa de este artigo que se torna necessário as
Ilhas Desertas [Selvagens…]
estarem permanentemente
habitadas já que, a habitação permanente é uma das
características que diferenciam as ilhas das rochas"*.
De
facto, Portugal apresentou em 2009 na Organização das Nações
Unidas (ONU) uma proposta para alargamento da sua plataforma
continental o que lhe permitiu, entretanto, posicionar-se como um dos
maiores países do mundo com cerca de 1.7 milhões de quilómetros
quadrados de superfície.
No
entanto, a comissão sobre os limites da plataforma continental da
referida ONU está já a analisar a extensão do território marítimo
português para lá das 200 milhas náuticas: Portugal poderá,
assim, "crescer" mais de 3 milhões de quilómetros quadrados.
Não
me parece, todavia, que este crescimento do mar português, por assim
dizer, seja, só por si, motivo para se celebrar: inquieta-me (e
entristece-me), na verdade, pensar que o comum cidadão português
encare o Mar como, apenas, algo que foi muito importante no passado.
No
presente e, sobretudo, no futuro, nem tanto.
Estou,
na verdade, a recordar-me de uma entrevista que a ministra do Mar,
Ana Paula Vitorino, deu a um jornal (ao Expresso, salvo erro):
num certo momento a/o jornalista perguntou-lhe "E
como olham agora os portugueses para o mar?".
A
sua resposta: "Não valorizam nem
querem nada do mar. Ai, que agora vamos alargar o porto: não pode
ser porque fica com contentores. Agora, vamos apostar na aquacultura,
mas não pode ser porque queremos sair de barco por ali e só
atrapalha. Agora vamos fazer
um corredor de separação de
tráfego portuário [para
transportar matérias mais sensíveis], como existe no mundo
civilizado e como também já temos, mas
vêm daí não sei quantas
organizações não-governamentais criticar. Se vamos apostar em
energias oceânicas e precisamos de ter uma plataforma no mar, lá se
vem falar no impacto da mesma. Já
para não falar das minerações. Existe uma relação de amor-ódio
com o mar. As pessoas querem ter acesso à praia, mas não a querem
limpar. É vergonhoso, a meio do verão, já serem mais as beatas, as
latas e as garrafas do que conchas no areal. As pessoas gostam de ter
o curso da Escola Náutica, mas passam metade da vida a querer
arranjar um emprego em terra. Tem de se perceber porquê e combater
essas razões".
Ora,
creio que a "solução passará mesmo por aí": combater, por um
lado, as razões do afastamento das pessoas do Mar e, por outro, as
suas atitudes menos responsáveis para com ele (a poluição, por
exemplo).
E,
em minha opinião também, esse combate tem, desde logo, que partir
das instituições do Estado e das elites políticas, económicas,
sociais, culturais e cientificas em Portugal.
Escreveu
Tiago Pitta e Cunha, há alguns anos, no seu "Portugal
e o Mar": "O que é
censurável nesta viragem física para a Europa é o voltar costas ao
mar e deixar de ver nele uma clara vantagem. Em rigor, mais do que
apenas censurável, é até bastante arrogante pensar-se que se pode
ignorar a geografia e dispensá-la em troca de uma ideia
[supostamente] superior de progresso
como era à época (e assim permanece) a ideia da pertença política
à Europa".
De
facto, como tinha já ouvido alguém dizer num colóquio organizado
pela Fundação Calouste Gulbenkian, "capacitar
para proteger": as referidas elites (com o Estado ‘à
cabeça’) deverão, cada vez mais, capacitar as Organizações Não
Governamentais e estas ‘ajudarão’, evidentemente, a Sociedade
Civil.
Ou
seja, para que nós – os cidadãos portugueses – entendamos o Mar
como gerador de empregos, de conhecimento e de cultura e não apenas
como ‘algo’ que acompanha o território do país em cerca de 940 quilómetros de extensão e nos presenteia (e a outros, claro) com
outros tantos quilómetros de praias...
Retomo,
pois, a entrevista à ministra do Mar que referi anteriormente: "O
que existe no fundo do mar não é só petróleo, nem minerais, ouro,
cobre, cobalto, manganês. Parece que temos tudo isso e muito de
tudo, principalmente minerais, mas em matéria de aproveitamento
económico, o que nos interessa é a exploração de organismos
vivos, genéticos, biológicos para a farmacêutica, para a
biotecnologia azul. O nosso alvo são os medicamentos, a área da
saúde e da cosmética. E para isso não é preciso abrir crateras.
Também podemos potenciar as energias oceânicas"**.
*
Por exemplo, a Zona Económica
Exclusiva de França excede os 2.6 milhões de quilómetros quadrados
fruto das muitas ilhas sob o seu controlo político e administrativo.
Já Portugal tem à sua
disposição ‘valores’ mais modestos: a sua ZEE é a terceira
maior da União Europeia
(e, recordo, a décima primeira no mundo).
**
De acordo com dados
compilados por uma consultora internacional, o volume de negócios,
por assim dizer, da chamada Economia do Mar em Portugal atingiu, em
2016, a cifra de 7.5 mil milhões de euros (apenas
cerca de 2% do valor do Produto Interno Bruto do país nesse ano).