Os
Estados Unidos da América celebram, hoje, o 243.º aniversário da
sua formação como país soberano e independente.
Soberania
e independência que têm sido definidas – e ‘alimentadas’ –, sobretudo, pelo poder da geopolítica.
Por
exemplo, uma investigadora do Observatório Político
declarou, numa entrevista televisiva, que "a Rússia é a única
potência mundial que tem, verdadeiramente, algum interesse
geoestratégico e político na Síria. Os Estados Unidos não têm".
Ora,
apesar de eu não ser um especialista nestas matérias, discordei
imediatamente do que tinha acabado de ouvir: sendo os Estados Unidos
da América a única actual grande potência política e militar à
escala planetária não é simplesmente possível que não tenha uma
"orientação" estratégica numa zona do globo que,
historicamente, tem sido palco de conflitos e disputas também pelo
controlo dos recursos energéticos. E, ainda mais, porque é,
precisamente, nessa região que se situa, por assim dizer, um dos
maiores aliados dos Estados Unidos da América e um dos que recebe,
anualmente, mais fundos e material militar, sobretudo (e que até tem
disputas territoriais com a Síria): Israel.
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O artigo "Will we have a 2nd Civil War? You tell me." que a revista norte-americana Foreign Policy publicou, "online", em Março de 2017 foi escrito tendo por base a questão "Quais serão as probabilidades de uma guerra civil eclodir neste país [Estados Unidos da América] nos próximos 10 a 15 anos?" e algumas das suas hipóteses de resposta.
O seu autor perguntou, assim, a um grupo constituído por pensadores da segurança nacional quais seriam as suas.
O
consenso, sublinhou, ‘andaria’ por volta dos 35%.
E
solicitou, ainda, a colaboração dos leitores.
Ora,
perguntando-me, desde logo, se uma das pessoas que ajudou a fundar a
Foreign Policy – Samuel P. Huntington (autor, por exemplo,
de "O
choque das civilizações") –, subscreveria as
acusações, entretanto surgidas, do carácter pouco científico de
tal inquérito, quero dizer que faz, para mim, todo o sentido que se
coloque a hipótese de, em pleno século XXI, os Estados Unidos da
América serem ‘palco’ de uma guerra civil.
Quando
disse "faz
todo o sentido" estava, também, a lembrar-me do
que se passou nesse mesmo ano em Charlottesville (estado da
Virgínia): a violência que surgiu quando grupos apoiantes do
racismo, da intolerância e do ódio (neonazis, "skinheads"
e membros do grupo Ku Klux Klan) se manifestaram...
Mas
não só.
O
também norte-americano Public Religion Research Institute
publicou, depois do artigo que citei, um estudo – "America’s
Changing Religious Identity" – que concluiu o
seguinte: "Actualmente,
apenas 43% dos norte-americanos afirmam ser brancos e cristãos e,
desses, apenas 30% dizem ser protestantes. Em 1976, cerca de 8 em
cada 10 norte-americanos (81%) assumiam ser brancos e cristãos sendo
que, desses, mais de metade (55%) era protestante".
Não
é, certamente, por acaso que o segundo idioma mais utilizado em
quase todos os estados da América do Norte é o espanhol
(castelhano…)*.
Ou
seja, os ‘famosos’ WASP’s ("White
Anglo-Saxon Protestant") – os cidadãos brancos,
de origem anglo-saxónica e praticantes da religião protestante –
estão em declínio.
Ora,
talvez este declínio ajude a explicar a animosidade ‘racial’ que
hoje se vive nos Estados Unidos da América e a hipótese de o país
vir a sofrer uma segunda guerra civil...
*Assim,
no estado North Dakota a segunda língua mais falada é a alemã, no
Louisiana é a francesa, no Maine, no New Hampshire e no Vermont é,
também, a francesa, no Hawai são o Ilocano, o Tagalog e o japonês
e no Alaska é o Yup’ik.
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Talvez influenciados por estarem
a brindar com vinho da Madeira, o lema adoptado pelos pais
fundadores dos Estados Unidos da América foi "E Pluribus Unum"
(ou, em português, "Entre Muitos, Um") – à semelhança do
escolhido, em Portugal, pelo clube Sport Lisboa e Benfica mais
de uma centena de anos mais tarde – para aludir à ‘herança’
cultural e étnica do país e a uma tolerância que, de resto, em
muito poucas ocasiões se verificaria.
Ora,
em meados da década de 1950, os Estados Unidos – então em
confronto ideológico (e não só) com a Comunista União
Soviética – decidiram, num gesto desafiador, inscrever o lema "In God We Trust" ("Confiamos Em Deus", em português)
nalgumas notas e moedas em circulação corrente: perante um país
com um regime político comunista (e claro, anticapitalista) e ateu,
o que poderia ser melhor do que exaltar uma entidade divina no
sistema monetário, fulcro do Capitalismo?
Mas,
embora a União Soviética possa ter já desaparecido, tal
lema tem-se mantido e irá continuar a existir: o Supremo Tribunal
norte-americano anunciou já, em Junho de 2019, que considerava
improcedente uma queixa apresentada que pretendia a retirada pura e
simples do referido "In God We Trust" por, argumentou-se, chocar
contra os direitos religiosos de quem se identificava como ateu.
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O lema que o estado
norte-americano New Hampshire decidiu adoptar em 1945 (e que
ainda hoje mantém) foi "Live Free or Die" (ou, em língua
portuguesa, "Vive Livre ou Morre").
Ora,
terá também sido de forma livre que uma reunião camarária
realizada em 1824 numa determinada localidade daquele que é um dos
cinquenta estados dos Estados Unidos da América decidiu atribuir a
si própria o nome Lisbon em homenagem à cidade que é a
capital de Portugal.
Tal
como tinha sido, certamente, em liberdade que New Hampshire
havia declarado a sua independência face à Inglaterra. Tanta
liberdade que havia mesmo sido a primeira colónia inglesa na América
do Norte a fazê-lo.
Foram,
no entanto, alguns anos antes de tal adopção e alguns anos depois
de tal declaração de independência e da mudança de nome que o
presidente do país Thomas Woodrow Wilson (eleito pelo Partido
Democrata) havia escrito as seguintes palavras no seu livro "The
New Freedom" (publicado em 1913, já depois de se ter tornado no
28.º presidente dos Estados Unidos da América):
"Tornámo-nos num dos governos
pior governados e completamente dominados e controlados do mundo
civilizado. Não mais um governo baseado na livre opinião, em
convicções e no voto da maioria dos cidadãos mas, na verdade, um
governo formado pelas opiniões de pequenos grupos de homens e por
eles condicionado".
Wilson
tinha nascido no estado da Virginia (em
1856) e o lema deste é
actualmente "Sic Semper Tyrannis" ("Assim Sempre aos Tiranos",
em português).
Post scriptum: Os Estados
Unidos da América declararam, efectivamente, a independência no dia
2 de Julho de 1776. Mas o texto da Declaração
apenas acabaria por ser aprovado dois dias depois – isto é, no dia
4 de Julho. No entanto, a sua
ratificação (e, portanto, o reconhecimento oficial) somente
foi autenticada no dia 2 de
Agosto.

