14/08/2019

"O povo é sereno"

Foi há já alguns anos que o jornal digital Nature Human Behaviour publicou um estudo levado a cabo por quatro investigadores em economia comportamental.
Ora, nas linhas introdutórias desse estudo – "Behavioural economics: Preserving rank as a social norm" – escreveu-se o seguinte: "os testes realizados permitem afirmar que as pessoas não gostam da desigualdade de rendimentos. Será que, no entanto, estão dispostas a alterar a hierarquia social estabelecida para eliminar essa mesma desigualdade? Uma ampla experiência de cariz multicultural permite mostrar que, desde jovens, a maior parte das pessoas recusa a alteração da ‘configuração’ social como forma de remover as diferenças entre ricos e pobres. Tal é, pois, uma norma social".

Ou seja, as pessoas – quaisquer que sejam a sua idade e o seu país de origem – recusam desencadear processos que possam levar a mudanças na hierarquia social.

Não estou, por isso, a conseguir deixar de me lembrar, à medida que vou escrevendo estas linhas, de uma frase proferida pelo almirante José Pinheiro de Azevedo em Novembro de 1975 no Terreiro do Paço, em Lisboa: "o povo é sereno".

13/08/2019

Emigração, imigração e 'integração'

Miriam Halpern Pereira, investigadora, referiu na sua obra "A política de emigração: 1850-1930"publicada em 1981, que o emigrante estava bem longe de imaginar que constituía um mero "peão" na política dos países implicados no seu destino. 
Mas, o que é um emigrante?

E um imigrante?

Emigrar é sair, temporária ou definitivamente, do país de onde se é natural (e/ou nacional).
 
Imigrar é, por outro lado, entrar e fixar-se, temporária ou definitivamente, num outro país de que se não é natural (e/ou nacional).

A mesma diferenciação aplica-se, assim, aos respectivos ‘derivados’ como emigrante/imigrante ou emigração/imigração.

Tome-se o exemplo de um cidadão português que vá para França: se, para as autoridades portuguesas, ele é um "emigrante", para as autoridades francesas ele é um "imigrante".


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O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, sublinhou, em finais de Outubro de 2013, que a ‘nova’ geração de emigrantes portugueses não participava na vida comunitária no país de acolhimento o que poderia, alertou, criar problemas no caso de existirem dificuldades na chamada integração social.

Desconheço em que documento(s) se baseou para fazer tal observação: não sei, desde logo, o que, cientificamente, significa "não participar na vida comunitária no país de acolhimento".

Não integrar ranchos folclóricos nem frequentar cafés ou outros estabelecimentos comerciais de "origem" portuguesa, por exemplo?

Ou, pelo contrário, não participar, em actividades desenvolvidas por partidos políticos, organizações não-governamentais ou associações desses mesmos países de acolhimento (ou seja, não portugueses)?

12/08/2019

A comunidade internacional

Creio que muitos se terão já habituado (tal como eu) a associar a expressão comunidade internacional à opinião pública (ou publicada?) de países europeus e da América do Norte.
Ou seja, a Europa e a América do Norte têm dito – e continuam a dizer – ao resto do mundo o que é o Bem e o que é o Mal.
Até quando o farão?

Ou melhor: até quando deixarão que o façam?

10/08/2019

Ficção ou realidade?

O embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista que, há já alguns anos, concedeu a um jornalista do jornal Diário de Notícias, a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: "Os Maias".
Afirmou, então, que bastava ler "Os Maias" para se perceber ‘o’ Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas ou por historiadores.

Mas é, no entanto, outra obra sua – "As Farpas" –, escrita em 1871, que agora cito:


"Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!".


***


Ora, não quero deixar de citar igualmente o poeta Abílio de Guerra Junqueiro.

Mais especificamente, um excerto do poema "A Pátria" (escrito em 1896):


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amolgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar".

09/08/2019

Regiões ultraperiféricas

O arquipélago dos Açores, situado a cerca de 1600 quilómetros do continente português, é uma das sete regiões ultraperiféricas da União Europeia.
Ora, uma das razões por que uma região é considerada ultraperiférica tem a ver com a sua dependência económica de uma pequena quantidade de produtos.
De facto, Maria Gilda de Andrade Fernandes Dantas, no seu trabalho de doutoramento "Rede Urbana e Desenvolvimento na Região Autónoma da Madeira" (de 2012), referindo-se, também, aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, observou que, por exemplo, "o turismo, para muitos destinos, é um dos poucos caminhos possíveis para o desenvolvimento".

08/08/2019

Escolhas

A capa do Jornal de Notícias de um dia de Setembro de 2017 destacou, também, o caso de uma escolha académica.
"Melhor aluno do Minho seguiu o coração e escolheu História", registou.

Assim, quando muitos esperavam que esse jovem escolhesse Medicina, Engenharia ou, até, Direito, ele escolheu cursar História.

Creio, por isso, ser uma excelente ocasião para recordar um excerto de um texto – "O fim das ciências sociais e das humanidades?" – que escrevi há ainda mais anos sobre este género de opções académicas.

E de vida...


"O artigo Le Japon va fermer 26 facs de sciences humaines et sociales, pas assez «utiles», publicado na edição online do jornal francês Le Monde no passado dia 17 de Setembro de 2015, sublinhou que 26 universidades nipónicas tinham anunciado querer encerrar as suas faculdades de ciências sociais e humanas ou, pelo menos, limitar e reduzir a sua actividade.
Uma decisão, observou, tomada após a recepção de uma missiva enviada pelo ministro da educação do país dirigida, no início de Junho deste ano, aos presidentes de 86 universidades de todo o país pedindo-lhes que encerrassem ou modificassem «tais departamentos no sentido de beneficiar disciplinas que servem melhor as necessidades da sociedade» japonesa.
Por outro lado, o artigo Which country has most humanities graduates?, publicado em 2 de Setembro de 2015 no sítio do Fórum Económico Mundial, salientou que «um pilar decisivo para o crescimento económico é a disponibilidade de um diverso e altamente especializado “viveiro” de talentos» já que o mesmo «permite a um país poder maximizar o seu capital humano.».
Citando dados compilados pelo próprio Fórum para o seu relatório de 2015 acerca do capital humano, frisou que o top 10 dos países com o maior número de graduados em artes e em humanidades era encabeçado pelos Estados Unidos da América com quase 400 mil licenciados anualmente nestas duas áreas seguido, precisamente, pelo Japão com pouco mais de 144 mil diplomados todos os anos.
Em terras lusas, revelou o físico e político independente recentemente eleito por um partido político nas eleições legislativas portuguesas, Alexandre Quintanilha, num bloco noticioso emitido em 7 de Outubro de 2015 (Telejornal da cadeia televisiva RTP 1) que «há uma depreciação da área das humanidades e das ciências sociais que me desagrada».
Estaria a referir-se, apenas, ao panorama académico e cultural português?
Não sei.
Fruto da minha formação académica em antropologia e da minha actividade profissional de investigador, reflicto muitas vezes sobre a existência das ciências sociais, das artes e das humanidades nos sistemas educativo, social, económico e cultural da maior parte das actuais sociedades do mundo.
E se não existissem, de todo?
Então, todos os assuntos e acontecimentos que preocupam – e que modelam – os cidadãos contemporâneos (como o desemprego, as dependências físicas e virtuais, a guerra, as migrações, as mudanças climáticas, a criminalidade, por exemplo) teriam de ser observados, analisados e comentados, maioritariamente, por actores ligados à engenharia, à medicina, à matemática, à física, à química e às finanças…
Enfim, às ciências exactas e naturais.
Assim, a “lupa” analítica reduzir-se-ia bastante.
Quem perderia?
As sociedades no seu todo porque ver-se-iam privadas de opiniões e de pontos de vista diferentes e alternativos.
Ou seja, todas são precisas: ciências sociais e humanas, artes, ciências naturais e exactas uma vez que os ensinamentos que propõem nos permitem olhar o mundo com outros olhos e pensar.
Mas parece que alguns ainda não perceberam isto".

Ou, pelo contrário, perceberam isso, sim, mas não querem que se pense.


07/08/2019

O Terrorismo no mundo

Já aqui escrevi sobre Terrorismo e algo me diz que esta não será a última vez…

Um relatório recentemente divulgado pela ONU (a Organização das Nações Unidas) qualificou como "elevada" a probabilidade de o continente europeu ser atingido, a breve prazo, por assim dizer, por uma nova vaga de ataques de índole terrorista.

Recordo, no entanto, que muito poucas vezes – ou nenhuma – o chamado Ocidente foi a região do globo mais ‘alvejada’ pelo Terrorismo.

Na época moderna e contemporânea, claro.

Por exemplo, o Global Peace Index 2016, elaborado pelo Institute for Economics & Peace, destacou que, à excepção dos países das regiões do Próximo Oriente e do Norte de África, os que se ‘situavam’ na Europa foram os mais fustigados, em 2015, pelo Terrorismo.

Ora, o gabinete de estudos National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism da universidade norte-americana de Maryland realçou, por sua vez, que embora os ataques terroristas ocorridos em 2015 tenham acontecido em quase cem países espalhados pelo mundo, mais de metade deles ocorreu em, apenas, cinco: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Índia e Filipinas.

Por outro lado, 69% de todas as mortes associadas a esses ataques tiveram lugar, igualmente, em cinco países: Iraque, Afeganistão, Nigéria, Síria e Iémen.