17/08/2019

O lago Baikal

Também no Turismo foram precisos milhares de anos para que o Homem deixasse para trás os locais que os seus antepassados sempre haviam conhecido e desse, assim, um passo rumo ao desconhecido.

Mas eis que, no entanto, cerca de 95% dos actuais turistas ocupam apenas 5% do planeta.

Ou seja, a esmagadora maioria dos turistas opta por visitar somente uma ínfima parte da Terra.

Ora, na verdade, é precisamente devido ao excesso de Turismo que as autoridades do Sul da região russa da Sibéria pretendem impor uma espécie de travão ao número de turistas que tem anualmente vindo a visitar o mais antigo, profundo e maior (com cerca de 630 quilómetros de diâmetro) lago de água doce do mundo – e aquele que, na língua mongol, significa "Natureza": o lago Baikal.

Recordo, de resto, que, quer a ilha filipina de Boracay, quer a ilha indonésia de Komodo (‘casa’ dos famosos "dragões de Komodo"), impôs (no caso da primeira, em 2018) ou imporá (no caso da segunda, a partir de 2020) "restrições turísticas".

Restará, apenas, saber, no caso russo, se o actor norte-americano – e defensor do Ambiente com ascendência russa – Leonardo DiCaprio ajudará as autoridades e alguns dos ambientalistas do país a defenderem o lago Baikal.

16/08/2019

Estudos (pouco) credíveis

Um dos mais conceituados centros de pesquisa norte-americanos, o Pew Research Center, divulgou, no início de Agosto de 2017, um estudo – "Globally, People Point to ISIS and Climate Change as Leading Security Threats" – que teve por base as respostas de 41 953 pessoas espalhadas por 38 países em todo o mundo (na América: Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos da América, Colômbia, Canadá, Venezuela, México e Peru; em África: Tunísia, Gana, Quénia, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Nigéria; na Europa: França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Espanha, Suécia, Reino Unido, Rússia e Turquia; na Ásia: Japão, Filipinas, Israel, Líbano, Índia, Indonésia, Vietname, Coreia do Sul e Jordânia; na Oceânia: Austrália).
Concluiu-se, então, que "de entre oito possíveis ameaças à segurança dos países em que vivia, a maior parte dos habitantes do planeta ‘elegeu’ o Estado Islâmico e as alterações climáticas".

Lembro-me de, de facto, ter concordado com a justeza desta ‘eleição’.

No entanto, e embora não fosse um especialista em estudos de opinião ou, se se quiser, em sondagens, consegui formular a minha própria opinião acerca da metodologia utilizada por este estudo.

Assim, e segundo as contas que então fiz, os trinta e oito países escolhidos contavam cerca de 3 biliões, 828 milhões e 293 mil habitantes.

Ora, as 41 953 pessoas seleccionadas pelos autores da pesquisa para darem as suas respostas correspondiam, em termos percentuais, a 0.001% do ‘valor’ populacional que apurei.

Considerei, por isso, que não era possível fazer-se qualquer juízo sério a partir desta percentagem e, muito menos, extrapolar para uma parte da humanidade a opinião de alguns milhares de pessoas (não que não seja, evidentemente, passível de ser ‘escutada’) já que a margem de erro era ínfima.

15/08/2019

A França, o Egipto, a Inglaterra e a Índia

A França ocupou o Egipto entre 1789 e 1805.

Napoleão esperava, desse 'modo', pôr um ponto final ao comércio inglês com a Índia.

14/08/2019

"O povo é sereno"

Foi há já alguns anos que o jornal digital Nature Human Behaviour publicou um estudo levado a cabo por quatro investigadores em economia comportamental.
Ora, nas linhas introdutórias desse estudo – "Behavioural economics: Preserving rank as a social norm" – escreveu-se o seguinte: "os testes realizados permitem afirmar que as pessoas não gostam da desigualdade de rendimentos. Será que, no entanto, estão dispostas a alterar a hierarquia social estabelecida para eliminar essa mesma desigualdade? Uma ampla experiência de cariz multicultural permite mostrar que, desde jovens, a maior parte das pessoas recusa a alteração da ‘configuração’ social como forma de remover as diferenças entre ricos e pobres. Tal é, pois, uma norma social".

Ou seja, as pessoas – quaisquer que sejam a sua idade e o seu país de origem – recusam desencadear processos que possam levar a mudanças na hierarquia social.

Não estou, por isso, a conseguir deixar de me lembrar, à medida que vou escrevendo estas linhas, de uma frase proferida pelo almirante José Pinheiro de Azevedo em Novembro de 1975 no Terreiro do Paço, em Lisboa: "o povo é sereno".

13/08/2019

Emigração, imigração e 'integração'

Miriam Halpern Pereira, investigadora, referiu na sua obra "A política de emigração: 1850-1930"publicada em 1981, que o emigrante estava bem longe de imaginar que constituía um mero "peão" na política dos países implicados no seu destino. 
Mas, o que é um emigrante?

E um imigrante?

Emigrar é sair, temporária ou definitivamente, do país de onde se é natural (e/ou nacional).
 
Imigrar é, por outro lado, entrar e fixar-se, temporária ou definitivamente, num outro país de que se não é natural (e/ou nacional).

A mesma diferenciação aplica-se, assim, aos respectivos ‘derivados’ como emigrante/imigrante ou emigração/imigração.

Tome-se o exemplo de um cidadão português que vá para França: se, para as autoridades portuguesas, ele é um "emigrante", para as autoridades francesas ele é um "imigrante".


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O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, sublinhou, em finais de Outubro de 2013, que a ‘nova’ geração de emigrantes portugueses não participava na vida comunitária no país de acolhimento o que poderia, alertou, criar problemas no caso de existirem dificuldades na chamada integração social.

Desconheço em que documento(s) se baseou para fazer tal observação: não sei, desde logo, o que, cientificamente, significa "não participar na vida comunitária no país de acolhimento".

Não integrar ranchos folclóricos nem frequentar cafés ou outros estabelecimentos comerciais de "origem" portuguesa, por exemplo?

Ou, pelo contrário, não participar, em actividades desenvolvidas por partidos políticos, organizações não-governamentais ou associações desses mesmos países de acolhimento (ou seja, não portugueses)?

12/08/2019

A comunidade internacional

Creio que muitos se terão já habituado (tal como eu) a associar a expressão comunidade internacional à opinião pública (ou publicada?) de países europeus e da América do Norte.
Ou seja, a Europa e a América do Norte têm dito – e continuam a dizer – ao resto do mundo o que é o Bem e o que é o Mal.
Até quando o farão?

Ou melhor: até quando deixarão que o façam?

10/08/2019

Ficção ou realidade?

O embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista que, há já alguns anos, concedeu a um jornalista do jornal Diário de Notícias, a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: "Os Maias".
Afirmou, então, que bastava ler "Os Maias" para se perceber ‘o’ Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas ou por historiadores.

Mas é, no entanto, outra obra sua – "As Farpas" –, escrita em 1871, que agora cito:


"Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!".


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Ora, não quero deixar de citar igualmente o poeta Abílio de Guerra Junqueiro.

Mais especificamente, um excerto do poema "A Pátria" (escrito em 1896):


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amolgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar".