20/08/2019

O ladrão de espíritos

Não foi apenas ao nível material que o colonialismo (oficial, claro) que todos conhecemos espoliou os povos e as pessoas que o sofreram.

Na verdade, o dito colonialismo foi, antes de mais, um ladrão de espíritos e da(s) identidade(s) dessas pessoas.

Ora, o governo da Jamaica veio já exigir ao britânico British Museum a devolução de um conjunto de objectos que tinham sido 'retirados' (ou roubados?) do país há centenas de anos.

Exemplo que não é, feliz e infelizmente, único.

Felizmente porque alguns dos povos - ou melhor, os seus representantes políticos - 'interessados' parecem ter começado já a adquirir uma maior e melhor consciência de si próprios e da sua História.

E infelizmente porque tais exigências provam aquilo que escrevi há algumas linhas atrás: que o colonialismo foi, sobretudo, um ladrão de espíritos e de identidades.

Por tudo isto, apoio esta pretensão.

E todas as que se seguirem.


 
Post scriptum:

O Castelo de Powis, em Gales, no Reino Unido, está cheio de artefactos roubados na Índia pela inglesa Companhia das Índias Orientais.

Na verdade, mais do que aqueles que integram o espólio do Museu Nacional do país (em Nova Deli) ...

19/08/2019

O compêndio do mundo

Viviam em Maio de 2003, de acordo com a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, cerca de 4.8 milhões de portugueses e indivíduos de origem portuguesa em todo o mundo.
E, segundo dados compilados pelo Observatório da Emigração (disponíveis em Setembro de 2009), esses milhões de pessoas dispersavam-se por cento e quarenta dos então cento e noventa países do mundo.
Ora, poucos anos mais tarde residiam em Portugal representantes, por assim dizer, de mais de cento e setenta nacionalidades (falando cerca de cem idiomas).
Assim, embora seja, talvez, possível encontrar uma ‘concentração’ maior desta diversidade cultural na zona de Lisboa, ela verifica-se em todo o país.
E ainda bem.
Seja como for, estou a lembrar-me das palavras de um poema do poeta português André Falcão de Resende (1527-1599) ‘composto’ num contexto político, social, cultural e económico muito diferente do de hoje: "É Lisboa um mar profundo; de vária navegação; É um compêndio do mundo; aonde tudo acharão; Ásia, África, Europa".

17/08/2019

O lago Baikal

Também no Turismo foram precisos milhares de anos para que o Homem deixasse para trás os locais que os seus antepassados sempre haviam conhecido e desse, assim, um passo rumo ao desconhecido.

Mas eis que, no entanto, cerca de 95% dos actuais turistas ocupam apenas 5% do planeta.

Ou seja, a esmagadora maioria dos turistas opta por visitar somente uma ínfima parte da Terra.

Ora, na verdade, é precisamente devido ao excesso de Turismo que as autoridades do Sul da região russa da Sibéria pretendem impor uma espécie de travão ao número de turistas que tem anualmente vindo a visitar o mais antigo, profundo e maior (com cerca de 630 quilómetros de diâmetro) lago de água doce do mundo – e aquele que, na língua mongol, significa "Natureza": o lago Baikal.

Recordo, de resto, que, quer a ilha filipina de Boracay, quer a ilha indonésia de Komodo (‘casa’ dos famosos "dragões de Komodo"), impôs (no caso da primeira, em 2018) ou imporá (no caso da segunda, a partir de 2020) "restrições turísticas".

Restará, apenas, saber, no caso russo, se o actor norte-americano – e defensor do Ambiente com ascendência russa – Leonardo DiCaprio ajudará as autoridades e alguns dos ambientalistas do país a defenderem o lago Baikal.

16/08/2019

Estudos (pouco) credíveis

Um dos mais conceituados centros de pesquisa norte-americanos, o Pew Research Center, divulgou, no início de Agosto de 2017, um estudo – "Globally, People Point to ISIS and Climate Change as Leading Security Threats" – que teve por base as respostas de 41 953 pessoas espalhadas por 38 países em todo o mundo (na América: Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos da América, Colômbia, Canadá, Venezuela, México e Peru; em África: Tunísia, Gana, Quénia, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Nigéria; na Europa: França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Espanha, Suécia, Reino Unido, Rússia e Turquia; na Ásia: Japão, Filipinas, Israel, Líbano, Índia, Indonésia, Vietname, Coreia do Sul e Jordânia; na Oceânia: Austrália).
Concluiu-se, então, que "de entre oito possíveis ameaças à segurança dos países em que vivia, a maior parte dos habitantes do planeta ‘elegeu’ o Estado Islâmico e as alterações climáticas".

Lembro-me de, de facto, ter concordado com a justeza desta ‘eleição’.

No entanto, e embora não fosse um especialista em estudos de opinião ou, se se quiser, em sondagens, consegui formular a minha própria opinião acerca da metodologia utilizada por este estudo.

Assim, e segundo as contas que então fiz, os trinta e oito países escolhidos contavam cerca de 3 biliões, 828 milhões e 293 mil habitantes.

Ora, as 41 953 pessoas seleccionadas pelos autores da pesquisa para darem as suas respostas correspondiam, em termos percentuais, a 0.001% do ‘valor’ populacional que apurei.

Considerei, por isso, que não era possível fazer-se qualquer juízo sério a partir desta percentagem e, muito menos, extrapolar para uma parte da humanidade a opinião de alguns milhares de pessoas (não que não seja, evidentemente, passível de ser ‘escutada’) já que a margem de erro era ínfima.

15/08/2019

A França, o Egipto, a Inglaterra e a Índia

A França ocupou o Egipto entre 1789 e 1805.

Napoleão esperava, desse 'modo', pôr um ponto final ao comércio inglês com a Índia.

14/08/2019

"O povo é sereno"

Foi há já alguns anos que o jornal digital Nature Human Behaviour publicou um estudo levado a cabo por quatro investigadores em economia comportamental.
Ora, nas linhas introdutórias desse estudo – "Behavioural economics: Preserving rank as a social norm" – escreveu-se o seguinte: "os testes realizados permitem afirmar que as pessoas não gostam da desigualdade de rendimentos. Será que, no entanto, estão dispostas a alterar a hierarquia social estabelecida para eliminar essa mesma desigualdade? Uma ampla experiência de cariz multicultural permite mostrar que, desde jovens, a maior parte das pessoas recusa a alteração da ‘configuração’ social como forma de remover as diferenças entre ricos e pobres. Tal é, pois, uma norma social".

Ou seja, as pessoas – quaisquer que sejam a sua idade e o seu país de origem – recusam desencadear processos que possam levar a mudanças na hierarquia social.

Não estou, por isso, a conseguir deixar de me lembrar, à medida que vou escrevendo estas linhas, de uma frase proferida pelo almirante José Pinheiro de Azevedo em Novembro de 1975 no Terreiro do Paço, em Lisboa: "o povo é sereno".

13/08/2019

Emigração, imigração e 'integração'

Miriam Halpern Pereira, investigadora, referiu na sua obra "A política de emigração: 1850-1930"publicada em 1981, que o emigrante estava bem longe de imaginar que constituía um mero "peão" na política dos países implicados no seu destino. 
Mas, o que é um emigrante?

E um imigrante?

Emigrar é sair, temporária ou definitivamente, do país de onde se é natural (e/ou nacional).
 
Imigrar é, por outro lado, entrar e fixar-se, temporária ou definitivamente, num outro país de que se não é natural (e/ou nacional).

A mesma diferenciação aplica-se, assim, aos respectivos ‘derivados’ como emigrante/imigrante ou emigração/imigração.

Tome-se o exemplo de um cidadão português que vá para França: se, para as autoridades portuguesas, ele é um "emigrante", para as autoridades francesas ele é um "imigrante".


***


O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, sublinhou, em finais de Outubro de 2013, que a ‘nova’ geração de emigrantes portugueses não participava na vida comunitária no país de acolhimento o que poderia, alertou, criar problemas no caso de existirem dificuldades na chamada integração social.

Desconheço em que documento(s) se baseou para fazer tal observação: não sei, desde logo, o que, cientificamente, significa "não participar na vida comunitária no país de acolhimento".

Não integrar ranchos folclóricos nem frequentar cafés ou outros estabelecimentos comerciais de "origem" portuguesa, por exemplo?

Ou, pelo contrário, não participar, em actividades desenvolvidas por partidos políticos, organizações não-governamentais ou associações desses mesmos países de acolhimento (ou seja, não portugueses)?