31/08/2019

O altruísmo da "raça superior"

Escreveram Francesco Alberoni e Salvatore Veca em "O Altruísmo e a Moral" (primeiramente editado pela Bertrand Editora em 1988) que "Em nenhuma sociedade, até agora, foi elogiada a mentira, o abuso, a violência, a crueldade, a opressão dos débeis, a arrogância, a inveja, a avareza, a mesquinhez de alma e condenada a amizade, a generosidade, o altruísmo".

Ora, um dos postulados que mais ‘sucesso’ obteve junto da sociedade alemã que Adolf Hitler e os seus lacaios governaram foi, precisamente, o da raça superior.

Talvez o maior sinal do Mal que o regime nacional socialista construiu foi o ter dito aos alemães o que eles queriam ouvir: que eram "grandes", importantes e, portanto, Senhores pertencentes à Raça Superior.

É claro que aqueles eram, pois então, mentirosos, violentos, arrogantes, mesquinhos, cruéis e não generosos e altruístas…

Creio que os milhões de vítimas dos nazis são disto o ‘melhor’ testemunho.

30/08/2019

O maior rio da Europa

"Qual é o maior rio da Europa?".

Foi esta a pergunta que um dos animadores da estação pública de rádio (Antena 1) colocou, há já alguns anos, aos ouvintes. 

E fê-lo no ‘separador’ cultural "jogo do sabichão" (na edição da tarde).


Momentos depois de colocar a questão deu a resposta.


"É o rio Voga!", anunciou triunfante.


Não uma mas duas vezes, portanto.


Ou seja, repetiu o erro.


Assim, creio que se poderá descartar a hipótese de o locutor se ter enganado. 


Ora, estou absolutamente convencido de que, caso não tivesse ficado triste e desapontado com alguém que, pelas funções ocupadas, julgava ser possuidor de uma cultura geral acima da média, como se costuma dizer, teria rido.

29/08/2019

Tão 'perto' e tão 'longe'

Segundo um texto que li há alguns anos, um estudo havia ‘descoberto’ que a maioria dos utilizadores de telemóveis "inteligentes" (os chamados "smartphones") residentes nos países considerados ricos em termos económicos interagia com esses mesmos aparelhos cerca de 2600 vezes em cada dia.
Concluí, assim, que essa maioria ‘mexia’ nos seus telefones portáteis 108 vezes por hora e quase duas vezes a cada segundo que passa.

Não pensei estar entre esta maioria de cidadãos mas, admitindo eu a validade científica de tal descoberta, o estudo provava, desde logo, o quão dependentes os habitantes dos países mais ricos estavam da tecnologia e, seguramente, viciados por ela.

Mas também provava uma outra ‘coisa’.

Por sinal, bem mais paradoxal e sinistra.

A de que, num momento histórico em que me parece que nunca existiram tantas oportunidades de contacto com o Outro – a época da chamada globalização – vivíamos (e vivemos) tão sós.

Ora, talvez a solidão seja mesmo o preço a pagar por tanto (ilusório...) conforto.

28/08/2019

"A mediocracia"

"O desporto de hoje já não se encontra verdadeiramente nos estádios, nem o dinheiro nos bancos, nem a religião nas igrejas. A política já não se faz no parlamento. E a justiça já não se encontra nos tribunais.
Toda esta confusão tem uma origem comum: a erupção de um novo poder que se insinua em todos os aspectos da nossa vida social. Este poder novo tem um nome: é o sistema mediático, um conjunto de fios de cobre, de computadores, de câmaras, de circuitos e de sondagens de opinião através dos quais a informação passa e volta a passar à velocidade da luz…
Os poderes já não estão onde a lei e o tempo os tinham instalado. E assim forma-se uma nova arte de governar, de executar, de julgar, de gerir. E também de existir.".

Fonte: François-Henri de Virieu, "La Médiocratie" (1990)

27/08/2019

A Conferência de Berlim

Pude ler, na pequena ‘nota’ de introdução ao documento "Migration: boosting development in Africa to create alternatives" que o Parlamento Europeu preparou, o seguinte:

"Crescimento económico e evitar que as pessoas tenham que abandonar a sua terra são alguns dos desafios que os países africanos enfrentam. Uma nova estratégia União Europeia-África proposta pelos Estados-membros estabelece de que forma é que o desenvolvimento pode fazer a diferença".

E, também, que "Desde que a crise migratória surgiu, os países europeus têm vindo a prestar mais atenção ao que tem vindo a acontecer em seu redor, particularmente em África".

Mas só agora se percebeu que apenas o facto de os países proporcionarem boas ‘condições de vida’ pode evitar a fuga das suas populações em busca de uma vida, noutro país, que lhes permita alcançar mais e melhores condições económicas, por exemplo?

E que só a chamada crise migratória levou a que a Europa se interessasse mais com o que se estava a passar ao seu lado, por assim dizer?

E pude também ler, entretanto, um artigo que David Pilling assinou na edição digital do jornal britânico Financial Times cujo título era "Africa is not immune from secessionist sentiment".

"Os Estados africanos modernos foram criados na Conferência de Berlim de 1884-1885 por potências coloniais com poucos conhecimentos acerca das realidades étnicas, políticas e geográficas" em presença, concluiu.

Ora, parece-me que os ‘resultados’ de tal estratégia (ou falta dela) têm estado à vista de todos...

26/08/2019

"A ascensão da nova ignorância"

Retive uma palavra, apenas e só, do discurso que o presidente norte-americano Donald Trump proferiu na 72.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: "Nambia".
Situado em África, o suposto país foi elogiado pela qualidade do seu serviço de saúde.

Lembro-me que, há também alguns anos, tinha já sido a vez do seu colega George Walker Bush (o 43.º presidente dos Estados Unidos da América) cometer uma imprecisão linguística e cultural: chamou aos naturais da Grécia "grécios".

Ora, estas invenções e imprecisões mais não são, em minha opinião, do que "pérolas" nascidas de uma ignorância confrangedora por parte de pessoas que são, frequentemente, rotuladas como "as mais poderosas lideranças do mundo" já que estão à frente de colossos económicos, militares e diplomáticos, por exemplo.

Creio serem, também, exemplos claros daquilo que significa "a ascensão da nova ignorância" de que deu conta o historiador José Pacheco Pereira no 3.º Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico" de 1990!” que decorreu, no início de Maio de 2017, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

24/08/2019

Uma definição da História

"Irremediavelmente algo temos que fazer ou estar fazendo sempre, pois esta vida que nos é dada não nos é dada feita, mas cada um de nós tem de fazê-la, cada qual a sua.


Esta vida que nos é dada é-nos dada, e o homem [e a mulher, claro] tem que a ir preenchendo, ocupando. São estas as nossas ocupações.".




Fonte: Ortega y Gasset, "El Hombre y la Gente"